Renesme andava pelos corredores de Brocken Hall presa aos seus pensamentos. Tinha jurado para si mesma que não acompanharia a entrevista com seu pai na tarde de ontem. Sabia muito bem o teor da conversa que sairia de lá. Mesmo que já tivessem se passado quatro anos do falecimento de sua mãe, ela não havia sido esquecida. Doía lembrar dela, ouvir o seu nome e recordar que Bella não estava mais ali.

— A verdade é que, mesmo que se passem muitos anos, para mim, Bella sempre será única e insubstituível. Desde o primeiro dia em que a vi, já senti algo diferente. São aquelas coisas da vida que ninguém explica. De certa forma, Bella se parecia comigo, era deslocada no mundo. Ela parecia me compreender, e eu a compreendia.

Agora, as palavras de seu pai ecoavam em sua mente em looping. Tinha que admitir que foi bom ouvi-lo falar sobre Bella. Muitas coisas ela mesma não sabia. Muitas histórias ela não conhecia e, precisamente, nunca fora de compartilhar sentimentos com o seu pai. Bella era quem compreendia tudo. Tinha aquele olhar além, que parecia um sexto sentido. Ela sempre compreendia o que todos sentiam.

— Estar com ela sempre foi fácil. Nos conectamos rapidamente e, com o tempo, fui percebendo que não conseguia mais viver sem ela. Eu queria acompanhar o dia a dia dela, saber o que ela pensava, queria ouvir o que ela tinha a dizer, precisava dos seus conselhos. Virei um dependente ou sei lá... Hoje penso que eu era muito obsessivo.” — Edward sorriu, um tanto sem graça.

No início, apenas aceitou estar ali presente porque Tony estaria. Seu irmão compartilhava o seu sentimento pela mãe e tinha seu pai... Ela queria estar com ele caso a dor o vencesse. Mas Edward foi firme na maior parte do tempo. Talvez esses anos todos o tenham deixado mais forte. Renesme apenas o invejou.

Ela seguiu até o escritório de William e abriu a porta. Sabia que ele não estaria lá. Tinha levado Bebela para um passeio. A princesa viu o que queria à sua frente: o DVD que Edward tinha dado a seu marido para que ele visse. Renesme não tinha visto aquela filmagem antes. Estava curiosa, mas tinha coragem para dar o play? Tinha prometido que não veria nada sobre Bella e tinha cumprido. Era como se, ao ver o rosto dela novamente, aquela velha dor voltasse.

— Ela era o meu sol pessoal. Ela brilhava o suficiente para que eu pudesse ver o meu caminho em volta da escuridão. Eu estava perdido, mas, com ela, eu me sentia, pela primeira vez, verdadeiramente vivo. Mas eu tinha medo.”

“— Medo de quê? — Esme perguntou ao filho.”

“— Medo de me apaixonar e sentir a dor que eu senti quando a perdesse. Eu tinha na minha cabeça que estava destinado a não ter muita sorte no amor. Teria que me casar e ter filhos por causa da coroa. Mas sabia que seria com uma mulher pouco interessante. Que não me machucaria como me machuquei com Chô. Bella iria embora. Ela não aguentaria... Bom, no final, eu tinha razão. Eu a perdi.

Renesme ficou indecisa. Colocaria ou não o DVD para tocar? Ficou batendo-o entre os dedos. As palavras de seu pai haviam reacendido sua vontade de revê-la. Não só ele: coincidentemente, nessa mesma semana, ela tinha recebido duas propostas de documentário sobre a mãe. Não tinha respondido aos e-mails. Era terrível ter que revisitar Bella e sua vida. E agora? Teria coragem? Resolveu pôr de vez o DVD para ser exibido.

— Mas então ela disse sim para mim. Dá para acreditar? Eu lembro daquele dia como se tivesse acontecido ontem, e não há quase quarenta anos. Eu estava louco de ciúme dela com o Jacob. Dá para imaginar? Fiquei pensando o quanto eu era covarde demais por deixar outro homem ficar com ela e não eu. Ela tinha que ser somente minha. Eu estava irremediavelmente apaixonado para minha própria destruição.

Renesme observava as imagens que apareciam no telão e sentia como se estivesse em transe. Suas mãos apertavam o encosto da cadeira, e seus olhos não conseguiam desviar da gravação que estava sendo exibida pelo projetor. Sabia que iria chorar; não estava conseguindo mais controlar. Ainda sentia uma dor visceral ao lembrar que ela não estava mais ali ao seu lado.

Bella sempre fora muito mais do que uma figura materna. Quando criança, dizia que “tinha a melhor mãe do mundo!”. Algo banal, que todas as garotinhas diziam naquela idade, mas só depois de perdê-la é que soube o que realmente Bella significava em sua vida. Ela era sua melhor amiga e mãe combinadas.

Talvez dissesse que eram duas almas que se conheciam de muitas outras vidas. Porque as duas simplesmente eram uma combinação uma da outra. Bella sempre sabia o que ela estava pensando ou sentindo, e Renesme a compreendia porque sabia que ambas tinham personalidades semelhantes.

— Você não consegue se manter longe de mim, não é? "— Bella perguntou na filmagem.

Renesme sentiu que aquilo havia sido para ela também.

Não podia dizer exatamente que a dor se fora. Ela havia sido ressignificada. Diziam que o tempo tudo curava, e Renesme concordava. Já havia voltado a falar sobre a sua mãe, a tocar o seu nome sem sentir o peito se apertar. Mesmo que doesse quando a saudade batia.

Havia dado algumas entrevistas, e ela inevitavelmente era citada. As pessoas tinham uma curiosidade visceral em relação a Bella e ao seu relacionamento com o rei. Renesme nunca conseguiu entender realmente o porquê de tanto interesse. Às vezes, sentia-se incomodada com perguntas como: “Como é ser filha de Bella e Edward?”, “Você tem noção de que é filha do casal mais amado do país?”. É claro que tinha noção, poxa! Mas eles sempre foram os seus pais amados e nada mais.

As pessoas a questionavam sobre se ela seguiria no lugar da mãe, e ela apenas pensava: Como podia? Enquanto olhava para as imagens de sua mãe, via o quanto, mesmo distraída, ela hipnotizava os olhos de qualquer um. A voz que saía de sua boca era grave e tinha muita força. Renesme sabia que jamais seria como Bella. Ela era tão icônica e maravilhosa que jamais chegaria perto. Mas agora sabia por que as pessoas tinham tanto interesse nela. Porém, isso só veio a realmente acontecer após a morte dela. Foi como Edward havia dito:

“— Eu fiquei em choque com a reação da imprensa com ela. É claro que eu entendia o interesse. Com todos que entravam, de certa forma, para a realeza, era assim. Mas com Bella foi visceral desde o início. Era quase uma necessidade de tê-la por perto. Eu me perguntava se era pelo seu rosto bonito, mesmo ela não estando necessariamente dentro dos padrões... Porém, houve muitas mulheres também lindíssimas se relacionando com membros da monarquia. Por que ela, então? Era uma via de mão dupla. Quanto mais ela aparecia nos jornais, revistas, nos sites, mais as pessoas consumiam, e mais assédio Bella teria. No fundo, eu entendia. Aquelas pessoas eram como a mim mesmo... Viciadas nela.

Bella deu um sorriso tímido nas imagens, e suas bochechas ficaram rosadas. As lágrimas de Renesme começaram a cair. Sentia tanta falta daquele rosto!

— Às vezes, penso que deveria ter sido um crime deixar sua mãe entrar para a monarquia. — Esme falou nas suas costas, e Renesme olhou para ela com surpresa. — Olha para isso! — Ela apontou para as imagens. — Não tem como não ficar presa a essas imagens.

Renesme deu um sorriso entre as lágrimas. Era uma filmagem muito antiga. Era dos primeiros dias de casados dos seus pais. Bella tinha vinte e um anos. Seu rosto jovem e bonito estampava a tela. Seu pai a filmava na cozinha, enquanto ela, distraidamente, misturava alguns ingredientes na panela. Quantas vezes já não tinha visto sua mãe exatamente assim? Bella amava cozinhar!

Ver aquelas cenas a fazia voltar ao passado com muita força. Agora, ela fazia caretas para a câmera para brincar com Edward, que filmava. Algumas vezes, escondia-se. Os dois sorriam, e Renesme continuava a chorar.

Esme abraçou os ombros da neta, acariciando seus braços. Fazia tempo que não via a imagem da mãe daquela forma. Na verdade, nunca vira nem fotos depois da conclusão das investigações da morte dela. Então, estar ouvindo-a novamente, vendo-a tão viva, fazia seu peito voltar a doer. Os hormônios da gravidez também colaboravam para aquele sentimento se tornar maior.

— Não é bom para você ficar olhando essas filmagens.

— Foi apenas curiosidade... Achei aqui junto das suas coisas e fiquei intrigada. Eu nunca tinha visto essas cenas antes.

— Seu pai mandou junto com todo o resto.

— Me mandaram algumas propostas de documentário para estrearem no ano que vem. Você sabe... Fará cinco anos.

— O que você respondeu?

— Nada ainda, mas essa é a prova. Eu não consigo, vó. Dói muito ainda.

— Não faça nada que você não se sinta bem.

— Eu sei... Além do que, acho que a mamãe não iria querer essa exposição.

— Provavelmente não, apesar de que Bella aprendeu com o tempo a usar isso ao seu favor.

— Não sei... Ela foi morta por eles também.

— Bom, eu não vi os projetos, mas acho que seria interessante haver uma homenagem a ela como irá ter para mim. Bella foi uma mulher incrível!

— Foi. Sei lá... Eu não estou pronta para revivê-la dessa forma, mas não é uma decisão só minha, é de papai e Tony também.

— Sim, com certeza.

Esme agora beijava seus olhos para aparar as suas lágrimas, e ela ainda continuava a olhar para as imagens exibidas no telão. Agora seus pais apareciam juntos na filmagem. Edward deve ter posicionado a câmera em algum lugar para ir até ela. O ângulo dos dois não está tão bom. Mas dá para vê-lo a abraçando e ela sorrindo.

"— Como vamos estar em quinze anos?" — Edward pergunta.

"— Quinze anos? Por que isso agora?"

"— Bom, quero imaginar como será. Tenho certeza de que teremos filhos e eles vão olhar para essas imagens e pensar que somos dois cafonas chatos."

Bella olha para Edward agora com uma expressão sonhadora.

"— Eu só quero que estejamos felizes como estamos agora."

"— Eu também. Quero que nos olhemos como estamos nos olhando agora, como se estivéssemos em lua mel."

"— Não acho que será exatamente assim." — Bella interveio.

Renesme sorriu e pensou que sua mãe, como uma boa virginiana, era mais “pé no chão”.

"— Vamos estar tranquilos de quem somos. Nosso amor irá ficar leve, vai ser como ler um livro bom que nunca envelhece, sabe? E vamos olhar para os nossos filhos e nos ver presentes neles, tendo certeza de que tudo deu certo, afinal de contas."

"— Bom, acho que é exatamente isso que quero também."

Edward agora olhava para a câmera, como aqueles personagens de filme que quebravam a quarta parede.

"— Olha só, queridos filhos, esse sou eu e mamãe em 21 de setembro de 2011. Somos recém-casados. Vocês ainda não existem no nosso presente, mas sei que estão vendo isso no futuro e quero que saibam que somos muito felizes e nos amamos muito. Vocês são frutos disso aqui."

"— Que cafona!" — Bella declarou com o seu jeito sempre autêntico.

Renesme riu mais uma vez, enquanto limpava o restante das lágrimas em sua bochecha.

"— Tenho que mostrar isso a Tony."

Esme apenas assentiu e continuou vendo Edward distribuir cócegas em sua esposa envergonhada. Bella definitivamente não gostava de expor os seus sentimentos.

— Eles eram um casal realmente maravilhoso! — William falou enquanto observava tudo encostado na porta.

Esme e Renesme viraram-se para ele.

— É um bom exemplo, sim, apesar de que lembro bem dos dois na época que se conheceram e se casaram. Eu tinha quinze anos naquele momento e não me ligava muito para fofocas de tabloides, mas não tinha como não saber pelo menos um pouco sobre Bella e Edward. Eles eram gigantes na época.

Renesme olhou interessada para William. É claro que ela sabia que o seu marido era velho o suficiente naquela época para lembrar de seus pais. Mas, ainda assim, era mágico ouvi-lo falar sobre um período em que ela não viveu e que sempre ouviu falar, ainda mais porque saber que ele testemunhou aquilo de perto, mas nunca tocava no assunto com ela.

— Os dois estavam em todos os lugares, na TV, na internet, nas revistas. Não tinha como não escapar. Além disso, eu cheguei mais ou menos a conviver com os dois antes de, enfim, sair de casa para seguir a minha vida.

— Como era? — Renesme perguntou com curiosidade.

— Como os dois eram? Ou como era estar diante do casal mais “shirpado” do momento?

— Bom... Os dois, acho.

— Eles realmente passavam essa ideia de que o amor era possível. Eles tinham uma química inegável. Todos ficavam sonhando e queriam viver aquilo com eles.

— Como no “Show de Truman”. — afirmou Esme.

— Exato. Mas aquilo era real, dava para sentir que eles realmente tinham uma conexão. Por isso, as pessoas os amavam tanto. Vê-los em minha frente, depois de tudo que eu tinha ouvido a respeito deles, era estranho. Como se dois personagens de um filme saíssem da tela e viessem até mim.

— Deve imaginar, Renesme, como foi então se sentiram quando você nasceu.

— Sim... É louco imaginar isso!

— Deve ser mesmo. Acho que nem mesmo seu pai e tios devem ter se sentido assim. — Esme refletiu. — Acredito que eu e Carlisle não chegamos nem aos pés de tanta fascinação que as pessoas tiveram por Edward e Bella.

— E você, vovó? — Renesme questionou com o mesmo olhar questionador que Esme reconhecia em Bella. — Como se sentiu quando mamãe entrou na vida do papai?

Esme respirou fundo enquanto refletia. Teve medo, não podia negar. Mas isso só depois de conhecê-la de perto. Não pela sua pessoa, mas pelo que ela significava. Esme soube, no instante em que Bella pisou no palácio pela primeira vez e nos seus atos caridosos em prol de Seraf, que estava diante de alguém que seria grande. Sentiu que estava perdendo o posto aos poucos. Bella seria maior do que qualquer um. Aquilo lhe embrulhou o estômago. Sabia que teria sempre que ficar de olho nela.

Mas, como mãe, e não como rainha, acreditava que com Bella foi bem mais fácil do que com Rosie e não sabia bem o porquê disso. Foi natural tê-la por perto. Bella a lembrava muito de si mesma. Via-a pelas fotos e lembrava da jovem que fora, uma garota simples, que tinha dado azar, ou sorte, de se apaixonar por um príncipe, mas que insistia em continuar sendo a si mesma. Ela gostava dessa teimosia, apesar dos seus temores com relação ao futuro dela na realeza.

— Bella era uma pessoa fácil de amar, acima de tudo, ela era uma pessoa confiável. Isso conta muito. No minuto que passei a ver coisas sobre ela, eu soube que era autêntica e o que estava vivendo com o meu filho era real. Como mãe, eu só desejava o sucesso dos dois.

— Nem mesmo se questionou sobre o fato de que ela seria a sua substituta? — William a questionou com as perguntas diretas de sempre.

Claro que isso passou em sua cabeça. Não tinha como não pensar. Qualquer pessoa que se relacionasse com Edward teria essa sentença. Na verdade, depois do temor inicial do que ela poderia representar, ela sentiu pena de Bella. Ela mais do que ninguém sabia como era estar naquele lugar.

Bella era, além de jovem, otimista demais, tinha um senso de justiça que nem todos desejavam que membros da monarquia tivessem. Além disso, ela, como uma jovem comum da classe média, como Esme também fora, não saberia lidar com todo o peso da exposição que teria quando o relacionamento fosse descoberto. Sentia a força da personalidade dela. Em suas respostas, Esme sentia que ela não era a menina tímida que aparentava ser. Havia muita força dentro dela e isso era extremamente perigoso para a monarquia. No sistema não havia espaço para mulheres com personalidade e muito menos revolucionárias. Uma hora elas eram engolidas. Esme tivera que ceder e Bella, bom, seu destino final fora bem pior.

— Eu sabia que ela amava Edward de verdade e que a presença dela na vida dele era de extrema importância. Eu não conseguia ver, a princípio, como a minha substituta. Não com toda a crise que Edward teve no início do relacionamento deles. Mas depois, eu senti realmente que a história poderia se repetir. — Esme falou, moldando as palavras. Muito do que pensou sobre Bella jamais revelaria em voz alta.

— De que forma? — Renesme questionou.

— Querida, ou Bella se acostumaria a abaixar a cabeça, como ela tentou a princípio, ou...

— A matariam — Renesme completou com firmeza.

— Bom, foi o que aconteceu, não? — Esme falou, sentindo-se mal com o peso daquilo. — Eu nunca tive dúvidas de que Bella seria uma grande contribuição para a realeza. Ela tinha boas intenções e força o suficiente para pôr tudo para frente. Mas, infelizmente, nem tudo que pensamos vai ao encontro do que o sistema acha que é bom. Isso não é só relacionado ao palácio, mas ao Parlamento, à imprensa, enfim... A Bella era intensa, forte, grande demais... As pessoas temem gente assim, querida, infelizmente.

A rainha olhou para a imagem de Bella, agora congelada. Os olhos dela olhavam, impressionantemente, para a câmera. Havia algo curioso neles. Ela olhava com tanta certeza... Uma expressão que só se via no cinema mudo. Diziam tudo, engoliam quem via.

Incluindo Edward. Esme sabia, desde o início, que ele estava se tornando muito dependente dela. Nunca quis interferir no relacionamento dos dois. Esme era grata a Bella. Deus, como não? Graças ao grande coração dela e à sua mente apurada, havia trazido seu filho de volta dos rumos obscuros nos quais a mente dele o trancafiava. Porém, tudo se tornou uma relação com um viés. Edward precisava de Bella para respirar. Quase morreu junto com ela.

Em segundo lugar, Bella havia, desde o seu namoro com Edward, se tornado muito maior do que a própria monarquia. Os paparazzi tinham uma loucura por ela. Já captavam esse fascínio que ela exalava. Claro que sua nora não fazia de propósito. Ela não tinha culpa por toda essa atenção. Mas era um caminho sem volta.

Esme permaneceu alguns segundos em silêncio, como se escolhesse com cuidado o que permitir que atravessasse seus lábios e o que deveria permanecer guardado, como quase tudo em sua vida.

Os olhos das duas voltaram, quase ao mesmo tempo, para a tela. Ali, congelada no tempo, Bella sorria, viva, inteira, impossível de conter. E, talvez, inevitável. Renesme voltou a chorar. William cercou os braços dela com os seus. Esme conteve o riso sombrio que ousava sair. Veio à sua mente que, ali, em um momento tão banal do dia a dia, podia acontecer algo tão retórico. Diante da imagem de uma mulher, havia vários sentimentos sendo exprimidos. A saudade de uma filha, a admiração do genro, as lembranças de temores antigos de Esme. Bella trazia em si tudo isso, misturado. Um exagero de sensações e de visões sobre um único ser.

— É por isso que ela se tornou o que se tornou. — concluiu, com uma serenidade agridoce.

Renesme não respondeu. Não havia o que dizer. A imagem voltou a se mover. A risada de Bella preencheu novamente o ambiente. E, pela primeira vez desde que apertara o play, Renesme não sentiu apenas dor. Sentiu presença. Esme soltou devagar o ar que nem percebera estar prendendo.

— Guarde isso — disse, com suavidade, olhando para a neta. — Não a forma como ela partiu, mas a forma como ela viveu.

Renesme assentiu, limpando o rosto.

A câmera tremia levemente na filmagem. Edward ria ao fundo. Bella reclamava de algo inaudível, sorrindo logo em seguida.

A vida, simples e inteira, seguia acontecendo ali. E, enquanto observava aquela cena, Renesme compreendeu que amar Bella não era apenas lembrar. Era também aceitar tudo o que ela havia sido. Inclusive aquilo que o mundo não soube suportar.

Esme viu a tela aos poucos ficar escura, com a imagem de Bella se esvaindo lentamente. A rainha piscou devagar. Um pensamento passou rapidamente pela sua mente: o que adiantara tanta grandeza? Não era Bella que estava ali agora. Imaginou que, nesse jogo complexo, só quem permanecia era quem sabia realmente jogar.

Esme afastou esse pensamento, quase como se não quisesse realmente estar pensando sobre aquilo. A filmagem se encerrava, assim como a trajetória de Bella, ou como a própria vida, inevitavelmente contraditória.

Esme: Sua Verdadeira História — Capítulo 40: A Duquesa Indomável

Escrever sobre Bella é, antes de tudo, revisitar uma das presenças mais intensas que já cruzaram a minha vida e digo isso não apenas como rainha, mas como mãe que observou, com atenção e apreensão, cada passo dessa história. A monarquia sobrevive daquilo que desejam que ela seja, das formas bem definidas, dos limites silenciosamente aceitos. Bella, desde o início, foi tudo aquilo que não podia ser contido pelos desejos alheios.

Bella, a doce, a perspicaz, a corajosa, a louca… Quantas vezes a vi realizar coisas grandiosas e, ainda assim, a chamei de maluca por tamanha ousadia. Não porque acreditasse que estivesse errada, de forma alguma. Havia em mim algo mais complexo. Eu a admirava. Profundamente. Respeitava-a, como tantos lá fora que, mesmo sem conhecê-la de perto, torciam por ela. Mas também havia algo mais difícil de admitir: em muitos momentos, vi nela a mulher que eu gostaria de ter sido e não fui.

Foi amada e odiada, com a mesma intensidade com que viveu. Protagonista de tudo a que se propôs e, no fim, vítima da própria busca pelo absoluto.

Lembro-me de uma conversa entre nós duas, em que ela me confessou que sempre quis entender qual seria a sua missão no mundo. Dizia não se sentir pertencente a lugar algum. “Arrastada e desajeitadamente empurrada pela vida”, foram suas palavras. Não se achava bonita, não se via dentro de qualquer padrão, sentia-se deslocada de tudo aquilo que acreditava ser o ideal. Eu a observava em silêncio, por vezes me perdendo em suas expressões, tentando reconciliar aquela percepção com a mulher que eu via diante de mim. Como alguém capaz de enxergar tão longe podia não enxergar dentro de seu próprio coração?

E que coração. Tão grande, tão complexo! Aquilo que mais a fortalecia era justamente o seu lado humano, imperfeito, verdadeiro. Bella compreendia a profundidade da vida e, ainda assim, a conduzia com leveza e afeto, como se recusasse o peso que todos nós aprendemos a carregar. Havia nela uma maturidade incomum, quase desconcertante, como se tivesse vivido muitas vidas em uma só.

Desde o princípio, compreendi tudo isso. E soube, com a mesma clareza, que Bella jamais seria apenas, um dia, uma rainha consorte, a esposa de um príncipe, como tantas de nós fomos ensinadas a ser. Ela seria mais do que isso. Muito mais.

Mas vamos começar do princípio... Bella chegou em nossas vidas através de Edward. Os dois se conheceram na universidade de Belgonia, quando ela estava iniciando sua vida acadêmica. Em uma história de amor que virou lenda de tanto que foi repetida e espalhada por todo o país e além.

Edward foi reservado sobre ela a princípio. Mas isso ele sempre fora. Seus relacionamentos eram discretos até mesmo para nós. Não que tenham sido muitos. Edward só se relacionava mesmo com alguém quando havia total certeza dos seus sentimentos e dos da garota. Ele tinha a velha desconfiança de que todos no nosso meio são fadados a ter. Infelizmente, nem todos que chegam são por conta da pessoa que somos, mas pelo que representamos.

— Ao que saiba, Nina Schubert tinha sido seu último grande relacionamento, e já fazia um tempo que ele permanecia solteiro. Nem eu nem Carlisle nos intrometíamos em nada disso, claro. Mas eu me preocupava, devo confessar. Eu temia que Edward, por medo de se aproximar das pessoas e, mais ainda, do que elas poderiam fazer a ele, pudesse deixá-lo sozinho ou que as regras da monarquia o obrigassem a fazer escolhas fáceis demais, que não lhe fariam bem.

Depois de Chô, Edward criara alguns traumas relacionados ao amor. Tinha medo de amar demais e se decepcionar. Não queria sofrer o que sofrera, então preferia a cautela.

Até que, em certo final de semana, o ouvi tocando seu piano de uma forma diferenciada. Não que Edward tivesse deixado de tocar seu instrumento preferido. Mas ali havia uma paixão envolvida. Era uma composição nova, certamente. Eu nunca a tinha ouvido antes.

Inclinei a cabeça e me aproximei devagar dele para não o atrapalhar. Minha cabeça começou a martelar e liguei os pontos rapidamente. Sorri e suspirei. Edward estava amando.

A canção parecia incompleta. Tinha uma melodia doce e sentimental, como a sensibilidade do meu filho.

Edward percebeu a minha presença e parou de tocar.

— Não pare, por favor. É uma canção tão linda, querido! Já tem nome?

— Ainda não. — ele falou com as bochechas coradas.

— Parece uma canção de ninar... — Olhei para ele em busca de mais respostas. — É tão acolhedora.

— Um acalanto. — falou sem mais, continuando a tocar.

Certamente aquela música tinha uma história. Certamente envolvia uma garota, não podia haver outra resposta para ele voltar a compor, e ainda mais algo tão doce e apaixonado.

— Eu gostei.

Edward sorriu, mantendo o silêncio. A canção estava chegando à sua conclusão, mais lenta e baixa. Olhei para a partitura e notei que havia algo escrito nela a lápis, em uma letra tão miúda, quase imperceptível.

Eu quero contar-lhe uma história sobre a confusão que está em mim. E tudo começa com uma garota. E ela está bagunçando meu mundo. Ela tem esses grandes olhos verdes... Eu faria de tudo para ser somente seu, mas ela é tão legal para dar bola. Por isso... Eu estou me apaixonando pela última vez.

Aquela letra já me dizia tudo. Era um amor não correspondido. Ao mesmo tempo em que expressava a intensidade desse sentimento, sugeria também o desejo de não se permitir mais esse tipo de sofrimento, como uma forma de autoproteção. Eu lia o mais rápido que podia antes que ele notasse que eu estava bisbilhotando. Cada vez mais eu ficava mais curiosa, mas sabia que ele não me contaria naquele momento.

Edward apenas trocou a melodia e passou a tocar a música que ele compôs para mim. Beijei seu ombro, afagando seus cabelos, e disse baixinho:

— Vai ficar tudo bem, Edward. Tudo vai terminar da melhor forma. Você merece ser feliz, meu filho. O destino deve isso a você.

Ele apenas parou de tocar e me olhou com curiosidade.

— O amor nem sempre vem de forma conveniente. Ela vai amar você, se for uma garota inteligente.

— Pare com isso, mãe. Está me deixando envergonhado.

— É apenas a verdade, querido.

E Bella foi inteligente. Na verdade, a conexão dos dois era quase inevitável. Ambos inseguros, temiam os desafios da própria vida, gostavam das mesmas coisas, embora viessem de mundos tão diferentes. Mas é aquela coisa: o destino trata de unir os semelhantes e faz dar tudo certo de alguma forma.

Devo confessar que, desde esse momento em que soube que Edward estava se apaixonando, fiquei com uma curiosidade louca para saber como era aquela garota. Imaginei que Edward não a apresentaria para nós formalmente tão cedo. Eu tinha que aguentar a minha impaciência. Até que os paparazzi os flagraram em um show. Depois disso, todo o segredo foi revelado.

Infelizmente, a primeira imagem que tive dela teve que ser através de um fotógrafo qualquer, louco por dinheiro fácil. O que vi, a princípio, foi uma menina linda! Nossa! Parecia que aquela foto queria nos dizer um milhão de coisas. Era tão fascinante olhar e tentar desvendá-la.

Eu vi a sua simplicidade. Parecia não se importar em estar dentro dos padrões. Seu rosto era acuado; percebi que ela poderia ser tão tímida quanto Edward. Mas, nos olhos dela, também havia uma raiva. Uma força que poderia ser bastante reveladora.

Lembro de pensar: “Tadinha! Tão jovem!”. Quase como aquela garota sonhadora do interior que se casara há trinta anos com um príncipe. Isso até me deu uma nostalgia e um certo temor. A história estava por se repetir?

Mas procurei me manter neutra até vê-la de perto. Porém, era inevitável não ficar me perguntando se ela seria a próxima a entrar em nossa família ou se aguentaria o mundo louco em que vivíamos.

A princípio, eu achava que não. Bella parecia reservada demais, introspectiva. Porém, ironicamente, atraía atenção demais para si mesma.

Bella foi um fenômeno difícil de ignorar. Desde o momento em que todos descobriram o relacionamento dela com Edward, ela foi o objeto de desejo de inúmeros paparazzi. Suas imagens valiam fortunas. Mas não era apenas beleza. Nunca foi.

Era perfeitamente natural, um rito de passagem até, que todos que entrassem de alguma forma para a realeza despertassem muita atenção. Eu mesma sofrera muito nos meus primeiros anos. Era desgastante estar constantemente sendo perseguida e matéria para tabloides, que muitas vezes traziam apenas fofocas. Mas, com Bella, foi muito maior. Qualquer um tinha um celular na mão para tirar fotos e postá-las. A internet explodia. Então, o que ela viveu foi tudo duplicado.

Mas não foi somente por isso. Bella era um enigma. Suas expressões ambíguas, difíceis de decifrar, faziam com que o mundo projetasse nela tudo aquilo que desejava ver. E, ao lado de Edward, ela passou a representar um conto de fadas moderno, o tipo de história em que as pessoas precisam acreditar que ainda existe. E eu via tudo isso com uma clareza quase cruel. Das duas, uma: ou Bella cairia fora ou se tornaria maior que a própria instituição. Nunca considerei um meio-termo.

Entretanto, ela foi ficando e mostrando outras faces de si mesma. Quando estive em sua presença pela primeira vez, percebi inúmeras coisas. Primeiro, que ela e Edward estavam realmente apaixonados. E, segundo, que Bella não era apenas a mocinha frágil de quem todos pareciam querer tirar um pedaço. Não, ela era corajosa.

Diante da tragédia de Seraf, ela mostrou que nada poderia pará-la. Mesmo as críticas negativas que poderiam vir, a exposição master, não a impediram de ajudar como podia, passando como um trator por cima de qualquer desafio. Esse gesto me fez admirá-la.

— Ela é tão natural! — Carlisle comentou comigo na época. — Não é possível que ela não se dê conta de que podem chamá-la de oportunista. Já basta o que já escreveram sobre ela. Parece que não a atinge de forma alguma.

— Nós também já fomos assim um dia, lembra?

Carlisle coçou a cabeça, ainda com a expressão de admiração no rosto. Mas com aquele sorriso discreto de uma criança que fazia bagunça.

— Nós éramos mesmo terríveis, não é? — Assenti, sentindo uma nostalgia da época em que nossos problemas eram apenas onde iríamos nos encontrar sem que ninguém nos visse. — A gente já passou tanto tempo nesse trono que a gente se esquece das coisas...

— Pois é... Eu penso que essa menina como consorte vai ser imbatível.

Não tinha como não pensar nisso. Ainda penso: como seria Bella como rainha consorte? Eu imagino que alguém completamente incontrolável. Que diria o que pensa, que se vestiria como achasse melhor, independentemente de qualquer coisa, bateria de frente com quem quer que fosse. Pois Bella era exatamente assim em vida.

Não esquecerei do dia em que ela bateu de frente com funcionários de alto escalão do palácio porque achava que eles estavam explorando muito a imagem de Renesme, ainda criança, na época. Edward foi contra ela. Mas isso não significou nada. Bella não só conseguiu fazer a sua vontade como ajudou a criar a lei de proteção à imagem infantil.

Ficou com a imagem de difícil, claro. Porque ninguém que quer fazer justiça e luta por isso é bem-visto. Ainda mais sendo uma mulher. Sinceramente, não acho que Bella se curvaria como acabei tendo que me curvar ao sistema.

Porém, a única coisa que realmente importava era o fato de que Bella fazia muito bem a Edward. Parecia que todas as minhas orações de anos tinham sido atendidas. Ele estava diferente, mas leve, mais alegre e, o principal, não ficaria mais sozinho. Meu filho tinha encontrado a sua paz. Então, como eu não poderia estar feliz?

Edward encontrava nela alguém que poderia finalmente compreendê-lo como ele era, sem títulos ou responsabilidades. Bella tinha uma sensibilidade única para ver o melhor lado de todo mundo e enxergou em Edward não só o amor romântico, mas alguém que precisava ser acolhido. Ela não exigiu, não pressionou, não tentou ocupar espaço à força. Ela simplesmente esteve ali, observando, compreendendo, enxergando. Como nunca tínhamos feito antes com ele.

Eu observava Edward se transformar diante dos meus olhos e rezava para que nada de ruim atrapalhasse a vida dos dois. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não seria fácil. Bella estava levando todo o peso que o namoro com um príncipe poderia trazer.

Eles chegaram até a se separar por um breve momento e foi aí que eu vi que Bella era muito mais do que apenas uma namorada que fazia Edward bem. Não, ela tinha se transformado em sua âncora. As inseguranças que antes eram suavizadas por ela retornaram com força, ampliadas. O medo, a dúvida, a sensação de insuficiência, tudo aquilo que Bella ajudava a conter voltou sem qualquer mediação.

Sinceramente, Edward ficou tão mal que achei realmente que perderia o meu filho. Mas, então, Bella o trouxe de volta, mais uma vez... Segurou a mão dele, o incentivou a fazer um tratamento há muito tempo necessário e mostrou a ele que a vida era muito maior do que os desafios implantados em sua mente.

Daí, meu sentimento passou a ser de gratidão. Na verdade, um respeito eterno que terei por ela. Por sua empatia, por sua paciência e por seu amor sincero.

Os dois, então, se tornaram como unha e carne. Praticamente moravam juntos no campus, e eu sabia bem onde isso iria dar. Só não imaginei que Edward fosse pedi-la em casamento assim tão rápido, apenas com um ano de namoro.

— Querido, não acha que é melhor esperar um pouco? O melhor do relacionamento é o namoro.

— Ela disse não, mãe. — Edward falou contrariado.

— Tente ver pelo lado dela... É muito difícil para quem vem de fora ter que abdicar de uma vida normal e enfrentar todas as exigências do nosso mundo. Vai por mim. Eu a compreendo.

— Não há outro caminho para nós, mãe. Eu terei que me casar e ter filhos. Quero que seja com ela.

Era algo realmente complexo. Bella ficou quase sem muitas opções na época, essa é a verdade. Eu sabia que ela era louca pelo meu filho e necessitava dele como ele necessitava dela. Então, não havia outro modo.

Mas, ainda assim, esperei que ela fosse desistir. Não era só a questão da exposição da vida pública, mas as responsabilidades e as regras rígidas da monarquia, que mudariam todas as perspectivas que ela havia traçado para a sua vida. Era realmente difícil, porém, Bella foi firme e seguiu. Desistir não era mesmo a sua marca registrada.

Depois disso, tudo passou muito rápido. Bella virou esposa, duquesa, mãe e uma figura extremamente ativa nos trabalhos sociais da família real.

Muitas vezes, ouvi as pessoas falarem o quanto ela havia sido uma decepção. Acusavam-na de passividade e de ser uma marionete. Digo que é um pensamento errôneo de muitos que não conseguiram enxergá-la de verdade.

No princípio, Bella realmente foi com calma. Ninguém teria a loucura que tive nos meus primeiros anos, querendo fazer tudo do meu jeito e sendo bombardeada por todo lado. Não, ela foi esperta. Conheceu os limites para depois começar a fazer como queria.

A criação do “Talk” representou bem isso. Quando vi que ela estava querendo trabalhar com saúde mental, fiquei orgulhosa! Eu tinha começado com esse trabalho lá atrás, mas não segui adiante. Porém, o projeto foi além. Bella não ficou satisfeita em apenas se ancorar em uma temática só.

Na verdade, os trabalhos sociais que Bella fazia eram realmente vindos do coração. Ela sempre me falou que sentia a necessidade de fazer algo que fosse útil, significativo. A última coisa que ela queria era ser mais uma na multidão, alguém que apenas corta fitas em inaugurações. Ela queria fazer a diferença e, por isso, se doava tanto.

Com o “Talk”, ela conseguiu falar com várias camadas da sociedade, principalmente com aqueles mais esquecidos, que eram o seu maior interesse.

Na verdade, Bella utilizava suas vivências para aplicar em seus trabalhos. A sua sensibilidade em compreender as dificuldades impostas pela mente humana, que ela acompanhou com Edward, a conectou com muitos pacientes com transtornos mentais. Seu passado na pobreza a aproximou daqueles que também viviam na escassez, mas, ainda assim, tinham sonhos, e ela quis realizá-los.

Com Rosie, fez inúmeros projetos em favor das mulheres. Poxa, ela viveu sua vida inteira cercada pelo universo feminino. As duas entendiam os desafios de ser mulher e não se intimidaram em falar o que pensavam a respeito, mesmo que isso acabasse nos dando problemas mais tarde.

Enfim, o único propósito de Bella era ser verdadeira e usar a sua voz, o prestígio de ser alguém da realeza para fazer mudanças reais. O que deu errado? Bom, vivemos ainda, infelizmente, em um mundo retrógrado e em um sistema que não está preparado para pessoas como ela.

Quantos homens não comandam o Parlamento? Como iriam ouvir uma mulher falar com tanta destreza sobre igualdade de direitos? Ainda mais sendo um membro de uma monarquia parlamentar, cuja função é ser apenas representativa, como uma boneca Barbie em uma prateleira: sempre bonita, sorrindo, mas sempre muda...

Os bons morrem cedo, mas será mesmo isso? Não. Claro que não. Bella continua viva. A presença dela ainda é constante. Bella, pouco a pouco, tornou-se indispensável para todos nós. Para a família, porque nos confrontava com verdades que evitávamos. Para a instituição, porque a tensionava de uma forma que a obrigava a se mover. E, talvez mais do que tudo, para as pessoas lá fora, que viam nela algo que há muito não viam em nós: autenticidade.

Será difícil apagá-la da História. Porque ela já está nos anais, mais viva do que nunca. E jamais esquecida.