Discovering the Love
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Acordei poucas horas depois de eu ter ido dormir, seis e vinte da manha, me espreguicei como um gato e fui para o banheiro. Me olhei no espelho, e a única coisa que eu vi foram profundas e escuras olheiras, que estavam sob meus olhos levemente inchados pela noite mal dormida, me lembrando um urso panda, quase extinto ano passado. Bocejei algumas vezes e lavei o rosto, pensei em tomar um banho mas eu simplesmente não estava disposta, coloquei uma calça preta e uma blusa de algodão, um suéter de lã cinza,uma boina marrom, e um cachecol laranja, como o pôr-do-sol, para dar mais vida. Coloquei minhas botas tradicionais (marrom com uma fivela). Para mim o inverno é a estação que você fica muito bonito ou fica muito desarrumado.
Peguei minha bolsa no encosto da cadeira da escrivaninha e sai do meu quarto fazendo o menor barulho, Tinha gente ainda dormindo, minha mãe e Daniel acordavam as sete, por que ele estudava na escolinha que minha mãe ensinava, então ele vão juntos e eu vou a pé. Desci e encontrei meu pai tomando café, fui até a geladeira e peguei uma pera.
—Bom dia, pai
—Bom dia, filha, já está indo?
—Sii...ii....iiiim-Falei no meio de um bocejo
—Venha cá, filha, isso são olheiras debaixo de seus olhos?
—Isso? Não sei pai...
—Hum, sei, você não ficou até tarde lendo de novo né?
—Nãaaao, pai, não fiquei.
—Que bom, porque se tiver ficado... Você sabe que não pode né?
—Sei, ok até mais tarde.
—Até
Antes de passar pela porta cobri minha boca e meu nariz com o cachecol. Fui andando rápido até a escola, dei um leve aceno para o senhor da padaria, ele sempre foi muito simpático e as vezes me dava doces de graça, continuei andando e dobrei para a direita, já olhava para a próxima esquina que teria que dobrar.
Hoje chegaria na escola e todas as meninas estariam falando da seleção, tenho certeza, e vai ser engraçado ver as reações das outras quando a colega delas ganhar, "Ela nem é tão bonita assim" "Você já viu o jeito que ela anda?" "Essa ai vai sair logo de primeira". Pena que já vamos estar em feriado. Como o mundo é fútil e as pessoas são falsas! Sempre pensando nelas mesmas, mas é fácil falar que ama alguém quando se quer alguma coisa. Quer dizer,eu quero ser selecionada e tals mas não vou ficar chateada se for outra garota na província, vejo muitas garotas tentarem ser minha amigas pelo fato de eu ser um pouquinho famosa, por causa das competições.
Passei pelo portal, subi a escada de concreto, segurando alguns livros contra o peito e minha bolsa em meu ombro, olhando para baixo, fui em passos rápidos para a sala de aula, já estava bastante cheia, alguns alunos estavam sentados na mesa do professor conversando, acabando os deveres, ou copiando. Sorri para algumas meninas e estava claro que elas estavam comentando sobre a carta, não sei por que mas todos pareciam gostar de mim, mesmo eu sendo muitas vezes séria e calada. Elas acenaram e sorriram me chamando, e eu meio sem escolha fui até lá.
—Bom dia- falei meio sem entusiasmo.
—Bom dia, como somos sortudas não acha? Imagina se tivéssemos nascido dois anos atrás, nunca receberíamos a carta! Aposto que as garotas do primeiro grau estão se roendo de inveja, hahaha!- Falou Samantha
As outras meninas riram, eu dei um sorriso, achando graça, mas confirmando meus pensamentos, pedi licença e fui para minha mesa, na última fileira e na parede. Me joguei nela e esperei o sinal tocar, e o professor chegar na sala e falar tudo que eu tinha estudado ontem, eu tinha muita facilidade para aprender, bastava ler o conteúdo uma vez, ou prestar atenção que eu já entendia. Não sei porque se importavam em passar conteúdo hoje, já que terão que repassar depois do Natal, mas mesmo assim teríamos duas aulas seguidas com o professor mais chato de todos, que ensinava química. Acho que não vou aguentar.
"— Não posso falar da nossa história de amor, então vou falar de matemática. Não sou formada em matemática, mas sei de uma coisa: existe uma quantidade infinita de números entre 0 e 1. Tem o 0,1 e o 0,12 e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto ainda maior entre o 0 e o 2, ou entre o 0 e o 1 milhão. Alguns infinitos são maiores que outros. Um escritor de quem costumávamos gostar nos ensinou isso. Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Queria mais números do que provavelmente vou ter, e, por Deus, queria mais números para o Augustus Waters do que os que ele teve. Mas, Gus, meu amor, você não imagina o tamanho da minha gratidão pelo nosso pequeno infinito. Eu não o trocaria por nada nesse mundo. Você me deu uma eternidade dentro dos nossos dias numerados, e sou muito grata por isso."
Me segurei para não chorar no meio da sala, mas acho que a ponta do meu nariz deve ter ficada um pouco vermelho. Gente, tomara que eu seja selecionada! Talvez eu precise de outro infinito, preciso de números, números para a minha e vida, números para meu livros. Respirei fundo e olhei para frente séria, a seleção ia fazer eu superar de vez e me esforçar para eu terminar os meus livros. Tenho que admitir, não quero nada com o príncipe. Isso mesmo, quero ir para o palácio para sair deste mundo bitolado e cheio de rotina.
Eu gosto de ler histórias de amor, escrevo sobre o amor, mas eu não acredito. Pra mim o "amor" é apenas uma das várias coisas que o homem inventou. Assim como qualquer outra coisa que ele fez, e muitas vezes para ganhar dinheiro, então, há apenas poucas nobres almas que escrevem porque gostam e se sentem bem por isso, ou as vezes elas até precisem, e por algum motivo da vida. Eu não acredito e é por este motivo que eu escrevo, gosto de falar sobre coisas impossíveis, mas com alguma coisa através daquilo tudo, uma mensagem. Eu sei, eu acabei de falar que eu tenho uma nobre alma. Não foi isso que eu quis falar. Bem, mas se eu quisesse ganhar dinheiro teria ao menos publicado. Voltei ao livro.
Cheguei em casa meio dia e pouco e dei um leve sorriso quando senti o cheiro de polenta sendo preparada. Fui até a cozinha e coloquei minha bolsa no encosto da cadeira onde eu me sentei.
—Oi, mãe, teve uma boa manha?
— Sim, claro- ela respondeu distraída mexendo no molho de frango.
Olhei para a mesa onde tinha a carta tratando sobre a seleção e uma caneta sobre o envelope. Me empolguei.
—Lucy?- começou ela ainda distraída- seu pai me falou que você decidiu se inscrever, certo? Fiquei muito feliz! De verdade, se você fosse para o castelo e ganhasse seria uma ótima princesa! Isso é ter coragem, sabe, muitas pessoas tem medo da pressão da coroa, responsabilidades,e dos rebeldes, e tantas outras coisas. Mas você, eu sei que você não quer ir para lá apenas por dinheiro ou fama, eu sei que você vai para tentar melhorar você e, se conseguir, Illéa toda!
—Nossa mãe, obrigada, vou fazer isto depois do almoço.- falo com um sorrisinho e vou para sala de estar conviver com a fome. Penso em me jogar no sofá e tirar uma soneca, mas já tem alguém lá. Com pelinhos brancos, olhinhos fechados e uma barriguinha vermelinha, um pequeno cachorro dorme em cima de uma almofada bordô decorativa. Fico olhando para ele curiosa, com ele foi parar aqui? Pego ele pelo cangote e ele continua a dormir, levo ele até a cozinha e pergunto a minha mãe.
—Mãe? Esse pequeno ser que dorme sob meus dedos é para você cozinhar?
—Nãaaaaaaao, deixa a Neve em paz!- Daniel entra na sala correndo e tenta alcançar a criatura, que acaba de acordar e olha sem entender nada, com seus pequenos bracinhos, e isso faz com que eu a levante mais ainda.
—Você deu o nome de neve para esse cachorro? Muito criativo, me surpreenderia se chamasse ele de carvão ou feijão, não importa, isso–sacudo levemente o animal- vai ser nosso jantar.
—Eu não vou comer a Neve!
—Relaxa tem gosto de galinha!- então os olhos castanhos do meu irmão se enchem de lágrimas e ele começa a fazer sons esquisitos e irritantes de um soluço.
–Filha- Diz minha mãe em tom de aviso- devolva o cachorro a Daniel agora.
Faço cara de tédio mas devolvo Neve ao meu irmãozinho que ainda chora e segura o filhote nos braços como um bebê. E fala coisas como "Calma, eu vou te proteger dessa malvada" ou "Eu sei que você não é uma galinha" .
Para aliviar a tensão minha mãe anuncia o almoço, polenta assada com molho de frango. Meu pai chega um pouco atrasado e me pergunta se eu já preenchi o formulário de inscrição, e eu falo "depois do almoço eu faço isso", depois disso comemos em silêncio. Fico tão mal sobre o que eu falei para Dan que eu digo que comprarei uma caminha para Neve com o meu dinheiro, e convido ele para ir no PetShop comigo para escolher o modelo, mas ele diz que confia na minha escolha. Então convido minha mãe para ir comigo, de modo que na volta iremos entregar o formulário no Departamento de Serviços Provinciais. Ela aceitou de bom grado.
Acabei o almoço e fui para a sala de estar onde tinha prateleiras com livros, almofadas fofas para leitura, e uma escrivaninha com um abajur para trabalhar, peguei a carta:
"Confirmamos no último censo que uma mulher solteira entre dezesseis e vinte anos reside atualmente em sua casa. Gostaríamos de informá-los sobre uma oportunidade próxima de honrar a grande nação de Illéa. Nosso amado príncipe, Charles Schreave atinge a maioridade este mês. Para adentrar esta nova fase de sua vida, ele deseja ter uma companheira a seu lado, uma verdadeira filha de Illéa. Se sua filha, irmã ou protegida elegível estiver interessada na possibilidade de tornar-se a noiva do príncipe Charles e a adorada princesa de Illéa, por favor, preencha o formulário anexo e entregue-o no Departamento de Serviços Provinciais da sua localidade. Uma jovem de cada província será escolhida aleatoriamente para encontrar-se com o príncipe. As participantes serão hospedadas no agradável palácio de Illéa, em Angeles, enquanto durar sua estada. A família das participantes entre as castas quatro ou inferior será recompensada generosamente por seu serviço à família real. Segue o formulário para a inscrição."
E outro papel. Que eu fui preenchendo.
"Formulário para a inscrição para A Seleção:
•Nome: Lucy Pina
•Idade: Dezessete
•Casta: três
•Peso: Cinquenta e seis quilos
•Altura: 1,67
•Cor do cabelo: Castanho claro
•Cor dos olhos: Verdes
•Línguas: Inglês, espanhol e italiano
•Habilidades especiais: Escrever, patinar no gelo, cavalgar"
Me pareceu simples. Sei falar italiano porque a família de minha mãe era de lá, e acharam legal eu saber, e sei cavalgar porque cavalgava na fazenda do meu avô.
—Vamos, mãe?
—Claro- respondeu, se levando do sofá e indo pegar a chave.
Caminhamos em silencio até o Departamento, e eu segurando o envelope firme em meus dedos, que agora estavam meios suados, quando chegamos tinha uma fila realmente grande, suspiramos e paramos no final da fila, que bom que outras garotas desesperadas e tagarelas chegaram atrás de nós, porque detesto quando eu entro numa fila e ninguém mais entra, então eu tenho que ficar sempre por último.
Ouvindo as conversas de uma ou de outra, descobrimos que serão tiradas fotos das candidatas, então não é totalmente aleatório. Minha mãe tirou a piranha que eu sempre usava nos cabelos, para dar uma arrumada, ela também passou um brilho em meus lábios, e ajeitou minha franja. Minha mãe ficou falando como isso era injusto porque não é todo mundo que pode se arrumar, e que não é aleatório e várias outras coisas até chegar minha vez.
Entreguei o formulário e assinei um papel dizendo que eu havia entregado e o homem que tinha uma cara redonda e uma barba mal feita me dirigiu para um local onde tinha um fundo branco para ser tirada a foto.
O homem ajeita a câmera e eu não sorrio, apenas tento dar um olhar calmo e leve, sinto uma fria brisa fria passando e levando alguns fios do meu cabelo junto com ela.
Quando o homem me libera, eu vou em direção para minha mãe e ela começa logo dizendo que eu estava linda na foto e que, se dependesse de beleza eu certamente ganharia, e eu ali, apenas pensando em como seria o príncipe.
Eu odeio muita gente, mais do que eu gosto, em geral eu só gosto da minha família, simpatizo com uma menina chamada Leila, lá da escola e do senhor da padaria. Me irrito muito facilmente também, detesto quando alguém canta uma musica que eu gosto em quanto ela está tocando, do barulho que algumas pessoas fazem quando estão comendo, ver pessoas escovando os dentes, odeio pessoas muito legais*. Ta, isso parece idiota, mas minha tia Marilene é assim e me enche de nervos, ela fica toda hora perguntando se eu estou bem e falando para eu repetir, e quando estamos com raiva de alguém e ela pergunta "o que ouve" e simplesmente explodimos falando e falando e ela fala para não odiarmos ninguém, e depois fica perguntando se eu estou bem e lançando olhares de pena, ou fica tentando ajudar em tudo ao invés de nos deixar em paz. Quer dizer a tia Sara era muito legal, mas sempre tinha um ar de sarcasmo quando ela falava.E se pela força do universo eu for escolhida( não sorteada), e ver pessoas completamente do jeito que eu descrevi, ou meninas que agem como cobras só para ter poder? E se por algum milagre o príncipe gostar de mim e querer se casar comigo? E se ele falar de boca cheia? Imagina ter que dormir na cama de outro homem que conhecemos só por alguns meses? E se quando estivermos sozinhos ele tiver uma natureza completamente diferente da qual ele apresenta em público? Aprendi da personalidade das pessoas ao meu próprio custo.
—Então filha qual você acha que é a melhor?
Mal percebi que havíamos chegado a loja. Estive tão distraída que simplesmente não notei. Acabamos escolhendo uma caminha azul, com desenhos em prateado, como a neve, e também compramos aquelas coleras que tem o nome do animal na frente e o número do telefone atrás, no caso de ele se perder. Quando chegamos em casa, eu já tinha começado a me arrepender do que eu fiz.
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