Distantes
24 Capítulo 23 - Em Quem Confiar?
Notas iniciais
— Mesmo que você não confirme, Marte, ela me mostrou provas. E agora EU SEI pra que você nos quer. Sei o que vocês realmente esperam de nós.
— Você é apenas uma criança, Samantha, não compreende ainda a complexidade de tudo. Não é tão simples quanto você gostaria menina — Lúcia mostrava por fora uma calma que ela na verdade, não possuía por dentro.
Icy havia aprontado. Andara conversando com Samantha e a mãe. Antes, ela já havia tentado convencer outros a caírem no seu jogo egoísta e irresponsável. E agora fazia um estrago nos gêmeos. A velha Elementar já estava cansando de tentar desfazer as trapalhadas de sua conterrânea. E agora, ela estava indo longe demais.
Samantha estava decidida. E isso era ruim. Haviam verdades que tinham a forma certa de se contar. E ela havia ouvido da forma errada.
— Vá para sua aula, garota. Depois, se quiser, conversamos. Você não pode simplesmente ir acreditando em tudo que te dizem...
— A exemplo do que você e os pais de Ana Clara nos contaram ontem? — questiona a adolescente com ar arrogante e provocador.
Lúcia suspira e olha novamente pela janela da sala de funcionários, que dá para o corredor. A sala é pequena, apenas um sofá de três lugares, duas cadeiras e uma mesa forrada com toalha plástica no ambiente.
Pouco frequentada por ser atrás da escada, por tanto, sempre exposta aos alunos, a sala já havia servido de confessionário a várias crianças descendentes de Partilha. As familias de Elementares sempre colocavam os filhos nas mesmas escolas. Uma forma de influenciá-los a conhecer e conviver com outros da mesma raça.
Lucia olhava em volta e lembrava-se de todos os jovens que já havia orientado e aconselhado entre aquelas paredes. Lembrou-se dos gritos, das lagrimas, rizadas, insultos, deboches, ceticismo, teimosia, arrogância, desespero, dor... Ela estava cansada.
— Certo, você está coberta de razão. Não existe um motivo razoável para você acreditar em mim. Mas, seguindo a mesma lógica...
— Também não posso confiar nela. — Samantha encara algum ponto insignificante no chão. Depois olha para a parede e também suspira, esfregando o rosto com as mãos. — Eu estou confusa e irritada. Estou aflita. Frustrada. E muito, mas muito fula da vida mesmo! Preciso de respostas, mas nem mesmo sei que perguntas fazer...
— Tudo bem... Isso é normal. Você passou por muita coisa. Você e seu irmão estão me surpreendendo, mas você precisa voltar para sua vida normal. Você vai ter tempo para pensar depois. Certo, filha? Então vai cuidar da sua vida... Vai estudar, vai...!
— Levar a vida...? Que irônico, voltar pra vida que eu odiava é meu consolo... Náo deveríamos receber uma identidade secreta, e uma nova vida ou coisa do tipo?
— Agora você está parecendo o seu irmão... — graceja a senhora que recebe um meio sorriso em troca.
— Isso deve-se aos anos de convivência. — a garota suspira e hesita. Depois levanta os olhos e encara a mulher — Acho que eu deveria agradecer por ter cuidado de meu irmão. Ele ficou meio... Distante, depois que o pai dele sumiu. Acho que, de alguma forma, essa bagunça está nos ajudando a nos unir novamente. E eu realmente quero protegê-lo.
— Entendo. Mas você náo quis dizer "nosso" pai? — pergunta a mulher com simplicidade, mas já antevendo a reação que receberia de volta.
Samantha se fecha completamente, arruma a postura e de punhos fechados, cobre a pequena distância da janela até a porta.
— Acho que acabamos por hoje — fala dura e já com a mão na maçaneta.
— Por hoje sim, mas você não vai poder fugir do assunto para sempre.
Ela sai e fecha a porta, deixando Lúcia sozinha com suas lembranças.
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