Dinastia de Cinza
28 A dinastia de um presidente
Notas iniciais
O cheiro de antisséptico impregnava o ar do quarto, misturado ao som ritmado do monitor cardíaco que marcava a permanência de Edward entre a dor e a consciência. A bala havia atravessado a coxa esquerda com violência suficiente para estilhaçar tecido e orgulho, mas não para derrubá-lo. Ele estava pálido, a perna imobilizada, os dedos cerrados sobre o lençol como se ainda segurasse a arma que falhou em proteger quem ele amava. A cirurgia fora longa, delicada, e mesmo sob efeito dos analgésicos havia em seus olhos algo que não era fraqueza — era fúria contida. A porta abriu com discrição estudada, e o chefe do Federal Bureau of Investigation entrou acompanhado de dois agentes, o semblante rígido de quem traz mais peso que conforto.
— O senhor teve sorte de estar vivo, senhor Cullen — disse ele, cruzando as mãos atrás das costas. — Mas não posso dizer o mesmo de Marcus Volturi.
Edward virou o rosto devagar, a mandíbula travada.
— Diga o que veio dizer.
— Sua esposa cometeu homicídio. — A palavra caiu seca. — Ela executou Marcus à queima-roupa. Isso não é justiça, é crime federal. E ela terá que responder por isso.
O silêncio seguinte foi denso como concreto. Antes que Edward pudesse reagir, a porta se abriu novamente. Bella entrou ao lado de Carlisle. Ela havia trocado de roupa, mas ainda havia um vestígio invisível de pólvora em sua postura. Parou ao ouvir as últimas palavras, e seus olhos — frios, calculistas — pousaram no chefe do FBI.
— Responder por quê? — perguntou, a voz baixa, firme. — Por fazer o trabalho que vocês não foram capazes de fazer?
O chefe virou-se, surpreso com a presença dela.
— Senhora Cullen, seu marido invadiu um sigilo federal em vinte minutos. Nossos agentes levaram setenta e duas horas para obter autorização judicial. Há protocolos.
Bella deu um passo à frente.
— Protocolos? Meu filho estava nas mãos de um psicopata. Se o FBI tivesse feito o trabalho direito, eu não teria precisado sujar as mãos.
Carlisle, até então silencioso, interveio com a autoridade que poucos ousavam desafiar.
— Chefe, nós dois sabemos que Marcus Volturi vinha sendo monitorado há anos. Vocês sabiam do tráfico, das extorsões, dos desaparecimentos. E falharam quando importava. — Ele se aproximou o suficiente para que a ameaça não precisasse ser elevada. — Essa história será limpa. As provas indicarão que Marcus morreu em confronto com seus agentes. Minha nora não será envolvida. Se isso não acontecer, cabeças vão rodar. Inclusive a sua.
O chefe sustentou o olhar por alguns segundos que pareceram uma guerra silenciosa.
— Setenta e duas horas para quebrar um sigilo — continuou Carlisle, cortante — enquanto Edward fez em vinte minutos o que seus melhores analistas não conseguiram. O fracasso não foi nosso.
O homem respirou fundo.
— Vou ver o que pode ser feito.
— Não — respondeu Carlisle. — Você vai fazer.
Horas depois, enquanto os corredores ainda murmuravam tensão, Rosalie apareceu com uma pasta grossa nas mãos. Entrou no quarto com passos hesitantes, os olhos vermelhos de quem havia passado noites sem dormir.
— Eu entreguei tudo — disse ela ao FBI no corredor antes de entrar. — Esquemas, contas, nomes dos sócios. Vocês têm o império inteiro de Marcus agora.
Em troca, recebeu proteção federal e a promessa de um novo começo. Mas antes precisava enfrentar o passado. Aproximou-se da cama de Edward.
— Eu sinto muito — sua voz falhou. — Nem tudo foi mentira. Eu realmente gostei de você. E eu… eu estive grávida de verdade. Mas perdi o bebê.
Edward fechou os olhos por um instante, absorvendo o golpe tardio da verdade.
— Eu nunca quis destruir sua vida — continuou ela. — Só me deixei levar por alguém pior que eu.
— Vá embora, Rosalie — ele disse, exausto. — E não olhe para trás.
No corredor, Bella a esperava.
— O que você está fazendo aqui?
— Vim pedir desculpas. Para ele. Para você.
Bella sustentou o olhar por alguns segundos que pareceram eternos.
— Eu quero você longe da minha família para sempre.
Rosalie assentiu, aceitando a sentença sem resistência. Dias depois, sob nova identidade e proteção do governo, partiu para recomeçar em Forks, onde finalmente encontrou paz longe das sombras que ajudou a criar.
Enquanto isso, outras histórias se ajustavam. Renée pediu o divórcio a Charlie em uma conversa serena, madura. Não houve gritos, apenas reconhecimento de que haviam se perdido. Pouco depois, Renée procurou Emmett Cullen. O reencontro foi intenso, honesto, e finalmente eles se permitiram aquilo que sempre evitaram. Jasper e Alice, depois de atravessarem tempestades, encontraram estabilidade — e a notícia da gravidez trouxe uma alegria quase sagrada ao casal.
Oito anos se passaram.
O céu estava claro sobre Washington no dia do comício. Bandeiras tremulavam, multidões vibravam. Edward Cullen subiu ao palco como o novo presidente eleito dos Estados Unidos, sucessor do mandato de seu pai. Ao lado dele estava Tony, agora um menino de postura orgulhosa. Bella, elegante e serena, segurava Charlotte, de dois anos, no colo. Esme e Carlisle observavam com olhos marejados. Alice e Jasper estavam juntos, com o pequeno Nick. Charlie Swan, agora casado com Tania — jovem, confiante — sorria discretamente. Renée e Emmett de mãos dadas. A família inteira reunida.
Edward aproximou-se do microfone, o silêncio se espalhando como expectativa viva.
— Oito anos atrás — começou ele — eu quase perdi tudo. Minha família foi ameaçada, minha fé nas instituições foi testada, e eu aprendi que poder sem propósito é vazio. Hoje não estou aqui apenas como presidente eleito. Estou aqui como marido, como pai, como filho. Como alguém que entende que a verdadeira força de uma nação começa dentro de casa.
Ele olhou para Bella.
— Minha família me ensinou que missão não é sobre ambição. É sobre responsabilidade. Sobre proteger os que não podem se proteger. Sobre fazer o certo, mesmo quando o custo é alto.
A multidão explodiu em aplausos.
— Nós superamos o medo. Transformamos dor em propósito. E eu prometo governar este país como lidero minha casa: com coragem, com firmeza e com amor.
Bella segurou a mão dele. Não havia mais sangue em seus olhos — apenas a certeza de que haviam vencido. E enquanto os aplausos ecoavam, ficava claro que a dinastia que nasceu das cinzas agora governava com fogo próprio.
E no fim, uma dinastia, mesmo que feita de cinzas, sempre sobrevive ao caos...
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