Renesme abriu os olhos devagar e sentiu o calor da manhã entrar pelos seus poros. Deu um leve sorriso ao perceber que o sono era a única coisa que não se extinguia dentro de si mesma, mesmo passando os últimos dias na cama, em descanso. Efeitos de sua gravidez iminente.

Ela acariciou a sua barriga e sentiu uma mão quente em cima da dela. Virou-se e viu aqueles olhos verdes hipnotizantes a observá-la. Suspirou em alívio. Ver William ali ao seu lado todas as manhãs era um lembrete diário de que tudo tinha dado certo, afinal de contas.

Às vezes, tinha alguns pesadelos durante a noite, lembrando dos anos de trevas em que vivera. O assassinato de sua mãe, a morte de seu avô, o casamento com Alec, Aro Volturi, enfim, momentos de intensa tempestade. Mas depois se dava conta de que tudo tinha chegado ao fim e podia respirar.

— Eu te amo! Por favor, nunca esqueça disso. — William sussurrou ao seu lado.

Renesme sorriu, mas com uma vontade de chorar. Odiava-se por estar tão emotiva. Esticou a mão e tocou o rosto do seu marido. Ele se aproximou dela devagar e abraçou as suas costas.

— Eu também te amo, querido. Obrigada por ser tão perfeito.

— Eu queria ser perfeito, mas acho que tenho pecado com você ultimamente.

A princesa olhou para ele com um olhar de questionamento, sem entender a que ele se referia. William tinha sido essencial em sua vida nos últimos tempos. Fora um amigo corajoso, um amante amoroso, um marido leal, um pai maravilhoso. O que poderia haver de diferente disso?

— Sei que eu estou no modo marido chato. Desculpa.

Então, Renesme entendeu tudo. No mínimo, Esme deve ter soprado o seu desabafo para William, e ele ficara preocupado.

— Por favor, não diga isso. Eu não poderia ter mais sorte por tê-lo.

— Entendo que as coisas tenham seguido com uma certa rapidez conosco. Namoramos por um ano, engravidamos e nos casamos. Já estamos à espera do nosso segundo filho em tão pouco tempo. Acho que isso foi mesmo um atropelo, mas não significa que não podemos aproveitar a nossa vida como um casal.

— Eu sei que sim... Olha... Se a vovó comentou alguma coisa com você sobre algum desabafo meu a respeito... — William a interrompeu com um dedo em seus lábios.

— E eu odeio pensar que você acredita que está me perdendo ou que nós estamos desaparecendo no meio da rotina. Porque, honestamente? Eu sinto justamente o contrário.

— Como assim?

— Cada vez que alguma coisa difícil acontece, eu me apaixono mais por você. Quando você ri, quando implica comigo, quando fica brava, quando tenta carregar o mundo nas costas como se fosse responsabilidade sua salvar todo mundo... Eu vejo você. Não só a mãe dos meus filhos. Apenas você, Renesme.

Ela respirou fundo, sentindo o peito apertar.

— Nós ainda vamos viajar, sair escondidos, dormir até tarde, fazer coisas impulsivas... Ainda vamos viver muita coisa juntos. Isso aqui não acabou, Ness. Nossa vida não terminou porque temos filhos. Ela só mudou de forma por um tempo.

William beijou a testa dela com calma.

— E se você quiser trabalhar, criar projetos, conquistar o mundo inteiro, eu vou ser o primeiro a ficar na plateia parecendo um idiota de tanto orgulho. Você não precisa escolher entre ser mãe e continuar sendo quem é.

Renesme riu baixinho entre as lágrimas.

— Você fala como se fosse simples.

— Não é. — ele admitiu. — Mas eu acho que fica menos assustador quando você entende que não está carregando tudo sozinha.

Renesme abraçou ainda mais William e ficou aspirando o cheiro que vinha dos cabelos dele.

— Foi apenas um momento tolo meu. Sabe quando a gente fica triste com coisas que, no final, nem importam muito? Eu não estou infeliz, não é nada disso.

— Eu sei e você deve me falar sempre quando se sentir dessa forma, ok? Prometemos ser sinceros um com o outro, não foi?

— Sim. Claro. Não estou te culpando de nada.

— Eu sei. — William sorriu e começou a levantar a blusa dela.

Renesme começou a sorrir com as intenções do marido. Ele beijou o vale entre seus seios e ela se arrepiou.

— Você está fazendo isso de propósito. — ela murmurou.

— Fazendo o quê?

— Tentando me deixar mal-acostumada.

William ergueu o rosto apenas para encará-la com um sorriso discreto.

— Meu bem... Você já está completamente mal-acostumada.

William acariciou o ventre dela com cuidado. Depois, beijou sua barriga lentamente. Renesme apenas fechou os olhos e deixou-se levar pelas sensações que o seu corpo lhe proporcionava.

— Eu senti falta disso.

O olhar dele suavizou imediatamente.

— Disso o quê?

— Da gente assim.

William beijou a parte interna da coxa dela e, em seguida, olhou diretamente para os seus olhos.

— Não pense que eu não senti. Mas eu tenho medo de machucá-la... Quando disseram que você precisava ficar em repouso... Quando eu vi você chorando naquele hospital... — ele passou o polegar devagar pelo rosto dela. — Eu nunca me senti tão impotente na vida.

— Você não precisa ficar tão preocupado o tempo todo comigo. — ela murmurou, acariciando a nuca dele.

William soltou uma pequena risada sem humor.

— Acho que isso já saiu completamente do meu controle.

Renesme então inclinou-se como pôde e tomou os lábios do seu marido para si. William deslizou os dedos lentamente por sua cintura e a trouxe mais para perto. Ela fechou os olhos ao sentir os lábios dele descerem devagar pelo seu pescoço, depositando beijos suaves que arrepiavam sua pele inteira. Seus dedos apertaram levemente a camisa dele enquanto William a fazia rir baixinho entre um beijo e outro.

— Ainda fica nervosa comigo. — ele murmurou.

— Culpa sua.

— Imagino que seja uma das minhas maiores qualidades.

Então, ele começou a beijá-la e a tomar para si as dobras macias de sua intimidade em uma devoção silenciosa. Ela arqueou levemente o corpo contra o colchão, os dedos se fechando nos lençóis enquanto um suspiro escapava sem controle.

— William... — o nome dele saiu quase como um pedido.

Ele não respondeu com palavras. Apenas continuou, com uma delicadeza que contrastava com o efeito que causava nela, como se soubesse exatamente o quanto podia levá-la até o limite sem ultrapassá-lo.

Renesme fechou os olhos, sentindo cada pensamento se dissolver aos poucos, substituído por aquela onda crescente de calor e vulnerabilidade. Era íntimo de um jeito diferente, mais profundo, mais cuidadoso. Como se ele estivesse, de alguma forma, dizendo sem palavras: eu estou aqui, com você.

Não demorou muito para que ela chegasse ao ápice, sentindo as ondas de prazer tomá-la por todo o corpo. William mais uma vez beijou o seu pescoço e deu-lhe um selinho demorado, como se não cansasse de apreciá-la de todas as formas.

— A propósito... — falou. — Feliz aniversário!

— Melhor maneira de começar o meu dia! — Renesme bateu de olho para o marido.

— Não. Esse não é o seu presente.

Renesme arqueou levemente a sobrancelha, curiosa, observando o marido pegar algo dentro da gaveta da cômoda ao lado da cama.

— Abre. — William pediu, colocando o envelope nas mãos da esposa.

Ela abriu com cuidado. Dentro, havia um cartão simples e um roteiro. Renesme franziu a testa.

— Uma viagem?

William assentiu, observando cada reação dela.

— Para quando você quiser e puder.

Ela ergueu os olhos, surpresa.

— William...

— Sem pressão. Sem obrigação de acontecer agora. — Ele se aproximou, a voz mais baixa. — Só nós dois. Quando tudo isso passar. Quando você estiver bem e, então, a gente pode terminar o que a gente começou nessa manhã.

A princesa sorriu, e William deu um beliscão em seu bumbum enquanto se levantava para ir ao banheiro. Ela sorriu e espreguiçou-se, sentindo a leveza de poder começar bem o dia.

O restante da manhã passou devagar. Entre o banho demorado, a escolha da roupa, pequenos gestos quase automáticos, havia uma leveza diferente em tudo. Como se algo tivesse se reorganizado dentro dela e sua mente fosse se acostumando com a calmaria.

E quando o relógio já se aproximava do horário do almoço, o som de movimentação pela casa começou a crescer: vozes conhecidas, passos, portas se abrindo. Renesme respirou fundo mais uma vez antes de sair do quarto.

Ao descer as escadas, encontrou a casa já preenchida por seus familiares mais próximos. Exatamente o que ela desejava para celebrar o seu dia. Nada muito elaborado. Apenas um almoço nos belos jardins de Brocket Hall. Renesme imaginou que não poderia querer mais do que isso. As pessoas subestimam o poder que a tranquilidade pode ter.

Esme sentou-se ao lado da neta e deu-lhe um beijo demorado na testa e, em seguida, em sua barriga, sentindo o bebê se mover lá dentro.

— Percebi que você acordou muito bem esta manhã. Aliás, nunca vi uma pessoa tão em paz em completar mais um ano de vida.

— Digamos que eu recebi um presente prazeroso no início da manhã que me deixou mais animada.

— Não me diga que acertou os ponteiros com o William?

— Vó, mas você é uma fofoqueira, sabia?

A rainha gargalhou ao lado da neta.

— Eu? Tadinha de mim!

— Contou o meu desabafo para William, não foi? Bom, ainda bem que sim. Às vezes, me deixo levar por algumas inseguranças e esqueço o quão maravilhoso ele é.

Esme olhou para o jornalista, que conversava animadamente com Tony e Ashley. Ele também parecia muito mais leve.

— Eu não contei nada. Mas que bom que vocês puderam se entender. Imagina? Você e William passaram por tantas coisas difíceis... Não seria a rotina do casamento que iria atrapalhar tudo.

— Eu fui uma boba, eu sei disso. — Renesme respirou fundo. — Sabe... Eu estava pensando nesta manhã... É como se a minha mente não conseguisse se acostumar com a calmaria, entende?

— Entendo. Nessie, você nasceu com a sina perfeccionista dos seus pais.

— Bom, acho que é verdade. Mamãe, principalmente. Ela nunca estava satisfeita, sempre queria o melhor de tudo.

Esme olhou para Charlie, brincando com Bebela, e Edward, com uma bola. Os dois interagiam pacificamente na presença da pequena menina. Parecia que ela conseguia fazer com que eles derrubassem os muros de animosidade.

— Bella foi obrigada, muito nova, a cuidar da mãe. A Renee é uma boa pessoa, mas, sendo sincera, ela é muito avoada.

Renesme sorriu diante da sinceridade da avó.

— Mas não foi só isso. Acho que foi uma junção de fatores. Ela me dizia que o vovô também era assim, responsável. Ele cuidou dos pais por muito tempo. Abdicou muito de sua própria vida pelo bem dos outros. Enfim, acho que só pode ser mesmo genético.

— Assim como Edward. — Esme completou o pensamento da neta. — Meu filho nasceu colocando o mundo nas costas. É realmente estranho que tudo isso tenha passado adiante e essas pessoas tão complexadas tenham se encontrado de alguma forma dentro de você.

— Verdade. É quase como se fosse um efeito dominó, hum? Onde um vai passando para o outro as suas próprias características... A história do copo cheio, já ouviu?

— Não.

— Temos copos de diferentes tamanhos alinhados. O primeiro está cheio e derrama o seu conteúdo no segundo, que é menor, e esse transborda. Então, a mesma coisa é feita com os outros restantes.

— É como se passássemos nossos valores e problemas para as próximas gerações. Entendo.

— Isso. Sinceramente, não quero que seja assim com os meus filhos... Acho que não precisamos repassar a mesma receita e esperar o copo transbordar. Não é justo, sabe?

Esme pegou a mão da neta e ficou acariciando. Lembrou-se de quando ela nasceu e, ao segurá-la no colo pela primeira vez, pensou o mesmo.

Era como pegar uma folha em branco e ter a responsabilidade de escrever coisas boas nela. Não era uma tarefa fácil. Tinha errado com os seus filhos, não podia errar com a sua neta também. Mas esse excesso de preocupação acabou estragando Renesme de alguma forma.

Ela tinha se tornado quase um robô, que não podia errar e nem repetir os erros de seus antepassados. Tadinha! Era muito para uma pessoa só. Simplesmente, compreendia por que ela nunca descansava.

— Eu lamento tanto, Nessie por tudo que fizemos com você.

A princesa a olhou surpresa, não entendendo como o assunto havia sido desviado dessa forma.

— Entendo que tenha essa preocupação com seus filhos, mas tudo depende de como você e William vão conduzi-los. — Esme continuou. — Seus pais, Carlisle e eu, depositamos muito em suas costas. O peso de ser a princesa de acordo com os padrões. Que escolhas você poderia fazer? Que tipo de educação poderia receber? Descontamos em você as expectativas de corrigir os erros que cometemos no passado.

Renesme sentiu a verdade nas palavras de sua avó e refletiu sobre aquilo. Na verdade, aquelas palavras lhe tiraram um pouco “de prumo”. Nunca tinha pensado dessa forma.

Realmente, sua vida parecia mesmo ter tido um roteiro desde que ela se entendia por gente. Mas nunca se importara com isso. Na verdade, sentia-se mais aliviada quando sabia quais seriam os seus próximos passos. A incerteza sempre a apavorou. Porém, agora ficava a pergunta: tinha sido involuntário ou ela teria sido condicionada a aceitar tudo isso sem perceber?

— A cobrança que tive não foi por parte de vocês. Eu nunca me senti forçada a nada. Na verdade, eu acho que fui até poupada de muita coisa. Era quase como estar numa bolha, que eu comecei a sair dela apenas muito recentemente.

— A questão é que você amadureceu, querida, e quando a gente envelhece, a gente começa a ver as coisas de outra forma. Você começou a compreender a mulher dentro de si mesma e que ela era diferente do seu título. Mas a Renesme só começou a despontar de verdade quando ela se desamarrou das cordas que nós amarramos em você.

— Mas que escolhas eu teria? Eu já nasci com a carga de ser a primeira rainha desse país. Já não é muito? Acho que vocês apenas me deram as orientações de como seguir.

— E o que deseja repassar para Bebela? Por que ela também terá um destino igual ao seu.

Renesme demorou alguns segundos para responder. O olhar dela se perdeu brevemente na menina, tão pequena, tão alheia a tudo aquilo. Nunca tinha pensado no que teria sido de sua vida se vários caminhos já tivessem sido traçados. Não poderia deixar de ser uma princesa, isso seria impossível, mas sabia de uma coisa: não queria ter se escondido diante do medo do que as pessoas iriam pensar dela. Teria sido mais corajosa e seguido mais os seus instintos.

— Sempre teve um caminho. Certo ou errado, ele estava lá. — Ela respirou fundo. — Mas com ela... Eu não quero que seja assim. Eu não quero que ela sinta que já nasceu devendo alguma coisa ao mundo.

— Isso parece bonito... — disse depois de um tempo. — Mas é mais difícil do que parece. Eu desejei tantas coisas para os meus filhos e olha no que deu? É como se a gente sempre quisesse prever as coisas e programá-las, mas a vida acaba nos surpreendendo.

O silêncio que se seguiu foi mais longo dessa vez. Ambas continuaram a observar Bebela ir do seu bisavô para o avô com a bola, de forma animada, fazendo essa ligação entre os dois através da brincadeira.

— Entendo o que diz. Ser responsável pela vida de alguém não é fácil. Sinceramente... Eu não sei se vou conseguir… — Renesme confessou, quase num sussurro.

Esme apertou levemente a mão dela.

— Nenhuma de nós sabia. Charlie repassou o que ele achava melhor para Bella, mas tenho certeza de que, com você, como avô, ele foi diferente. Edward não é um avô para Bebela como foi um pai pra você. A maturidade ensina muito também.

— É uma perspectiva interessante... Como é ser avó? Como é ver um pedaço dos seus filhos ali diante de você?

Esme não respondeu de imediato. Quando Bella contou de sua gravidez, foi como se novas portas fossem sendo abertas. Não é que não tenha desejado antes ser avó. Acho que, inconscientemente, todos esperam que isso aconteça. Mas só se torna real quando o bebê está ali nos seus braços.

Ver Renesme pela primeira vez foi uma emoção parecida com ser mãe. Queria chorar e sorrir ao mesmo tempo. Mas era um sentimento diferente. Aquele bebê não era seu. Iria protegê-lo, mas outras pessoas teriam uma responsabilidade maior. Então, foi mais leve.

Principalmente porque foi como se Renesme e todos os outros netos que vieram em seguida fossem uma continuação dela mesma, de Carlisle e de seus filhos. Era legal tentar descobrir de onde saiu cada característica deles.

Porém, ao mesmo tempo, era cansativo ter uma visão prévia do que poderia vir a acontecer. Mais ou menos como saber como aquele livro terminaria. Quase uma nostalgia indesejada.

— É… estranho. — disse, por fim, com um sorriso quase imperceptível. — E, ao mesmo tempo, muito revelador. Quando você é mãe... Tudo parece urgente. Cada escolha carrega um peso enorme, como se pudesse definir o resto da vida deles. — Ela fez uma pequena pausa. — Você sente que precisa acertar. Mas, quando você se torna avó, a urgência muda de lugar.

— A responsabilidade deixa de ser sua, não é? Ser bisavó deve ser ainda melhor. — Renesme sorriu. Esme tinha chegado ao ponto de ver boa parte da história ser escrita.

— Você já viu o que acontece quando tenta controlar demais. Já viu onde errou e onde não tinha como acertar. — Um leve sorriso triste surgiu. — Então, você começa a entender que não é sobre moldar. É sobre acompanhar.

— Então o copo continua enchendo…

— Continua. — Esme confirmou. — Mas, às vezes, você aprende a não completar. Porque ninguém começa do zero, Nessie. Nem você. Nem eu. Nem ela.

Renesme acompanhou o olhar da avó até a menina, que agora parecia ter cansado de Charlie e Edward e corria para os braços da mãe. A princesa sabia que a menina já estava ficando cansada. Alinhou como pôde a filha nos braços e a acarinhou.

Esme desviou o olhar por um instante, observando a neta com a criança nos braços, e algo em sua expressão se transformou, como se estivesse vendo duas épocas ao mesmo tempo.

— Mas a beleza da vida, querida, é saber justamente que ela vai tomar o seu curso, independentemente do que fizermos.

— Com Bebela será melhor, não é, filha?

Renesme beijou os cabelos acobreados da menina, e Esme sorriu. Encostou-se na cadeira e se permitiu relaxar. O tempo se encarregaria de tudo e, para ela, agora só lhe restavam as lembranças.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 41: O Ofício de Avó

Aos 54 anos, achei que já tinha experimentado sensações e sentimentos suficientes para preencher muitas vidas. Sabe aquele momento em que você para e pensa que não há mais por onde seguir? Em que se sente velha o bastante pelo peso da própria história?

A minha trajetória havia sido particularmente intensa. Eu tinha conquistado uma carreira, me apaixonei por um príncipe, entrei para a monarquia, fui mãe, tornei-me rainha, conheci países, políticos, pessoas importantes, anônimos… Vivenciei perdas. É muito. É pesado. Mas não era o fim da linha. Claro que não. Ainda faltava ser avó.

Se eu dissesse que não desejava viver essa experiência, seria um absurdo. Eu havia me apaixonado pela maternidade e sempre soube que o momento em que meus filhos teriam seus próprios filhos chegaria. Mas absolutamente nada poderia me preparar para quando ele finalmente se tornasse real.

Depois de Edward, fui a segunda a saber da chegada de Renesme. Ouvir de Bella que ela estava grávida foi transformador. Era como se, de repente, tudo começasse a se encaixar. A sensação era de que aquele bebê acendia luzes em mim, na nossa família e nos tornava, de alguma forma, mais próximos.

Passei os nove meses de gestação em expectativa. Que privilégio poder acompanhar tudo de perto, estar presente, ser apoio para o meu filho e para minha nora em um momento tão sagrado. Mas a verdade é que a ficha só cai quando acontece.

Quando segurei Renesme pela primeira vez, foi como se eu estivesse sendo mãe novamente. Muitas vezes, Carlisle e eu imaginamos como seria esse momento. O quanto isso mudaria nossas vidas. E, no fim, a melhor definição que encontrei foi simples: ser vó é uma maternidade mais leve.

— Estou me sentindo mais velho… — Carlisle comentou na noite em que Renesme nasceu.

— Não somos tão velhos assim, querido. Oficialmente, ainda não entramos nessa categoria. — respondi, com um leve sorriso.

Ele sorriu também, deitando-se ao meu lado e envolvendo meus ombros com o braço. Me aconcheguei em seu peito, ainda com a imagem do pequeno rosto que Edward nos mostrara, orgulhoso, através do vidro do berçário.

— Lembra quando descobrimos que seríamos pais?

— Claro que lembro. Foi uma aventura e tanto.

— Pois é… — ele fez uma pausa breve. — Eu tinha medo. Não quis que você percebesse na época, não queria te preocupar. Mas, depois, enquanto as crianças cresciam, eu pensava que ser avô devia ser mais fácil.

Sorri, compreendendo mais do que ele dizia.

— Talvez seja. Não sei se fomos perfeitos como pais, mas quero ser uma avó melhor do que fui como mãe.

Carlisle assentiu, beijando meus cabelos.

— Foi estranho ver o Edward ali, segurando a filha dele. Parece que foi ontem que eu o segurava nos braços.

— É verdade… — murmurei, pensativa. — E, ao mesmo tempo, é mágico. Porque é a continuação da nossa história, Carlisle. Renesme carrega um pouco de Edward, de Bella, de mim, de você, de Charlie, de Renee, de todos que vieram antes.

— Vai ser curioso reconhecer cada um de nós nela e nos outros que ainda virão.

Ri baixo, concordando. Talvez essa fosse uma das maiores belezas de ser avó: observar como a vida se reorganiza, como traços, gestos e até silêncios atravessam gerações e reaparecem, reinventados.

Eu me pegava imaginando que mundo eles construiriam. Que surpresas nos trariam. O quanto seriam diferentes e o que, ainda assim, permaneceria.

Tive a alegria de conviver diariamente com cinco dos meus seis netos. Os três filhos de Emmett sempre trouxeram leveza para os meus dias, cada um à sua maneira.

Henry era o mais agitado, herdara a energia do pai e o espírito sonhador da mãe. Com ele, tudo era intensidade: abraços apertados, risadas altas, movimento constante, embora não conseguíssemos tê-lo conosco por muito tempo.

Marlowe e Melany, por outro lado, eram opostas em quase tudo. Marlowe é incandescente, ambiciosa, dinâmica, impossível de ignorar. Já Melany era a própria delicadeza, uma doçura tranquila que parecia acalmar tudo ao redor.

Com Pietro, a experiência foi diferente. Mesmo não morando no mesmo ambiente, estive presente desde o início. Acompanhar Alice durante a gestação me fez sentir, de certa forma, parte daquilo, como se também o estivesse esperando, carregando um pouco daquele processo comigo.

Havia algo nele que sempre me encantou: Pietro nunca quis ser como os outros. Ele queria ser apenas ele mesmo, e eu admirava profundamente isso. Mesmo com o peso do título que carregava, eu não desejava que ele enfrentasse as mesmas pressões que meus filhos enfrentaram.

— Entendo o que diz. Ser responsável pela vida de alguém não é fácil. Sinceramente... Eu não sei se vou conseguir… — Lauranne confessou, quase num sussurro.

Esme apertou levemente a mão dela.

— Nenhuma de nós sabia. Casper repassou o que ele achava melhor para Bella, mas tenho certeza de que, com você, como avô, ele foi diferente. Edward não é um avô para Bebela como foi um pai pra você. A maturidade ensina muito também.

— É uma perspectiva interessante... Como é ser avó? Como é ver um pedaço dos seus filhos ali diante de você?

Esme não respondeu de imediato. Quando Bella contou de sua gravidez, foi como se novas portas fossem sendo abertas. Não é que não tenha desejado antes ser avó. Acho que, inconscientemente, todos esperam que isso aconteça. Mas só se torna real quando o bebê está ali nos seus braços.

Ver Renesme pela primeira vez foi uma emoção parecida com ser mãe. Queria chorar e sorrir ao mesmo tempo. Mas era um sentimento diferente. Aquele bebê não era seu. Iria protegê-lo, mas outras pessoas teriam uma responsabilidade maior. Então, foi mais leve.

Principalmente porque foi como se Renesme e todos os outros netos que vieram em seguida fossem uma continuação dela mesma, de Carlisle e de seus filhos. Era legal tentar descobrir de onde saiu cada característica deles.

Porém, ao mesmo tempo, era cansativo ter uma visão prévia do que poderia vir a acontecer. Mais ou menos como saber como aquele livro terminaria. Quase uma nostalgia indesejada.

— É… estranho — disse, por fim, com um sorriso quase imperceptível. — E, ao mesmo tempo, muito revelador. Quando você é mãe... Tudo parece urgente. Cada escolha carrega um peso enorme, como se pudesse definir o resto da vida deles. — Ela fez uma pequena pausa. — Você sente que precisa acertar. Mas, quando você se torna avó, a urgência muda de lugar.

— A responsabilidade deixa de ser sua, não é? Ser bisavó deve ser ainda melhor. — Renesme sorriu. Esme tinha chegado ao ponto de ver boa parte da história ser escrita.

— Você já viu o que acontece quando tenta controlar demais. Já viu onde errou e onde não tinha como acertar. — Um leve sorriso triste surgiu. — Então, você começa a entender que não é sobre moldar. É sobre acompanhar.

— Então o copo continua enchendo…

— Continua. — Esme confirmou. — Mas, às vezes, você aprende a não completar. Porque ninguém começa do zero, Laurie. Nem você. Nem eu. Nem ela.

Renesme acompanhou o olhar da avó até a menina, que agora parecia ter cansado de Casper e Edward e corria para os braços da mãe. A princesa sabia que a menina já estava ficando cansada. Alinhou como pôde a filha nos braços e a acarinhou.

Esme desviou o olhar por um instante, observando a neta com a criança nos braços, e algo em sua expressão se transformou, como se estivesse vendo duas épocas ao mesmo tempo.

— Mas a beleza da vida, querida, é saber justamente que ela vai tomar o seu curso, independentemente do que fizermos.

— Com Bebela será melhor, não é, filha?

Renesme beijou os cabelos acobreados da menina, e Esme sorriu. Encostou-se na cadeira e se permitiu relaxar. O tempo se encarregaria de tudo e, para ela, agora só lhe restavam as lembranças.

Anne: Sua Verdadeira História – Capítulo 41: O Ofício de Avó

Aos 54 anos, achei que já tinha experimentado sensações e sentimentos suficientes para preencher muitas vidas. Sabe aquele momento em que você para e pensa que não há mais por onde seguir? Em que se sente velha o bastante pelo peso da própria história?

A minha trajetória havia sido particularmente intensa. Eu tinha conquistado uma carreira, me apaixonei por um príncipe, entrei para a monarquia, fui mãe, tornei-me rainha, conheci países, políticos, pessoas importantes, anônimos… Vivenciei perdas. É muito. É pesado. Mas não era o fim da linha. Claro que não. Ainda faltava ser avó.

Se eu dissesse que não desejava viver essa experiência, seria um absurdo. Eu havia me apaixonado pela maternidade e sempre soube que o momento em que meus filhos teriam seus próprios filhos chegaria. Mas absolutamente nada poderia me preparar para quando ele finalmente se tornasse real.

Depois de Edward, fui a segunda a saber da chegada de Renesme. Ouvir de Bella que ela estava grávida foi transformador. Era como se, de repente, tudo começasse a se encaixar. A sensação era de que aquele bebê acendia luzes em mim, na nossa família e nos tornava, de alguma forma, mais próximos.

Passei os nove meses de gestação em expectativa. Que privilégio poder acompanhar tudo de perto, estar presente, ser apoio para o meu filho e para minha nora em um momento tão sagrado. Mas a verdade é que a ficha só cai quando acontece.

Quando segurei Renesme pela primeira vez, foi como se eu estivesse sendo mãe novamente. Muitas vezes, Carlisle e eu imaginamos como seria esse momento. O quanto isso mudaria nossas vidas. E, no fim, a melhor definição que encontrei foi simples: ser vó é uma maternidade mais leve.

— Estou me sentindo mais velho… — Carlisle comentou na noite em que Renesme nasceu.

— Não somos tão velhos assim, querido. Oficialmente, ainda não entramos nessa categoria. — respondi, com um leve sorriso.

Ele sorriu também, deitando-se ao meu lado e envolvendo meus ombros com o braço. Me aconcheguei em seu peito, ainda com a imagem do pequeno rosto que Edward nos mostrara, orgulhoso, através do vidro do berçário.

— Lembra quando descobrimos que seríamos pais?

— Claro que lembro. Foi uma aventura e tanto.

— Pois é… — ele fez uma pausa breve. — Eu tinha medo. Não quis que você percebesse na época, não queria te preocupar. Mas, depois, enquanto as crianças cresciam, eu pensava que ser avô devia ser mais fácil.

Sorri, compreendendo mais do que ele dizia.

— Talvez seja. Não sei se fomos perfeitos como pais, mas quero ser uma avó melhor do que fui como mãe.

Carlisle assentiu, beijando meus cabelos.

— Foi estranho ver o Edward ali, segurando a filha dele. Parece que foi ontem que eu o segurava nos braços.

— É verdade… — murmurei, pensativa. — E, ao mesmo tempo, é mágico. Porque é a continuação da nossa história, Carlisle. Renesme carrega um pouco de Edward, de Bella, de mim, de você, de Casper, de Laura, de todos que vieram antes.

— Vai ser curioso reconhecer cada um de nós nela e nos outros que ainda virão.

Ri baixo, concordando. Talvez essa fosse uma das maiores belezas de ser avó: observar como a vida se reorganiza, como traços, gestos e até silêncios atravessam gerações e reaparecem, reinventados.

Eu me pegava imaginando que mundo eles construiriam. Que surpresas nos trariam. O quanto seriam diferentes e o que, ainda assim, permaneceria.

Tive a alegria de conviver diariamente com cinco dos meus seis netos. Os três filhos de Emmett sempre trouxeram leveza para os meus dias, cada um à sua maneira.

Henry era o mais agitado, herdara a energia do pai e o espírito sonhador da mãe. Com ele, tudo era intensidade: abraços apertados, risadas altas, movimento constante, embora não conseguíssemos tê-lo conosco por muito tempo.

Marlowe e Melany, por outro lado, eram opostas em quase tudo. Marlowe é incandescente, ambiciosa, dinâmica, impossível de ignorar. Já Melany era a própria delicadeza, uma doçura tranquila que parecia acalmar tudo ao redor.

Com Pietro, a experiência foi diferente. Mesmo não morando no mesmo ambiente, estive presente desde o início. Acompanhar Alice durante a gestação me fez sentir, de certa forma, parte daquilo, como se também o estivesse esperando, carregando um pouco daquele processo comigo.

Havia algo nele que sempre me encantou: Pietro nunca quis ser como os outros. Ele queria ser apenas ele mesmo, e eu admirava profundamente isso. Mesmo com o peso do título que carregava, eu não desejava que ele enfrentasse as mesmas pressões que meus filhos enfrentaram.

— Entendo o que diz. Ser responsável pela vida de alguém não é fácil. Sinceramente... Eu não sei se vou conseguir… — Lauranne confessou, quase num sussurro.

Esme apertou levemente a mão dela.

— Nenhuma de nós sabia. Casper repassou o que ele achava melhor para Bella, mas tenho certeza de que, com você, como avô, ele foi diferente. Edward não é um avô para Bebela como foi um pai pra você. A maturidade ensina muito também.

— É uma perspectiva interessante... Como é ser avó? Como é ver um pedaço dos seus filhos ali diante de você?

Esme não respondeu de imediato. Quando Bella contou de sua gravidez, foi como se novas portas fossem sendo abertas. Não é que não tenha desejado antes ser avó. Acho que, inconscientemente, todos esperam que isso aconteça. Mas só se torna real quando o bebê está ali nos seus braços.

Ver Renesme pela primeira vez foi uma emoção parecida com ser mãe. Queria chorar e sorrir ao mesmo tempo. Mas era um sentimento diferente. Aquele bebê não era seu. Iria protegê-lo, mas outras pessoas teriam uma responsabilidade maior. Então, foi mais leve.

Principalmente porque foi como se Renesme e todos os outros netos que vieram em seguida fossem uma continuação dela mesma, de Carlisle e de seus filhos. Era legal tentar descobrir de onde saiu cada característica deles.

Porém, ao mesmo tempo, era cansativo ter uma visão prévia do que poderia vir a acontecer. Mais ou menos como saber como aquele livro terminaria. Quase uma nostalgia indesejada.

— É… estranho — disse, por fim, com um sorriso quase imperceptível. — E, ao mesmo tempo, muito revelador. Quando você é mãe... Tudo parece urgente. Cada escolha carrega um peso enorme, como se pudesse definir o resto da vida deles. — Ela fez uma pequena pausa. — Você sente que precisa acertar. Mas, quando você se torna avó, a urgência muda de lugar.

— A responsabilidade deixa de ser sua, não é? Ser bisavó deve ser ainda melhor. — Renesme sorriu. Esme tinha chegado ao ponto de ver boa parte da história ser escrita.

— Você já viu o que acontece quando tenta controlar demais. Já viu onde errou e onde não tinha como acertar. — Um leve sorriso triste surgiu. — Então, você começa a entender que não é sobre moldar. É sobre acompanhar.

— Então o copo continua enchendo…

— Continua. — Esme confirmou. — Mas, às vezes, você aprende a não completar. Porque ninguém começa do zero, Laurie. Nem você. Nem eu. Nem ela.

Renesme acompanhou o olhar da avó até a menina, que agora parecia ter cansado de Casper e Edward e corria para os braços da mãe. A princesa sabia que a menina já estava ficando cansada. Alinhou como pôde a filha nos braços e a acarinhou.

Esme desviou o olhar por um instante, observando a neta com a criança nos braços, e algo em sua expressão se transformou, como se estivesse vendo duas épocas ao mesmo tempo.

— Mas a beleza da vida, querida, é saber justamente que ela vai tomar o seu curso, independentemente do que fizermos.

— Com Bebela será melhor, não é, filha?

Renesme beijou os cabelos acobreados da menina, e Esme sorriu. Encostou-se na cadeira e se permitiu relaxar. O tempo se encarregaria de tudo e, para ela, agora só lhe restavam as lembranças.

Anne: Sua Verdadeira História – Capítulo 41: O Ofício de Avó

Aos 54 anos, achei que já tinha experimentado sensações e sentimentos suficientes para preencher muitas vidas. Sabe aquele momento em que você para e pensa que não há mais por onde seguir? Em que se sente velha o bastante pelo peso da própria história?

A minha trajetória havia sido particularmente intensa. Eu tinha conquistado uma carreira, me apaixonei por um príncipe, entrei para a monarquia, fui mãe, tornei-me rainha, conheci países, políticos, pessoas importantes, anônimos… Vivenciei perdas. É muito. É pesado. Mas não era o fim da linha. Claro que não. Ainda faltava ser avó.

Se eu dissesse que não desejava viver essa experiência, seria um absurdo. Eu havia me apaixonado pela maternidade e sempre soube que o momento em que meus filhos teriam seus próprios filhos chegaria. Mas absolutamente nada poderia me preparar para quando ele finalmente se tornasse real.

Depois de Edward, fui a segunda a saber da chegada de Renesme. Ouvir de Bella que ela estava grávida foi transformador. Era como se, de repente, tudo começasse a se encaixar. A sensação era de que aquele bebê acendia luzes em mim, na nossa família e nos tornava, de alguma forma, mais próximos.

Passei os nove meses de gestação em expectativa. Que privilégio poder acompanhar tudo de perto, estar presente, ser apoio para o meu filho e para minha nora em um momento tão sagrado. Mas a verdade é que a ficha só cai quando acontece.

Quando segurei Renesme pela primeira vez, foi como se eu estivesse sendo mãe novamente. Muitas vezes, Carlisle e eu imaginamos como seria esse momento. O quanto isso mudaria nossas vidas. E, no fim, a melhor definição que encontrei foi simples: ser vó é uma maternidade mais leve.

— Estou me sentindo mais velho… — Carlisle comentou na noite em que Renesme nasceu.

— Não somos tão velhos assim, querido. Oficialmente, ainda não entramos nessa categoria. — respondi, com um leve sorriso.

Ele sorriu também, deitando-se ao meu lado e envolvendo meus ombros com o braço. Me aconcheguei em seu peito, ainda com a imagem do pequeno rosto que Edward nos mostrara, orgulhoso, através do vidro do berçário.

— Lembra quando descobrimos que seríamos pais?

— Claro que lembro. Foi uma aventura e tanto.

— Pois é… — ele fez uma pausa breve. — Eu tinha medo. Não quis que você percebesse na época, não queria te preocupar. Mas, depois, enquanto as crianças cresciam, eu pensava que ser avô devia ser mais fácil.

Sorri, compreendendo mais do que ele dizia.

— Talvez seja. Não sei se fomos perfeitos como pais, mas quero ser uma avó melhor do que fui como mãe.

Carlisle assentiu, beijando meus cabelos.

— Foi estranho ver o Edward ali, segurando a filha dele. Parece que foi ontem que eu o segurava nos braços.

— É verdade… — murmurei, pensativa. — E, ao mesmo tempo, é mágico. Porque é a continuação da nossa história, Carlisle. Renesme carrega um pouco de Edward, de Bella, de mim, de você, de Casper, de Laura, de todos que vieram antes.

— Vai ser curioso reconhecer cada um de nós nela e nos outros que ainda virão.

Ri baixo, concordando. Talvez essa fosse uma das maiores belezas de ser avó: observar como a vida se reorganiza, como traços, gestos e até silêncios atravessam gerações e reaparecem, reinventados.

Eu me pegava imaginando que mundo eles construiriam. Que surpresas nos trariam. O quanto seriam diferentes e o que, ainda assim, permaneceria.

Tive a alegria de conviver diariamente com cinco dos meus seis netos. Os três filhos de Emmett sempre trouxeram leveza para os meus dias, cada um à sua maneira.

Henry era o mais agitado, herdara a energia do pai e o espírito sonhador da mãe. Com ele, tudo era intensidade: abraços apertados, risadas altas, movimento constante, embora não conseguíssemos tê-lo conosco por muito tempo.

Marlowe e Melany, por outro lado, eram opostas em quase tudo. Marlowe é incandescente, ambiciosa, dinâmica, impossível de ignorar. Já Melany era a própria delicadeza, uma doçura tranquila que parecia acalmar tudo ao redor.

Com Pietro, a experiência foi diferente. Mesmo não morando no mesmo ambiente, estive presente desde o início. Acompanhar Alice durante a gestação me fez sentir, de certa forma, parte daquilo, como se também o estivesse esperando, carregando um pouco daquele processo comigo.

Havia algo nele que sempre me encantou: Pietro nunca quis ser como os outros. Ele queria ser apenas ele mesmo, e eu admirava profundamente isso. Mesmo com o peso do título que carregava, eu não desejava que ele enfrentasse as mesmas pressões que meus filhos enfrentaram.

— Entendo o que diz. Ser responsável pela vida de alguém não é fácil. Sinceramente... Eu não sei se vou conseguir… — Renesme confessou, quase num sussurro.

Esme apertou levemente a mão dela.

— Nenhuma de nós sabia. Casper repassou o que ele achava melhor para Bella, mas tenho certeza de que, com você, como avô, ele foi diferente. Edward não é um avô para Bebela como foi um pai pra você. A maturidade ensina muito também.

— É uma perspectiva interessante... Como é ser avó? Como é ver um pedaço dos seus filhos ali diante de você?

Esme não respondeu de imediato. Quando Bella contou de sua gravidez, foi como se novas portas fossem sendo abertas. Não é que não tenha desejado antes ser avó. Acho que, inconscientemente, todos esperam que isso aconteça. Mas só se torna real quando o bebê está ali nos seus braços.

Ver Renesme pela primeira vez foi uma emoção parecida com ser mãe. Queria chorar e sorrir ao mesmo tempo. Mas era um sentimento diferente. Aquele bebê não era seu. Iria protegê-lo, mas outras pessoas teriam uma responsabilidade maior. Então, foi mais leve.

Principalmente porque foi como se Renesme e todos os outros netos que vieram em seguida fossem uma continuação dela mesma, de Carlisle e de seus filhos. Era legal tentar descobrir de onde saiu cada característica deles.

Porém, ao mesmo tempo, era cansativo ter uma visão prévia do que poderia vir a acontecer. Mais ou menos como saber como aquele livro terminaria. Quase uma nostalgia indesejada.

— É… estranho — disse, por fim, com um sorriso quase imperceptível. — E, ao mesmo tempo, muito revelador. Quando você é mãe... Tudo parece urgente. Cada escolha carrega um peso enorme, como se pudesse definir o resto da vida deles. — Ela fez uma pequena pausa. — Você sente que precisa acertar. Mas, quando você se torna avó, a urgência muda de lugar.

— A responsabilidade deixa de ser sua, não é? Ser bisavó deve ser ainda melhor. — Renesme sorriu. Esme tinha chegado ao ponto de ver boa parte da história ser escrita.

— Você já viu o que acontece quando tenta controlar demais. Já viu onde errou e onde não tinha como acertar. — Um leve sorriso triste surgiu. — Então você começa a entender que não é sobre moldar. É sobre acompanhar.

— Então o copo continua enchendo…

— Continua. — Esme confirmou. — Mas, às vezes, você aprende a não completar. Porque ninguém começa do zero, Laurie. Nem você. Nem eu. Nem ela.

Renesme acompanhou o olhar da avó até a menina, que agora parecia ter cansado de Casper e Edward e corria para os braços da mãe. A princesa sabia que a menina já estava ficando cansada. Alinhou como pôde a filha nos braços e a acarinhou.

Esme desviou o olhar por um instante, observando a neta com a criança nos braços, e algo em sua expressão se transformou, como se estivesse vendo duas épocas ao mesmo tempo.

— Mas a beleza da vida, querida, é saber justamente que ela vai tomar o seu curso, independentemente do que fizermos.

— Com Bebela será melhor, não é, filha?

Renesme beijou os cabelos acobreados da menina, e Esme sorriu. Encostou-se na cadeira e se permitiu relaxar. O tempo se encarregaria de tudo e, para ela, agora só lhe restavam as lembranças.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 41: O Ofício de Avó

Aos 54 anos, achei que já tinha experimentado sensações e sentimentos suficientes para preencher muitas vidas. Sabe aquele momento em que você para e pensa que não há mais por onde seguir? Em que se sente velha o bastante pelo peso da própria história?

A minha trajetória havia sido particularmente intensa. Eu tinha conquistado uma carreira, me apaixonei por um príncipe, entrei para a monarquia, fui mãe, tornei-me rainha, conheci países, políticos, pessoas importantes, anônimos… Vivenciei perdas. É muito. É pesado. Mas não era o fim da linha. Claro que não. Ainda faltava ser avó.

Se eu dissesse que não desejava viver essa experiência, seria um absurdo. Eu havia me apaixonado pela maternidade e sempre soube que o momento em que meus filhos teriam seus próprios filhos chegaria. Mas absolutamente nada poderia me preparar para quando ele finalmente se tornasse real.

Depois de Edward, fui a segunda a saber da chegada de Renesme. Ouvir de Bella que ela estava grávida foi transformador. Era como se, de repente, tudo começasse a se encaixar. A sensação era de que aquele bebê acendia luzes em mim, na nossa família e nos tornava, de alguma forma, mais próximos.

Passei os nove meses de gestação em expectativa. Que privilégio poder acompanhar tudo de perto, estar presente, ser apoio para o meu filho e para minha nora em um momento tão sagrado. Mas a verdade é que a ficha só cai quando acontece.

Quando segurei Renesme pela primeira vez, foi como se eu estivesse sendo mãe novamente. Muitas vezes, Carlisle e eu imaginamos como seria esse momento. O quanto isso mudaria nossas vidas. E, no fim, a melhor definição que encontrei foi simples: ser vó é uma maternidade mais leve.

— Estou me sentindo mais velho… — Carlisle comentou na noite em que Renesme nasceu.

— Não somos tão velhos assim, querido. Oficialmente, ainda não entramos nessa categoria. — respondi, com um leve sorriso.

Ele sorriu também, deitando-se ao meu lado e envolvendo meus ombros com o braço. Me aconcheguei em seu peito, ainda com a imagem do pequeno rosto que Edward nos mostrara, orgulhoso, através do vidro do berçário.

— Lembra quando descobrimos que seríamos pais?

— Claro que lembro. Foi uma aventura e tanto.

— Pois é… — ele fez uma pausa breve. — Eu tinha medo. Não quis que você percebesse na época, não queria te preocupar. Mas, depois, enquanto as crianças cresciam, eu pensava que ser avô devia ser mais fácil.

Sorri, compreendendo mais do que ele dizia.

— Talvez seja. Não sei se fomos perfeitos como pais, mas quero ser uma avó melhor do que fui como mãe.

Carlisle assentiu, beijando meus cabelos.

— Foi estranho ver o Edward ali, segurando a filha dele. Parece que foi ontem que eu o segurava nos braços.

— É verdade… — murmurei, pensativa. — E, ao mesmo tempo, é mágico. Porque é a continuação da nossa história, Carlisle. Renesme carrega um pouco de Edward, de Bella, de mim, de você, de Casper, de Laura, de todos que vieram antes.

— Vai ser curioso reconhecer cada um de nós nela e nos outros que ainda virão.

Ri baixo, concordando. Talvez essa fosse uma das maiores belezas de ser avó: observar como a vida se reorganiza, como traços, gestos e até silêncios atravessam gerações e reaparecem, reinventados.

Eu me pegava imaginando que mundo eles construiriam. Que surpresas nos trariam. O quanto seriam diferentes e o que, ainda assim, permaneceria.

Tive a alegria de conviver diariamente com cinco dos meus seis netos. Os três filhos de Emmett sempre trouxeram leveza para os meus dias, cada um à sua maneira.

Henry era o mais agitado, herdara a energia do pai e o espírito sonhador da mãe. Com ele, tudo era intensidade: abraços apertados, risadas altas, movimento constante, embora não conseguíssemos tê-lo conosco por muito tempo.

Marlowe e Melany, por outro lado, eram opostas em quase tudo. Marlowe é incandescente, ambiciosa, dinâmica, impossível de ignorar. Já Melany era a própria delicadeza, uma doçura tranquila que parecia acalmar tudo ao redor.

Com Pietro, a experiência foi diferente. Mesmo não morando no mesmo ambiente, estive presente desde o início. Acompanhar Alice durante a gestação me fez sentir, de certa forma, parte daquilo, como se também o estivesse esperando, carregando um pouco daquele processo comigo.

Havia algo nele que sempre me encantou: Pietro nunca quis ser como os outros. Ele queria ser apenas ele mesmo, e eu admirava profundamente isso. Mesmo com o peso do título que carregava, eu não desejava que ele enfrentasse as mesmas pressões que meus filhos enfrentaram.

Com os filhos de Edward foi um pouco diferente. Não eram apenas meus netos. Eram, desde o primeiro instante, herdeiros de algo que sempre pesou mais do que deveria. Havia, portanto, um cuidado que ultrapassava o afeto. Prepará-los não era uma escolha, era uma inevitabilidade silenciosa que pairava sobre todos nós.

Louco, não é? Pensar que falamos tanto de herança como se ela fosse apenas sangue, quando, na verdade, ela se manifesta nas expectativas que depositamos em alguém antes mesmo que essa pessoa tenha a chance de existir por si só.

Renesme foi o meu primeiro encontro com essa contradição. Com ela, a minha relação sempre foi muito diferente da que tive com meus outros netos. Não fiquem com ciúmes, queridos, ao lerem isso. Renesme foi a primeira e inaugurou todas as minhas experiências no cargo de avó.

Eu a enxergava como minha filha também, e não apenas como uma extensão de seus antepassados, como estamos falando tanto por aqui.

Lembro-me de observá-la ainda bebê, deitada em meus braços, enquanto eu me perguntava, talvez cedo demais, quem ela viria a ser.

Havia traços de Edward em seu rosto, isso era inegável, e aquilo me causava uma estranheza difícil de explicar. Meu filho agora era pai. E, de alguma forma, aquela criança carregava não apenas o que ele foi, mas tudo aquilo que esperávamos que ele tivesse sido.

Bella costumava dizer que sua filha já havia nascido pronta, e acho que ela tinha muita razão. Renesme sempre fora muito madura para a idade dela e também muito independente.

Um dia, estava eu brincando com ela em seu colorido tapete. Carlisle havia a presenteado com brinquedos de montar. Meu marido, sempre convicto de suas teorias, havia decidido que brinquedos de montar seriam mais “úteis” do que bonecas. Revirei os olhos, mas achei ok.

Renesme achou as peças interessantes. Engatinhou até as pernas de seu avô e ficou pegando o plástico como se quisesse rasgá-lo.

— Está vendo, Essie? — disse Carlisle, satisfeito. — Ela gostou.

— Bebês gostam de tudo que é colorido. — respondi, mais por hábito do que por convicção.

— Ela tem que começar a aprender as diferenças das formas, não é, querida? Vi que é importante para a fase de desenvolvimento em que ela está.

Foi um comentário bem típico de Carlisle, com suas nuances bem intelectuais. Mas aquilo me incomodou. Eu não me lembrava de ele ter essa preocupação com os nossos filhos. Acho que nem ligávamos para isso na época. Então, por que com Renesme?

— Ela aprenderá tudo no tempo dela. — falei.

Carlisle não respondeu, acho que nem escutou e nem se deu conta do que falou. Apenas jogou as peças no tapete em frente a Renesme. Ela deu um gritinho de bebê e começou a pegar nas peças.

Aproximei-me para ajudá-la a encaixar uma das peças. Foi quando ela empurrou minha mão e tive uma surpresa.

— Ela é muito inteligente. Quer descobrir tudo sozinha. — Carlisle falou, também encantado.

— Sim, ela é. — concordei enquanto beijava os seus poucos cabelos loiros. — Você será forte como muitas das mulheres que já passaram aqui, não é, querida?

Não tinha como não pensar no futuro de Renesme. Talvez essa seja a grande questão sobre tudo. Parece que sempre estivemos tão absortos em ver como ela se encaixaria em todos os lugares que lhe caberia, que não chegamos a relaxar e deixar tudo acontecer naturalmente.

Transformávamos cada gesto em indício, cada preferência em prenúncio, cada traço em destino. Se ela insistia em fazer algo sozinha, era independente demais. Se observava em silêncio, era tímida demais. Se, por acaso, se recolhia, havia ali um problema a ser corrigido. Qualquer coisa era um sinal de alerta.

Em seu primeiro “National Day”, ela apresentou desconforto. Os gritos e o barulho a incomodavam. Então, Renesme seria tão tímida quanto Edward? Como não imaginamos que qualquer bebê com menos de um ano de idade poderia reagir da mesma forma?

Hoje entendo o quanto estávamos ocupados demais tentando prever quem Renesme seria, em vez de simplesmente permitir que ela se tornasse.

Ou, ao menos, que a deixássemos ser apenas uma criança normal. Bom, ao menos esse era o plano. Edward e Bella sempre quiseram isso, pelo menos dentro do possível. Minha nora foi uma plebeia, sabia o quanto era essencial apresentar o mundo real para os seus filhos. Eu a compreendia, claro, desejei o mesmo no passado.

Porém, Renesme não estava presa apenas às nossas expectativas, mas às de todo mundo. Ela era a realização de um sonho de muitos. Filha do casal mais amado do momento. Era como se ela fosse a personificação do final feliz das histórias de amor.

Quando ela nasceu, havia o dobro de pessoas em frente ao hospital em relação ao nascimento do pai dela. A imprensa já cobria seus passos desde a sua saída da maternidade. Era muita atenção indesejada.

Com o tempo, vimos que isso estava a afetando. Renesme odiava estar em público. A causa? Os paparazzi, que acabavam sendo seus algozes constantes. Ela os temia, a princípio, por causa dos flashes, mas depois entendeu que a presença deles a tornava diferente. A resposta disso foi a reclusão. Renesme só saía do palácio quando muito necessário.

É claro que isso foi um problema. Renesme recebia duras críticas por causa disso. Ninguém conhecia sua voz. Será ela antipática demais? Afinal de contas, Renesme é uma princesa de Belgonia e, não só isso, ela também será a futura rainha desse país. A exposição faz parte do pacote herdado por ela.

Como avós, Carlisle e eu tínhamos uma proteção com relação a Renesme. A adorávamos de uma maneira ímpar e, por isso, queríamos que tudo desse certo, que a receita dessa vez vingasse. Mas esquecíamos que não éramos os pais dela, não tínhamos esse direito, assim como Edward e Bella também não tinham totalmente.

Mas eles também queriam fazer a coisa certa. Bella era uma leoa com relação aos filhos. Ela sentia que Renesme, em específico, estava se prejudicando com o excesso de atenção que recebia. Sua timidez era justamente uma consequência desse interesse exacerbado que havia com relação a ela.

Bella não poupou esforços para estabelecer limites para não prejudicar ainda mais a saúde mental de sua filha. Demitiu funcionários aqui no palácio, definiu o que seria mostrado ao público, lutou pela criação de uma lei que não permitia a exposição de crianças e adolescentes sem a permissão de seus pais. Foi grandona, e Renesme ganhou muito com isso.

Confesso que duvidei da coragem de Bella. Não por falta de força, mas porque conhecia bem o peso do sistema que nos cercava. Ainda assim, ela foi adiante. E, graças a isso, Renesme teve algo raro em nossa família: respiros.

Foi nesse espaço que começou o balé, mostrando seu talento, que seria aprofundado mais na frente. Entre as outras meninas, sem títulos que a diferenciassem, ela parecia encontrar uma forma de existir sem precisar se justificar e aprendia a lidar com o temido público.

Mas ainda era no silêncio que Renesme encontrava o seu lugar seguro. Ela amava ler e não só se contentava com as histórias que sua mãe lhe contava para dormir, ia sempre em busca de novidades. Isso a conectava com Carlisle.

Os dois tinham uma sintonia muito bonita. Ele, com seus livros e curiosidades intermináveis; ela, com um interesse genuíno, como se cada descoberta fosse compartilhada, nunca imposta. Tornaram-se companheiros de investigação do mundo, algo que, na época, tratei como coincidência, mas que hoje reconheço como afinidade.

Depois, quando já estava grandinha, veio o interesse em deixar o balé para seguir com aulas de desenho e pintura. Aquilo me quebrou porque, de alguma forma, entre aqueles traços ainda inseguros, espalhados em papéis, ela me levava de volta à minha própria infância, à minha mãe, àquilo que fui antes de aprender a me conter.

— Seus desenhos estão ficando cada vez mais lindos, querida!

— Obrigada, vovó. Não mais do que os seus.

Olhei para ela com surpresa. Como ela sabia que eu desenhava? Eu nunca havia exposto o meu lado arquiteta para os meus netos.

— Como sabe dos meus desenhos?

Ela riu, como se sentisse culpada por ser pega.

— Eu os vi lá em cima, no seu quarto.

Ao invés de ficar com raiva, apenas sorri e a enchi de cócegas.

— Sua malandrinha! Você descobriu os meus tesouros!

— Desculpa. — falou, agora, sentindo-se culpada.

— Não teve nada de mal. Se você quiser, eu mesma te mostro.

— Por que você só desenha casas?

— Porque a vovó é uma arquiteta.

— Legal! Você desenha casas para os outros morarem?

— Bom, deveria ser assim. Mas a vovó está ocupada com outras funções.

— Sendo a rainha do vovô.

— É, do vovô e de todo o país.

— Então, deveria mostrar para eles os seus desenhos. Eles iriam ficar felizes. Eu quis entrar para as aulas de pintura para desenhar igualzinho a você.

Aquelas palavras doces e inocentes me encheram de emoção. Então, isso me conectou a um importante fato sobre a minha neta mais velha: ela tinha uma necessidade de encaixar-se na vida de todos.

Havia nela uma forma quase silenciosa de cuidar dos outros. Lembro-me de vê-la, ainda pequena, sentando-se ao lado dos primos com uma paciência que não condizia com a idade, ajudando-os com tarefas que nem eram suas. Não por que queria provar algo. Mas porque parecia natural cuidar de todos.

E talvez tenha sido justamente isso que ela tentou nos mostrar desde o início: que não era preciso ser decifrada, nem conduzida, nem ajustada a nada do que imaginávamos. Renesme não precisava caber em lugar algum. Ela já era suficiente, por si só. Ela é todos nós apenas demoramos para perceber.

Hoje reflito sobre tudo isso. O tempo nos ajuda a decifrar certas coisas. Vejo meus netos crescidos, o retrato do futuro que Carlisle e eu passamos tanto tempo tentando prever. Ali estavam eles, sendo o que eles queriam ser, com suas funções, seus filhos.

Posso dizer agora, como avó e bisavó, que tentar enxergar o futuro antes que ele chegue é, no fundo, uma ilusão.

O tempo sempre encontra seu próprio caminho. Mas nós só compreendemos de verdade quando deixamos de olhar para o que esperávamos ver e começamos, enfim, a aceitar o que sempre esteve ali.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.