Distantes
14 Capítulo 13 - Descobre-se o Inimigo
Notas iniciais
— Vocês estão bem? — pergunta a mulher morena que Filip já não sabe quem é. Ela segura o ombro direiro, e faz caretas de dor. Provavelmente ferida na luta com o monstro.
— Então. Quando é que a senh... Que você vai começar a explicar o que acabou de acontecer? Ou melhor, o que está acontecendo. E pode começar dizendo quem, diabos, é você. — Fala Filip tentando se recuperar do choque o suficiente para não enlouquecer.
— Melhor dizer O QUÊ é ela. O que são esses bichos. E porque essas coisas estão atrás dela. — Urias está bem mais assustado, mas demonstra, como sempre, bem mais autocontrole. Filip agradece a Deus mentalmente por ser ele ali ao seu lado. Qualquer outra pessoa naquela situação já teria pirado, ou fugido sem nem se preocupar com a verdade.
Ela senta na cama e fica olhando o assustador cadáver que jaz no chão. Balança a cabeça, como se tentasse expulsar uma ideia ou um pensamento. De repente se levanta e vai até uma gaveta no guarda-roupas. Pega uma pequena caixa metálica e depois um casaco.
— Vamos. Temos que ir. Sua irmã não está bem. — fala para Filip indicando a porta com a cabeça.
— Minha irmã??? O que Samantha tem com isso?
— Não vamos a lugar nenhum enquanto não nos der uma explicação. — mais uma vez, Urias tenta manter a calma pelos dois.
— Não dá tempo. Ela se deu conta de Ligação. No momento está desacordada. Mas quando voltar a sí, é bom que você esteja perto. Pode ser... Perigoso. Para as outras pessoas que estiverem em volta. Não para ela. Não se preocupe. Mas posso começar a explicar tudo no caminho, embora eu tenha certeza que ela também se interessará pelas respostas que você quer.
— Como você pode saber isso?
— Da mesma forma que ela sabe de você. E pelo que percebo, você dela.
Filip engoliu em seco. Ela sabia. Aquela frágil e gentil senhora era uma farça e um grande mistério. E o pior de tudo: ela conhecia o segredo dos gêmeos. E eles nada sabiam dela. Era uma desvantagem terrível. Que piorava muito com a exposição de Urias àquela situação confusa e perigosa. Filip não sabia o quão grave era tudo. Mas tinha certeza de que no mínimo, estavam todos muito ferrados.
— Vamos então. — disse simplesmente.
— O quê? Você não pode tá falando sério! A gente quase morreu e nem sabe porque. E tem esses troços bizarros. E essa velha não tá mais velha. E... PORRA! SERÁ QUE SÓ EU TO QUASE ENLOUQUECENDO AQUI ?!
Urias, entra em pânico. Começa a arfar e se apóia nos joelhos para não cair quando se sente tonto. Filip apóia o amigo com o braço envolta de seu tórax, mantendo-o de pé. Se Urias está nessas condições é porque a coisa está preta.
— Calma cara. Vamos ouvir ela e ai eu explico a minha parte. E já adianto um pedido de desculpas, por não ter te contado antes. Relaxa aí que a historia é longa...
A morena se levanta e aos poucos, volta à sua aparência de antes: a frágil mulher, tia da limpeza do colégio dos meninos.
— Vamos então. Antes que o grandão aí desmaie também. Já não tenho mais idade pra essas coisas...- Filip faz um careta desdenhosa antes de seguir a mulher.
Já na calçada, ela atravessa rua, arromba a porta e entra rapidamente numa casa que parecia fechada a meses, pela quantidade de poeira acumulada nas janelas. Logo a porta da garagem abre, e de lá sai um Monza verde. Os rapazes encaram um pouco o veiculo enquanto decidem se é realmente um boa ideia seguir tão misteriosa mulher.
— Vamos, meninos! Que lerdeza... Quantas vezes eu tenho que ficar chamando?!
Filip guia Urias até o banco traseiro e depois se senta no carona. Assim que o carro arranca disparado, ele inicia o assunto com a ex-dona Lúcia.
— Então. Do começo: quem é você?
Ela suspira olha pelo retrovisor um Urias pálido, porém atento. Depois olha de soslaio para Filip, que espera paciente a resposta.
— Meu nome é Marte. Sou uma Elementar do fogo. E sou sua passagem para casa.
— Marte? Então nunca existiu uma Lúcia...
— Eu sou Lúcia. Esse é meu nome humano.
— Isso quer dizer que você não é humana. É então como aquelas coisas lá atrás?
— Sim e não. Elementares e Animons tem a mesma origem humana, mas somos de partilhas diferentes. Elementares tem parte dos elementos em sí mesmos. Água, ar, terra, fogo, e todas as sub-heranças, inclusive o reino vegetal, que tomou a parte dos elementos na partilha. Animons, ou Mons, como costumamos chama-los. São parte animais.
— Mas você parece humana. Exceto pelas tochas que suas mãos viraram na hora da luta com aquelas coisas, você parece... Sei lá, normal.
— Eu sou humana. Veja bem, minha parte inumana pode ser, digamos, ativada e desativada quando eu quiser. Mons também podem fazer isso, mas apenas enquanto filhotes. Depois de adultos, sua condição é permanente. É o animal lutando para dominar o corpo. Elementares não costumam ter esse problema porque nosso poder é matéria, e não vida.
— Não costumam...?Então quer dizer que pode acontecer?! Vocês podem se tornar um tipo de monstro. — interfere Urias. Marte fica visivelmente desconfortável com o rumo que a conversa estava tomando. Mas decide esclarecer a dúvida.
— Enquanto não há domínio sobre o elemento, sim. Pode acontecer. Principalmente se próximo da idade adulta, e se o elementar perder o controle.
— Agora dá pra dizer porque aqueles Mons te atacaram? — pergunta Filip, recalculando mentalmente as perguntas que tem que fazer.
— A princípio, temos uma rivalidade natural. Mas na verdade, o foco deles era outro. Eles não me queriam. Queriam você, Filip, da mesma forma que querem a sua irmã.
Ao chegar no bairro de luxo, ela pára na entrada da garagem de uma pequena mansão, onde um casal de cabelos vermelhos já aguardavam na porta de entrada.
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