Dinastia de Cinza

2 Uma narrativa de romance


A coletiva de imprensa foi organizada com a precisão de um espetáculo cuidadosamente ensaiado, porque em New York City crises não eram contidas — eram reencenadas até que o público escolhesse acreditar na versão mais conveniente. O salão do hotel cinco estrelas onde o evento aconteceria estava tomado por câmeras, microfones e jornalistas que fingiam neutralidade enquanto farejavam sangue político no ar. Do lado de fora, manifestantes se misturavam a curiosos e investidores ansiosos, todos tentando decifrar se estavam prestes a assistir à queda de duas dinastias ou ao nascimento de uma aliança ainda mais perigosa. Dentro da sala reservada nos bastidores, Isabella Swan observava o próprio reflexo no espelho iluminado, avaliando não a maquiagem impecável nem o vestido sob medida em tom marfim, mas a expressão que precisava vestir dali a alguns minutos.

Ela não estava nervosa. Estava irritada — o que, para Bella, era muito mais produtivo.

Edward entrou na sala sem bater, ajustando os abotoaduras como se estivesse prestes a discursar na ONU e não anunciar um noivado estratégico. Ele parou atrás dela, o olhar deslizando pelo reflexo no espelho com um tipo de apreciação que não era romântica, mas analítica, como se estivesse avaliando uma peça rara prestes a ser exibida ao público.

— Você parece apaixonada — ele comentou, o tom leve demais para ser inocente.

Bella não se virou.

— E você parece ensaiado demais.

— Eu ensaio desde que aprendi a falar — ele respondeu. — Diferente de você, que prefere improvisar quando está irritada.

Ela finalmente o encarou pelo espelho.

— Eu improviso quando estou no controle.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Você não está no controle hoje.

— Nem você.

O silêncio entre eles foi interrompido pela assessora de imprensa que entrou apressada, avisando que faltavam três minutos. Três minutos para que dois inimigos históricos atravessassem um palco de mármore e vendessem ao país a história de um amor que nunca existiu da forma como seria contado.

Quando saíram da sala, os flashes começaram antes mesmo de alcançarem o púlpito. O som era ensurdecedor, repetitivo, quase agressivo. Edward segurou a mão de Bella com naturalidade calculada, os dedos firmes demais para parecerem espontâneos, e ela permitiu o toque com um sorriso que poderia ser interpretado como ternura — ou ameaça. Para o público, parecia cumplicidade. Para eles, era estratégia.

No centro do palco, Carlisle Cullen iniciou o discurso com a voz firme de quem sempre dominou plateias, falando sobre união, estabilidade e confiança nas instituições, enquanto Charles Swan complementava com referências à importância de fortalecer laços em tempos desafiadores. A palavra “investigação” foi mencionada apenas uma vez, cuidadosamente envolta em termos como “transparência” e “colaboração”. Mas o momento mais aguardado não era sobre números ou empresas — era sobre o casal.

Edward deu um passo à frente primeiro.

— Bella e eu crescemos juntos — ele começou, a voz modulada, segura. — Nossas famílias compartilham valores há décadas. O que muitos talvez não saibam é que sempre houve algo além da amizade entre nós.

Bella quase riu, mas manteve o sorriso.

— Nem tudo precisa ser exposto ao público antes do tempo certo — ela completou, o tom doce o suficiente para confundir qualquer suspeita.

Uma jornalista da primeira fila ergueu a mão antes mesmo que o moderador abrisse oficialmente para perguntas.

— Isabella, esse noivado não é uma tentativa de desviar a atenção da investigação federal?

A sala silenciou.

Bella não hesitou.

— Se fôssemos nos esconder, não estaríamos aqui diante de vocês — respondeu, mantendo o sorriso. — Estamos assumindo responsabilidades pessoais e empresariais ao mesmo tempo. Isso não é desvio. É maturidade.

Edward apertou levemente a mão dela, como se reforçasse a narrativa.

Outro jornalista se levantou.

— Edward, o senhor acredita que o casamento influenciará positivamente as pesquisas eleitorais de seu pai?

Ele inclinou a cabeça com falsa modéstia.

— Eu acredito que o país precisa de estabilidade. Se nossa união simboliza isso, então fico honrado em contribuir.

Bella lançou-lhe um olhar rápido, quase imperceptível, que dizia claramente: você adora isso.

E ele adorava.

As perguntas continuaram, algumas sutis, outras agressivas, até que uma voz masculina no fundo da sala cortou o burburinho.

— É verdade que vocês tiveram um relacionamento no ensino médio?

O ar mudou.

Foi quase imperceptível, mas mudou.

Bella sentiu os dedos de Edward tensionarem por um segundo antes que ele respondesse, o sorriso intacto.

— Nós éramos adolescentes. Como qualquer adolescente, cometemos erros e aprendemos com eles.

Ela virou-se para ele com uma expressão ensaiada de cumplicidade.

— Crescer juntos significa isso — acrescentou. — Aprender, errar, evoluir.

Mas por trás da resposta diplomática, havia uma memória vívida demais para ser ignorada: a limusine estacionada longe da festa de formatura, o cheiro de couro, a raiva latejando no peito dela depois de descobrir a traição de Mike Newton, a maneira como Edward a olhou naquela noite — não com pena, mas com algo que se parecia perigosamente com desejo e desafio.

Depois da coletiva, quando as câmeras finalmente se afastaram e os pais foram cercados por assessores, Bella soltou a mão dele como se tivesse tocado fogo.

— “Cometemos erros”? — ela repetiu, a voz baixa e venenosa enquanto caminhavam pelo corredor privado do hotel. — Você se considera um erro?

Ele manteve o passo ao lado dela.

— Depende. Você me considera?

Ela parou abruptamente, virando-se para encará-lo.

— Eu considero você oportunista.

Ele aproximou-se um passo.

— E você? Aquela noite foi o quê? Um ato de caridade?

— Foi um ato de vingança — ela respondeu sem hesitar.

Ele sorriu lentamente.

— Não parecia vingança quando você me puxou pela gravata.

O olhar dela ficou mais frio.

— Não confunda necessidade com interesse.

Ele inclinou-se levemente, a voz quase um sussurro.

— Você ainda odeia que tenha sido comigo e não com alguém que pudesse controlar.

Ela sustentou o olhar dele por um segundo longo demais.

— Eu não controlo o passado. Eu controlo o que faço com ele.

E ali estava a diferença essencial entre os dois: Edward usava memórias como armas provocativas; Bella as transformava em estratégia.

No carro que os levaria de volta para a cobertura, o silêncio foi denso, interrompido apenas pelo som distante da cidade. Do lado de fora, manchetes já estavam sendo atualizadas: “UNIÃO HISTÓRICA ENTRE CULLEN E SWAN”, “AMOR DE INFÂNCIA EM MEIO A CRISE”, “CASAMENTO DO ANO OU JOGADA POLÍTICA?”. A narrativa começava a funcionar. As ações estabilizavam discretamente. O mercado respirava.

Mas dentro do carro, a guerra pessoal estava apenas começando.

— Precisamos estabelecer regras claras — Bella disse finalmente, sem olhar para ele. — Nada de usar o passado como espetáculo.

— Eu nunca uso algo que não funcione — ele respondeu.

Ela virou-se lentamente.

— Tente de novo e eu garanto que não será você quem contará a próxima versão da história.

Ele sustentou o olhar dela.

— Está me ameaçando?

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Estou te lembrando que você não foi o único naquela limusine.

O sorriso dele diminuiu apenas o suficiente para revelar que aquela frase havia acertado algo real.

Porque, por trás de toda arrogância, havia uma verdade incômoda que nenhum dos dois admitia em voz alta: naquela noite, não foi apenas raiva ou conveniência. Foi escolha. E escolhas deixam marcas.

Quando o carro parou diante da cobertura, Edward saiu primeiro e ofereceu a mão para ajudá-la a descer, novamente diante das câmeras que ainda esperavam. Ela aceitou, o sorriso impecável retornando ao rosto como se nada tivesse sido dito nos últimos minutos.

Para o mundo, eles eram a imagem perfeita de estabilidade.

Para eles mesmos, eram uma bomba-relógio.

E enquanto subiam juntos no elevador privativo, cercados por espelhos que refletiam múltiplas versões do mesmo casal recém-noivo, a pergunta que nenhum dos dois teve coragem de fazer em voz alta pairava silenciosa entre os andares:

Se a guerra entre eles sempre existiu…

O que aconteceria quando o ódio deixasse de ser apenas estratégia e começasse a se misturar com algo muito mais difícil de controlar?

Notas finais
Impérios caem. Dinastias queimam. Mas essa história ainda está longe do fim… 🔥 Se você acredita que Dinastia de Cinzas merece conquistar mais leitores, recomenda a fic e me ajuda a espalhar esse caos.