Notas iniciais
"Eu escondi tuas memorias embaixo da terra
Embora sabendo que isso era um pecado."

Saltamos pela cobertura dos prédios mais proximos e em direção à rua. Pareciamos deixar um rastro colorido por onde passavamos.

Quando nivelei minha velocidade à de Sorano-san, ela me olhou de rabo de olho e sorriu. Saltou graciosamente para a esquerda, e eu a segui. E continuei seguindo, pois a percepção dela aparentava ser mais aguçada que a minha.

Melody explicou-me que, agora que estou em estado de Diorama, posso suportar os gritos do Shadow. Quando em forma humana, eles são nocivos. Podendo me contaminar, fazendo com que meu coração exploda em um Shadow também, como até mesmo explodir minha cabeça.

Mais alguns pulos, e percebi que estavamos em uma estação de metro, que ficava do outro lado da cidade. Corremos tanto assim?

Assim como da última vez, o local estava deserto. Notei que, tanto o broche de Sorano-san como o meu emitiam um brilho fraco e fosco, e algumas notas baixas.

A loura elevou o braço e estalou os dedos, fazendo com que seu Tact aparecesse. Lunar Tact, disse que se chamava. Era de mesmo tom do vestido, adornado com uma lua crescente na ponta.

- Lunar Tact, Open! – bradou, e aconteceu novamente.

Após um “dó ré fá” rapido, varios crescentes de lua pareceram “comer” aquele cenario, e nos sugar para dentro.

Diferente da outra Dimensão Restrita, essa era bem... Incomum.

- Isso é glacê? – Sorano-san perguntou, estreitando os olhos

Sentimos nossos pés afundarem em algo branco e macio. Sorano-san afastou a massa branca para um lado, e descobriu algo fofo e em tons pardos abaixo de nossos pés.

Analisamos o cenario e descobrimos que a estação de metro, sim, se tornou um grande bolo.

Tudo foi coberto por glacê branco e adornado de cerejas. A entrada para a estação era feita de um bolo claro, com pingos de chantilly e suspiros, imitando as decorações do local.

Entramos pelo portal feito de doces, e, confirmamos que aquela dimensão era completamente composta de glacê.

Caminhamos um pouco pela estação. Era estranho andar por uma terra feita de bolo e suspiro, e tudo aquilo me dava água na boca. Havia grandes morangos no lugar das usuais cadeiras e bancos, e framboesa onde deveria haver uma lixeira ou algo assim.

Havia um trem que parecia estar pronto para a partida. Feito de um bolo mais escuro, e recheado de algo branco.

- Sorano-san... Será que podemos comer? – perguntei, já sentindo o gosto do côco e do leite na boca

- Bom... Isso é doce... Inegavelmente, é doce... – respondeu, passando o dedo sobre o glacê que estava em um balcão, provando-o – Realmente, é doce.

Ela sorriu, passando o dedo mais uma vez. Corri até o trem, e mergulhei dois dedos no recheio. Senti os pedaços de côco bailarem em minha boca, e o gosto enjoativo do creme. Curei-o pegando um pedaço do bolo escuro, que tinha um forte gosto de cacau.

- Vocês sabem que estão comendo o coração de alguém, não sabem? – advertiu Melody

- E isso não é humano. Talvez possa fazer mal... – Luna advertiu, preocupada

- São só doces e frutas. – Lunar respondeu – Não há nada mais humano que isso.

Arrancou um pedaço do morango que estava ali, e o engoliu. Fiz o mesmo com uma cereja que estava presa no chão, perto do trem. Por alguns segundos, houve um tremor que aumentava gradativamente. O trem fôra perfurado de baixo para cima, e algo o atravessou, rapido como uma bala.

A “coisa” se assemelhava a uma bola escura e instavel, com dois pontos azuis, flamejantes. Quicou por toda a estação, depois manteve-se inerte, como um enfeite de luz no teto.

Aos poucos, foi se desdobrando, até criar a usual massa negra de olhos azuis. Era gigantesca, e apanhava com suas mãos, igualmente gigantescas, grandes porções de bolo e glacê, e as engolia.

- Estão vendo? Esses doces são o alimento do Shadow! – Luna avisou, irritada

- Será que vamos poder comer um pouco mais, assim que derrotarmos ele? – eu perguntei, provando do glacê agora

- Talvez. Espero que sim. – Lunar respondeu, com seu tipico sorriso.

- Se apressem, antes que ele coma toda a Dimensão Restrita, e passe para à realidade!

Tanto eu como Lunar assentimos. Assim como ela, elevei o braço e estalei os dedos, fazendo meu Melody Tact se materializar em minha mão. Admirei-o por alguns segundos, e segurei a mão livre de Lunar. Colamos nossos corpos, e eu senti seu calor. Pareciamos uma única existencia, e eu parecia não ter controle algum sobre meu corpo mais.

- Melody Lunar Wave! – bradamos em conjunto. Uma forte torrente de luz saiu da ponta de nossos tacts, adornada de crescentes e notas músicais. Miramos bem no centro do Shadow mas, por uma pequena ironia, o Shadow voltou à sua forma arredondada e quicou para outro local. O Wave atravessou uma parede de bolo e nós fomos jogadas para trás. A parede, rapidamente, se fechou.

- O quê?! – Lunar exclamou, mordendo o labio inferior, seguindo a bola cinzenta com os olhos. Para mim, fôra a primeira vez que a vi sair de seu estado natural

O Shadow se balançava pelo ar, e as vezes quicava de parede em parede. Nos levantamos e limpamos o glacê e a calda que havia em nossas roupas e aproveitamos para lamber os dedos também.

- Lunar, você está bem? – perguntei. Ela ajeitava as maria-chiquinhas, e seu sorriso deu lugar a uma expressão fria.

- Sim. E você? – eu estava bem sim, com as canelas cheias de chocolate, mas bem.

Mal tive tempo de responder. Nossa atenção fôra atraída pela pelo cinzenta no teto. Ela chacoalhou algumas vezes no ar, e veio veloz, como uma bola de ping-pong, batendo em nossos pés. Senti meu corpo voar em direção à escadaria principal, também feita de bolo. Alguns morangos cairam sobre meu corpo e, apesar de tudo ser muito fofo, realmente doeu. Como se fosse proprio concreto que despencasse sobre mim.

Ouve o grito de Lunar, sendo jogada para outro lado, seguido do grito agudo das fadinhas e do farfalhar das asas.

- Diorama! Você está bem? – Melody perguntou, talvez estivesse chorando

- Estou sim... – respondi, tirando os “escombros” de bolo do meu corpo e o resto da calda. De subito, me lembrei da outra – Lunar!

Atravessei o saguao até onde Lunar estava. Luna voava a sua volta, preocupada, chamando seu nome. A loura estava jogada no chão, soterrada por bolo e cerejas. O Shadow havia se materializado em sua forma original e já com um imenso pedaço de bolo em mãos.

Ajoelhei-me junto ao corpo de Lunar, sacodindo-a para que acordasse.

- Lunar! Lunar! Acorde! Precisamos fugir!

Luna bufou e voou ao meu redor.

- Diorama, você não pode fugir! Lunar abriu essa dimensão, e só ela pode abrir novamente. – declarou, irritada – Você precisa ficar, e lutar! Veja, Lunar está fora de ação, mas não está morta. Ela ainda vê, e ouve tudo. Ela só não pode mais lutar.

- Como ela pode ver o que está acontecendo? – questionei. Metade da atenção na fada, metade no Shadow – Os olhos dela estão fechados!

- Lunar tem uma conexão comigo! Eu sou os olhos e ouvidos dela, e nós nos comunicamos, mesmo quando ela está desacordada. – ela explicou, sorrindo suavemente – A mente nunca para de trabalhar, e é por isso que, até mesmo você, mesmo desacordada, ela ainda irá sentir dor.

- Então, você deve protegê-la, Diorama. – minha fada disse, preocupada

Eu também estava. Deixar a vida de uma Diorama exemplar nas mãos de uma novata é algo terrivel.

Levantei-me ainda hesitate. Limpei o creme dos joelhos, e elevei o Tact. Ele brilhou rapidamente, e se transformou em um pique. Uma extensa vara de cor escura, adornada por uma clave de sol na ponta, de cor branca. A clave reluzia, como uma lamina.

Girei o pique em minhas mãos algumas vezes e apontei-o para o Shadow. Sentindo-se ameaçado, ele pegou um punhado de bolo e jogou em nossa direção. Apressei-me e deslizei a ponta do pique, cortando o bolo ao meio. Os dois pedaços bateram contra a parede e se despedaçaram no chão. Girei o pique novamente, retirando os vestigios de creme que se prenderam na clave.

A graça daquele Shadow quicante teria de acabar, e acabaria agora.

Notas finais
Esperam que tenham gostado! ♥