Distantes
12 Capítulo 11 - Quase um Sonho
Notas iniciais
Filip terminava de juntar as garrafas de vidro numa caixa de papelão, e já mirava o outro lado do quintal, onde haviam vários móveis e peças de carro debaixo de um barraco de bugigangas improvisado com lona.
— Larga isso aí um pouco menino. Vem fazer um lanche ! — grita dona Lúcia da porta dos fundos de sua casa, segurando uma jarra do que parece suco de manga.
O rapaz deixa a caixa junto à várias pilhas de outras caixas com lixo separado para a coleta seletiva. Lava as mãos no tanque de roupas e senta-se no chão, do lado de um banquinho de madeira onde a simpática senhora já havia deixado um prato cheio de pastéis recém feitos. Ela lhe entrega um copo e enche com o liquido da jarra.
— Te dou uma moeda se acertar o sabor. — desfia a mulher, com um sorriso travesso nos lábios.
Filip retribui o sorriso e prova da bebida. Faz uma cara confusa e chuta:
— Laranja com alguma coisa...
— Cenoura! — a voz grave de Urias chega primeiro que o amigo, vindo de dentro da casa da servente da escola. Então vem o jovem negro de sorriso espontâneo. Com a camisa jogar no ombro e absolutamente encharcado.
— Mas o que você aprontou na minha cozinha menino...? Vocês viram me ajudar, ou terminar de destruir ?
Já fazia em torno de nove semanas, desde que os dois amigos se apresentavam, aos domingos, na casa daquela senhora, para consertar coisas, arrumar o jardim e desencarquilhar o quintal da gentil mulher. Começaram apenas ajudando-a com sacolas de mercado. Mas tornou-se uma rotina que todos apreciavam : Urias simplesmente gostava de ajudar, mas dizia também que era um ótimo exercício, Filip se distraia da vida e ainda por cima eram recompensados com os quitutes e mimos de dona Lúcia.
Os outros amigos já os haviam acompanhado algumas vezes. Por isso também, não estranharam quando depois do café da manhã na praia, eles se despediram e foram embora de ônibus mesmo. Para os dois, era um compromisso inadiável.
— Se a senhora parar de jogar lixo no ralo da pia como se tivesse triturador, tenho certeza que essa cena lamentável jamais vai se repetir. — reclama Urias apontando para sí mesmo, e já sentando-se no chão próximo à Filip, mas com o banquinho entre eles. Dona Lúcia entra rapidamente em casa e volta com outro banquinho nas mãos. Senta perto dos dois adolescentes e também se rende ao lanche.
Enquanto saboreiam os pasteis com suco, o assunto mais interessante entre os trés era apenas o som de suas próprias mastigações. Até o momento em que um barulho animalesco e repugnante assusta os jovens, e faz a senhora saltar em seu lugar. Olhando ao redor não conseguem ver nada. Mas o som se repete. Parece um grito, mas nada humano.
— Entrem. — ordena a mulher para os dois rapazes. Quando vê que estão em duvida, e ao mesmo tempo curiosos ela perde a paciência — ENTREM!!! — ela berra, enquanto os empurra para dentro da casa e tranca a porta.
Filip olha assustado e confuso para Urias que também parece perturbado pela situação. Ainda ouviram outra vez. E dessa vez não tinham dúvida, o som estava mais perto. Não só isso. Seja lá o que fosse que estivesse fazendo aquele barulho, estava muito perto.
Outra vez. No quintal. "Aquilo" estava no quintal. Podiam ouvir os passos pesados na grama e no cascalho. Era tudo tão irreal que não conseguiam pensar direito, quanto mais formular qualquer sentença. Na cabeça de Filip, ele comparava o que estava acontecendo à cenas de filmes de terror. Mas infelizmente ele tinha plena convicção de que não estava sonhando. "Aquilo", seja lá o que fosse, era real.
— Toma, pegue isso. — ela estende uma massa de um metal verde que os jovens não reconhecem. Eles nem mesmo haviam notado a saída da mulher de perto deles. Filip a pega e observa a arma arcaica. — Esse fica com você. Mire na garganta — e entrega uma adaga do mesmo material para Urias.
— O que tem lá fora?- pergunta o rapaz enquanto testa o peso da adaga.
— Mons. Acredito que filhotes.
— E o que são Mons? — pergunta Filip enquanto observa algo se aproximar da porta e farejar.
Ela estala o pescoço e se espreguiça. De repente, a mulher que parecia ter uns sessenta anos muda de feição, sua rugas diminuem e os cabelos grisalhos ficam totalmente negros. Ela passa a aparentar não mais que trinta. Suas mãos ficam vermelhas e brilhantes como se estivessem em chamas, até sentirem o cheiro de enxofre que emana da mulher. — Vocês vão ver... — fala com o olhar centrado na porta, e ai tudo acontece.
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