Dirty Little Secret
5 Decisão
Notas iniciais
Decisão
Bertholdt gostava de ficar em casa lendo, mas também apreciava bastante sair com as pessoas que gostava. No caso de Reiner, então, era algo que ele raramente negava. Os dois meninos se conheciam desde crianças e viviam juntos desde sempre. Era quase como se fossem irmãos. Por isso, era comum que saíssem juntos, se visitassem com frequência — os pais de ambos inclusive gostavam de ver os garotos tão unidos mesmo com o passar dos anos — e dividissem quase os mesmos gostos e experiências.
Nesse domingo, os dois tinham ido ao cinema, para então irem lanchar e passar o resto da tarde no shopping, mesmo que fosse apenas para ficarem conversando. Se ambos se cansassem, podiam sempre ir para a casa de um deles ou então para algum outro lugar, de qualquer forma.
Naquele momento, ambos estavam na praça de alimentação, dividindo uma mesa enquanto comiam e discutiam o filme. Aqueles momentos eram bom para os dois — Bertholdt se sentia completamente à vontade na companhia de Reiner e podia se soltar sem medo de ser julgado, e a presença do moreno acalmava Reiner e tirava seus pensamentos de lugares ruins, fazendo-o se focar no presente e garantindo assim a sensação de que ele era dono de si mesmo.
É claro, aquilo nunca foi discutido de fato entre eles. Os dois sabiam apenas que gostavam de ficar juntos e que eram bom amigos, e aquilo já bastava. Não sentiam a necessidade de deixar tudo explícito, talvez por já se conhecerem muito bem por anos, ou então por nenhum deles saber de fato como se expressar usando as palavras certas.
Não que importasse. A gratidão que eles sentiam por serem amigos tão próximos era uma certeza que não precisava ser dita o tempo inteiro. E mesmo que ambos compartilhassem tantos momentos juntos, haviam coisas que os dois achavam melhor que ficassem em privado.
Como o fato de que Bertholdt adorava fazer traquinagens na própria escola mesmo que estivesse arriscando ser descoberto porque sentia que isso o tornava mais corajoso e independente. Ou então como Reiner quase matou alguém para defender seu melhor amigo, mesmo que ele nunca soubesse e nem fizesse ideia de que isso tinha acontecido.
Certas coisas ficavam melhor não explicadas.
"Eu ainda não consigo me esquecer daquela garotinha que adorou você cantando quando a gente estava saindo do cinema. Ela era tão fofa!" Bertholdt comentou, sorrindo. Reiner não tinha começado a cantar para se mostrar, mas apenas porque tinha gostado da trilha sonora do filme — que era realmente boa, por sinal -, e fazia isso apenas de forma casual, pois sabia que o amigo gostava de ouví-lo cantando. Na verdade, nem costumava cantar em público, e costumava fazer isso em privado, normalmente em casa enquanto fazia atividades mundanas como cozinhar ou tomar banho. E, honestamente, não achava nada de especial naquilo. Muitas pessoas gostavam de cantarolar aleatoriamente, e o loiro era só mais uma delas.
No entanto, uma garotinha que não devia ter mais do que oito anos o escutou, e correu para cima dele, abraçando suas pernas e falando alto para todos estavam ali próximos o quanto ele cantava bem, o que atraiu a atenção das pessoas próximas e deixou o rapaz levemente embaraçado. Ele estava acostumado em receber olhares das pessoas por jogar futebol e ter uma boa quantidade de fãs — especialmente de garotas que o achavam lindo e que queriam fazer coisas nada cristãs com seu corpo -, mas chamar a atenção por cantar não era uma ocorrência comum.
Por isso, Reiner sentiu o rosto esquentar um pouco quando o moreno mencionou o ocorrido novamente, ainda mais daquela forma tão alegre.
"Bem, eu confesso que não esperava que ela ou alguém por perto iria gostar ou então notar..." Respondeu, para então tomar um gole de refrigerante numa tentativa de disfarçar um pouco o rubor em suas bochechas. Bertholdt riu da reação do outro, achando graça ao ver que até mesmo um garoto como ele podia ficar com o rosto vermelho e sem saber exatamente o que dizer.
"Deixe disso, Rein, você canta muito bem! Não precisa ser modesto. Acho que se você fizesse uma serenata para as suas fãs, elas morreriam ainda mais de amores por você." O mais alto brincou, fazendo o amigo sorrir também. Bertholdt costumava assistir os jogos do loiro e torcer por ele, e sabia muito bem como o rapaz tinha algumas fãs mais exaltadas -, por isso não perdia a chance de aproveitar e brincar um pouco com aquele fato sempre que tinha oportunidade.
"Acho que seria perigoso fazer isso. Você sabe o quanto elas adoram gritar coisas pra mim quando vou jogar." Reiner retrucou, mesmo sabendo que aquilo não iria parar o moreno de falar sobre o assunto. Não que ele se importasse, até achava divertido — inclusive porque ambos concordavam que já escutaram algumas verdadeiras pérolas da sedução dirigidas ao jogador. Tanto é que Bertholdt muitas vezes adorava repetí-las apenas para ver as reações do outro, que geralmente ria de como ele falava as mesmas de forma tão dramática.
"Você é um cara bonito, forte, atlético e super simpático, que tipo de menina não te amaria? Tá legal que elas falam algumas coisas que passam dos limites de vez em quando, mas acho que elas podem sonhar..." O mais alto comentou, e aquela última frase fez Reiner chegar numa conclusão no mínimo perturbadora sobre suas fãs — coisa essa que ele sabia que Bertholdt não queria que ele pensasse, mas que ele acabou fazendo de qualquer forma.
"Bert, você me fez perceber que eu sou o desejo masturbartório de muitas garotas, e talvez alguns garotos." Bertholdt apenas engoliu sua comida e ficou encarando os olhos amarelos do outro rapaz em silêncio, deixando sua mente processar o que ele tinha acabado de dizer. A pior parte era que aquilo realmente deveria ser verdade, e para o moreno, imaginar pessoas pensando no seu melhor amigo enquanto estavam a sós era não apenas constrangedor como de certa forma bastante assustador.
"Eu... Realmente não duvidaria que existam pessoas que façam isso pensando em você. Acho que é o preço da fama..." Ele disse, e viu que o outro concordou com a cabeça sobre o que ele falou. Com certeza era o preço que precisava pagar para jogar. E honestamente, nenhum dos dois garotos estava curioso para saber nem mesmo metade do que as pessoas deviam imaginar nesses momentos.
"É, é perturbador, mas dá pra viver com isso. Eu realmente gosto de jogar e não vai ser um bando de meninas de calcinha molhada só por me ver que eu vou parar. Não é como se elas fossem me ver pelado no vestiário, mesmo." O modo mais leve e descontraído de falar de Reiner fez com que Bertholdt voltasse a sorrir, contente. Com o loiro, era difícil o clima ficar realmente pesado, o que era algo que agradava bastante o mais alto.
"Mesmo assim, tome cuidado. Sabe-se lá o tipo de fã que pode aparecer querendo tirar fotos reveladoras suas..." Bertholdt disse, fazendo o outro garoto rir. Pelo menos, ele ainda não tinha paparazzis que o seguiam até o vestiário, o que era uma benção — ele preferia tomar seus banhos em paz e com privacidade, assim como todo mundo.
"Relaxe, Bert, eu tomo cuidado. No máximo elas me verão sem camisa. No máximo. E voltando a essa questão do canto..." Quando ele retornou ao assunto anterior, Bertholdt se empolgou, e o interrompeu para falar, animado.
"Eu já falei, sua voz é excelente! Acho que até daria pra entrar num programa tipo American Idol. Imagina só, você cantando lá e o Simon te elogiando e dizendo 'você vai pra Hollywood'! Eu ficaria muito orgulhoso, sabia? Votaria em você sempre." O moreno elogiou, sonhando alto. No entanto, estava sendo sincero. Realmente achava que o melhor amigo se daria muito bem num programa daquele estilo, e se ele resolvesse participar de um — o que era improvável, mas não impossível -, o garoto com certeza votaria nele e o apoiaria com toda a força que tinha.
"Você sabe que o Simon não é mais um dos jurados do programa, certo?" Reiner apenas comentou, mesmo sabendo que aquilo iria tirar um pouco da graça das fantasias do jovem. Bertholdt, no entanto, não pareceu se importar, e continuou falando, ainda animado com a ideia.
"Sei sim, mas posso sonhar também, né? Reiner Braun, o próximo American Idol e queridinho de Hollywood, disputado por todas as gravadoras e artistas para fazer músicas, cantando em todos os festivais... Sem falar do dinheiro, das viagens, das roupas..." O loiro devia concordar que aquela era mesmo uma ideia muito interessante — afinal, como poderia negar ter um monte de dinheiro, fama e oportunidades para conhecer o mundo? Todavia, ele resolveu se manter preso na realidade, e só foi capaz de dizer uma coisa.
"Acho que minha família já tem dinheiro o suficiente." Bertholdt soltou um risinho com aquela afirmação, mas sabia que era verdade. Os dois vinham de boas famílias e com certeza tinham dinheiro o bastante para viver uma boa vida, mesmo que não fosse cheia de tantos luxos e regalias quanto de famosos.
"A minha também, mas eu adoraria te ver cantando profissionalmente. Faria sucesso. E me diz que não é legal pensar nessas coisas? Se hospedar nos hotéis super luxuosos, rodar o mundo, comer nos melhores restaurantes... Só não se esqueça de mim se ficar famoso, tá bom? Quero poder aproveitar pelo menos um pouquinho também." Ele disse, e Reiner percebeu que, apesar do tom leve, Bertholdt estava falando sério sobre aquilo. Estava claro nos olhos esverdeados do rapaz o quanto ele não queria ficar sozinho e principalmente o quanto aquela ideia o assustava, mesmo de forma hipotética.
E Reiner também sentia o mesmo.
"Como se eu fosse deixar meu melhor amigo de lado. É claro que eu te chamaria para viajar comigo e tudo o mais! Não acho que suportaria as coisas sem você por perto." Bertholdt não sabia, mas aquela última frase saíra cheia de significados. Se não fosse por ele, o loiro não seria capaz de manter a compostura e a sanidade, não conseguiria enxergar suas esperanças nos olhos de alguém, não se acharia digno de receber nem mesmo um pouco de carinho por ser quem era. Bertholdt era aquele que conseguia sempre o humano por trás do monstro, e aquilo o tornava uma das pessoas mais importantes de toda a sua vida.
Até mesmo porque o que tinha acontecido, o que ele tinha feito, foi para defendê-lo. E nada o acalmava mais do que ter o outro garoto tão próximo de si.
"Poxa, Rein, assim eu é quem fico encabulado..." O moreno afirmou, com o rosto ruborizado e os olhos até mesmo um pouco marejados. Na verdade, Reiner também queria chorar, mas estava conseguindo se controlar e esconder aquilo do mais alto. Não que Bertholdt nunca o tivesse visto chorando, mas não era uma ocorrência comum. Além disso, sabia que não devia deixar o amigo preocupado, e entrar em lágrimas no meio de uma conversa normal não o ajudaria a ficar tranquilo.
"Mas é verdade. Você é meu melhor amigo e sempre teve a cabeça muito boa. Eu jamais me separaria de você, juro. Somos grudados desde crianças, e pretendo que a gente continue assim por um bom tempo, independente do que possa acontecer." Ele respondeu, vendo o mais alto morder o lábio e olhar para baixo, possivelmente para as mãos em seu colo que deveriam estar começando a suar, do jeito que o loiro sabia que costumava acontecer quando ele ficava nervoso ou muito emocionado por causa de alguma coisa.
"Eu pretendo o mesmo, Rein. É bom ver que pensamos a mesma coisa sobre isso." O garoto falou, em voz baixa para que apenas eles dois pudessem ouvir, e Reiner percebeu que as primeiras lágrimas estavam começando a cair pelo rosto do rapaz, o que o deixou com um aperto no coração. Não queria ver o amigo chorar por sua causa, e logo se apressou em arrumar uma resposta, pois não o queria deixar daquele jeito num dia que deveria ser divertido e tranquilo.
"Coisa de melhores amigos. E ei, seu idiota, deixe disso. Não precisa chorar. Vamos ficar juntos, não vamos? Como você é sensível, Bert! Desse jeito acho que vai se afogar em lágrimas no dia em que eu me casar." A piada foi o suficiente para fazer o jovem rir e enxugar as lágrimas, o que já deixou o loiro bem mais aliviado.
"Acho que me afogaria mesmo. Desculpe, é só que... Eu realmente te considero um grande amigo, Rein. Não consigo pensar na gente se separando." Bertholdt falou, sendo completamente sincero. Era incapaz de imaginar-se vivendo sem a companhia do amigo, que sempre estivera ao seu lado para lhe apoiar e ajudar com tudo, que sabia de seus medos, seus gostos, suas vontades e até mesmo de alguns segredos só seus — mas não todos, obviamente.
"Idem, colossal. Mas não precisa chorar por isso, tá bom? Se bem que se você quiser chorar comigo, sabe que não tem problema. Qualquer coisa, eu estou aqui, e sei que você também faz o mesmo por mim. Amigos defendem e ajudam amigos, não é mesmo?" O uso do apelido carinhoso que ele mesmo tinha inventado primeiro — e que depois se espalhara entre familiares e conhecidos — fez o moreno sentir um calor gostoso no peito. Era mesmo muito bom saber que tinha alguém que gostava dele do jeito que ele era, aceitando todas as suas falhas e acreditando em seu potencial. Por isso, o rapaz jamais conseguiria ser grato o suficiente.
"Sim, é isso mesmo..." O mais alto afirmou, ainda um pouco desanimado, mas Reiner agora já sabia exatamente o que fazer para tirá-lo daquele estado.
"E eles também se animam quando precisam. Vamos, Bert, termine de comer. Esse negócio de cantar me deixou com vontade de fazer isso, mas não em público. Que tal um karaokê na minha casa?" Ele propôs, e viu que desta vez o brilho nos olhos esverdeados do outro não era de lágrimas, mas sim de pura animação juvenil. Era isso que o loiro tanto gostava de ver.
"Eu topo! Só me deixe comprar sorvete antes da gente ir." Assim que disse isso, o garoto voltou a atacar seu lanche que havia sido brevemente deixado de lado, enquanto Reiner apenas assistia pacientemente — sabia que logo ele iria acabar com tudo e os dois iriam embora.
"Excelente, então. Tô com vontade de tomar sorvete também." O loiro apenas fez questão de comentar, sendo completamente sincero. Fazia sol e algo gelado cairia muito bem, mesmo que já tivesse tomado um belo copo de refrigerante. Para coisas gostosas como aquela, sempre havia um pouco de espaço no seu estômago, mas ao contrário de pessoas como Sasha, Reiner se alimentava em quantidades humanas e também conhecia os seus próprios limites.
Bertholdt terminou de engolir o último pedaço de seu sanduíche, e apenas foi capaz de tecer um último comentário sobre aquilo tudo.
"Rein, eu acho que realmente temos algum tipo de conexão." O moreno viu o loiro sorrir, e ninguém precisou falar mais nada, simplesmente porque era verdade. Os dois tinham mesmo uma conexão invisível que se tecera por anos, e não seria qualquer coisa que acabaria com ela. A amizade deles era forte demais para se acabar tão facilmente.
Saber disso deixava ambos não apenas felizes e satisfeitos como também capazes de dormir tranquilamente todas as noites.
Armin estava apressado quando entrou no ginásio onde se encontrava o ringue de patinação. Apesar de seu planejamento para chegar antes que o treino dos patinadores começasse, um atraso do ônibus seguido de um engarrafamento tinham feito com que chegasse quase quarenta minutos depois do horário combinado com Annie. Por isso mesmo, ele teve que descer correndo no ponto de ônibus e continuar em alta velocidade durante a curta caminhada pelo parque até o edifício. Por sorte, havia poucas pessoas nas cercanias naquele horário, e ele não colidira com ninguém, ainda que estivesse vermelho e totalmente sem fôlego quando subiu pesadamente os últimos degraus. O loiro apenas esperava que não tivesse sido a vez dela ainda, já que ficaria ainda mais frustrado de perder a apresentação da namorada depois de todo aquele esforço.
Uma garota de trança negra patinava ao som de uma música pop quando ele finalmente sentou numa das arquibancadas ao fundo e fechou os olhos, respirando profundamente. Correr assim fizera suas pernas doerem ainda mais que o normal, provavelmente graças aos exercícios da semana anterior com Reiner. Apenas a lembrança daquela sessão de tortura bem-intencionada parecia fazer seus músculos latejarem com mais insistência, e ele trincou os dentes. Armin não conseguia compreender como pessoas como seu colega loiro, seus melhores amigos e sua namorada conseguiam gostar de uma coisa tão cansativa e dolorida. Imaginava que tivessem todos algum tipo estranho de masoquismo. Era a única explicação possível.
Pensar na semana anterior e nas sessões de ajuda também fizeram com que o rapaz relembrasse tanto a conversa que tivera com Eren e Mikasa no dia anterior quanto as reuniões de terça e sexta-feira, quando contara seu segredo e recebera a permissão de convidar novos membros. No instante em que Ymir levantara a possibilidade, imediatamente o garoto loiro pensara em convidar a namorada secreta e os melhores amigos. Conhecia os três bem o suficiente para ter certeza de que se beneficiariam — e muito — de alguma ajuda especializada, como a líder se referia. Convencer os dois primeiros tinha sido fácil, exatamente como imaginara — Eren sempre estava disposto a acatar os conselhos de Armin, e Mikasa seguiria o irmão mais novo até o próprio inferno se precisasse.
A situação se complicava, no entanto, quando se voltava para a loira baixinha.
Presumia que Bertholdt e Reiner tivessem falado alguma coisa com Annie sobre o clube para justificar as ausências depois da aula, nem que fosse o falso motivo de estudos; talvez, mesmo, tivessem discutido com ela a possibilidade de sua entrada. Precisava sondar sobre o assunto antes de propor a ideia, até mesmo para não acabar soltando alguma coisa que os dois rapazes tivessem escondido. Havia, no entanto, algo em que não podia mentir; algo que causava um aperto em seu coração só de lembrar, e que, sem sombra de dúvidas, seria a parte mais difícil da conversa. Precisaria contar a ela que tinha revelado o relacionamento deles para alguém.
Ao longo dos anos de namoro, Armin e Annie já tinham discutido, brigado e reatado, como qualquer casal saudável. Sabia muito bem como a loira com raiva não era uma visão nada bonita, e tinha visto o que acontecia com os que a aborreciam mais de uma vez — ainda que nunca tivesse sentido os efeitos da ira da moça ele mesmo. Não era a discussão em si ou a reação dela o que o loiro temia, e sim a possível quebra de confiança. Desde o começo da relação, os dois tinham um acordo mútuo de sempre serem o mais honestos possíveis um com o outro, de, antes de tudo, confiar um no outro e nos sentimentos que tinham. Considerava aquele laço um dos mais fortes e mais importantes de sua vida. Perdê-lo, e consequentemente, perder Annie, iria devastá-lo.
A música pop da garota de trança finalmente terminou, e, tendo recuperado o fôlego, Armin abriu os olhos azulados para espiar a próxima apresentação. Aquele time não era profissional, mas, sendo a única organização do tipo em Rose Fields, tinha muitos talentos. A treinadora era uma senhora alta e majestosa, bastante educada, mas que parecia ser capaz de transformar a alma de uma pessoa em gelo só com o olhar. Nesse momento, ela dava dicas em voz baixa para a garota que mais recentemente se apresentara.
“Então, Kora, tente abrir mais os braços para manter o equilíbrio quando salta. Levar uma queda aqui pode ter consequências muito feias. E talvez seja melhor diminuir o ritmo dos giros quando chegar ao refrão da música, eles não estão corretamente sincronizados. Fora isso, é continuar treinando. Sua coreografia está ótima, precisamos apenas polí-la.” Instruiu a mulher com um sorriso gentil.
“Certo, treinadora Elsa.” Kora assentiu, tirando uma mecha de cabelo castanho dos olhos para depois se sentar no banco dos patinadores com um baque audível. Elsa balançou a cabeça, fazendo sua longa trança loira dançar em suas costas, antes de se virar para a próxima pupila.
“Muito bem. Annie, é sua vez.” A frase fez com que o espectador subitamente se ajeitasse a postura para ver melhor a dançarina baixinha que deslizou graciosamente até o centro do ringue, uma expressão neutra nos olhos bonitos.
“E eu??” Um garoto moreno aparentando pouco mais de treze anos, sentado num banco mais afastado cruzou os braços, aborrecido. A treinadora lhe enviou um de seus olhares gelados e, mesmo longe e não sendo o alvo, Armin sentiu um arrepio. Não foi surpresa que o reclamão tivesse imediatamente se calado.
“Agora não, Jack. Estou de olho em você e suas tentativas de furar a fila. Annie, faixa treze, certo?”
“Sim senhora.” A loira assentiu polidamente, arrumando uma última dobra de seu vestido. A roupa azul-claro era justa como o esporte pedia, realçando cada centímetro do corpo torneado de Annie com uma cintilância discreta. Armin não podia evitar de pensar coisas muito erradas ao ver a namorada vestida daquele jeito, e um leve rubor surgiu em seu rosto. Esperava mesmo que ninguém tivesse notado.
“Pode começar.” Elsa fez um aceno à garota ruiva que estava ao lado do equipamento de som, que se apressou em obedecê-la. Enquanto Anna lutava contra os controles, os olhos azul-gelo da loira no centro do ringue percorreram a platéia de forma distante, esquadrinhando metodicamente, até se focarem na figura de um loiro baixinho ao fundo da arquibancada. Então ele realmente estava bem, e tinha vindo. Desde que um de seus melhores amigos tivera um atraso fatal, Annie não conseguia deixar de se preocupar quando alguém que se importava não aparecia.
Um peso que a moça não sabia que tinha pareceu ser tirado de seus ombros quando ele percebeu seu olhar e sorriu para ela, as bochechas levemente coradas — pelo frio, talvez. Não pode evitar de sorrir brevemente de volta, antes que o violino de Cantarella começasse a soar e a trouxesse de volta a realidade. Era hora de dançar. Desviou o olhar de Armin e se focou na coreografia que memorizara, ao mesmo tempo em que começava a deslizar suavemente ao som da música.
Annie adorava aquela sensação de leveza, a mistura de movimentos precisos e calculados com graça e velocidade. Amava os giros e saltos, a sensação da adrenalina misturada com serenidade, o frio do gelo que voava ao seu redor enquanto dançava, o ar gelado que mexia em seu cabelo, a música que sua respiração descompassada e o coração acelerado faziam. Gostava de como aquilo exigia toda a sua atenção e ao mesmo tempo a fazia relaxar como se todos os problemas do mundo nunca tivessem existido. E, acima de tudo, ela amava como a patinação a fazia se sentir totalmente livre.
Enquanto a música soasse, ela tinha liberdade.
Armin adorava assistir a Annie dançar. Sempre se surpreendia com a velocidade que ela conseguia, com os giros e saltos, em como os patins dela nunca pareciam tocar o chão, e sim dançar em pleno ar. O equilíbrio dela era realmente invejável. O próprio loiro mal conseguia ficar de pé nos patins — eles tinham tentado, e rido muitas vezes com a pouca performance dele. Mas o que ele mais gostava de ver era como a garota que amava parecia se sentir tão absurdamente feliz fazendo aquilo, realizada. Como ela parecia leve não apenas de corpo, mas também de mente e de alma. Como se o peso de tudo que acontecera e acontecia, de amor escondido e lealdades conflitantes, memórias amargas e doces que ele sabia que ela carregava sozinha atrás da máscara de frieza desaparecessem. Quase nunca ele tinha a oportunidade de ver Annie parecendo tão viva quanto naqueles momentos, e vê-la daquele jeito o fazia sorrir.
“Eu só quero te ver feliz...”
O relógio de pulso de Armin indicava que eram três horas da tarde quando o garoto finalmente saiu para o parque, esfregando as mãos depois do frio de dentro do ginásio. Era mesmo um pouco sensível a mudanças bruscas daquele tipo, visto que apenas a temperatura mais baixa do ringue de patinação fizera sua garganta doer. Se perguntava como Annie conseguia aguentar esse tipo de coisa. Talvez o epíteto Rainha do Gelo fosse mais adequado do que pensara.
“Armin.” A voz da namorada chamou sua atenção, ele se virou para vê-la se aproximando. Annie já estava com uma roupa mais normal, o vestido cintilante da patinação substituído por uma calça jeans, camiseta branca e um par de munhequeiras em cada braço.
“Annie! Desculpe a demora, o ônibus atrasou, e o trânsito estava horrível…” O garoto começou a se explicar, sentindo a necessidade de justificar sua demora indevida.
A loira apenas assentiu calmamente, entrelaçando os dedos com os dele quando os dois começaram a caminhar. “Eu sei. Uma das garotas chegou atrasada e nos avisou da situação caótica. Fiquei um pouco preocupada quando você começou a demorar mais, mas ao menos está bem. É bom saber disso.” Ela deu um sorriso leve, quase imperceptível. “Você viu a minha parte?”
O rapaz loiro sorriu abertamente ao concordar. “Vi sim!!!! Você foi incrível!!”
“Obrigada. Fico feliz em saber que gostou da coreografia. Não está completa ainda. Há mudanças que preciso fazer, e aperfeiçoar…”
“Bom, eu realmente não sei muito sobre patinação… Mas eu achei que foi lindo! Parecia até que você estava voando, não deslizando, como se fosse um anjo... S-Sei que sempre digo que você está linda… Por ser isso mesmo que eu penso. Você sempre é linda pra mim, Annie.” Admitiu, sentindo as bochechas corarem.
“Você é muito gentil, Armin. Eu até posso voar como um anjo, mas o verdadeiro anjo aqui sem dúvidas é você. Até tem a carinha inocente… Se bem que eu sei que é só a carinha mesmo.” A moça completou tranquilamente, ainda que a última frase viesse carregada de um duplo sentido que só os dois conheciam.
“A-Annie!” O rapaz gaguejou, ainda mais vermelho do que antes. “A-Assim eu fico embaraçado…”
“Do quê?” Havia curiosidade genuína na voz normalmente entediada da loira. “Você sabe que é verdade. Depois do que rolou entre nós, você ainda tem vergonha de alguma coisa?”
“N-Não era só a isso que eu estava me referindo… E eu fico com vergonha por você falar disso em público, não pelo que aconteceu…” Annie subitamente parou, levando Armin a estancar a seu lado. Afastando a franja dos olhos com a mão livre, ela se virou para encarar o namorado, sem desgrudar suas mãos unidas.
“Tem alguém ouvindo a nossa conversa?” Inquiriu a moça, de maneira até bem-humorada. Armin olhou rapidamente ao redor. Aquela trilha era um simples caminho de cascalho em meio ao gramado aberto, possibilitando ver que quase ninguém se encontrava por ali agora. Fora alguns skatistas muito à frente, e algumas pessoas passeando com seus cachorros ao longe, era um final de tarde muito tranquilo.
“Não, ainda bem.” Havia até certo alívio na voz do loiro. Naquele horário, o pai da loira estava trabalhando, mas todo cuidado era pouco para se esconder o relacionamento de alguém tão superprotetor e ranzinza como como Isaak Leonhardt. Apesar de ambos tomarem muito cuidado ao escolher os lugares onde iriam se encontrar, optando por restaurantes menores e não frequentados pelos colegas de classe, nunca se sabia quando algum amigo em comum poderia passar por ali e vê-los juntos. De virar notícia na escola até algum passarinho ir cochichar coisas ao ex-soldado que Annie chama de pai, realmente, as possibilidades eram muitas.
“Então podemos falar o que quisermos. Como sempre fazemos quando estamos juntos... Nossos pequenos momentos de liberdade. E se digo que você é um anjo, é por realmente achar assim. Eu não faço falsos elogios. Você é uma das pessoas mais bondosas e inteligentes que eu já conheci, Armin. E um dos garotos mais bonitos também. É quase injusto que ninguém veja isso.” A mão dela era macia e um pouco fria pela contato com o gelo, mas era uma sensação maravilhosa quando ela apertou sua mão em retorno, passando confiança. “Se bem que assim é melhor. Assim você é só meu.”
O garoto sentiu que estava corando novamente; ainda assim, era difícil não sorrir bobamente com uma declaração daquelas. “C-Como se eu fosse ser de outra pessoa. Sabe que é a única pra mim, Annie.”
“Eu sei. Devo ter muita sorte.” A moça deu um raro sorriso, um curvar de seus lábios rosados que conseguia fazer o coração dele disparar dentro do peito. Não conseguia deixa de pensar que ela estava enganada. O verdadeiro sortudo ali era ele. Sorte que uma garota como ela fosse notar logo a ele, ao invés de alguém mais interessante ou talentoso. O loiro não alimentava falsas esperanças sobre si mesmo, apesar de seus amigos o acusarem de ter uma baixa autoestima. Saber que, de todos os garotos na escola, uma mulher como Annie fora gostar logo do tímido, inseguro e fracote Armin Arlert, só podia ser algum tipo de milagre em sua visão.
A voz da loira o tirou novamente de seus pensamentos. “Bom…E agora? Pra onde vamos?”
“Hm, eu estava pensando em irmos dar uma volta na roda gigante daqui do parque. Dizem que dá pra ver toda Rose Fields lá de cima, uma visão linda. O que acha?” Propôs o garoto, ao que sua acompanhante assentiu brevemente.
“Me parece uma boa ideia. E não deve ter uma fila muito grande nesse horário, mesmo com os turistas.”
“Então… Me dá essa honra?” Brincou, oferecendo o braço a sua dama como algum cavalheiro de antigamente. Annie levantou a sobrancelha com aquele ato, mas ainda mantinha um leve sorriso no rosto, e o aceitou de bom grado.
“Claro que sim.”
A roda gigante ficava há aproximadamente dez minutos de caminhada de onde eles estavam, perto do final do parque. Ali adiante, o bairro deixava de ser o local recrativo de famílias e pessoas em busca de tranquilidade para as ruas sinuosas e lotadas da parte comercial, cheia de bares, clubes noturnos e restaurantes que ficavam abertos até a alta madrugada. Não era nisso que Armin estava interessado, no entanto; estava muito mais preocupado em acalmar as batidas ansiosas de seu coração e disfarçar o nervosismo com uma conversa simples sobre as notas das provas feitas antes das férias, que deveriam sair em breve.
Como Annie previra, a fila da atração estava pequena naquele meio de tarde, com apenas quatro pessoas a frente do casal. Em poucos minutos, tinham pago a entrada e estavam acomodados em uma das pequenas cabines, esperando que a roda começasse a se mover.
“Armin. Está tudo bem? Você parece nervoso.” A loira perguntou, vendo como o namorado se encolhia a seu lado. Na verdade, ela estranhara o comportamento do rapaz desde que se encontraram depois do treino. Tinha notado facilmente como ele suava e evitava olhá-la nos olhos, como brincava com os dedos e a feição melancólica que seu rosto assumia quando achava que ela não estava prestando atenção. Annie se esforçava em fazer de seu relacionamento um baseado em confiança e honestidade, visto o que acontecera com outras relações as quais testemunhara — o casamento de seus pais, incluso. Não queria que os dois terminassem da mesma forma, dois estranhos com seus segredos e um laço frágil. Por isso mesmo, estava preocupada com a reação do garoto, e estudou o sorriso frágil que ele deu antes de responder.
“E-Estou, um pouco. Eu sempre me senti meio desconfortável em lugares pequenos assim. Não gosto da ideia de ficar preso em algum lugar, como uma gaiola…” O garoto engoliu em seco. Por mais que admirasse a vista que tinha de cima do brinquedo — era como ver o mundo, aberto e maravilhoso a sua frente — ele não gostava da sensação de ficar preso, cercado por paredes e muralhas como um animal.
Sem aviso, a patinadora pôs a mão em um dos ombros de seu acompanhante, fazendo com que este se virasse para encará-la, olhos azul céu e olhos azul gelo. “Tá tudo bem. Não vai acontecer nada. Acidentes nesse tipo de brinquedo são muito raros, de qualquer forma, e ele passou por uma vistoria há dois meses atrás, segundo o adesivo do lado de fora. As chances de que vá ocorrer algum acidente são bastante pequenas.”
O rapaz assentiu brevemente, para então dar um risinho nervoso. “Eu queria ser pragmático como você nessas horas…”
“Não sou bem pragmática. Sou realista.” Ela fez uma pausa para afastar a longa franja loira que temia em cair sobre os olhos, observando-o por detrás dos longos cílios aloirados. “E você? Vai me contar o que houve?”
A pergunta o pegou de surpresa mais uma vez, os joelhos subitamente tremendo com a facilidade com que ela o tinha lido. Engoliu em seco, procurando manter a voz estável antes de prosseguir. “Como assim?”
“Tem alguma coisa lhe incomodando desde antes de virmos pra cá. Eu percebi. Lhe conheço bem, Armin, e nós prometemos nunca mentir um pro outro. Então… Vai querer me dizer o que está lhe perturbando? São aqueles bilhetes de novo?” A expressão dela endureceu, o brilho subitamente desaparecendo os olhos azul-claro. Ele se remexeu na cadeira, desconfortável tanto com a indagação direta quanto com as lembranças que aquilo suscitara. A namorada era talvez a única pessoa além de Ymir que sabia de seu problema — era impossível esconder os machucados dela — ainda que não soubesse a extensão da perseguição, quem eram os envolvidos e o que ele tinha feito quanto a isso até agora.
“Não… Quer dizer, não exatamente…” Odiava o quanto sua voz soava fraca naquele momento. Annie percebeu quando ele desviou o olhar, os punhos cerrados e a testa franzida que indicavam mais um dos episódios de menosprezo interno de Armin. Inconscientemente, a loira suavizou a expressão, voltando a segurar a mão do namorado entre as suas afim de apoiá-lo. Apesar de ser aquele garoto incrível que era, Armin tinha sérios problemas de autoestima e confiança. Frequentemente se considerava inútil e fraco, preso numa espiral de raiva e ressentimento internos que a surpreendiam e machucavam. Doía ver uma das pessoas que mais amava daquela forma, mas parecia que nenhuma palavra sua, de Eren ou de Mikasa era capaz de fazê-lo mudar por muito tempo. Aos poucos, ela esperava, ele perceberia e começaria a construir mais confiança em si mesmo e no que era capaz de fazer.
De ódio interno ali já bastava um deles.
“Seja específico.” Pediu, apertando os dedos dele entre os seus, trazendo-o de volta à realidade.
“Bom… Eu entrei pra um clube.”
“O Clube de Voluntários.” Declarou a moça, e o rapaz loiro assentiu em resposta. Houve um solavanco quando o brinquedo se pôs em movimento; Armin balançou e teve que se segurar com força no estofado do banco, enquanto Annie pareceu mal notar com o equilíbrio perfeito que tinha.
“Bertholdt e Reiner me contaram sobre isso, e que você estava participando, assim como mais algumas outras pessoas.” Ela prosseguiu casualmente, sem se importar com mais alguns balanços pronunciados, que fizeram o menino se segurar nela de forma inconsciente. “Devo confessar que achei meio suspeito que logo a Ymir comece a ajudar as pessoas sem nada em troca. Aquela mulher não é confiável.”
“O que mais eles lhe contaram?” O garoto perguntou, não querendo soltar alguma informação que os amigos dela tivessem por acaso omitido. Se os colegas por ventura preferiram não revelar alguma coisa, ele preferia não causar problemas para os dois.
“Que vocês ajudam uns aos outros com qualquer tipo de problema, em duplas definidas a cada semana. Por que?” Ela levantou a sobrancelha, uma dose discreta de desconfiança misturada a preocupação quando o namorado hesitou. “Tem algo mais? Aquela mulher fez alguma coisa que lhe machucou?”
“Não, não, a Ymir não fez nada comigo. Mas…” Armin foi rápido em desmentir, por sorte não se atrapalhando nas palavras. Não sabia que Ymir e Annie tinham algum tipo de desentendimento. Isso deixaria as coisas mais difíceis. “Você tem razão numa coisa. O Clube não é de graça. Não que tenhamos que pagar com dinheiro… É que… Tem uma coisa que precisamos fazer pra entrar. Você tem que contar o seu maior segredo.”
Annie o encarou por alguns segundos sem nada dizer, a expressão de neutralidade que normalmente usava subitamente substituída por surpresa, descrença e — para o completo horror do rapaz — desapontamento. Por longos minutos ficaram ambos ali, os dedos entrelaçados e em silêncio, cercados por Rose Fields.
“...Você falou sobre nós.” A voz da moça era pouco acima de um sussurro, mas ela não parecia estar com raiva, chateada ou sequer incomodada. Ela não parecia sentir nada.
Armin podia sentir a visão começando a turvar, a garganta apertada e inflamada quando se prendeu ainda mais à garota a sua frente, tentando não deixar as lágrimas caírem como a criaturinha patética que sabia que era. “Sim. Eu falei. Por favor, Annie, me desculpe, eu sei que devia ter falado com você antes, mas era aquele momento ou nunca, e eu realmente preciso dessa ajuda do Clube! Não posso depender de você, do Eren ou da Mikasa pra sempre! Preciso lidar com as coisas por mim mesmo, Annie, e é isso que me foi oferecido em troca do meu… Do nosso segredo. Autoconfiança. Força física. Força de vontade. Coisas que sabemos muito bem que eu não consigo desenvolver sozinho.” O loiro acabou desabafando, com amargor em cada palavra.
Os olhos de Annie se arregalaram levemente, já que estava surpresa pela reação súbita do namorado. Por mais que estivesse magoada pelo que ele tinha feito, simplesmente não conseguia ficar com raiva ao vê-lo finalmente dedicado daquela forma, lutando por si mesmo e não pelos outros, procurando o próprio valor. Ainda que não concordasse com o método que ele escolhera, o mérito daquela decisão não podia ser negado. Além disso, nada a deixava tão nervosa quanto vê-lo frágil daquela maneira. Sem conseguir se conter, esticou a mão e limpou as lágrimas que teimaram em escorrer pelo rosto do rapaz, e ainda que sua voz se mantivesse firme, estava mais suave quando prosseguiu.
“...Quem ficou sabendo? Reiner? Bertholdt? Jean?” Quanto mais pessoas soubessem sobre seu relacionamento, maior a chance de que a informação vazasse para seu pai, o que colocaria ambos em problemas. Seria contornável se seus melhores amigos soubessem — confiava neles, e imaginava até que desconfiassem do que ocorria. Seria diferente, no entanto, se mais alguém além deles estivesse ciente — fosse Jean, Marco ou até a bondosa Historia, Annie Leonhardt não confiava em seus colegas de sala o suficiente para se sentir tranquila caso algum deles soubesse.
Armin negou com a cabeça, esfregando nervosamente as últimas lágrimas para longe dos olhos. “Não, só a Ymir. Ela escuta seu segredo e anota num caderno velho que ela comprou. É quase como uma espécie de ritual de passagem. E ela também jura nunca revelar o segredo.”
A resposta não diminuiu a tensão nos ombros da patinadora, muito pelo contrário. De todas as pessoas a quem Armin poderia ter contado, Ymir Adler era uma das piores opções possíveis: Irresponsável, sarcástica e egoísta, cheia de segredinhos e sem se prender a nenhum tipo de pessoa ou princípio, Annie estava certa que a morena de sardas não faria nada de bom com aquela informação, não hesitando em dizer isso ao namorado.
“E você confia que ela vai manter essa palavra?? É a Ymir, pelo amor de deus, Armin!”
A resposta dele a surpreendeu, quando o garoto confirmou com a cabeça e ergueu o olhar para encará-la de novo. “Sim, eu confio. Depois de como ela me tratou e da expressão que ela tinha quando fez seu juramento, eu acho mesmo que a Ymir vai manter sua palavra nesse caso. Sei que soa estranho, mas… ”
“Desculpe se eu não tenho a palavra daquela mulher em tanta consideração quanto você. O que garante que ela não vai revelar nada? Ela não tem lealdade a nada ou ninguém que não seja aquele traseiro gordo dela. Não confio nem mesmo naquela amizade com a Historia. No momento em que algo que desestabilize a família Reiss aconteça, eu duvido que a Ymir continue do lado dela como está hoje.”
A agressividade clara naquela declaração deixou o garoto confuso e até mesmo assustado. Não imaginava que sua namorada estivesse com tanta raiva, ou visse sua colega de classe daquela forma tão negativa. Claro que ele sabia que Ymir não era uma pessoa a inspirar a simpatia dos outros, mas a reação da rainha do gelo parecia implicar em algo maior. “Annie… Aconteceu alguma coisa entre você e Ymir?”
A loira inspirou profundamente, procurando relaxar os músculos tensos e recuperar sua serenidade habitual. Poucas pessoas além de Armin poderiam dizer que já a tinham visto externar tanto suas emoções daquela forma. “Não. Eu só não gosto do jeito dela por algum motivo. Chame de intuição, o que for. Algo me diz que ela não é confiável.”
“Bom… Me desculpe de novo por ter falado sem você saber…”
“Não estou com raiva de você, Armin. Eu sei que não fez por mal. Sei que quer ser forte, e, à sua própria maneira, você já é. Estou com raiva é da cadela sardenta. Ela basicamente extorquiu você! E Reiner e Bertholdt…”
Armin foi rápido em defender os dois, temendo causar problemas entre a namorada e seus amigos. “Eles não disseram nada por não poderem dizer! A Ymir disse que era pra mantermos segredo do verdadeiro propósito do Clube. Eu não disse nem pro Eren ou pra Mikasa… Só pra você. Eu não consigo mentir pra você, Annie. Faz com que me sinta mal.” Admitiu, um pouco envergonhado, mas ainda sem desviar o olhar do da garota a quem amava o suficiente para quebrar uma promessa daquela forma.
“...Armin… Você acha que valeu a pena ter entrado nesse clube?” A moça perguntou, subitamente. Queria saber se tinha valido a pena revelar o segredo deles daquela forma. Ele parecia tão arrependido de não ter conseguido falar com ela antes, mas não de ter contado algo daquela importância para Ymir Adler. Annie confiava o suficiente no julgamento do namorado para saber que ele não fazia coisas daquele tipo sem um bom motivo.
O loiro refletiu alguns instantes sobre a pergunta, procurando avaliar tudo que acontecera até agora para dar a resposta mais honesta possível. “Sim. Eu acho que sim. Faz pouco tempo que faço parte, e, ainda assim, posso ver que valeu a pena, muito mais do que só tirar o peso do segredo dos meus ombros. Sei que a Ymir é uma pessoa meio problemática, mas ela sempre tratou a todos nós com muito respeito nas reuniões. Ela faz umas piadas sarcásticas e é meio implicante, mas ela sabe ser séria quando precisa, e realmente pôs esforço na montagem das duplas, em explicar o que levou cada um de nós a procurar ajuda… Realmente me surpreendi com a responsabilidade com a qual ela está levando isso tudo. Além disso, o próprio segredo dela está naquele livro, e ele é guardado bem longe da casa dela. É por isso que eu acho que ela não vai simplesmente pôr tudo na internet.”
“...Entendo.” Foi a única resposta de Annie, antes de voltar suas atenções para o lado de fora da cabine.
Foi só naquele momento que Armin percebeu que já tinham alcançado o topo da roda gigante. Com toda a discusssão, ele não tinha percebido nem mesmo as paradas anteriores, para dar aos outros casais no brinquedo a mesma chance de ver Rose Fields de cima que tinham agora. Estava mais tarde do que pensara, com o sol poente pintando a grama do parque, os prédios no horizontes e até o rio de dourado e laranja, fazendo a cidade toda cintilar como que feita de ouro puro.
“Realmente, é uma paisagem linda.” A garota comentou, lendo seus pensamentos de uma forma que ninguém mais conseguia.
“Annie…”
Sem parecer ter escutado, ou simplesmente não dando atenção ao que ele tentava lhe dizer, a loira apontou para algumas aves que passaram fugazes por sobre o rio lá embaixo, as sombras refletidas na água a única evidência de sua passagem. “Me pergunto se é assim que os pássaros nos veem lá de cima…”
“Annie, eu…”
“Acha melhor que eu me junte ao Clube também.” Ela voltou a ler sua mente e também voltou os olhos azul-gelo em sua direção mais uma vez.
“...Sim. Eu acho.” Armin admitiu, desconfortável em ter que retomar aquele assunto. Aquela tinha sido sua intenção desde o início, e não duvidava que a moça estivesse ciente disso. Acreditava mesmo que fosse a melhor escolha, levando em conta a situação familiar de Annie. Ele mesmo não estava muito inteirado, visto que a garota conseguia ser ainda mais discreta sobre o assunto do que já era normalmente, chegando mesmo a dizer que era proibida de dar mais detalhes. A única coisa que o rapaz tinha conseguido inferir era que o pai da loira e ela mesma estavam envolvidos em uma situação muito séria e potencialmente violenta no bairro em que moravam, e isso já era suficiente para deixá-lo morrendo de preocupação.
“Imaginei.”
“A decisão é apenas sua, assim como a decisão de contar o nosso segredo foi apenas minha. Mas… Eu acho mesmo que seria a melhor escolha, Annie. Mesmo que você não confie na Ymir… Você não precisa confiar nela. Nem nos outros. Pode confiar só em mim e nos seus amigos. Nós vamos ajudar você, sempre ajudamos. E… Dessa forma… Você poderia deixar. Poderia nos deixar te ajudar, sem problemas de código de honra familiar. Poderia se abrir pra gente. Poderia sair disso tudo, poderia ser livre… Como eu sei que você quer ser.”
Aquelas palavras atingiram a rainha do gelo em cheio, mais profundamente do que achava ser possível. Liberdade, não era esse o sonho que compartilhavam? Uma chance de ser quem realmente eram, sem máscaras e julgamentos, sem se importar com as opiniões dos outros, sem estar presa pelos rígidos ensinamentos e códigos que a proibiam de estar com as pessoas que realmente queria, que a sufocavam por dentro e a faziam se trancar por detrás do cristal que a rodeava, sempre distante. Podia mesmo Ymir Adler ter a chave dessa liberdade? Ela duvidava.
Annie duvidava, mas Armin e Bertholdt e Reiner não. Os três realmente pareciam convencidos de que aquile Clube poderia ajudá-la de alguma forma. De fato, a cerimônia de iniciação que Armin mencionara não parecia violar as regras do pai, mas...
A mão quente de Armin tocou seu rosto quando ele se aproximou para sussurrar as últimas palavras, tirando-a de seus pensamentos. “Então, Annie, eu te peço… Por favor, me deixe te salvar.”
A patinadora não respondeu imediatamente, parecendo refletir sobre a proposta recebida. Armin esperou por uma reação dela, o coração martelando em seu peito, a respiração inconscientemente acelerada pela proximidade entre os dois naquele momento. Quase prendeu a respiração quando ela voltou a olhá-lo diretamente; no entanto, ao invés de responder, a loira se aproximou ainda mais, como tantas vezes tinha feito antes. Como tantas vezes, ele sentiu as borboletas em seu estômago e os joelhos tremerem, o tempo desacelerar e o coração parar em seu peito no momento em que os lábios dela tocaram os dele com uma delicadeza surpreendente. Os arrepios desceram por sua coluna com o calor e o gemido saiu abafado de sua garganta quando a língua dela deslizou para dentro de sua boca e tocou a dele de forma brincalhona. Não havia a disputa que ele tantas vezes ouvira falar; nunca havia quando eles se beijavam. Era como se fosse novamente a primeira vez naquela sala escura ao som da chuva pesada, quando pela primeira vez ele foi enfeitiçado por aquele gosto, pelas mãos que corriam por seu corpo e pela pele macia sob seus dedos quando ele tocou seu pescoço e a sentiu se arrepiar junto dele.
“Eu aceito.” Ela sussurrou contra seus lábios, os olhos entreabertos fixos nos dele, a leve cadência de sua respiração contra seu rosto, fazendo os pelos da nuca do garoto se arrepiarem com o contato e a proximidade. Sempre lhe surpreendia como Annie era capaz de fazê-lo sentir aquelas coisas. Ela era a única que conseguia. Sempre fora.
Um som alto e rasgado o trouxe novamente à realidade, e ele percebeu que a roda gigante havia parado. O passeio tinha chegado ao fim. A loira já tinha se afastado e agora se levantava do banco, afastando o cabelo do rosto como costumava fazer. Agora se sentindo envergonhado, Armin se demorou no banco, ciente do rubor em suas bochechas e tentando discretamente recuperar o fôlego perdido. No entanto, a patinadora percebeu sua situação e pacientemente esperou que o loiro se recuperasse para oferecer a mão, afim de ajudá-lo a se levantar.
“Vem comigo?” A frase podia ser um simples pedido para que a acompanhasse até a parada de ônibus, mas os olhos de Annie demonstravam muito mais que isso quando ela esperou por sua resposta.
“Sempre.” Foi a única que disse antes de descerem.
Para Ymir, morar sozinha tinha algumas vantagens. Como por exemplo, poder dormir sem ninguém para interferir em seu sono, comer o que quiser em qualquer hora, ou então poder ter a liberdade de deixar acumular um pouco mais de roupas para lavar e não ter muito o que gastar para viver justamente porque precisava comprar apenas o essencial para ela mesma.
No entanto, a solidão e o tédio eram duas grandes desvantagens. Ymir não se considerava, para começar, uma pessoa simpática ou fácil de agradar e de se fazer amizade, então não era como se ela tivesse de fato alguém com quem pudesse, por exemplo, marcar para ir se divertir em algum lugar. Ou seja, a grande parte de seus finais de semana se resumiam em ficar em casa sozinha sem fazer nada de interessante, isso quando não resolvia ir trabalhar — mas isso era algo no qual a morena preferia simplesmente não pensar muito.
Ela preferia deixar seus pensamentos voarem para outro lugar, ou melhor, para outra pessoa. Historia Reiss era com certeza bem mais interessante do que seus negócios. A jovem se perguntava o que a loira deveria estar fazendo naquele exato momento, enquanto ela mesma estava esparramada no sofá sem fazer nada exceto assistir, desinteressada, uma seleção de clipes num canal de música, que ela honestamente discordava. Parecia que aquele pessoal realmente não entendia de música decente, e principalmente, do que faz um bom remix.
Bem, era claro que a jovem filha do Prefeito Reiss não estaria perdendo seu tempo com esse tipo de coisa. Possivelmente estaria estudando, como a boa garota que era, ou talvez até mesmo relaxando nos cômodos que com certeza deveriam ser grandes e diversos na Mansão Reiss. Talvez estivesse tomando banho de piscina, ou então tomando chá no jardim, ou até mesmo lendo algum livro da biblioteca da família. Ymir apostava que em um local como esse, ela nunca estaria entediada.
A moça ponderou-se se Historia estaria pensando nela também, mas não devia ser possível. A menina era tão ocupada, devia ter muitas coisas pra fazer tanto como sendo filha de alguém importante como sendo a pessoa boa, responsável e simplesmente perfeita que ela era. Historia com certeza não deveria perder seu tempo pensando em pessoas como Ymir, imperfeitas e não totalmente corretas como ela.
Para ser sincera, era até incrível que a loira ainda fosse sua amiga apesar de saber de seus defeitos e, principalmente, de seu maior segredo. Ela ainda se lembrava daquele final de tarde no quarto do quartel general do clube. As duas garotas e o livro. Aquele livro.
E segredos. Todos eles. Especialmente o de Historia, recheado de tragédia mas que não parecia manchá-la por mais que devesse. E o segredo de Ymir, que podia destruí-la totalmente se vazasse. Seu segredo. Seu erro. Sua culpa.
Incrivelmente, mesmo assim, Historia não a julgava pelo o que estava no caderno preto. Aquela garota simplesmente era uma verdadeira deusa benevolente.
E era por isso que era praticamente impossível que a jovem fosse se importar com ela da mesma forma que Ymir se importava, por mais que não tivesse a coragem para mostrar.
Que vergonha. Uma garota decidida como ela agindo daquele jeito. O que seus colegas de trabalho diriam se soubessem que até mesmo a incrível e rude Ymir, que não se deixa ser pisada por ninguém, não tem a coragem pra ser nem mesmo um pouquinho mais afetuosa com a pessoa que mais gostava no mundo?
A resposta não chegou na mente da morena, pois foi cortada pelo som da campainha do seu apartamento. A garota se perguntou quem poderia ser naquela hora, e honestamente não esperava que fosse alguém interessante, no máximo um vizinho que queria algo dela emprestado ou então o correio mesmo — se bem que ela não recebia correspondências no domingo.
Seu mundo caiu quando ela abriu a porta e se deparou com Historia Reiss ali parada, toda arrumada como se fosse uma boneca, e carregando uma sacola em mãos. Imediatamente, Ymir deu espaço para que a moça entrasse no apartamento, lamentando internamente pela bagunça do mesmo estar agora exposta para a criatura mais adorável e perfeita que já chegara a pisar em Rose Fields, ou então na terra.
“O-o que você… O que está fazendo aqui?” Ela se viu forçada a perguntar, completamente surpresa. Será que ela tinha adormecido no sofá e aquilo na verdade era fruto de seu subconsciente? Não, ela sabia bem demais que estava acordada e que aquela cena era completamente verdadeira, o que só a deixava com o coração ainda mais acelerado.
“Lá em casa estava um tédio, então eu pensei em te visitar… E bem, sendo a filha do prefeito não é difícil descobrir onde alguém mora, então…” Historia respondeu, parecendo achar um pouco de graça na reação de Ymir — seus lábios rosados estavam ligeiramente curvados para cima num pequeno sorriso, e a morena evitava prestar atenção nisso para não corar como se fosse uma garotinha.
“Mas… Você não precisava me visitar… Entenda, não é que eu não queria você aqui, mas… Estou surpresa, só isso. Alguém como você visitando um apartamento bagunçado no subúrbio…” Ymir retrucou, mais para explicar a si mesma o seu nervosismo do que para a loira de fato. Naquele momento, ela queria se enfiar em um buraco e nunca mais sair de lá de tanta vergonha que deveria estar passando na frente da outra moça, por mais que ela não risse de sua cara.
“Não me importa onde você mora, Ymir. Você é minha amiga e eu queria te ver, só isso. E não tem nada de errado numa amiga visitar a outra, certo? Além disso, eu trouxe uns filmes pra gente assistir, daquela série que a gente estava falando mal naquele outro dia…” A garota baixinha explicou, e só então Ymir percebeu que ela estava segurando uma sacola com DVDs dentro, como ela mesma tinha falado. E devia admitir que não conseguia acreditar que ela se dera ao trabalho de procurá-los para assistir com a morena, ainda mais sendo de eles de qualidade no mínimo duvidosa.
“O dos vampiros tatuados? Espera, tem mais de um filme daquela porcaria?” Ymir devia confessar que achava que só existia um, mas aparentemente o mundo não se contentou com o primeiro e criou uma série deles. E se apenas o primeiro foi um lixo, os outros não deviam ser muito melhores...
“Tem sim, e eu estou com todos aqui.” Historia falou, casualmente, como se fosse normal uma garota tão importante quanto ela visitar alguém de classe média, ainda mais com uma porção de filmes muito ruins nos braços para que as duas fossem assistir juntas. No entanto, Ymir estava agora com uma curiosidade inegável de descobrir até onde aquela série podia se enterrar em sua história bizarra, personagens sem graça, figurinos horrorosos, má atuação, efeitos que pareciam ter saído dos anos 80 e uma péssima trilha sonora.
Assistir tudo numa tarde só bem que podia ser considerado como uma forma de masoquismo, mas a ideia de assistir tudo com a companhia de Historia Reiss fazia tudo não apenas parecer mais interessante como também como algo que valia a pena.
“Minha nossa, eu preciso ver essa merda. Pode ir ajeitando as coisas se quiser aí no DVD, eu vou fazer pipoca pra gente.” Ela disse, por fim rendendo-se tanto à sua curiosidade quanto à Historia. A loira sorriu de uma forma adorável enquanto concordava com a outra moça antes dela seguir para a cozinha — que na verdade era um pequeno cômodo do lado da sala separado apenas por uma parede.
Ymir recostou-se na porta da geladeira, onde sabia que estaria fora do campo de visão da loira, e aproveitou esse momento para esconder o rosto nas mãos e abafar o que seria um gritinho agudo. Aquilo estava sendo muito empolgante para a garota, mas ela sabia que devia manter a pose de sempre e agir como se aquilo não a estivesse deixando estupidamente boba e feliz.
Historia nunca a tinha visto assim, mostrando o seu lado que ela gostava de se dirigir como sendo o mais “feminino” e apaixonado dela. E para ser honesta, Ymir não sabia quando teria coragem para deixar a loira a ver agindo daquele modo, mas sabia que não tinha agora, naquele momento. Por isso, respirou fundo e contou até 10, concentrando-se apenas na cozinha, pegando um dos sacos de pipoca de microondas e colocando-o para esquentar.
Precisava esperar apenas três minutos para ficar pronto, mas parecia uma eternidade. Era como se milênios passassem antes do contador do aparelho diminuisse a cada segundo. Ela se perguntava o que a melhor amiga estava fazendo na sala, mas não olhava para lá. Simplesmente não conseguia, e estava alerta, pois qualquer sinal mais ousado podia denunciar a bagunça que estava a cabeça e o coração da morena.
Mas como não ficar daquele jeito com a linda e perfeita Historia Reiss na sua casa? E ainda mais sozinha e a visitando por livre e espontânea vontade?
Ymir rezou para que os deuses a ajudassem a se controlar nas horas seguintes, e assim que terminou, escutou os bipes do microondas. Abriu o saco, colocando sal na pipoca — as embalagens sempre diziam que o produto já vinha com sal, mas a garota achava aquilo uma mentira deslavada — e voltou para a sala, onde Historia a esperava pacientemente no sofá, com o controle do DVD em mãos e com tudo já pronto para que pudessem começar a ver os filmes.
Ela esperava que os deuses a tivessem escutado.
As horas se passaram devagar e ao mesmo tempo muito rápido. Por um lado, a morena ainda estava nervosa sentada tão perto de Historia, rindo com ela, falando com ela, sentindo quando suas mãos se tocavam acidentalmente quando iam pegar a pipoca do saco ao mesmo tempo. Para ser sincera, aquelas foram as melhores horas que Ymir teve naqueles últimos dias, em que pode se esquecer do trabalho, da escola e de toda aquela rotina que a estressava e a entediava quando não fazia a primeira coisa.
Historia tornava aquele apartamento cheio de vida, e fazia com que o coração da moça palpitasse de um modo que nunca fazia com mais ninguém. O som de sua risada, o modo com que ela ajeitava o cabelo claro atrás das orelhas com brincos simples de flores, como seus olhos azulados pareciam brilhar de alegria. As mãos de Ymir tremiam, e não foi mais de uma vez que ela teve a vontade de puxar a outra menina para um beijo.
Quando os filmes acabaram, ela ficou querendo mais deles, apenas para que pudesse ter um motivo para passar mais tempo com Historia. Certo, eles realmente conseguiam ficar cada vez piores a cada vez que progrediam, mas por ela, Ymir podia assistir todos de novo e de novo, junto com todas as possíveis — e terríveis — continuações.
Por ela, Ymir faria qualquer coisa. E por causa disso, quando a tarde acabou e a moça foi embora, a morena nunca se sentiu tão sozinha e perdida naquele apartamento.
Ali estava ela.
Tomando um gole distraído de sua xícara quase fria de café, Connie Springer avaliou o veículo em questão de longe, os olhos escondidos por trás dos óculos espelhados. Para ser sincero, ele achava ridículo usar óculos escuros à noite, mas o fazia por questão de trabalho — as lentes o permitiam olhar para onde quisesse e dificultavam que fosse reconhecido. Em conjunto com o casaco de capuz de marca, as luvas, a cabeça raspada e os fios do fone de ouvido saindo de dentro de sua roupa, o rapaz parecia mais um dos mauricinhos metidos a rapper que tanto frequentavam os points noturnos de Rose Fields. Foram roupas caras, mas o investimento valera a pena; ninguém parecia desconfiar dele em seu "uniforme".
A possível vítima da vez era um belo Camaro — amarelo de listras pretas, o estudante notou com certo humor; alguém parecia ser fã de filmes ruins — do modelo mais recente, as calotas brilhantes, nenhum risco ou batida aparente. O possível dono — ou filho do dono — era um garoto ruivo não muito mais velho que ele, acompanhado de uma bela donzela — o que mais ela seria? — loira que era toda sorrisos. Um casal simpático, decidiu o garoto careca, quando o ruivo entregou as chaves ao manobrista e pareceu agradecer em voz baixa. Os olhos de Connie os seguiram até que entrassem no clube noturno, e ele silenciosamente desejou que tivessem uma boa noite — boa e longa.
Sem deixar de prestar atenção no manobrista que entrava no carro e dava partida, o estudante jogou o copo de isopor no lixo e desencostou da parede, observando o relógio para disfarçar. Todo cuidado era pouco para Connie; a última coisa que ele queria era que algum policial fosse ao hospital inquirir sua mãe e pôr tudo a perder. Pensar em Primrose Springer fez com que a sombra de um sorriso surgisse no rosto do filho. Tinha passado aquela tarde lhe fazendo companhia durante os exercícios de fisioterapia, conversando amigavelmente sobre a escola e lendo. Antes de ir embora, o médico responsável ainda lhe dissera que Prim estava reagindo bem ao tratamento, e talvez, em breve, pudesse voltar para casa. Aquele pensamento o enchia de uma esperança que não tinha há muito, mas também o assustava. A volta da mãe significava ter que se livrar de qualquer evidência de seu ofício que estivesse em casa — ou então sair do trabalho completamente, que era o que preferia. Era para isso que tinha depositado suas fichas em Ymir Adler e suas sardas sarcásticas, e somente podia esperar que tivesse sido a decisão certa.
Balançou a cabeça, procurando se focar no que precisava fazer. O manobrista tinha dado partida e se dirigia para um estacionamento perto da boate, a pouco mais de uma quadra de onde o rapaz estava. Murmurando um palavrão pela suposta demora de seus “manos”, o ladrão pôs as mãos nos bolsos do casaco e começou a seguir o Camaro de uma distância segura, balançando a cabeça ao som de uma música imaginária que tocava em seus fones desligados. Não tinha pressa; tinha se certificado que o estacionamento estaria lotado naquela noite. Afinal, tinha sido esse o preciso motivo pelo qual viera para aquela boate específica, naquela noite específica — e foi por esse motivo que ele ao invés de continuar seguindo o carro quando este entrou no estacionamento preferiu seguir em frente mais algumas ruas, até uma praça vazia e pouco iluminada onde novamente se encostou na parede, cuidadosamente ocultado em algumas sombras, para esperar.
Conhecia aquele local como um estacionamento não-oficial para quando os particulares das boates da região estavam lotados — os funcionários tinham o costume de encostar os carros por lá até que os oficiais vagassem mais. O garoto notou de forma desinteressada que alguns dos veículos que já estavam no local eram até negociáveis: umas duas caminhonetes cabine dupla, um DeLorean meio surrado e um Impala 67 preto perto de onde ele estava chamaram especialmente sua atenção. Bons preços, era verdade, mas os clientes de Connie eram exigentes quanto a mercadoria, e a coisa ficava especialmente lucrativa na venda de peças de luxo. Vender aquele Camaro o deixaria livre pelas duas semanas subsequentes, talvez. Ele esperava.
A praça estava sem uma viva alma além dele, e isso deixava o rapaz menos a vontade do que gostaria de admitir. Sabia que precisava permanecer focado, mas sua mente parecia gostar de lhe pregar peças com barulhos súbitos e coisas se mexendo no limiar de sua visão, e o estudante precisou respirar fundo algumas vezes e se lembrar que era apenas nervosismo por estar prestes a roubar um carro. Não era como se algum assassino em série fosse pular das moitas e pendurar seu corpo desfigurado em uma daquelas árvores. Ou que um dos Titãs o visse ali e o confundisse com um Filho de Harpia, e que pedaços de seu corpo aparecessem no Rio Sina pelos anos seguintes. Ou que um dos fantasmas sanguinários que Historia lhe contou fossem…
Uma luz subitamente apareceu em seu campo de visão, fazendo com que o jovem ladrão desse um pulo no lugar e sufocasse um grito, até perceber que eram apenas os faróis do Camaro se aproximando. Respirando fundo e deixando escapar uma risada nervosa baixa, Connie agradeceu aos céus por ninguém estar lá para ter visto sua tamanha coragem. Mas bem, agora era sua hora de trabalhar. Esperou que o manobrista estacionasse ao lado do DeLorean e que saísse do veículo, acompanhado de um colega, e então que os dois se afastassem conversando entre si. Esperou ainda um pouco mais, para garantir que estavam suficientemente distantes antes de começar sua mágica.
Connie se aproximou do Camaro, aproveitando para analisar o alvo mais de perto. Fez uma revista completa do exterior, procurando sinais de batidas, marcas de óleo no chão ou qualquer outra irregularidade visível; no entanto, fora alguns pequenos arranhões parecia estar tudo em ordem. Satisfeito, o garoto careca tirou do bolso do casaco um alarme eletrônico comum — na realidade, um alarme-mestre modificado por ele mesmo com base em um projeto achado na internet. Alarmes como aquele eram usados por fábricas e mecânicos para testar possíveis problemas de segurança para seus clientes, sendo capazes de abrir a maioria dos carros populares. Os carros que ele vendia não eram dessa categoria, tendo um nível muito maior de segurança e com menos alarmes de fábrica disponíveis, mas o rapaz tinha conseguido montar sua própria versão a partir de plantas em sites da Deep Web. O aparelho criava centenas, milhares de senhas infravermelhas aleatórias por minuto, e era apenas uma questão de sorte tempo e sorte acertar a senha específica daquela trava.
Durante esse processo, o coração de Connie martelava no peito, tão alto que ele quase conseguia ouvi-lo ecoando no silêncio da praça. Suas mãos tremiam enquanto segurava o botão do alarme, e a boca estava seca tanto pelo nervosismo como pelo fato de ele ter esquecido de respirar pelo nariz. Milhares de possibilidades pareciam passar por sua mente, e qualquer pequeno barulho o fazia olhar assustado para os lados, com medo de ser pego em flagrante. Ouvia falar que muitos de seus colegas apreciavam a adrenalina e a sensação de impunidade; ele não. Connie não conseguia se sentir bem sabendo que estava roubando um bem caro que alguma pessoa provavelmente trabalhara muito para conseguir — apenas pensar nesse fato já fazia a bile e a culpa começarem a se acumular em sua garganta. Apesar de já estar nesse ofício há quase dois anos, cada novo roubo conseguia deixá-lo tão ansioso e culpado quanto o primeiro, mas também igualmente determinado. Ele sabia o quanto precisava daquilo, o quanto sua mãe precisava do dinheiro.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Aquele primeiro furto tinha sido logo após sua mãe voltar do mercado carregada por um dos funcionários depois de ter um colapso enquanto fazia compras. Prim estava fraca e mal conseguia se mover sem sofrer dores horríveis, ainda que tentasse manter a sombra de um sorriso no rosto pálido e encovado. Vê-la daquela forma tinha ferido o na época garoto de treze anos como apenas uma coisa o fizera antes, e ele estava totalmente desesperado quando quebrou o vidro daquele carro e escorregou para o banco do motorista. Tinha aprendido a dirigir com um vizinho, Ryuunosuke, um garoto ruivo misterioso com uma fixação bizarra por leopardos — e máquinas, especialmente desmontá-las e vender os pedaços. Foi na porta do próprio que apareceu com aquele sedã mediano, pedindo ajuda para vender e conseguir dinheiro urgente. E tinha sido o ruivo quem o apresentara ao submundo no qual estavam metidos até hoje.
O som da trava se abrindo, junto com a porta aberta e as luzes acessas do Camaro à sua frente, o tiraram de sua mente e de volta para a realidade. O ladrão rapidamente entrou e fechou a porta do automóvel, tomando cuidado de cobrir o nariz com o lenço que estava pendurado em seu pescoço. Já tinha ouvido falar de sistemas anti-roubo que injetavam gás para dentro da cabine do motorista, câmeras internas e outros apetrechos com os quais nunca tinha se deparado, e que não queria correr o risco caso encontrasse. Logo em seguida, o garoto tirou do bolso um pendrive comum, que substituiu o do dono original no drive de entrada do computador de bordo. O que o objeto continha não era a seleção musical de Connie, ainda que ele tivesse grande apreço por rock e rap. Assim que o programa foi reconhecido pelo computador, o GPS imediatamente foi desligado e o motor começou a rugir, cheio de potência — era por isso que o estudante favorecia alvos com partida automática. Eram tão mais simples de entrar, e ele não precisava correr riscos desnecessários fazendo uma ligação direta na fiação do carro. Agora com o veículo ligado, aproveitou para dar uma olhada na gasolina, óleo, calibragem dos pneus e água do carburador. Para sua sorte, o garoto da boate parecia ter deixado tudo em ordem, e o careca não foi capaz de segurar um “Obrigado” irônico quando arrancou.
Em menos de dois minutos o Camaro já estava de volta à avenida, seguindo na direção da Ponte Garrison, sobre o Rio Sina. A oficina onde Ryuu trabalhava ficava na margem sul, exatamente aonde se encontrava agora, mas Connie costumava dar uma volta com os veículos que roubava para checar questões de desempenho e despistar outras possíveis medidas de segurança que não tivesse visto. Também precisava admitir que gostava da vista de cima da ponte à noite — a estrutura era bem alta para garantir a passagem de navios até o porto de Rose Fields, e de lá ele conseguia ver todas as luzinhas da cidade refletidas na água. Supunha que não era uma vista tão boa quanto a da roda gigante no parque, mas ele a apreciava de qualquer forma.
O caminho era tranquilo depois que se saía da parte mais agitada em direção aos bairros residenciais na margem do rio. O rapaz seguiu direitinho todas as recomendações de trânsito – ser pego por um radar por excesso de velocidade é exatamente o que um ladrão não quer – e parou em todos os sinais vermelhos. Aos poucos o garoto foi se soltando um pouco mais, a pulsação voltando ao normal quanto mais distante ficava do local do delito. Até mesmo se sentiu à vontade o bastante para ligar o rádio e procurar por uma de suas estações favoritas, cantando baixinho junto com a música.
“And the moral about the story is... Work!” Murmurou para si mesmo, batendo de forma ritmada no volante com os dedos enquanto esperava o sinal abrir.
As estrelas estavam todas ao redor dele quando chegou ao topo da Garrison, a água calma como um espelho refletindo o céu acima e as luzes ao redor. Lembrava a Connie de um planetário a que fora pelo colégio quando era bem pequeno, o escuro com os pequenos pontos brancos e coloridos. Ele se perguntava se era isso que os soldados da guarnição tinham visto quando defenderam a cidade durante a guerra há tanto tempo atrás. Não era exatamente a mesma ponte, já que a antiga tinha sido destruída por um bombardeiro na guerra seguinte, mas o nome se mantivera e a vista também. Aquela paisagem sempre o deixava tranquilo – talvez por isso passava por ali a cada trabalho. De alguma forma, o enchia de esperança para dias melhores. Talvez esses dias não estivessem mais tão longe.
“Caramba... Depois dessa eu realmente tô parecendo um monge.” Riu consigo mesmo, fazendo uma careta com o apelido que Sasha lhe dera... Ainda que o preferisse ao apelido que Eren arranjara: Dhalsin, de Street Fighter. Depois de alguns minutos de calma contemplação, o estudante decidiu que já tinha demorado o suficiente e desceu para a margem norte, em seguida pegando um retorno para voltar ao outro lado e seguir para a oficina, num bairro vizinho ao que ele mesmo morava. Ao contrário do centro comercial ou dos bairros de ricaços à margem do Sina, a periferia era bem mais perigosa, especialmente com um carrão daqueles. O próprio Connie já tinha sido emboscado por uma gangue e tivera sua mercadoria roubada, além de quase levar uma surra. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, disseram eles quando jogaram o garoto no meio da rua. Algum tempo depois, o rapaz careca ficou sabendo que tinham sido presos para escapar de uma dívida de sangue com os Titãs, e achou bem feito. Por sorte, não teve nenhum contratempo naquela noite além do eventual drogado atravessando a rua sem olhar para os lados.
A oficina funcionava nos fundos de um estabelecimento legítimo, operado por um tal de Sr. Giovanni. Connie nunca tinha visto nem conhecia muito sobre o chefe, além de saber que era dono do prédio e provavelmente recebia porcentagem dos lucros. Ao contrário da maior parte daqueles desmanches ilegais, o Ragako não era filiado a nenhuma gangue ou máfia, sendo formado por freelancers como ele. Parou em frente ao prédio e piscou os faróis do carro três vezes, o sinal definido para operador que retorna, e não precisou esperar muito para que um dos portões fosse levantado e o veículo deslizasse para dentro.
“Fala, Connie! Bela garota.” Um dos colegas o cumprimentou assim que o rapaz desceu do carro, e outro assobiou alto ao ver o ganho da noite. O estudante deu seu melhor sorriso convencido enquanto apertava as mãos dos dois amigavelmente, recebendo tapinhas nas costas em troca.
“E aí, cara? Tive sorte hoje. Cadê o Ryuu? Ele vai gostar de ver isso.” Inquiriu, sabendo que o colega deveria estar trabalhando já àquela hora.
“Vou chamar... Ah, nem precisa, lá vem ele.” O outro garoto deu de ombros e então se afastou para abrir o portão para um novo operador que chegava, deixando Connie com seu vizinho e colega de profissão de longa data.
Que Ryuunosuke Uryuu era uma figura estranha, isso era certeza. O garoto era ruivo, de olhos escuros sem vida e um sorriso sempre animado no rosto corado. Naquela noite estava vestido com um macacão de mecânico roxo manchado de graxa e um par de tênis de leopardo mais limpo que qualquer outra peça de roupa que o careca já o vira usar. Não era segredo que suas posses animalescas eram as suas favoritas. Além disso, ele ignorou totalmente o vizinho inicialmente, em vez disso se agachando ao lado do Camaro com uma animação infantil.
“Ei Connie, que menina bonita você trouxe pra mim hoje!” Exclamou Ryuu, admirando cada pedacinho do carro como se fosse a coisa mais linda que já tivesse visto.
O ladrão assentiu, se encostando num dos pilares próximos enquanto cruzava os braços. “Né? Ela chamou minha atenção assim que a vi.”
“Também, com essa pintura... Ela parece a Beatrix Kiddo de Kill Bill.” O ruivo deu um longo suspiro apaixonado, fazendo com que seu colega levantasse a sobrancelha. “Realmente é linda.”
“Pronto pra fazer sua mágica?” O trabalho de Ryuunosuke era no desmanche, a etapa seguinte do esquema do de Connie que, como operador, obtinha ilegalmente veículos. Mecânicos como o garoto dos leopardos então desmanchavam tudo o mais rapidamente possível – as vezes chegavam a transformar um carro em peças avulsas em uma hora – e então a mercadoria era distribuída em diferentes lojas de revenda no mercado legal e negro de Rose Fields e das cidades vizinhas. Era um negócio que prosperava na região, com vários grupos rivais disputando mercado e os rios de dinheiro que ele significava.
O outro garoto se ergueu, assentindo e limpando de forma não muito efetiva uma mancha de graxa em seu rosto pálido. “Claro. Em uma hora deve estar tudo resolvido... Se bem que vai dar um aperto no meu coração desmontar essa belezinha.”
O estudante deu de ombros, mas tinha um tom amigável na voz quando falou. “Trabalho é isso, amigo, temos que fazer. Mas quem sabe algum dia você não descola um emprego como construtor de carros, não desmanche?”
O sorriso de Ryuunosuke fraquejou um pouco com aquela ideia, e ele desviou o olhar quando disse: “Não sei não, Connie... Eu e minha irmã vivemos daqui, você sabe. Eu não quero que a gente acabe se metendo em problemas.”
O outro rapaz franziu o cenho, estranhando a mudança de comportamento do colega. “Eu sei como é, cara, comigo e com minha mãe é o mesmo...” Ele suspirou, melancólico. “Só não me diz que você nunca pensou como seria ter um emprego limpo?”
“Não perco meu tempo com essas coisas, bro, eu sei que não vale a pena.” O ruivo balançou a cabeça, e então voltou a sorrir e a mudar de assunto, enquanto pegava sua maleta para começar o trabalho. Optou por começar pelas calotas limpas e brilhantes do Camaro, tirando cada uma com uma delicadeza quase humana. “Prefiro continuar trabalhando, honesto ou não, é trabalho. E eu tenho meu amorzinho pra sustentar. Ela quer um celular novo, sabe? Daqueles bem caros!”
“Você mima demais essa menina.” Comentou o rapaz careca, com a sobrancelha levantada. Ele pessoalmente considerava Carmelita, a irmã mais nova de Ryuunosuke, uma garotinha rude, violenta e mimada; no entanto, sabia o suficiente para não dizê-lo na frente do mecânico, que a adorava ainda mais que suas máquinas.
O ruivo sorriu ainda mais, com certo tom de rosa surgindo em suas bochechas, mas sua voz estava triste quando respondeu: “Ela é a única coisa que eu tenho. Que nem você e a dona Prim. Falando nisso, como que ela está? Tem notícia se ela vem pra casa?”
“O médico disse que se continuar respondendo ao tratamento, logo logo ela está de volta.”
“Que lega!!! Me avisa quando ela voltar que eu e a princesinha vamos passar por lá com um bolo bem grande, viu?”
“Hm, obrigado. Eu aviso sim.” O estudante deu um sorriso fraco, pôs as mãos nos bolsos do casaco e suspirou novamente. Sabia que o vizinho estava sendo gentil, mas não estava bem agora. Se sentia subitamente muito cansado, como se a empolgação dos momentos na ponte tivesse sumido de uma vez.
“O que foi, Connie?” A voz de Ryuunosuke o tirou de seus pensamentos.
“O que foi o que?” Perguntou, realmente confuso.
“Essa sua cara de enterro. Tem alguma merda rolando, eu posso ver. Não sou burro, tá?” O ruivo fez uma careta de chateação que francamente deu a Connie uma grande vontade de rir, mas ele soube se controlar.
“Ryuu... Olha, eu estava pensando...”
“Em sair?” O garoto dos leopardos adivinhou, sem sequer levantar o olhar do pneu que retirava agora, e no qual deu um tapinha afetuoso. “Ah, cara, tava escrito na sua fuça. Claro que você está pensando em sair.”
Connie optou por não negar nem confirmar; ao invés disso, coçou o nariz. “Bom, segundo essa hipótese... O que você acharia disso?”
“Como seu colega, eu diria que a decisão é sua.” O rapaz continuou seu trabalho, abrindo a capota do veículo e se pondo a atacar o motor, sem se importar em ganhar uma nova mancha de graxa em seu macacão roxo. “Como seu amigo, que está nessa há mais tempo que você... Eu diria que é uma má ideia. Sabe o que aconteceu com o Nico?”
“Quem é Nico?”
“Justamente.” Ryuunosuke assentiu, como se fosse exatamente essa a resposta que esperava. “Você nem ouviu falar dele. Nem você nem mais ninguém, desde que ele disse que queria dar o fora. Ah, e eu nunca mais vi o pai dele também. Um senhorzinho simpático que gostava de alimentar os pombos.”
Aquela informação tinha realmente pego o outro rapaz de surpresa. Sabia que era raro que algum deles se aposentasse, mas sempre julgara que fora simples falta de oportunidade ou prisão. Que alguém deliberadamente matasse os que tentavam sair era uma possibilidade assustadora. Como a mosca que pela primeira vez percebe a teia da aranha ao redor dele, ou o rato que vê a sombra do gato que apenas brincou de deixa-lo fugir, Connie percebeu que estava mais preso naquilo do que julgava ser possível, e pior ainda, não era o único que estava em risco. Sua mãe também estava.
“Eu preciso sair. Preciso sair, mas eles nunca vão me deixar ir embora.” Decidiu consigo mesmo. Era o melhor a fazer, tanto para a segurança da Dona Prim quanto de si mesmo, mas não tinha a menor ideia do como. Por um rápido instante, sua mente se voltou para Ymir. Será que confiar seu segredo a ela tinha sido um erro? O que ela poderia fazer quanto a isso?
Pela primeira vez, o ruivo ergueu os olhos e encarou o amigo, apontando para ele com uma chave inglesa. “Lembra do que eles disseram quando a gente entrou nessa, Connie? Agora somos parte do esquema. Seria pior se fôssemos de gangue, mas mesmo não sendo... Sabemos demais, cara. Saber das coisas é um peso. Um fardo. Conhecimento é uma arma, Connie... Uma faca de dois gumes. E um deles está sempre apontado pra quem usa.”
“Você... Tá bem filosófico, cara.” Foi a única coisa que se viu capaz de dizer, com a garganta apertada como estava.
“Eu me formei em arte, lembra?” Ryuunosuke deu um sorriso amigável, parecendo não perceber o incômodo do outro. “Agora vamos trabalhar, sim? O papo tá bom, mas eu tenho que desmanchar a Beatrix aqui até duas da manhã. Aí estaremos prontos pro próximo.”
“Próximo? Mano, eu te trouxe um Camaro. Um maldito Camaro. Ainda quer mais?” O estudante cruzou os braços, irritado, e seu colega apenas deu de ombros.
“Você não viu o jornal das seis não? Rolou uma batida num dos depósitos dos Titãs. Levaram um monte de peça já comprada, e agora os clientes estão louquinhos querendo reposição. E a gente não pode deixar o cliente na mão, né?”
“Não mesmo.” Pensou o rapaz careca consigo mesmo. Só de pensar no que aconteceria com Primrose Springer se deixasse já fazia com que seu estômago se embrulhasse.
“...Não. Claro que não.” Suspirou Connie, e se virou para voltar à escuridão.
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