Diorama Of Shining Hearts
9 Você Não Pode Fugir Disso?
Notas iniciais
Esvaindo, esvaindo, continuará."
Eu simplesmente me joguei na cama e desmaiei. Eu não comi nada, não atendi a porta quando minha campanhia tocou nem quando o celular tocou. Acordei no outro dia, com o uniforme completamente amassado e o cabelo desgrenhado.
No outro dia? Nem sabia quantas horas eu havia dormido, ou quantos dias. Pareciam dias, mas ainda era sexta-feira.
Me arrumei com pressa pois havia acordado um pouco tarde. Prendi o cabelo assanhado em um coque, e até que ficou legal.
Eu estava... Me sentindo bem? Me sentindo leve, como se aquela fosse minha vida, e como se aquela fosse eu mesma. Separei uma torrada para mim mesma e outra para Melody.
– Obrigada. – ela disse, dando uma minuscula mordida no pão – Parece que acordou bem hoje.
– Oh, parece que sim. Talvez eu sonhei com algo bom, não?
– Bom, talvez. – fadinha deu de ombros e me seguiu, silenciosa.
Consultei o relogio da sala e pisquei algumas vezes. Eu estava extremamente atrasada agora. Por alguns minutos, o tempo parecia estar estatico, depois avançou com tudo. Calcei meus sapatos e corri pela calçada pavimentada de flores de cerejeira.
Quão estranho seria se eu dissesse que, dentre todas as árvores que despejavam suas flores, havia uma que ainda estava verde e, ainda por cima, carregada de maçãs? Seria louco, não?
Pois eu a ignorei e corri o mais rapido que pude em direção à escola. Quando finalmente cheguei até a macieira, algo pareceu me impulsionar para trás, como uma rede de proteção.
Cai brutamente no chão, com um grunhido imenso em minha cabeça. Não era a gritaria triste e melodiosa que eu costumava ouvir, mas sim um grande urro de dor. Era horrivel. Doloroso.
Tapei meus ouvidos mesmo sabendo que era em vão. Podia ouvir tanto os urros, como a fada que também gritava para que eu me trasformasse. Ela estava ao meu lado, como se uma força invisivel a previnia de se levantar. Ela também estava sofrendo.
– Melody, Make me Up! – bradei sem nem ao menos alcançar meu broche.
As mesmas luzes me carregaram e depois me soltaram ao chão de modo brusco. Senti menos dor e logo me levantei. Chequei Melody, e ela parecia estar bem.
– O que é isso, fada? – perguntei
– É uma Dimensão Restrita. – ela respondeu, contemplando a macieira.
– Vou ter de abrir? – perguntei, receosa – Aquele barulho... Não era normal.
– Por isso mesmo vai ter de abrir. Agora.
Contraí os labios, ponderando se aquilo era certo. Ante as ordens da pequena fada, o Tact se materializou em minhas mãos e mirei-o na árvore – Melody Tact, Open!
A Dimensão se abriu e antes que eu pudesse analisar qualquer coisa um grito agudo e feminino. As únicas coisas que eu vi foram borrões louros e uma explosão proxima.
– O que está fazendo aqui?! – Lunar exclamou, melhor, ela berrou. Seu rosto estava avermelhado e inchado como se estivesse chorando, e seu vestido estava rasgado aqui e ali. As maria-chiquinhas desajeitadas e ela arfava pesadamente – Por que veio aqui?!
– Eu... Eu ouvi um barulho horrivel, eu mal conseguia andar! – me defendi – Melody me disse para abrir a Dimensão Restrita, e foi o que eu fiz. O que há de errado com isso? Não fomos feitas para lutar contra Shadows?
– Eu não precisa da sua ajuda, vá embora, Melody! – ela gritou, me empurrando – Aquilo não é um Shadow, é um Himei!
– Hi...Mei...?
Tomei folego e mirei o local. Parecia ser feito de giz. As flores que caiam, as mesas e cadeiras que estavam espalhadas por um tapete de petalas. Parecia algo como uma sala de aula na rua.
Lunar começou a chorar. Parecia levemente descontrolada. Procurei pelo tal Himei, parecia uma grande cobra cinza, irregular, feita de giz escurecido. Seus olhos não eram azuis, e sim, purpuras.
– Lunar, nós podemos derrotá-lo! É só mais um inimigo e eu, francamente, não estou com medo!
Proferi essas palavras enquanto sentia cada fibra do meu corpo tremer. Aquilo não parecia tão ameaçador quanto um Shadow e, o que tinha de mais em um Himei? Um nome diferente e olhos purpuras?
Segurei-a delicadamente pelos ombros e seus labios tremiam.
– Vo-Você não entenderia, Melody... Não somos capazes de derrotar um Himei... Nem eu, e ainda mais você... – ela soluçou, com seus olhos esmeralda marejados – A-Acho que ninguém pode...
– Não diga isso, Lunar! – falei, mas acho que minha voz tremula disse o contrario – Nós somos Dioramas, nós podemos fazer isso! – ela se debruçou sobre meu corpo, num choro incontrolavel – Lunar, você não está mais sozinha. Eu vou ficar aqui com você, e lutar! Não seu preocu—
– Você não entende! – ela gritou novamente, se desvencilhando de meu abraço. Lunar me segurou pela mão e nós corremos até o que devia ser a mesa do professor. O Himei havia se impulsionado em nossa direção e bateu contra a parede que estava atrás de nós. Agora, seus restos rastejavam pelo chão, procurando se reencontrarem – Nem mesmo uma Herdeira pode derrotá-lo. Ele é...
Senti algo no peito. Como se algo houvesse me atingido no peito. Eu não sabia explicar. Aquilo que sentimos quando finalmente percebemos o que estava a nossa frente o tempo todo. Minha boca secou e eu mirei o local mais uma vez. Eu não devia estar ali.
Aquela vida não era a minha, ou aquela não era eu. Eu falava com a confiança de alguém que já se acostumou ao mundo à sua volta e eu ainda não havia me acostumado!
Uma dupla de lagrimas rolaram de meus olhos ao ouvir a voz tremula de Sorano-san.
– Você não devia ter entrado. – suas vestes se rasgaram e se desfizeram em pó brilhante – Agora você vai morrer também.
Ela caiu de joelhos e eu a segui. Engoli em seco, tentando digerir suas palavras. Murmurei algo que nem eu mesma consegui ouvi, e a criatura feita de giz se esgueirou até ficar atrás da loura, que ainda chorava copiosamente, mas em silencio. Um sorriso brotou em seus labios invisiveis, a medida que sua forma se partia em uma grande boca, com grandes dentes, e se aproximava dela.
Eu nada podia fazer. Contemplei minha inutilidade, sentindo meus musculos tremerem diante da morte de Sorano-san, e eu nada podia fazer. E eu também não podia fugir disso.
Levantei-me, sentindo varias lagrimas escorrerem pelo rosto repetidas vezes. As mãos agarraram a saia do vestido enquanto eu ouvia os últimos gritos de Sorano-san, e seu sangue escorrendo por um canto da boca de giz do Himei.
O Tact se materializou em minha mão. Não importava se eu era uma Herdeira ou não, isso acabaria agora. Agora eu não posso fugir disso.
E, quando isso acabasse, alguém que daria umas boas respostas.
– Melody? – perguntei, mas não houve resposta
O Himei percebeu o Tact apontado para ele. Sentiu-se ameaçado e, ante sua boca colossal, não pude dizer meu ataque. Pensei estar morta antes mesmo de sentir seus dentes feitos de giz penetrarem minha carne.
– Abaixe-se! – por impulso, foi o que eu fiz – Apple Shot! – o desenho feito com giz de uma maçã raspou por meus cabelos e atingiu em cheio a boca do Himei. Houve um barulho alto, e ele pareceu murchar. Uma fumaça vermelha saia por entre seus dentes.
Num movimento rapido, rolei pelo chão e me levantei, correndo até o outro lado. Aquela parte fora consumida por um fogo desenhado em giz e, logo em seguida, Apple pousou sobre a cabeça do Himei e bradou:
– Apple Rain!
Ela estalou os dedos e uma chuva de luz avermelhada, adornada com maças, caiu sobre o Himei, com força o bastante para mantê-lo no chão. Logo depois, armou pulo e apontou o Tact para ele.
– Apple Master Wave!
Como o solavanco de uma arma, a onda de luz jorrou sobre o Himei, empurrando Apple para trás. Ela girou no ar e caiu em segurança no chão. Por alguns segundos pude ver a imensa cratera que se formou no rosto abstrato do inimigo e então, pouco a pouco, foi se desfazendo. Não como um giz sendo apagado mas, ele parecia derreter. Parecia chorar enquanto fazia um som de violino desafinado.
Apple caminhou em minha direção. Um sorriso estranho nos labios.
Cai de joelhos, mirando o chão. Eu não tinha forças para chorar novamente.
– Eu quase morri... Eu quase morri de novo...
– A Dimensão, ela comeu a fada. – Apple disse assim que levantei meu rosto – E por sua culpa, comeu a Lunar também.
– Nã-Não foi minha culpa!
– Claro que foi! – ela bufou, abrindo o sorriso novamente – Você não devia estar aqui, Diorama. Você nem devia ser uma.
– O quê?
– Você não percebeu as coisas ao seu redor. Não percebeu o grave erro que cometeu ao se tornar uma Diorama e... – ela engoliu em seco, hesitando por algum motivo – Mesmo podendo, não salvou Lunar. Não acredito que seja a Herdeira mais poderosa.
– Eu poderia ter salvo... Sorano-san...? – repeti para mim mesma, mordendo o labio inferior.
– O Ryuugenchi não precisa de uma sucessora tão fraca. – seu Tact se materializou na espingarda adornada de maçãs. Suas vestes se rasgaram, dando lugar ao uniforme escolar – Sua historia acaba aqui.
E agora? Será que eu não posso fugir disso?...
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