Distantes
19 Capitulo 18 - Acerto de Contas
Notas iniciais
Ela não quis incomodar ninguém. O domingo de todo mundo estava uma verdadeira bagunça. E ela e o irmão ja tinham mobilizado bastante atenção nas últimas horas. Então não era nenhuma surpresa ela decidir ir embora de fininho. Mas não antes de deixar um bilhete para quando Ana Clara voltasse, agradecendo o convite e a hospitalidade.
Esse, sem dúvida, tinha sido o fim de semana mais estranho da vida de Samantha. Por isso ela decidiu colocar algumas coisas em ordem. Ia para casa com esse propósito. E quis ir para casa a pé mesmo... Ela estava acostumada a andar. E depois, precisava de um pouco de ar... Precisava de espaço. De colocar a cabeça no lugar, se concentrar e manter a calma. Porque em casa, a conversa ia ser pesada.
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Samantha listou mentalmente uma série de perguntas que precisava de respostas. E Rafaella não era lá uma fonte muito segura, principalmente se o 'animal' do seu namorado estivesse com ela.
No início da tarde do dia anterior, quando Ana Clara e o pai foram buscar Samantha para a festa do pijama, ela viu a mãe chegar em casa, bêbada como sempre, mas sozinha. O que na verdade não garante muito que Ricardo não fosse estar com ela agora.
O salafrário já rodeava a mãe dos gêmeos ainda quando o pai vivia com eles. Na época, Rafaella ficava realmente furiosa quando ele lhe cantava. Parecia odiar o homem e seus gracejos nada gentis. Mas não levava a coisa ao marido. Temia uma briga.
Mas a surpresa por ela assumir um relacionamento com ele alguns meses depois do desaparecimento do marido, fez com que os dois irmãos desconfiassem muito da historia.
E Samantha ficou particularmente sentida. Principalmente quando começou a notar sinais de violência no corpo da mãe. Aquilo não era justo. Seu pai nunca faria algo assim. A culpa era dele. Se não tivesse sumido, a mãe não estaria passando por aquilo agora.
A confirmação de seus temores veio algumas semanas depois, durante uma discussão do casal. Ela estava chegando da escola quando ouviu os berros, ainda na rua. Não entendia uma palavra, mas logo compreendeu o que eram os baques surdos. Correu para dentro temendo uma desgraça. "Ele vai matar ela! Ele vai matar!" , sua mente apavorada não a deixava raciocinar direito. Mas ainda conseguiu manter calma o suficiente para não entrar gritando, e sim observando tudo.
Estavam no quarto dos pais dela. O celular de Ricardo estava na mesinha de centro da sala. Ela pegou o celular e ligou para a polícia enquanto se aproximava do quarto para ouvir melhor, e ficou surpresa ao entender que ele brigava com ela porque ela havia fugido. Fugido de um 'cliente'.
Então a raiva tomou conta. Bateu a porta com toda a força, ainda em tempo de vê-lo dar outro tapa em seu rosto que já tinha um lábio sangrando.
— QUAL O SEU PROBLEMA? PORQUE DEIXA ELE FAZER ISSO COM VOCÊ? VOCÊ NÃO É UMA PROSTITUTA!!!
Berrou a plenos pulmões. Primeiro os dois exibiram surpresa em suas faces. Depois raiva. A mãe chamou sua atenção, por ter entrado no quarto sem chamas, enquanto ele arrancou o celular de suas mãos a chamando de ladra. Porém, quando viu que o numero discado era o da polícia, sua raiva virou ódio e levantou a mão contra a menina. A mãe se jogou na frente, levando o murro nas costas. Sorriu triste e disse "Vai...!" antes de ser arrastada pelos cabelos para dentro do quarto que teve a porta trancada.
Samantha correu para fora ainda em tempo de ver a polícia chegar e invadir com estrondo a casa, devido aos gritos desesperados, tanto da mulher lá dentro, quanto da garota do lado de fora.
Enquanto a policia levava o casal, Samantha ficou com a mãe de Urias até o irmão chegar do futebol. Então foram para sua casa. Arrumaram a bagunça o melhor que puderam. Prepararam um macarrão, e depois de comer foram deitar. Nenhum do dois conseguiu dormir, então de madrugada, ouviram quando a mãe e Ricardo chegaram. Parecia tudo calmo.
Na manhã seguinte, Rafaella fazia café enquanto Ricardo assistia o jornal da manhã na sala. Era como se nada tivesse acontecido, exceto pelo olho roxo, lábio cortado e os hematomas no braço da mãe dos gêmeos. Naquele momento Samantha matou a mãe dentro do coração. Enterrou-a ao lado do pai. Pois a culpa era dele. Ele as havia abandonado.
Naquela manhã, ela e o irmão ficaram órfãos. Eles só tinham treze anos.
E agora, ela iria 'ressuscitar' Rafaella... Como ela deveria se sentir quanto a isso? Será que devia estar sentindo alguma coisa? Porque era estranho pensar em falar novamente com a mãe. Estranho mas muito familiar. E no fundo Samantha sabia porque: Sentia saudade.
Saudade da mãe que penteava seus cabelos enfrente ao espelho, e que quando saíam juntas, usavam roupas combinando. Da mãe que fazia cappuccino e brigadeiro escondido do pai e do irmão, por serem muito gulosos. Saudade da mãe que deixava ela usar suas maquiagens nas bonecas, e que apostava corrida da esquina de casa com ela e o irmão. Da mãe que sorria com os dentes pretos de açaí, só para fazê-la rir. Ela sentia falta da mãe. Não de Rafaella. Rafaella era uma alcoólatra que se apropriou da casa e destruiu o que restava da família dos irmãos. Era uma estranha.
Mais uma vez, em frente ao portão, ela ouvia gritos. Já estava anoitecendo, e Samantha não esta muito paciente hoje. Recostou no lado de dentro do portão, encarando a casa. Iria esperar o briga acabar primeiro. Queria que Ricardo fosse embora primeiro, para poder conversar decentemente com a mãe. Queria a verdade, e aquele cafetão aproveitador era a ultima pessoa no universo que ela queria por testemunha.
Mas a briga só piorava, e Samantha começou a se sentir realmente incomodada. Então, de repente, a voz da mãe some. Alguma coisa muito errada está acontecendo. Algo em Samantha grita por urgência, e novamente um desespero infantil toma conta de seus pensamentos... "Ele a está matando. Está matando minha mãe!"
Ela age rápido, e no momento seguinte derruba a porta da sala com um único chute, ainda em tempo de ver Ricardo, sufocando Rafaella com um cinto enrolado em seu pescoço no sofá.
Uma fração de segundo, e Samantha se lembra daquela noite. Do medo. Da raiva. Da humilhação. Da sensação de impotência... E um brilho macabro surge um seus olhos... "É hora da revanche!"
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