Notas iniciais
Hello, guys! Aqui quem fala é a CowardMontblanc, que está mais do que satisfeita em apresentar pra vocês o primeiro grande capítulo dessa fic! ♥ Sei que ele tá enorme, mas por favor, não se assustem! (Se bem que vocês já devem ter se assustado antes de ler isso -q)Esse capítulo é literalmente o começo de tudo, apresentando todo o básico pra vocês, mas não está chato, até porque tem muitos personagens XD E também deixamos algumas ~pistas~ nele para os próximos capítulos, hehe~ C;Sem mais delongas, boa leitura! ♥ A gente se vê lá embaixo!

Tédio

Ymir não gostava muito das aulas de matemática. Na verdade, ela não gostava nem mesmo de ir para a escola, pra começar. Considerava ter uma boa educação algo importante, claro, mas passar todos os seus dias como jovem estudando não soava produtivo e muito menos emocionante para a moça. E pelo visto, boa parte de seus colegas também pensavam o mesmo, por mais que não admitissem.

Em parte, isso era por causa do professor Levi ser considerado não apenas bonito por suas alunas, mas também por ele ser bastante rígido. Ymir não conseguia entender o que suas colegas femininas viam naquele homem baixinho que estava sempre com cara de tédio — o tipo de expressão que ela sempre fazia em suas aulas, por sinal -, mas alguma coisa nele atraia a atenção delas e fazia com que as mesmas sempre prestassem muita atenção em seu corpo, mas não no conteúdo de suas aulas.

Fora as jovens apaixonadas, os outros alunos se dividiam entre tentar aprender a matéria pelo seu próprio bem ou em se distrair com outra coisa. E no caso da morena, a segunda opção era bem mais tentadora. Ela não tinha medo de reprovar — sabia qual era o assunto que estava sendo dado e podia muito bem pegar as anotações depois com outros colegas -, já que iria faltar às provas para fazer logo a recuperação e passar com a nota da mesma. Era sempre assim.

Por isso, ela estava com a consciência tranquila quando deitou a cabeça entre os braços. O único problema foi que Levi percebeu isso e resolveu andar até sua mesa, nada satisfeito.

Parecia que desta vez ela não ia compensar o sono que tinha perdido por ter ficado acordada até tarde na noite anterior.

“Dormindo em sala de novo, Ymir? Você já não fez isso na semana passada?” O homem questionou, e podia-se perceber um leve tom de irritação em sua voz. A garota levantou a cabeça, encarando os olhos pequenos e escuros do professor, que não teve medo de fazer o mesmo de volta enquanto continuava a falar.

“Eu sei que você é inteligente o bastante pra passar de ano, eu conheço suas notas. Mas você podia ao menos tentar prestar mais um pouco de atenção nas aulas. Não pense que você vai sempre se safar estudando sozinha em casa, se isso fosse possível nem você e nem ninguém aqui precisaria estar nessa sala de aula, nem mesmo eu. Sem falar que você tem a mania de se colocar de recuperação sem motivo nenhum… Pelo menos tente, garota. Vai ser bom pro seu futuro.” Ele afirmou, parecendo estar levemente decepcionado com a jovem e também um pouco irritado.

Ymir não o culpava, pois sabia que ele estava falando apenas a verdade. Sim, ela podia deixar de faltar nas semanas de provas e ainda assim passar de ano, e também prestar mais um pouco de atenção nas aulas por educação e respeito aos professores. Mas ela já estava acostumada a viver desse jeito, e estava tudo bem assim.

Levi apenas suspirou antes de concluir de vez o seu pequeno sermão.

“Aliás, você baba enquanto dorme. Isso acaba sujando seus materiais e a mesa.”

Uma onda de risadas se espalhou pela turma com o comentário do professor, conhecido por seu senso de humor peculiar. Ymir não deu a mínima para os que riam dela, limitando-se a limpar o fio de saliva que escorria do canto da boca, mas não deu sinal de que iria abrir o livro ou o caderno tão cedo. Não dormir não significava que ela iria realmente prestar atenção, e a moça não plenejava mudar seu comportamento tão cedo.

Sem mudar sua expressão desinteressada, o responsável correu os olhos pela turma de forma crítica. “Do que estão rindo? Pareço ter falado algo engraçado?”

As risadas morreram rapidamente ante o olhar sério do educador, ainda que sua voz não tivesse mudado de tom. “Esse conselho vale para muita gente aqui, não só para sua colega dorminhoca. Agora, se pararam com seu momento como platéia de Stand-Up, abram o livro na página 75 e façam os seguintes exercícios que vou ditar.”

Ymir não se deu ao trabalho de anotar os números dos exercícios, e ao invés disso se espreguiçou, sentindo os músculos enrijecidos. Contendo uma enorme vontade de bocejar, a estudante apoiou um dos cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, lutando contra o tédio que ameaçava dominá-la.

Era impressão, ou as coisas estavam mais insuportavelmente monótonas naquele dia do que o normal? Tinha dois horários de Levi hoje e os dois pareciam arrastar-se como que para contrariá-la. A voz inabalável e imutável do professor também não ajudava em nada a manter sua concentração, ao contrário de muitas de suas colegas, que pareciam estar se controlando para não pular sobre seu mestre baixinho naquele exato momento. Ainda vou descobrir o que colocaram na fralda desse cara, pensou de forma distante, enquanto deixava seu olhar se perder do outro lado da janela.

Eram por volta de nove da manhã, e o pátio estava vazio àquela hora. A maioria dos alunos estava presa em suas salas de aula, já que faltavam ainda uns bons trinta minutos para o próximo intervalo. Os olhos de Ymir percorriam de forma desinteressada a paisagem, já que a janela daquele lado da sala dava para o jardim bem cuidado, os bancos de pedra e as árvores sob as quais os alunos costumavam se reunir para conversar. Mesmo que visse aquilo todos os dias, a garota ainda tinha que admitir que era muito bonito — exatamente o que se esperava de uma escola daquele nível.

A Freedom High School era sem sombra de dúvidas uma das melhores escolas da cidade de Rose Fields, tanto em questões de ensino quanto de disciplina. Muito se era elogiado sobre as capacidades tanto atléticas quanto educacionais de seus estudantes, o que era besteira na opinião da jovem. A FHS, ou Free, como era conhecida pelos adolescentes, continuava sendo um colégio como qualquer outro, com os vários problemas de sempre: brigas, notas baixas, bullying, vandalismo, drogas.

Ainda assim, o nome e o prestígio da Freedom eram enormes, e estudar nela praticamente um símbolo de status. Não era surpreendente que os filhos de algumas das pessoas mais importantes da cidade fossem colegas de Ymir, e mesmo que ela mesma não se importasse com questões do tipo, gostava do fato de que alguns deles lhe deviam favores. Por mais chata que a escola fosse para a moça, ao menos os outros alunos eram capazes de distraí-la durante a maior parte do tempo… Especialmente se tais alunos fossem garotas bonitas com um sorriso cativante.

Estava ela mesma sorrindo de forma inconsciente, perdida em suas lembranças, quando uma sineta irritante soou em seus ouvidos, marcando o final do horário.

A jovem se levantou junto com seus tantos outros colegas de classe, e desceu as escadas junto com os mesmos. Não demorou muito para ela encontrar a garota que estava procurando. Historia era uma de suas colegas, mas principalmente era o que ela podia chamar de melhor amiga. Mesmo uma garota durona como Ymir precisava de companhia, e a menina baixinha de cabelos claros e jeito doce não apenas a compreendia perfeitamente como também era, na opinião dela mesma, muito bonita e delicada.

As duas sentaram-se numa mesa perto de uma das paredes pichadas, frutos de um vândalo solitário e desconhecido que aparecia na escola de vez em quando. Ymir devia admitir que aquilo era um tanto curioso, mas ela sabia que um dia ele seria pego, então não se importava muito. O melhor que podia fazer era "apreciar" sua arte e rir das peças que ele — ou ela, nunca se sabe — pregava. No entanto, ela não ia falar sobre isso com Historia.

"Sabe, Ymir, até que o Levi estava certo mais cedo... Não apenas sobre você babar enquanto dorme, mas sobre você ser inteligente e não se esforçar." A jovem falou, enquanto tirava o plástico do sanduíche natural que ela mesma fizera antes de dar a primeira mordida. A outra jovem apenas mexeu nos cabelos castanhos, ajeitando o rabo-de-cavalo curto e colocando uma mecha para trás.

"Eu sei, mas eu não quero. Minha inteligência é melhor usada para outras do que matemática ou geografia, e meu esforço também. Sem falar que esse colégio está um tédio... Pelo menos mais do que o normal." Ela afirmou, e notou que a menina mais baixa soltou um risinho, o que a fez sorrir sem nem perceber.

"Se você está achando tudo chato, que tal fazer alguma coisa pra acabar com isso? Acho que pra isso você vai querer se esforçar... Ajudar os outros seria uma boa ideia. Quero dizer, tem tanta gente na nossa sala que eu aposto que está quase repetindo de ano..." Historia conseguia soar como a pessoa mais doce do mundo quando dizia esse tipo de coisa. Normalmente, a outra sentiria nojo dessa espécie de comportamento, mas a moça era tão adorável que aquilo era impossível, e até parecia natural. O problema era que sua sugestão combinava mais com ela mesma do que com Ymir.

"E pra que eu faria isso? Não é problema meu. Tenho mais o que fazer do que virar professorinha particular ou babá de filho alheio." A morena retrucou, mas sem ser tão grossa como normalmente seria, já que queria ser educada com a companheira de mesa.

"E se te pagarem por isso? Com dinheiro ou então com outra coisa que você ache interessante?" Ymir sorriu cinicamente quando escutou isso. Agora sim a proposta parecia boa! Ela com certeza podia fazer isso... Mas não com dinheiro. Era algo comum demais. Além disso, ela não precisava de mais do que já tinha, que era o bastante para viver de forma decente.

O preço devia ser outro, e a moça sabia o que cobrar. Algo imaterial, e na opinião dela ainda mais valioso do que cédulas. Segredos.

Que forma melhor de ludibriar pessoas do que dizendo que podia ajudá-las em troca de saber seus segredos mais podres e profundos? Ymir podia usá-los como ameaça para manipular quem quisesse para ter suas vontades feitas, e quando se cansasse da brincadeira, era só espalhar tudo e se divertir com a reputação arruinada dos outros. Até porque, honestamente, não era como se ela se importasse com mais da metade dos alunos daquele colégio.

Ela só precisava planejar como reunir essas pessoas — e, mais importante, as informações — e tudo estava feito. Certo, também tinha a parte que envolvia ajudar elas, mas não era ela quem ia fazer isso diretamente. Ymir era esperta e tinha contatos que lhe deviam favores, que com certeza fariam o trabalho sujo por ela. Então a jovem não tinha exatamente com o que se preocupar.

"É, é uma ideia a se pensar..." A morena disse, olhando nos olhos azuis da outra menina sentada à sua frente. Se ela soubesse a ideia que tinha plantado em sua cabeça agora... Não, era melhor ela não saber disso. E nem de que ela estava com muita vontade de lamber o pouco de mostarda que tinha ficado perto dos lábios de Historia.

Neste mesmo momento, numa mesa distante das pichações, outro grupo de amigos da turma 104 conversava. Annie, Reiner e Bertholdt eram amigos de infância e bastante conhecidos por razões completamente diferentes. A garota era linda, mas também era fria e tinha como apelido "Rainha do Gelo" graças a isso. Dizia-se que nenhum rapaz naquela escola tinha sido capaz de derretê-la, mas ela não ligava para esse tipo de coisa.

Naquela hora, trocar as bandagens que estavam no seu tornozelo era uma tarefa bem mais importante. E para tal, ela tirou o tênis e a meia, fato que atraiu a atenção de outros rapazes curiosos, mas que não se atreveram a se aproximar dela provavelmente não apenas por sua fama como também pelo fato de que ela já estava em companhia masculina.

"Annie, como foi que você se machucou desse jeito? Parece feio, não acha melhor ir pra enfermaria?" O rapaz que estava sentado ao seu lado questionou-lhe, enquanto fechava o livro que estava lendo na página marcada. Bertholdt era um rapaz moreno e bem alto — possivelmente o aluno mais alto da turma -, mas fora isso nada dele era intimidador. Na verdade, ele era um garoto tímido e quieto, que preferia passar o tempo na biblioteca ou cuidando de animais que achava na rua do que se metendo em brigas e confusões. Era até incrível como ele conseguia ser amigo de Annie e mais ainda do último jovem, que com certeza era o mais extrovertido dos três.

"Deixe disso, Bert, a garota sabe se cuidar. Isso aí foi por causa de uma queda quando você estava descendo do ônibus, não é, Annie? Nada com o que se preocupar." Reiner comentou, tranquilizando o amigo. Como sempre, estava sorrindo divertido, sem demonstrar nenhum tipo de preocupação. Ele era quase tão alto quanto Bertholdt e conseguia ser mais forte do que o moreno por estar no time de futebol da escola, mas ao contrário do que se esperaria de um rapaz assim, ele não era orgulhoso. Na verdade, se dava bem com todo mundo da turma, e muitas vezes já exerceu o papel de "paizão" com os colegas, ajudando-os com seus problemas e defendendo-os de bullies. Com certeza, um exemplo a ser seguido.

"Isso mesmo. Daqui a uns dias melhora." Annie respondeu, terminando de trocar os curativos e colocando o calçado novamente antes de se sentar na sua cadeira. Bertholdt apenas mordiscou de leve o lábio inferior, e depois deu de ombros, sabendo que não tinha como retrucar.

"Tudo bem, então. Só acho que você devia tomar cuidado, não é a primeira vez que você se machuca esse ano... E tem seus atrasos também. Se você quiser, eu posso pedir pro meu pai te dar carona e..." O mais alto falou, sendo gentil, mas logo percebeu que aquilo não servira quando foi cortado pelas palavras secas da moça e também pelos seus olhos azuis-gelo — que com certeza combinavam com o apelido que lhe era dado — encontrando os seus próprios, verdes.

"Não precisa pedir pro seu pai gastar combustível com algo assim. Eu estou bem, acredite, e não vou reprovar por uma besteira dessas. Relaxe." Bertholdt decidiu ficar quieto depois disso, e apenas abriu o livro novamente para poder continuar sua leitura enquanto escutava Reiner mudando de assunto com uma piada. Se não havia nada para nenhum deles se preocupar, estava tudo bem.

E se houvesse, provavelmente não seria com coisas tão graves como os protagonistas dos livros que ele tanto gostava de ler.

A pouca distância dali, outro trio de amigos descansava sob a sombra de uma árvore especialmente frondosa, conversando de forma despreocupada. Eren, Mikasa e Armin se conheciam desde que eram crianças e eram realmente inseparáveis, sendo uma ocorrência rara ver um deles longe dos outros dois. Também alunos da turma da sala 104, o grupo se destacava dos outros alunos especialmente por suas aptidões.

Mikasa Ackerman, atualmente recostada contra o tronco da árvore observando seus colegas jogarem xadrez, era de longe considerada a melhor aluna do Freedom High, com notas excelentes em todas as matérias e uma conduta escolar impecável; além disso, tinha legiões de fãs graças à sua beleza única e personalidade distante. Armin Arlert, o loiro de feições delicadas, também era um excelente aluno em disciplinas teóricas, ainda que tivesse certas dificuldades em educação física. Frequente alvo de brincadeiras dos colegas por sua dedicação aos estudos atrapalhar sua vida amorosa. Fechando o trio e perdendo espetacularmente para o melhor amigo, Eren Jäger não era um gênio, mas era bastante esforçado, apesar de sua disciplina não ser das melhores. Era comum que se metesse em brigas, e dizia-se que era capaz de realmente matar alguém se estivesse com raiva o suficiente.

“Vejo mate em quatro.” Afirmou Mikasa, no seu tom habitual de desinteresse, ao observar a configuração do tabuleiro.

“Eu vejo em três.” Rebateu Armin, com um sorriso no rosto. “Anda logo, Eren, tá dando lag na sua cabeça?”

“Me deixa pensar!” O garoto moreno tinha a testa franzida em concentração, várias jogadas possíveis passando por sua mente.

“Apressar esse daí é uma má ideia, Armin.” Comentou a moça. “Você sabe como é nosso Titã, vai acabar demorando ainda mais e não saímos mais daqui hoje.”

“Mas vocês estão se achando tão engraçados, não é?” Por fim decidido, Eren movimentou um de seus bispos pelo campo, perigosamente perto do rei de seu adversário. “Não esperava por essa, não é mesmo? Xeque, Armin.”

“Ao menos vejo que está aprendendo com nossos jogos.” Respondeu Armin calmamente, movimentando seu rei para longe da diagonal perigosa. “Só não o suficiente.”

Eren fez uma careta de desgrado, tanto pela frase do colega quanto por perceber que já era sua vez de novo. “Eu odeio quando você fica com esse sorrisinho confiante pra cima de mim.”

O loiro apenas deu de ombros. “Se estou confiante tenho um motivo.”

Após mais alguns instantes de reflexão altamente vigiados por seus dois amigos, o rapaz de olhos verdes decidiu movimentar uma de suas torres para capturar um dos cavalos de Armin, inocentemente parado na metade do tabuleiro. “Hunf, vá em frente então.”

“Certo.” Armin não teve que fazer nada além de movimentar seu peão uma única casa, para a última fileira do lado de Eren. “Promoção para Rainha. Xeque-mate.”

Mikasa assentiu lentamente, sem um único sinal de surpresa em seu semblante. “Realmente, xeque em três.”

“M-M-MAS…” Eren gaguejou, tentando compreender o que acabara de acontecer. “Isso…! Eu não…”

“Se tivesse prestado mais atenção no seu campo ao invés do meu, Eren, teria visto isso antes. Um bom jogador deve prestar atenção em todo o tabuleiro ao mesmo tempo, para que o adversário não o distraia.” O garoto mais baixo deu um sorriso de encorajamento, apontando passo a passo do que tinha feito para que o amigo acompanhasse.“Você estava tão preocupado que eu fizesse algum tipo de jogada esdrúxula aqui na frente que nem percebeu o básico.”

A única reação do outro foi suspirar alto, claramente frustrado. “A aula terminou, Arlert-sensei?”

“Por hoje, sim.” Replicou Armin de forma séria, imitando a forma pomposa de falar do professor de história, Dot Pixis, como uma brincadeira. “Faça seu dever de casa, jovenzinho, e traga para Mestre Pai Mei amanhã.”

Eren riu alto, e até mesmo Mikasa deu um pequeno sorriso. “Pai Mei??? Cadê sua barba???”

“Eu cortei para não me reconhecerem.”

“Você é cheio de segredos mesmo…”

“Todos nós somos.” Declarou a garota, desviando por fim os olhos para a revista em seu colo. “Todo mundo tem segredos.”

A cantina estava apinhada de estudantes famintos, como era de costume. Pessoas esperavam impacientemente em duas filas enormes, já que apenas dois funcionários estavam atendendo naquela manhã — também um costume, assim como o era reclamar sobre. Os mais rápidos, que haviam corrido da sala assim que o sinal tocara, já haviam sido atendidos e se sentavam nas mesas de quatro lugares, conversando em voz alta e enchendo o recinto com o som de risadas e gritos.

Uma garota de cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo alto, no entanto, não se preocupava em conversar com ninguém. Sentada sozinha em uma mesa isolada, seu único interesse no momento era o enorme sanduíche que devorava com animação e habilidade. Os que conheciam Sasha Blouse não estariam surpresos por seu comportamento — a moça era na verdade bem sociável, mas seu amor por comida era uma das mais altas prioridades de sua vida. De fato, raras eram as vezes em que ela não era vista comendo, fosse no intervalo, fosse mascando chiclete durante as aulas e sendo repreendida por seus professores, fosse reclamar de fome ainda no penúltimo horário, atos que lhe renderam o apelido de Kirby, em referência ao monstrinho devorador dos jogos da Nintendo.

Para grande inveja de várias colegas, no entanto, toda essa comida não parecia afetar a figura esguia da garota, e sim somente desaparecer como mágica no buraco negro que parecia possuir no lugar de um estômago.

“Opa, e aí, Potato Girl?” Um garoto acabara de se sentar na cadeira na frente da jovem, fazendo-a desviar os olhos de sua comida por um instante. Reconheceu-o com facilidade, pois era um de seus colegas de classe, e revirou os olhos assim que ouviu o apelido.

“Qualé, Connie, você nunca mais vai esquecer essa história da batata?” A garota soava embaraçada; o infame incidente com a batata acontecera no ano anterior, quando tinha acabado de chegar de sua cidade natal e ingressara no Freedom High como bolsista. As pernas de Sasha ainda tremiam só de lembrar o quanto que tivera que correr naquele dia, e até hoje o Inspetor Shadis a encarava com desconfiança. Além disso, seus amigos pareciam fazer questão de nunca deixar aquele acontecimento específico morrer, efetivamente tornando-o parte da mitologia da escola.

“Claramente que não, né?” Connie Springer deu uma risadinha. “Você sempre será a Potato Girl, Sasha.”

Connie, assim como Sasha, estudava na sala 104 e era bolsista. Era conhecido como brincalhão e divertido, que conversava com todos e zoava de todos sem distinção. Sua agilidade fazia dele um dos melhores membros do time de atletismo da escola, e, ainda que suas notas nas provas teóricas fossem menos que passáveis, ele parecia sempre dar um jeito de passar no final do ano. Sua colega desconfiava que isso tinha a ver com certos papéis mágicos que apareciam e desapareciam nos bolsos do colega no período de provas, sumindo com um piscar de olhos assim que um professor aparecia.

Sasha voltou suas atenções a seu lanche, ao mesmo tempo levantando a sobrancelha para o amigo. “Tô numa situação melhor que você, ao menos. Minha marca para essa escola é um episódio de rebeldia contra o sistema e a injustiça de não se poder comer batatas, e você, fez o quê? Entupiu as privadas na noite de formatura do terceiro ano?” Alfinetou, lembrando ao colega de certo incidente que ele mesmo causara no final do ano anterior.

“Aquilo foi um ato de protesto pela exclusão injusta do primeiro ano!” O rapaz se defendeu, tentando conter as risadas. Pra falar a verdade, ele não se arrependia nadinha. “E quem você acha que é, o Mockingjay? A Garota Que Tem Uma Batata Em Chamas? Se bem que você realmente parece com a Katniss.”

“Você vai ver, no futuro vou estar de arco na mão, liderando uma revolta contra o presidente, e você vai estar entupindo privadas como ato de protesto.”

Connie levou uma das mãos ao peito, dramaticamente. “Que coisa cruel de se dizer, Sasha. É assim que se trata os amigos que saíram de seu caminho para lhe fazer companhia nessa mesa enorme e solitária?”

“Essa mesa é bem pequena, pra falar a verdade.” Atentou a moça, após terminar de mastigar mais um bocado de seu lanche. “E você veio aqui por que quis, Connie. Pensa que não sei qual é seu plano?”

“Opa, e eu tenho um plano agora?”

“Claro que sim!” Afirmou Sasha, vitoriosa, apontando para o amigo com um dedo em riste. “Você está com preguiça de enfrentar a fila do lanche e veio mendigar minha comida! Seu cara de pau!”

Connie ergueu os braços, num sinal de desistência. “Okay, okay, admito, é verdade. Mas é totalmente justificável, quer dizer, olha o tamanho dessa fila, nem a fila do inferno é grande desse jeito!”

A dramaticidade característica do garoto fez com que sua colega revirasse os olhos mais uma fez, e ela declinou de responder em favor de comer mais um pouco. Restava agora menos da metade do sanduíche, para desespero do jovem.

“Vai lá, Sasha! Faz uma boa ação! Por favor…?”

Sasha refletiu sabiamente por alguns instantes, demorando mais do que o necessário apenas para irritar Connie. Após alguns minutos pensando, a moça partiu o sanduíche em dois pedaços e entregou um deles, notavelmente menor, ao rapaz.

“...Só hoje. Amanhã largue de ser preguiçoso e vá pra fila. Fique feliz que não consigo deixar alguém na mão.”

Um sorriso de orelha a orelha surgiu no rosto de Connie quando ele aceitou seu pedaço e se pôs a comer de forma quase tão desesperada quanto a da própria Sasha. “Obrigado, lil sis!!! Você vai pro Céu por essa!!”

Sasha apenas sorriu, balançando a cabeça de forma quase imperceptível, antes de voltar a se concentrar na comida.

Fora da cantina, em um dos bancos mais afastados, dois rapazes conversavam casualmente. Jean tinha finalmente voltado à escola depois de uma semana de detenção, fruto de uma briga que pegara com Eren. E mesmo estando na companhia do melhor amigo naquele dia, isso não mudou a decisão do coordenador Erwin em deixá-lo de castigo.

Não que isso importasse muito. Claro, aquela com certeza não era a primeira vez no ano que isso acontecia, mas ele nunca precisava enfrentar nenhum tipo de consequência por causa disso em casa, o que o deixava com a consciência tranquila.

Até porque assim ele podia aproveitar melhor o tempo livre que tinha.

"Então, o que você ficou fazendo na semana toda? Ficou comendo pizza e vendo pornografia até de madrugada?" Marco perguntou, rindo baixo logo em seguida. Ao contrário de Jean, ele era calmo e quando se metia em brigas era mais para apartá-las do que para aumentá-las. Se não tivesse sido por ele, Jean com certeza já teria reprovado, e por isso ele sabia que devia bastante ao garoto.

"Não vou dizer que não bati umas algumas vezes porque você sabe que eu estaria mentindo, mas minha vida não é apenas isso, Marco. Certo, eu não estudei pra nada também, mas eu saí de casa. Olha só, comprei nesse final de semana." O jovem respondeu, tirando do bolso um celular novo e que, pelo modelo, havia sido lançado recentemente, entregando-o nas mãos do amigo.

Marco analisou o aparelho, com um leve sorriso no rosto. Sabia que o outro era filho de pais ricos o bastante para darem a ele esses mimos, ao contrário de seus pais de classe média. Na verdade, tudo em Marco era mediano. As notas, suas habilidades nos esportes, seus gostos, sua aparência... Ele não se destacava em nada de especial, e por isso era considerado apenas um adolescente normal.

E para ser sincero, o jovem não sabia se devia achar isso bom ou ruim. Pelo menos ele não se metia em problemas por ter pavio curto e boca grande, como o jovem que estava sentado ao seu lado.

"Essa sua mesada rende mesmo, viu?" Ele observou, devolvendo o celular nas mãos de Jean, que o guardou com um risinho cínico. Com certeza ele conseguia fazer o seu dinheiro render bastante.

"É claro que sim! Eu sou um homem de negócios. Sei no que devo gastar o que eu ganho. Ah, eu também tenho uma coisinha aqui pra você... Toma. Pra não dizer que eu sou egoísta e não sei pensar nos meus amigos." Jean mexeu no outro bolso da calça do uniforme, e depois de uma ligeira dificuldade, conseguiu tirar dele um cartão e o estendeu para Marco.

O rapaz com sardas no rosto sabia o que era aquilo. Um cartão pré-pago. Ótimo para fazer compras na internet sem precisar da permissão de outras pessoas, e também sem precisar dizer a idade. E ele já sabia com o que ia gastar aquilo.

"Você me disse naquele dia que queria um jeito de pedir certas coisas pela internet... Pois bem, aqui está." Jean afirmou, vendo o sorriso matreiro que tinha sido formado na face do moreno. Ele se perguntou o que necessariamente o outro pretendia comprar, mas decidiu deixar isso quieto. Afinal, ele também não era nenhum santo e se Marco só queria algo como DVDs pornográficos ou algum brinquedo do gênero para usar sozinho, quem era ele para julgá-lo? Era apenas uma necessidade natural, ainda mais para jovens da idade deles.

"Acho engraçado quando você sorri assim. Fica parecendo que você está escondendo um monte de coisas atrás dessa sua carinha de santo." Comentou, vendo o brilho nos olhos do amigo. Jean conhecia muito bem aquilo. Era a típica expressão de alguém que estava planejando mil coisas, e que estava morrendo de ansiedade para pô-las em prática.

"Eu sou um bom menino, Jean, eu só tenho minhas necessidades! Se bem que você tem razão, eu tenho mesmo algumas coisas mais íntimas... Pelo menos é melhor ter essa minha cara fofa de anjinho sardento do que essa sua cara de cavalo." Marco não resistiu, e acabou usando o apelido que Eren tinha inventado para o outro no começo do ano — e que Jean ainda escutava bastante pelos corredores, como se fosse uma praga. E ele ainda precisava criar um nome tão ruim quanto esse — ou então até mesmo pior — para se vingar do garoto, coisa que ele tentará fazer muitas vezes durante o ano, sem sucesso.

Em parte, ele podia culpar suas suspensões nisso, ao menos uma pequena fração delas. A outra era pela sua falta de paciência mesmo.

"Sua sorte é que você é meu amigo, Marco. Se não fosse, eu já teria tirado esse cartão das suas mãos e teria cortado no meio." Jean afirmou, fazendo o amigo rir enquanto este se levantava, pronto para voltar para a sala 104 e enfrentar ainda mais aulas entediantes.

"Muito obrigado, garanhão!" Ele brincou, rindo logo em seguida da expressão de ligeiro desgosto que Jean fizera. De fato, tinha sorte por ser amigo dele. Se fosse qualquer outra pessoa fazendo isso, com certeza ele não iria deixar passar — principalmente se fosse o Eren.

No entanto, o outro tinha acertado em cheio ao dizer que ele escondia coisas por trás da cara de bom moço. Todavia, ele não era o único a fazer isso... Marco sabia que todo mundo tem seus segredos, mesmo aqueles que, como ele, aparentavam ser pessoas normais. E são justamente estas as que costumam esconder as coisas mais obscuras e inesperadas possíveis.

Ymir estava bastante diferente quando voltou para a sala após o toque do sinal que marcava o final do intervalo. Em contraste com a expressão de tédio completo que tinha em seu horário de matemática, a morena entrou no horário de literatura com um sorriso discreto, e não apenas por achar a professora Petra uma gracinha. De fato, ela não deu atenção alguma à moça ruiva que explicava sobre as diferentes fases do Romantismo no quadro, ocupada como estava com o novo passatempo que arranjara.

Tinha tanto o que fazer. Precisava começar a rascunhar as regras do clube, possíveis locais de reunião e uma forma de armazenar todos os segredos. A estudante não era a pessoa mais regrada da sala, com certeza, mas sabia que um mínimo de respeito e ordem entre os membros era necessário para que sua ideia desse certo. Também precisava providenciar um local afastado da escola e discreto o suficiente para que ninguém os visse todos juntos, além de uma forma de guardar os segredos para que não se espalhassem a não ser quando e se ela desejasse. Ah, e também precisava começar a listar os possíveis candidatos. Mas pensaria nisso quando tivesse o resto pronto.

Pela primeira vez no ano, o caderno de literatura teve alguma utilidade. Ymir não era de prestar atenção nas aulas, e, portanto, raramente fazia anotações, preferindo pegar depois o material emprestado de Historia ou Armin Arlert. No entanto, foi perfeito para começar a rascunhar as ideias que tinha. Faria uma pesquisa mais a fundo depois, e acrescentaria mais coisas conforme se lembrasse delas, mas aquilo seria o básico, de qualquer forma. Quando terminou, tinha uma folha completa e ainda dez minutos antes que a aula de Petra acabasse, para fazer correções.

Basicamente, os propensos beneficiados seriam colegas com problemas, fossem de ordem escolar, disciplinar ou psicológica. O objetivo do clube seria de auxiliar uns aos outros na medida do possível, o que significava que Ymir precisaria diversificar bastante os candidatos. Em troca de propiciar os laços entre essas pessoas e ajudá-las com suas próprias habilidades especiais — ela esperava não ter que fazer muito isso — os outros alunos lhe contariam seus mais profundos e terríveis segredos. Apenas a morena de rabo de cavalo teria acesso a eles, tanto para tranquilizar os outros membros como para garantir que só ela pudesse usá-los caso necessário.

Se tudo desse certo, a líder teria acesso a algumas informações bem interessantes, além de se manter entretida por um bom, bom tempo. O pensamento a fez sorrir, um sorriso meio felino e malicioso. Imaginava que tipo de sujeira seus perfeitos coleguinhas de classe estariam escondendo… Traições, bullying, desvios sexuais, crimes cometidos, problemas de família? Talvez estivesse divagando demais, e provavelmente os segredos reais não fossem um terço tão surpreendentes quanto ela pensava que eram. Bom, uma garota pode sonhar.

O som estridente do sinal lhe avisou que a aula de literatura finalmente terminara. Comparado ao suplício divino que fora a aula de Levi, as coisas tinham passado muito mais rápido dessa vez. Enquanto a professora tirava as últimas dúvidas de alguns alunos que provavelmente estavam mais interessados em sua figura que em suas explicações, Ymir se espreguiçou, cansada depois de dois horários sentada, e passou a observar a turma com o canto dos olhos.

Um pequeno sorriso de satisfação se formou no rosto da morena. Era divertido imaginar que tipo de coisa seus colegas de turma estavam guardando. Mas antes de começar a divulgar seu maravilhoso Clube de Ajuda, ela precisava cuidar de duas coisas urgentes.

O primeiro era mais fácil, que era determinar onde os segredos ficariam guardados. Ela não queria usar seu caderno, porque aquilo era previsível demais, e mesmo que sempre andasse com ele nos braços — ou seja, em segurança -, ainda não era difícil que a página destinada aos “interesses” do Clube fosse rasgada, se molhasse ou se perdesse. Além disso, se ela deixar o caderno sem supervisão, alguém poderia muito bem abrí-lo e se deparar com os podres dos outros alunos da turma.

Ela podia muito bem usar a tecnologia e esconder tudo em seu celular, no computador de sua casa ou em um pen drive, mas Ymir sabia que não era a melhor hacker existente, e que no colégio existiam pessoas que poderiam facilmente invadir seus arquivos e pegar tudo caso quisessem. Além disso, ela queria algo que soasse mais interessante e misterioso.

Foi aí que ela viu o sorrisinho adorável que sua professora de literatura estava dirigindo a um dos outros alunos enquanto conversava com ele. Como ela podia ter sido tão idiota? Era óbvio que esconder tudo em um livro era perfeito. Não precisava ser numa obra grande ou cara — qualquer um que tivesse espaço para rascunhar um pouco serviria. Ela podia comprar um desses facilmente em um sebo enquanto voltava para casa.

O sistema seria simples e prático. A cada novo membro que entrasse, ela escreveria o seu segredo em uma página aleatória, e depois o membro assinaria para dar legitimidade à informação. Assim, apenas ela saberia onde estavam os segredos de cada pessoa, e nenhum dos membros saberiam os segredos uns dos outros, já que o livro ficaria em um local seguro… Na sede que ela precisava definir com urgência.

Sua própria casa estava completamente fora de questão. Ela não queria ter que expor sua vida pessoal a desconhecidos potenciais, e muito menos ter que gastar coisas como comida e energia elétrica com isso. Sem falar que, por mais que ela não morasse na periferia da cidade como alguns alunos, sua casa ainda podia ser inacessível para alguém — nunca se sabe.

Era melhor encontrar um lugar que fosse relativamente próximo à escola, assim todos poderiam se reunir sem dificuldades logo depois das aulas. A Freedom High School ficava perto de uma bela zona residencial, e a garota sabia que algumas casas ali estavam para aluguel, e muitas vezes por preços bem altos. Tudo por uma localização privilegiada.

Ela não tinha dinheiro para isso, obviamente, mas quem disse que ela precisava seguir as leis? Era só fazer as reuniões no horário noturno, enquanto ninguém vai visitar os imóveis. E se um deles fosse alugado, era só mudar para a casa seguinte. Desse jeito, ela tinha uma localização acessível, sem falar de energia e água que ela nem precisaria pagar. Genial.

Algumas vezes Ymir tinha vontade de beijar o próprio reflexo no espelho de tão esperta que ela se achava. Aquela ideia tinha vindo tão rápido, praticamente criara a si mesma. Agora a única coisa que faltava era exatamente a mais importante: colaboradores, como tinha escrito no papel à sua frente.

O local mais lógico para começar a procurar era, claramente, sua sala de aula. A turma que estudava na sala 104 era bastante diferente entre si, possuindo desde bolsistas até a própria filha do prefeito Reiss — exatamente o que ela pretendia para seu clube especial. Quanto mais diversos fossem os membros, mais talentos diferentes eles teriam, mais segredos diversos, mais diversão e menos trabalho para ela mesma.

Começou a olhar discretamente os colegas, começando pelos que estavam sentados à sua frente. Como Ymir preferia se sentar no fundo da sala, isso lhe dava ampla visão da maior parte da turma. Na fileira seguinte, um casalzinho — Hannah e Franz, se não se enganava — conversava animadamente entre si, aproveitando o intervalo entre as aulas. Pareciam bastante unidos, e a morena não se recordava de tê-los visto brigando sério alguma vez. Discutiam de vez em quando, reatavam, e, no geral, eram um casal sem muitos problemas ou algo interessante a mostrar. “Casal meloso chatinho, não tô afim de ser vela”. Deu o veredicto final em seu caderno, e partiu para a próxima.

Nas cadeiras ao lado de Hannah e Franz estavam os dois amiguinhos conhecidos, Jean e Marco. Sabia que Jean costumava tirar notas medianas e se meter em problemas de disciplina, especialmente se Eren Jäger também estivesse envolvido. Talvez aceitasse sua proposta em troca de ter sua ficha limpa, apesar da moça não conseguir imaginar que tipo de segredo ele estivesse escondendo por detrás da cara de cavalo. Já Marco era o aluno mediano por si só, um perfeito anjinho de sardas que ajudava a todos. Se não escondesse alguma coisa por detrás da reputação de bom moço, ao menos tiraria trabalho de suas costas. No geral, eram bons candidatos, e anotou seus nomes. “Jean e Marco. No mínimo são um casal gay. No máximo, vão me tirar muito trabalho, ser um casal gay e ter adotado um filho em segredo. Preciso chamar os dois.”

Tendo decidido sobre os dois amigos, Ymir prosseguiu em sua análise. Na fileira seguinte, mais um grupinho desinteressante: uma garota de marias-chiquinhas chamada Mina Carolina, seu amigo Thomas Wagner e um garoto com cara de fuinha chamado Dax. Discutiam qualquer coisa da matéria de literatura, não se metiam em problemas, não se destacavam e também não se escondiam. “Ela tem um cabelo muito legal, mas acho que o shampoo não é segredo suficiente. E os caras, não vou nem começar, não quero saber o segredo de se ser tão feio.”

O resto da antepenúltima fileira parecia igualmente decepcionante, merecendo algumas reviradas de olhos e comentários sarcásticos em seu caderno, até finalmente achar alguém de interesse. Uma garota loira, os cabelos presos num rabo de cavalo baixo, digitava ferozmente em um celular por debaixo da mesa, com a testa franzida de preocupação. Era bastante bonita, ainda que não fizesse o tipo da outra, que preferia meninas mais baixas. O que quer que estivesse falando por mensagem, parecia deixá-la chateada, o suficiente para chamar a atenção de Ymir. Se não se enganava, a loira se chamava Elizabeth Annabelle, e era a típica garota bonita que chama a atenção dos rapazes da escola. Não havia muito o que soubesse sobre ela, realmente, já que não costumava ouvir o nome nos boatos a que tinha acesso.

“Será que essa boneca Barbie tem algo interessante para contar? Acho que vale a pena dar uma checada melhor depois…”

Os próximos a chamarem sua atenção foram Mikasa, diligentemente terminando de copiar a matéria que restava no quadro, e Eren, muito ocupado cochilando em cima do livro de literatura. Pelo que sabia, a garota não tinha nenhum tipo de problema em sua ficha perfeita de melhor aluna da escola, o que já era suspeito o suficiente na opinião de Ymir — afinal, quem consegue se sair tão bem em tudo sem precisar de ajuda? Por outro lado, o rapaz era mais conhecido por se meter em brigas, apelidar todos a quem conhecia e jogar videogame mais do que estudar, o que lhe garantia uma quantidade razoável de notas vermelhas. Talvez ele estivesse disposto a trocar uma situação escolar mais confortável pelo segredo do porão da família Jäger.

“Se eu chamar o titãzinho, a Miss Perfeição vem junto e me tira muito trabalho. Perfeito.”

Ao que parecia, Sasha estava comendo de novo, o que não era realmente uma surpresa. Diferente da maioria dos bolsistas, que se sentava nas primeiras fileiras, a garota preferia se sentar no meio da sala para que seus lanches clandestinos não fossem descobertos tão facilmente. Agora, enquanto era observada, a moça interiorana se ocupava em comer uma trufa de chocolate ao invés de copiar a matéria. Um sorriso involuntário surgiu no rosto de Ymir, ao lembrar de como a garota de rabo de cavalo lhe devia alguns favores e tinha algumas notas menos que razoáveis, além de ter certos problemas de concentração que gritavam trauma na opinião da moça de sardas. Devia ter pensado nela antes.

“Se conseguir fazer Sasha parar de comer por cinco minutos, talvez ela consiga contar alguma coisa de interesse.”

Do lado da garota batata, Connie Springer parecia estar aproveitando para ler uma revista em quadrinhos por debaixo da carteira. Aquele era um truque típico que praticamente todo estudante conhecia, mas que nunca ficava fora de moda. Até mesmo a morena já tinha feito isso antes. O garoto careca era outro bolsista, assim como a Sasha, e a considerar como era distraído com certeza devia estar com dificuldades nas notas de matérias teóricas. Além disso, considerando como ele era rápido e bom nos esportes, ele com certeza não gostaria de perder a bolsa e sua chance de continuar fazendo atletismo no colégio. No entanto, ela não fazia ideia de qual segredo ele poderia estar escondendo.

“Com certeza deve estar com notas baixas. Só espero que o segredo não seja como ele consegue manter a cabeça tão bem raspada.”

No canto oposto da sala em relação ao local que Ymir se encontrava, um garoto de cabelos escuros e olhos cinzentos tomava notas de forma diligente. Tudo nele gritava perfeição e carisma, desde o uniforme perfeitamente alinhado, o caderno marcado com papéis coloridos em ordem e os lápis cuidadosamente posicionados sobre a mesa, de forma metódica e quase obsessiva. Nada do que não se esperava de Blake Summerland, o queridinho dos professores e membro do grêmio estudantil. Ainda que não tivesse votado nele para a função, a moça precisava admitir que ele era competente e trabalhava em prol da escola como poucos o fizeram antes. De fato, até nisso o rapaz conseguia ser perfeito — nunca perdia a paciência com ninguém e sempre estava disposto a ajudar os colegas, comportamentos que deixavam a morena intrigada e até mesmo aborrecida. Esse tipo de pessoa altruísta sempre lhe soara muito falsa, com exceção de Historia Reiss, que parecia ser naturalmente perfeita demais até para respirar.

Sabia que Blake estava longe de ter problemas com notas, mas também estava ciente de que ele não se importaria de participar como professor. O fato de o horário mais adequado para as reuniões provavelmente ser à noite não iria coincidir com a agenda lotada e cronometrada do garoto, então não havia motivo plausível para que ele negasse o convite.

“Acho que além da Barbie também vou ter que chamar o Gary Stu, nem que seja para tirar mais trabalho das minhas costas. Além do quê, que tipo de segredo ele deve ter? Dormiu sem querer na aula do Pixis? Ha.”

O próximo grupo não era nada interessante: Apenas um conjunto de garotas desagradáveis, lideradas por Hitch, uma moça de cabelos claros e sorriso irritante sempre frequente. Ymir sequer cogitou a entrada delas no clube — nenhuma delas tinha qualquer tipo de destaque que não fosse gostar de perturbar alunos mais fracos em troca de cola para as provas, e nenhum tipo de habilidade que valesse a pena ou que outras pessoas mais amigáveis não possuíssem. A morena assistiu quando uma delas dobrou cuidadosamente um papel de bilhete e jogou numa mesa próxima, atingindo uma garota de cabelos negros e olhos castanhos que se ocupava em copiar a matéria.

Quase em modo automático, a menina levou a mão à cabeça e tirou o bilhete de entre os fios negros, sob um coral de risadas das outras quatro moças. Fazendo força na memória, a estudante sardenta se lembrou do nome da outra — Joanna Hawthorne, a tímida filha do pastor local. Além de tocar instrumentos em festas religiosas e ser um dos alvos mais frequentes das brincadeiras de Hitch e suas amigas, não havia muito o que dizer sobre Joanna, que era uma aluna boa com zero amigos. Ymir ainda observava quando a garota leu calmamente a nota e então a guardou num dos bolsos da mochila, voltando a copiar como se nada tivesse acontecido.

“Será que vale a pena chamar Madre Teresa de Calcutá? Ela toparia qualquer coisa pra se livrar da Sorriso Colgate e suas cupinchas, mas o que poderia me dar em troca?”

Por último, a última figura notável entre os estudantes que se sentavam no meio da sala era uma outra garota, de cabelos ruivos curtos e ondulados, óculos e olhos castanhos, que assim como Connie, se concentrava em ler por debaixo da carteira. A única diferença era que o livro que estava em seu colo era bem mais grosso que a revista do garoto. Ymir, assim como todo mundo, sempre via a moça lendo alguma coisa ou andando com um livro na mão. No entanto, ela não era especialmente social. Era tão quieta que Ymir demorou alguns segundos para se lembrar do nome dela.

Liesel Falk, como se ela fosse uma garota protagonista de uma de suas histórias. Ela estava no colégio desde o ano anterior, e apesar de não ser mais uma novata, não tinha nenhuma amizade ou inimizade com ninguém em especial. A garota apenas ficava quieta no seu canto, se concentrando em tirar notas no mínimo medianas para poder continuar estudando e lendo tudo que lhe interessava nas horas vagas. Uma presença tão neutra que praticamente passava despercebida.

“Ou ela é antissocial por natureza ou ela tem problemas pra fazer amigos. De qualquer forma, alguém que lê tanto assim deve saber algumas matérias e vai me tirar trabalho.”

Agora restavam os alunos que se sentavam sempre na frente, os certinhos queridos dos professores. Logo de cara Ymir encontrou Armin Arlert copiando a matéria rapidamente em seu caderno. Ele era grande amigo de Mikasa e Eren, mas se recusava a trocar seu lugar na primeira fileira para se sentar perto dos colegas. Sozinho, ele realmente parecia aquele típico nerd fracote que tem a cueca puxada por valentões em filmes americanos. Além disso, aquele corte de cabelo apenas ajudava a tornar seu rosto bastante feminino.

“Nerd magrinho com cara de bicha. Se não sofrer bullying, deve ser um travesti, ou então os dois. E de brinde ainda vai tirar trabalho das minhas costas. Preciso chamar, se bem que aposto que vai acompanhar a Miss Perfeição e o titãzinho por natureza.”

Do lado do garoto baixinho, estava o trio de amigos formado por Bertholdt, Reiner e Annie. Assim como Mikasa, Armin e Eren, eles quase nunca se separavam, e era até interessante ver o quanto eles eram unidos apesar das óbvias diferenças de temperamento.

Reiner estava sentado ao lado de Armin, e ainda copiava a matéria em seu caderno, mas de uma forma bem mais tranquila que o garoto baixinho. Ao contrário dele, Reiner tinha cara de homem e aparentava ser capaz de produzir quantidades saudáveis de testosterona. Ymir sabia que ele era um atleta e jogava no time de futebol do colégio, e pelo jeito que seu corpo parecia ser bem trabalhado — ao menos pelo o que ela podia ver de acordo com o uniforme, não que ela estivesse interessada em saber mais detalhes -, devia ser um bom jogador.

Além disso, o rapaz era conhecido por fazer o papel de grande protetor da turma, se dando bem com todos os alunos igualmente e combatendo com força todo tipo de bullying e injustiça que via. Talvez ele fizesse aquilo por pura bondade, mas havia uma coisa no loiro que incomodava Ymir.

“Atleta. Forte. Ajuda os mais fracos e tira notas decentes, e eu tenho a impressão de que está escondendo algo atrás das suas boas ações e papel de heroizinho. Tenho que chamar.”

Sentado logo ao seu lado estava Bertholdt. O garoto era tão alto que as pessoas que se sentavam atrás dele muitas vezes precisavam se esticar para os lados ou até mesmo pedir para ele se abaixar para que elas pudessem ver o que estava escrito no quadro durante as aulas. Mesmo assim, o moreno era dedicado aos estudos e sempre insistia em se sentar na frente e prestar o máximo de atenção possível. E seu esforço realmente dava frutos, já que muitas vezes ele era elogiado pelos professores pelas suas notas boas e bom comportamento.

Bertholdt podia ser alto, mas era tão tímido que não conseguia nem mesmo retrucar uma pessoa quando esta o ofendia. Na verdade, era mais fácil que ele começasse a ficar encabulado, pedir desculpas, suar bastante e, nos casos mais graves, chorar. Seu problema com interação social e autodefesa é óbvio, mas Ymir não fazia ideia de qual tipo de segredo o jovem podia estar escondendo.

“Autoestima completamente desproporcional em relação à altura. Com certeza deve ser virgem. Espero que seja capaz de confessar algo interessante sem mijar nas calças de medo, e que esteja disposto a ensinar o pessoal enquanto eu tomo café.”

Completando o trio estava Annie, a Rainha do Gelo baixinha e muito bonita. Conhecida por ser praticamente impossível de seduzir, pelo seu jeito frio de responder aos outros — mesmo os amigos mais íntimos algumas vezes — e por chegar atrasada constantemente nas aulas, a moça com certeza devia estar escondendo alguma coisa. Além disso, Ymir sabia graças aos doces momentos no vestiário feminino que era comum a garota chegar na escola com machucados que ela com certeza não adquirira durante as aulas de educação física ou em brigas — até mesmo porque outra de suas habilidades marcantes era sua facilidade no combate corpo-a-corpo.

Aquilo era extremamente suspeito e interessante. Será que ela apanhava do pai ou de algum outro familiar? Ou então tinha depressão e se cortava quando estava sozinha e escondia tudo publicamente atrás de uma fachada fria e estóica? As possibilidades eram muitas.

“Aposto que aqueles machucados devem ter uma história interessante. Mais uma que preciso chamar. Acho que terei mais chances com ela se Bertholdt e Reiner concordarem também. Preciso deles três.”

Historia era a última estudante que se sentava na frente que era digna de alguma atenção. Ela era meiga, adorável, tirava notas boas, tratava todos com a maior doçura e era a única pessoa que conseguia ser naturalmente fofa sem dar desgosto em Ymir. Pelo contrário, a morena a achava tão doce que só de olhar para ela, era como se fosse ganhar uma bela diabetes. Se bem que, a considerar como Historia era adorável, aquilo não era tão ruim.

A única coisa que Ymir conseguiu anotar depois do nome da moça em seu caderno foi o desenho de um coração. Após perceber o que fez, no entanto, ela fechou o mesmo discretamente, ligeiramente embaraçada. Não era hora para se perder em devaneios estúpidos como aquele, ainda mais apaixonados.

“Certo, ela é a filha do prefeito, minha amiga, uma boa aluna e isso é muito importante. Sei que vou ter que pedir um segredo dela, mas… Eu a quero. Mais do que todo mundo aqui.”

Aquele pensamento era tão forte em sua cabeça que ela não precisou anotá-lo.

Felizmente, não teve que esperar por muito tempo para que a sineta irritante de sempre anunciasse o fim de mais um dia de aula. Suspirando audivelmente de alívio, a morena jogou os poucos materiais que tinha usado de volta na mochila de forma desordenada, saindo da sala com a primeira leva de alunos ansiosos por liberdade. Normalmente ela esperaria por Historia e lhe faria companhia até que o motorista do pai da loira viesse buscá-la, ou, nos dias em que a amiga fazia meio-período como bibliotecária, iria diretamente para casa. Hoje, no entanto, precisava resolver algumas coisas no caminho.

O corredor dos armários estava começando a se encher de estudantes faladores enquanto Ymir guardava seus materiais escolares e pegava seus sapatos de caminhada, antes de trancar a porta com um cadeado. Refletiu por um instante se poderia guardar o livro dentro de seu armário, mas logo descartou a ideia — sabia de inúmeros relatos de arrombamentos durante a noite, e era um risco que não estava disposta a correr. Uma vez tendo trocado os calçados fechados da escola por tênis mais macios, a moça deu uma passada rápida no banheiro para verificar se seu cabelo e roupas estavam em ordem, antes de sair do prédio. Ninguém lhe dirigiu a palavra quando atravessou o pátio principal e passou pelo ginásio, com exceção de um grupo de crianças que se desculparam por quase terem trombado com ela e do responsável pelo portão, que já a conhecia bem.

“Indo embora sem esperar a Historia, Ymir?” Hannes perguntou, brincalhão. O loiro de bigode era conhecido pelos alunos por sua personalidade amigável, por conhecer praticamente todos os estudantes e por acobertar escapadelas durante o horário de aula. “Vocês não brigaram, né?”

“Não, só tenho umas coisas pra resolver antes de ir pra casa. Resolvi ir embora logo, ou vou chegar muito tarde.” Explicou a estudante, com um tom de voz indiferente. “Por isso não posso conversar muito. Até amanhã.”

O homem assentiu ao abrir o portão, e acenou enquanto ela se afastava. “Certo, não vou te atrapalhar com suas responsabilidades… É bom saber que você tem algumas, Ymir. Tome cuidado, e até amanhã!”

Tomou o caminho que sempre fazia para ir para casa — seguir pela avenida que passava atrás da escola em direção ao centro da cidade. Ymir não morava numa área privilegiada, mas também não morava na perigosa periferia, ainda que soubesse como se locomover por lá sem ser notada. A caminho de sua residência havia um lote de casas a serem alugadas, provavelmente com um preço muito acima do que a localização e a planta justificavam, a julgar que estavam na mesma situação desde que a morena ainda era do ensino fundamental. Imaginava que uma delas fosse servir perfeitamente como sede do grupo, já que ainda estavam ligadas às redes elétricas e de água. Antes disso, no entanto, teria que fazer um desvio para comprar o livro.

Sua primeira parada foi num antiquário a duas quadras da escola, pelo qual ela frequentemente passava quando matava aula para ir tomar sorvete. A fachada era cheia de coisas que a morena nem imaginava o que seriam, instrumentos oxidados de metal, móveis de madeira escura que a faziam lembrar da casa da avó, e um enorme espelho embaçado que refletia as pessoas que passavam em frente. Parou por um instante para se olhar nele, e a forma distorcida de seu reflexo a fez lembrar dos monstros do jogo favorito de Eren — Titãs, se não se enganava.

O tilintar de um sino na porta acima dela ecoou de forma triste quando entrou na loja. Uma olhada rápida revelou prateleiras empoeiradas e nenhum atendente por perto para ajudar. Os seus passos ecoavam também de forma esquisita entre as estantes cheias de coisas mais velhas que ela, e devia admitir que o local em geral lhe dava uma sensação muito estranha e desconfortável. Ymir não era uma de se assustar facilmente, e não compartilhava do gosto de alguns de seus amigos por coisas assustadoras, mas estar naquela loja a fazia se sentir muito como a protagonista de um dos filmes que viam juntos e que faziam Historia esconder o rosto em seu pescoço. O que era uma sensação totalmente ridícula — ela tinha vindo ali comprar um livro, não um velho amuleto com um demônio dentro.

“Deseja alguma coisa?” Uma voz gentil perguntou, ao mesmo tempo em que uma garota de longos cabelos escuros e olhos verde-água saiu detrás de uma escultura grega falsa. Não parecia ser muito mais alta que a amiga de Ymir, e a pele de porcelana e as mãos recatadamente cruzadas sobre o colo realmente lhe faziam lembrar da loira.

“Sim, por favor. Eu queria algum tipo de diário ou caderno antigo, um livro onde eu possa escrever. Vocês tem algo desse tipo?” Perguntou para a atendente, que sorriu de forma automática e impessoal.

“Sim, nós temos. Por favor, me siga.”

A estudante seguiu a atendente até os fundos da loja, onde uma estante enorme de madeira escura estava vergada sob o peso de livros e mais livros antigos. O cheiro de poeira, mofo e traças fez com que a morena espirasse alto.

A garota da loja parou em frente a Ymir e apontou para a estante, como se ela já não fosse claramente visível. “Temos todos esses. Gostaria de algum período específico de tempo?”

“Não, na verdade… Desde que tenha muitas páginas em branco para escrever, não me importo muito com de onde venha.”

Assentindo de forma automática, a moça de cabelos longos prosseguiu. “Está planejando falsificar alguma coisa?”

A pergunta pegou Ymir de surpresa, e ela levantou a sobrancelha, chocada. “O quê?? Não, eu só quero um caderno velho pra escrever!”

“Muitos vem comprar esse tipo de mercadoria para forjar cartas, testamentos e outros documentos antigos. Se for esse o seu objetivo, eu não irei te julgar, mas apenas recomendar que realmente escolha um caderno do período de tempo adequado. Já tivemos vários problemas com enganos desse tipo no passado.”

“...Não, eu realmente só quero um caderno velho em que possa escrever.”

“Muito bem então. Escolha o que mais lhe apetecer. Estarei no caixa quando tiver se decidido.” Com essas palavras, a atendente fez uma pequena mesura e voltou com passos monótonos para a frente da loja, como se nada tivesse acontecido.

Nota para mim mesma: Nunca mais voltar aqui. Segunda nota para mim mesma: Manter contatos para caso seja útil falsificar algum documento no futuro.

Depois de alguns minutos examinando vários cadernos das mais variadas origens — cadernos de navegadores, diários de imigrantes, diários de dondocas da época da fundação de Rose Fields, cadernos de antigo papel de carta — Ymir se decidiu por um caderno simples de capa de couro, sem detalhes e sem nome. As páginas estavam meio amareladas, e a moça soltou um sonoro espirro quando o abriu da primeira vez, mas estava todo em branco e era bastante fácil de esconder em algum local pequeno. Também não chamaria muito a atenção de um leigo que o visse, achando se tratar apenas de algum diário antigo ou a versão vitoriana de um blog. Tendo chegado a uma conclusão, levou o caderno de volta para a atendente esquisita, que lia um exemplar de 50 Tons de Cinza enquanto a esperava no caixa.

“Vai querer só isso?” Perguntou a moça com uma voz amigável, depois de fechar seu livro com estalido alto.

“Sim, só.”

Alguns minutos mais tarde, estava com o caderno dentro da mochila e saindo daquele antiquário o mais rápido que conseguia sem começar a correr, deixando a atendente maluca para trás.

Seguiu por uma rua transversal e de volta a seu caminho de sempre, passando por várias lojas e pessoas sem prestar muita atenção. Depois de aproximadamente vinte minutos de caminhada, finalmente chegou ao bloco de casas para alugar, localizado em uma rua sem muito movimento não muito distante do Freedom High. Parecia o melhor lugar, realmente, levando em conta que seus possíveis colegas de clube teriam que vir da escola a pé. E também não era perto o suficiente para que as outras pessoas estranhassem o trânsito de adolescentes da mesma escola para aquela região. Ymir ponderou todos aqueles fatores enquanto mexia de forma metódica em sua mochila, disfarçando o fato de ter parado como uma garota qualquer procurando os fones de ouvido. Pôs os dois e começou a fingir estar selecionando alguma música enquanto procurava qual das casas no bloco seria a mais fácil de entrar.

Logicamente que ela não iria alugar uma delas se havia uma maneira muito mais fácil.

Uma casa branca e comum chamou sua atenção. Parecia estar sendo mantida em ordem — não havia sinais externos de infiltração ou pichação — mas não ser vistoriada com frequência, visto que o mato crescia amplamente no jardim e uma das janelas estava suja. A porta também não parecia ser muito difícil de abrir ou arrombar, especialmente não para uma pessoa experiente como ela. Depois de olhar calmamente para ambos os lados da rua e se certificar que ninguém a via se aproximando, Ymir pousou a mochila em cima do tapete de “Bem-Vindos” um pouco puído e tirou uma chave de fenda pequena de um dos bolsos. Alguns segundos de trabalho mais tarde e um sonoro click seguido de um rangido da porta ao abrir demonstrou que estava correta em seu raciocínio. Rapidamente, pegou a bolsa e entrou na sala da casa, deixando a porta encostada de modo a não parecer ter sido aberta.

Por dentro, a casa não parecia destoar da imagem mediana que demonstrava por fora. A sala de entrada era pequena, e tinha apenas dois quartos, mas as explorações de Ymir revelaram uma cozinha bastante grande e uma sala de estar enorme que incluía até uma lareira. Não imaginava que fossem precisar de uma — a não ser que ela precisasse queimar o livro em alguma ação desesperada para não ser pega, o que sinceramente não imaginava acontecendo — mas era interessante talvez para assar marshmallows. Poderia usar a sala de estar grande para as reuniões gerais e um dos quartos para os segredos, além da cozinha ser grande o suficiente para caber um grupo razoável de pessoas. Testou todas as torneiras, inclusive a da banheira, e as luzes — realmente, estava tudo funcionando com primor, para demonstrar o funcionamento a possíveis inquilinos. Era, para todos os quesitos, perfeita.

Ninguém na pequena alameda viu a garota morena que trancou uma das casas vazias e saiu com um sorriso no rosto de volta para casa.

Ymir foi dormir se sentindo uma deusa, mas acordou imaginando o verdadeiro martírio que seria ter que suportar mais um dia de aula. A única coisa que a fazia ter vontade de ir pro colégio ao invés de matar aula era o fato de que precisava anunciar publicamente a criação de seu clube. Teoricamente, é um clube de estudos, que seria chamado por ela de “Clube de Voluntários”. Afinal, as pessoas vão se voluntariar para ajudar umas às outras ali, e também para mais algumas coisas…

Pelo menos caminhar até a escola serviu para deixá-la mais acordada e atenta ao que estava ao seu redor. Antes de ir para a sala, a moça deu uma última passada no banheiro feminino para retocar o cabelo e o uniforme. Ela não queria parecer exemplar demais — até porque nem era desse jeito -, mas queria estar no mínimo apresentável para os colegas.

Quando chegou na sala 104, faltavam dez minutos para a primeira aula do dia, que seria de biologia com a professora Hanji, uma mulher bonita, mas que falava pelos cotovelos e era tão entusiasmada e apaixonada pela própria matéria que muitas vezes excedia o horário estipulado para suas aulas. Por causa disso, praticamente todos os alunos já estavam sentados, esperando o sinal tocar para não perder o conteúdo — se bem que Ymir sabia que boa parte deles desistiria de acompanhar depois dos primeiros minutos.

Aquilo era bom. Ela queria mesmo um bom público para escutá-la.

A jovem deixou seus materiais na mesa e caminhou até a frente, subindo no pequeno palco destinado aos professores e batendo o pé com força na madeira, chamando a atenção de todos.

“Escutem aqui! Estou pensando em criar um clube de estudos, mas pra isso preciso de voluntários. Sei que tem muita gente aqui que está quase reprovando, e que também temos bons alunos. Então preciso de gente pra ensinar e gente pra aprender. Quem estiver interessado, que venha falar comigo depois da aula pra saber dos detalhes. Agora podem voltar a conversar, ou dormir, ou seja lá o que estavam fazendo.” Ela falou, encarando todos os seus colegas, que não souberam direito como reagir. Alguns se dividiram em olhar para a cara da moça como se achassem que ela tinha pirado de vez ou que na verdade quem estava ali era outra pessoa fingindo ser ela, enquanto outros simplesmente riram da situação. No final, parecia que ninguém estava querendo levá-la a sério.

Mesmo assim, a morena não se abalou, e casualmente voltou a sentar-se no fundo da sala para aguardar as aulas passarem. E como se fosse para zoar com sua cara, elas demoraram verdadeiros séculos. Hanji tinha se animado mais do que nunca explicando sobre a reprodução e a sexualidade humana, deixando boa parte da turma encabulada, Nanaba decidiu dedicar sua aula para falar sobre todas as mudanças minuciosas no mapa da Europa durante a Segunda Guerra Mundial e Gunther se perdeu em meio às formulas de temperatura, conversão de escalas e buscando uma forma de falar sobre como os corpos trocam calor sem deixar tudo com um extremo duplo sentido — e fracassou nessa tarefa, por sinal.

A única coisa que passou rápido foi o intervalo, já que Historia a acompanhara para lanchar da mesma forma que fizera no dia anterior. E pelo menos ela já tinha dito que iria participar das atividades do clube com Ymir. Isso deixou a morena bastante contente, já que tirava o trabalho de precisar chamá-la. Aquela garota literalmente era uma santa.

Ao final das aulas, a moça arrumou suas poucas coisas e ficou aguardando em sua carteira. Historia logo chegou e sentou-se ao seu lado, e enquanto a sala se esvaziava, as duas jovens podiam notar que alguns alunos tinham decidido ficar.

Para a sorte da morena, eram todos alunos de interesse segundo suas anotações que foram feitas no dia anterior. Mais exatamente Jean e Marco, o casalzinho gay segundo suas suposições, Sasha e Connie, os bolsistas, Armin, o nerd que talvez se traveste nas horas vagas, e por último Reiner e Bertholdt, que vistos desse ângulo também pareciam outro casal gay, só que um casal gay de nerds.

É, aquilo já estava ótimo para um começo. Na verdade, era até mesmo um pouco surpreendente, pois ela não esperava uma quantidade relativamente grande de pessoas logo de cara. Não que ela fosse reclamar disso, é claro.

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“Então vocês todos estão interessados no clube?” Ela questionou, e todos os outros ali presentes afirmaram com as cabeças. Sem perceber, a garota deu um sorrisinho, aprovando bastante aquela situação.

“Todo mundo sabe que eu gosto de ajudar. E acho que o Bert, Armin, Marco e Historia vão ser bons professores também. Não que minhas notas sejam tão altas quanto as deles, mas eu também não estou com risco de reprovar.” Reiner falou, cruzando os braços e dando um sorriso gentil.

“Deixe disso, minhas notas não são essas coisas também. Eu não estou abaixo da média em nada, mas também não tiro só dez como a Mikasa faz.” Marco retrucou, ligeiramente embaraçado. Ele estava ali mais para controlar o amigo do que para dar aulas, se bem que Jean também precisava delas.

“Pelo menos você não está fodido em matemática como eu, Marco. E o resto aqui?” Jean logo aproveitou para comentar, se bem que ele não estava com notas ruins apenas naquela matéria — química, física e biologia ofereciam também outros belos exemplos de notas vermelhas em seu boletim anual.

“Bem, eu estou me dando mal em exatas também…” Sasha afirmou, ligeiramente encabulada. Ela era bolsista, precisava passar de ano para poder continuar estudando ali sem ter que pagar nada.

“Já eu não entendo nada do que a Petra, Nanaba e Pixis falam. Nada mesmo.” Connie disse, sem parecer estar muito preocupado, mesmo que sua situação fosse basicamente a mesma que a de sua outra colega bolsista.

“B-bem, eu acho que posso ajudar com as matérias de humanas, mas posso ver se consigo explicar as coisas de exatas também… Vou me esforçar, prometo.” Bertholdt falou, tímido, porém sincero, enquanto recebia uma pequena palmada de aprovação do melhor amigo nas costas.

“Estou aqui pra ensinar, mesmo. E não se preocupe, Bertholdt, eu não me importo de ficar com as matérias de exatas. Faço isso com o Eren o tempo todo.” Armin comentou, parecendo estar mesmo confortável com a situação. Considerando como o titãzinho realmente devia ser, aquilo soava mais do que verídico para Ymir e também para os outros presentes.

“As reuniões vão ser aqui, Ymir?” Historia enfim perguntou, curiosa e ajeitando o cabelo loiro para trás enquanto olhava para a garota mais alta. Se elas estivessem a sós, a morena não saberia se seria capaz de resistir a tamanha beleza.

“Não, mas também não vão ser na minha casa. Me sigam, vou mostrar o lugar. Não é muito longe daqui.”

O grupinho seguiu Ymir, um tanto curiosos para onde iriam. Como a maioria deles estava acostumado a voltar para casa sozinho ou com os amigos, a caminhada em si não seria um problema; apenas Armin teve que avisar a Eren e Mikasa por mensagens que voltaria mais tarde, e Historia ligou para o motorista do pai e o dispensou por aquele dia, dizendo ter afazeres na escola.

Houve pouca conversa no caminho até o quartel-general que a morena visitara no dia anterior, no geral apenas comentários de passagem e pequenas piadas entre os que já eram mais próximos. A líder do clube ignorou solenemente a maior parte dos colegas durante a caminhada, mais preocupada em verificar se alguém conhecido os via.

Uma vez tendo chegado à casa branca, a moça de sardas baixou a mochila e pediu para os colegas ficarem de olho na rua, enquanto tirava sua já conhecida chave de fenda do bolso da mochila.

Os olhos azuis de Armin se arregalaram quando a garota começou a mexer na fechadura, da mesma forma que fizera anteriormente. “Ymir… Isso não é… Arrombamento…?”

“Não, essa é uma chave mágica que abre todas as portas… Lógico que é arrombamento, né?” Ela revirou os olhos, ao mesmo tempo em que a porta se abria com um click. “Você esperava que eu fosse pagar por uma casa dessas só pra gente se reunir?”

“M-Mas e se formos pegos…” Bertholdt olhava de forma insegura para a casa aberta, como se policiais estivessem apenas esperando que entrassem para saltar por detrás das moitas e prender o grupo inteiro.

“Não seremos. Agora, se algum de vocês é uma bichinha assustada e está com medinho só por causa disso, que vá embora agora. Confiem quando digo que coisa muito pior vai acontecer nesse clube.” Ymir dessa vez estava absurdamente séria, mostrando que não estava para as brincadeiras que eram seu costume. Talvez essa situação fosse o primeiro teste para saber se aquele grupo estava apto a fazer parte de seu clubinho. Ela observou claramente algumas pessoas repensarem sua decisão de vir até ali, mas os olhares dirigidos a ela logo se tornaram determinados. A moça não conseguiu conter um sorriso quando entrou na sala.

“Bem-vindos à sede do Clube de Voluntários.”

Uma vez estando todos acomodados na sala de estar — realmente era grande, ainda caberia mais gente em possíveis expansões do clube -, já poderia começar a explicar as regras de fato, e revelar o preço que precisariam pagar para ingressar naquele grupo. Antes de começar, Ymir analisou calmamente cada um dos colegas, verificando seus comportamentos. Os mais tímidos, como Armin e Bertholdt, pareciam preocupados ou um pouco inseguros. Marco aparentava estar tranquilo, mas, levando em conta como os cantos de seu sorriso tremiam um pouco, algo o estava deixando temeroso. Jean, por outro lado, parecia não se importar com nada, até pela posição despojada que tomara para si no sofá. Reiner apenas esperava, sem demonstrar nenhum tipo de emoção além de talvez pena pelo melhor amigo encolhido a seu lado. Sasha parecia estar com fome, e Connie tamborilava os dedos em impaciência.

Historia apenas olhava para ela e sorria, e Ymir desviou os olhos antes que pudesse corar.

“Vocês devem estar imaginando por que eu os trouxe aqui. Qual o motivo de um simples clube escolar ser escondido dessa forma numa casa arrombada, vocês me perguntam? Bom… Os mais espertos de vocês, e espero que sejam espertos mesmo, já devem ter percebido que tem alguma coisa que eu não estou contando.”

A morena pausou sua fala para efeito dramático, e observou cada um dos colegas mais uma vez. Sasha e Connie pareciam ter se unido ao time de temerosos de Marco, Armin e Bertholdt — Ymir apenas esperava que nenhum deles fosse mijar no lugar, ou ela os faria limpar com a língua. Jean parecia moderadamente interessado em suas palavras, e Reiner levantou a sobrancelha numa clara indicação de “E aí?”.

“O propósito do Clube de Voluntários é mesmo o que eu disse antes. Vamos ajudar uns aos outros com todas as habilidades que possuímos. No entanto… A extensão dessa ajuda e o preço que terão que pagar em troca não foram mencionados antes.”

“Preço?” Exclamou Jean, parecendo irritado. “Você quer que a gente pague pra estudar? Se for assim, eu pagaria um reforço escolar!”

“Cale a boca e me deixar terminar, Cara de Cavalo.” O garoto fez uma cara feia e iria replicar com uma resposta malcriada, caso Marco não o tivesse segurado pelos ombros.

“Deixe a Ymir explicar, Jean.” O anjinho de sardas pediu ao melhor amigo. “Tenho certeza que há um motivo para ela estar fazendo isso.”

“E tenho mesmo.” A garota de sardas cruzou os braços. “Não, não vai ser só algo do tipo reforço escolar. Problemas na escola estão envolvidos, mas não apenas isso. Esse clube é para ajudá-los em qualquer tipo de problemas que tiverem… Problemas psicológicos, problemas com a família, problemas com bullies, problemas com gangues, com notas… Seja o que for que tenham, podem ter certeza, vamos achar a solução. Tem a minha palavra, ainda que ela não valha muito mais que um Kinder Ovo.”

Novamente, a líder fez uma pausa para verificar as reações que suas palavras causavam. No momento era simples e pura surpresa que ela via nas faces de todos, menos de Historia, que tinha tido a ideia inicial.

“E… Como você pretende nos ajudar de forma tão ampla assim?” Reiner fez a pergunta que todos tinham mentalizado.

“Tenho meus talentos. E vocês também tem.” A morena afastou uma mecha de sua franja para detrás da orelha. “Uma vez parte do Clube de Voluntários, todos nós estamos comprometidos a ajudar os outros membros. Pense numa espécie de irmandade, família, Clã de World of Warcraft ou o que for. Lealdade, é isso que teremos. Lealdade e dedicação. Por isso mesmo… O preço que vocês vão pagar é uma prova dessa lealdade, uma prova de que podemos todos confiar em vocês. O preço para entrar no clube é o seu segredo mais obscuro.”

Aquele discurso estava se saindo muito melhor do que imaginava, refletiu a moça consigo mesma. Talvez tivesse mesmo talento para as palavras e devesse se candidatar como adversária de Blake Summerland na próxima campanha para o grêmio estudantil.

“Nossos segredos?? Tá maluca?? Por que vou contar meus segredos pra vocês todos só pra receber ajuda na escola?? Prefiro reprovar, se for assim!” Connie exclamou, cerrando os punhos.

“Pra todos não. Só pra mim, que irei registrar seu segredo no livro, junto com todos os outros. Inclusive o meu, se quiser saber.” Ymir respondeu de forma calma. “E, como eu disse, ajuda na escola é apenas parte do pacote. Sei que tem problemas com as gangues do bairro onde você mora, Connie. Não gostaria de se livrar dessa perseguição?”

O garoto careca hesitou por um instante. “Se a sua hipótese estiver correta… E não digo que está... Como você resolveria essa situação?”

“Eu disse, tenho meus talentos. Tenho contatos também. Tenho informações, descobertas ou inventadas. Tem muita coisa que posso fazer por vocês, e que vocês podem fazer uns pelos outros, se me falarem um único segredo uma única vez. Uma vez que seus segredos estejam no livro, eles estão mortos para vocês. Nunca mais ninguém saberá deles. Aquela lareira ali” A estudante fez uma pausa para apontar para o canto específico da parede. “Está aqui pra isso. Prefiro queimar o livro e deixar os segredos de vocês caírem em mãos erradas.”

Sob os olhares surpresos e até admirados de seu público, a moça prosseguiu. “Não vou dizer que sou uma santa e estou fazendo isso tudo por pura caridade, mas também não sou hipócrita o suficiente pra dizer tudo na cara de vocês e depois espalhar as coisas pelas costas. Tenho ao menos um pouco de vergonha na minha linda cara sardenta.” Alguns sorrisos se espalharam pela sala depois da piadinha, quebrando o clima difícil. O de Historia estava especialmente bonito, mas se concentrar nisso naquele momento iria quebrar seu foco.

“Além do mais, não estou forçando vocês a participarem. Escolhe vir quem quiser, e sintam-se livres para ir embora se assim desejarem. Agora… Se um de vocês se encontra em uma situação desesperada, com um problema que são incapazes de resolver sozinhos por mais que tente… Aí eu realmente recomendo ao menos pensar na minha proposta.”

Novamente a sala foi mergulhada em silêncio, e Ymir conseguia quase enxergar as engrenagens se mexendo dentro da cabeça de seus colegas enquanto cada um deles ponderava sua proposta frente a própria situação. Não acreditava realmente que todos se uniriam a ela, mas ao menos alguns deles deveriam estar preocupados o suficiente para aceitar. Ela esperava.

Longos minutos se arrastaram, e a morena percebeu que seu coração batia tão forte em seus ouvidos que poderia fazer um rap com aquela batida. Estava começando a duvidar de si mesma e de seu dito poder de persuasão com aquela demora. Será que os sistemas operacionais mentais daquele povo tinham travado? Por que ninguém respondia logo? “Droga, respondam, qualquer um, aceite, aceite…”

“Eu aceito.” Disse uma voz suave, e Ymir não pode conter o queixo que caiu quando ela percebeu que aquelas palavras tinham vindo de Armin Arlert.

Sem se importar com o fato de que tinha chocado todos os presentes na sala, o loiro prosseguiu. “Há meses que estou numa situação horrível e não tenho como sair dela sozinho, nem com a ajuda dos meus amigos. Raios, meus amigos nem sequer sabem. Eu não tenho coragem de falar pra eles do que está acontecendo, covarde do jeito que sou…”

“Você não é covarde, Armin.” Historia disse com sua voz mais gentil. Silenciosamente, a loira tinha se levantado e se sentado ao lado do colega baixinho, e agora o confortava como podia. “Se fosse covarde, não teria sido o primeiro a aceitar a proposta da Ymir, não é mesmo? Não ser capaz de resolver isso não te torna inútil. Lembre-se, estamos aqui para ajudar você.”

Ymir conteve a muito custo a vontade de ir até a loira naquele momento e separar os dois daquele abraço de pessoas loiras e fofas, mas Armin lhe poupou do trabalho ao se afastar ele mesmo. “Muito obrigado, Crista… Você é muito gentil.” A garota apenas sorriu em resposta, e a morena sentiu que, se os dois continuassem se encarando aquela forma, ela não seria responsável por suas ações.

Com um pigarro, a líder chamou a atenção de volta para si. “Tem certeza? Não quero ninguém mudando de ideia no meio do ano.”

“Sim. Eu tenho certeza. Eu…” Armin suspirou profundamente. Detestava ter que estar nesse tipo de situação, detestava ser fraco, detestava ser um covarde incapaz de lidar com os próprios problemas. Se ele ao menos fosse corajoso como Eren e Mikasa eram, se ao menos fosse mais forte, se ao menos soubesse reagir… E era exatamente esse esperança que Ymir lhe oferecia agora. A chance de aprender a mudar. De aprender a lidar com aquilo sozinho, e não precisar ser mais protegido.

Não queria, mas seus joelhos tremiam, e sua voz também falhava um pouco quando disse:

“Eu vou contar o meu segredo a você.”

Notas finais
Sim, nós paramos nessa parte só pra deixar todo mundo morrendo de ansiedade. Como já falei antes, a gente deixou no meio do texto aqui diversas pistas sobre os segredos que nossos queridos personagens carregam... Será que vocês conseguem descobrir antes de postarmos o próximo capítulo? XD Façam suas apostas nas reviews! 8DNos vemos no próximo capítulo, pessoal! ♥