Direito de Amar
2 A Chegada do Chefão
No dia seguinte, quando chego ao escritório exausta, vou até minha mesa e, enquanto ligo o computador me vem toda aquela cena da noite passada, até Diego chegar, me tirando de meus devaneios
— Bom dia, Marcia
— Bom dia
Diego, além de ser meu colega, é um sujeito muito simpático e, muito atrevido também. Desde meu primeiro dia no escritório ele vem dando em cima de mim com suas cantadas que ninguém conhece. Ele é engraçado e está sempre me fazendo sorrir, mesmo quando não estou em meus melhores dias. Nos damos muito bem, o que causa uma certa inveja nas outras, pois quase todas babam por ele, mas, não sei por quê, em mim ele não surte o mesmo efeito, embora Diego seja muito bonito, o vejo apenas como um amigo
— O que houve? Parece distraída hoje — pergunta Diego. Sua abordagem me desespera. Olho pra ele e respondo tentando esquecer as imagens que surgiam na minha mente.
— Minha mãe está cada dia pior...
— Ah, sinto muito querida — responde Diego, enquanto segura minha mão
Por alguns instantes conversamos sobre minha mãe e isso me deixa ainda mais triste. Amo minha mãe. Não sei o que seria de mim sem ela. Mas a cada dia que passa, sua situação devido a doença, fica ainda mais difícil de lhe dar, e isso me dói. Me dói muito.
Logo minha chefe chega, rodeada por vários homens, como sempre. Mas, tenho que admitir que Cora Hensler é uma morena muito atraente. Uma cinquentona poderosa e convencida. Solteira, mas nunca estava sozinha. Alguns dizem que ela tem vários casos na empresa. Cuida-se como ninguém e vai todo o santo dia à academia. Ou seja, ela gosta... que gostem dela
— Temos que começar a trabalhar! — falei tirando minha mão das de Diego
Uma hora mais tarde após tirar umas cópias e finalizar um documento, me dirijo a sala da minha chefe. Bato na porta e entro
— Aqui está o contrato para a sucursal de Córdova (Município na Espanha)
— Obrigada — responde secamente enquanto passa os olhos pelo documento
Como de hábito, fico parada diante dela à espera de suas ordens. O cabelo da minha chefe é lindo, tão ondulado e perfeito. Nada a ver com o meu cabelo castanho e liso que costumo prender num coque no alto da cabeça. O telefone toca e antes que ela me olhe eu atendo
— Sala da senhora Cora Hensler. Quem fala é a secretária senhorita Harden. Em que posso ajuda-lo?
— Bom dia, senhorita Harden! — responde uma voz de homem com um leve sotaque estrangeiro. — Aqui é Andy Karl. Eu gostaria de falar com sua chefe
— Um momento, senhor Karl
Minha chefe, ao escutar aquele sobrenome larga os papéis que até então segurava e, após literalmente arrancar o telefone das minhas mãos, diz com um sorriso cativante nos lábios
— Andy... que bom que ligou! — depois de um breve silêncio continua: — Claro, claro. AH! Então já chegou a Madrid? — ela gargalha e depois num tom mais calmo e suave, diz: — Claro, Andy. Te espero às duas na recepção pra almoçar
E após dizer isso, desliga e olha pra mim
— Reserve uma mesa para dois no restaurante da Gemma!
— Sim, senhora Hensler — falo e saio de sua sala, voltando a minha mesa
No dia seguinte...
Mansão Karl
Acordo e assim que olho para o relógio em cima do criado mudo ao lado da cama: 07h15. Estou atrasado. Me levanto sobressaltado, já catando as roupas do chão e as vestindo
— Bom dia gato... — sorrio maliciosa pra ele — Volta pra cama. Por quê a pressa? — olho pra ele deitada de bruços com uma mão no queixo
— Estou atrasado! — pego as roupas dela e as jogo na cama pra que ela se vista
— Mais ainda são 07h20. Está cedo! — diz a mulher
— Eu vou entrar no banho, e quando eu voltar, espero não te ver mais aqui, ok Amanda?
— Amanda? Meu nome é Joana! — me levanto da cama já me vestindo
— É.. Bom... Tanto faz! — pego um maço de dinheiro na carteira e coloco em cima do criado mudo. — Aqui está! — e sigo pro banheiro
Na Müller
Quando chego ao escritório, a primeira coisa que faço é entrar na cafeteria, como de costume. Bebo rapidamente o café e sigo para o elevador. Assim que chego ao 17° andar, onde fica meu escritório, dou de cara com Cora, que assim que me ver, trata logo de vir correndo em minha direção. Já sabia que iria me azucrinar pelo meu atrasado.
— Andy, pelo amor de Deus, onde você estava? Te enviei várias mensagens no whatsapp...
— Bom dia pra você também, Cora!
— Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
— Estou ótimo! E gostaria muito de continuar assim... Se parasse com esses interrogatórios agradeceria muito
— Temos uma reunião importante daqui a 5min minutos!
— Eu sei, Cora... Eu sei! Não precisa me lembrar... Só tive um pequeno contra tempo
— Ok. Mais da próxima vez avise. Estava preocupada
— Não precisa se preocupar. Sei me cuidar...
Marcia
Na hora minha cabeça rebobina, como um papel que sai de uma máquina, e só então dou conta de que aquele homem, que por sinal estava deixando bem claro seu mau humor, se tratava do senhor Karl. O chefão. Confesso que estava adorando os foras que ele dava na mala da minha chefe. Ela merece. Pois é assim que ela me trata, com ignorância. E agora ela estava provando do próprio veneno. Mas aquela conversa já estava ficando tensa, e eu ali no meio deles não sabia o que fazer. Até que me levanto e pego alguns documentos de cima da minha mesa
— Com licença... Senhora Hensler, deseja mais alguma coisa?
— Não Marcia! O que ainda faz aqui? Preciso da cópia desses relatórios pra JÁ!
O agora identificado como Andy Karl, sem se importar com a presença da minha chefe, olha pra mim e diz:
— Então é a senhorita Marcia Harden, certo?
Como ele se lembrou do meu nome? Sou só uma simples secretária, e só atendi o telefone uma única vez. O olho meio atônica, mas antes que eu pudesse responder, minha chefe diz:
— Sim, Marcia é minha secretária
Instantes depois, o chefão caminha até sua sala. Estava assumindo a antiga sala de seu pai, que fica bem em frente à minha mesa. Ótimo, agora vou ter dois chefes malas pegando no meu pé! Antes de passar pela porta, ele se vira, e me olha. Seu olhar era frio, porém era um olhar diferente, mergulhado na solidão e na dor
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