O grande salão do Museu Real estava silencioso naquela manhã. Era quase um milagre isso acontecer, já que quase todos os dias estava repleto de pessoas. A luz atravessava os vitrais altos e caía delicadamente sobre os manequins espalhados pelo ambiente. Funcionários de luvas brancas catalogavam peças, fotografavam detalhes e anotavam informações em pranchetas.

No centro da sala, Emma observava um vestido azul-marinho cuidadosamente estendido sobre uma mesa acolchoada.

— Mais um centímetro para a esquerda... Isso... — pediu ao restaurador. — Não podemos tensionar essa renda. Ela já tem mais de quarenta anos.

O homem assentiu. Emma aproximou-se para alisar delicadamente uma pequena dobra do tecido.

— Assim está perfeito.

Anne permaneceu alguns instantes parada na porta, apenas observando toda a movimentação. Gostava de ver a filha trabalhando. Não tinha o perfeccionismo que via em Lauranne, por exemplo. Emma, apesar de agitada, agia com muita paciência quando era algo relacionado ao que gostava. Tudo que ela criava ou organizava parecia ser uma obra quase intuitiva.

Havia algo de muito bonito na forma como ela conduzia uma equipe. Não levantava a voz. Não precisava. Bastava um olhar, uma explicação paciente ou um pequeno gesto para que todos compreendessem exatamente o que fazer.

Sorriu consigo mesma. Emma parecia sempre o que fazer e seu otimismo parecia sempre indicar o caminho certo.

— Você continua organizando tudo como fazia quando tinha oito anos.

Emma levantou os olhos e abriu um sorriso.

— Mamãe...

Atravessou rapidamente o salão, quase saltitando como se fosse uma bela gazela e a abraçou.

— Não ouvi você entrar.

— Percebi.

Emma voltou a olhar para os vestidos.

— Estou conferindo tudo pessoalmente. Não consigo deixar nas mãos de outra pessoa.

— Me sinto até lisonjeada que minhas antigas roupas estejam recebendo tanto carinho.

Anne caminhou lentamente entre os manequins. Ali estavam décadas de sua vida. O vestido da coroação, o da primeira abertura do Parlamento, o usado no primeiro “National Day” como rainha, o do seu noivado. Cada peça parecia carregar um pedaço de sua existência. Emma aproximou-se.

— Estou vendo como cada peça se encaixa no projeto da exposição. Não queria que fosse uma exposição sobre roupas. Mas cada uma dessa conta uma história tão grande!

Emma passou os dedos pelo tecido azul-marinho. Pegou um pequeno cartão já impresso. Anne apenas ficou observando como a filha tratava aquelas peças e o legado que elas pareciam carregar, que para si mesma significavam apenas lembranças.

— Eu lembro de quase todos os vestidos por causa de algum momento nosso.

— Mãe, você é apenas tão simplista. Cada roupa dessa tem um pedaço de História de uma mulher que fez tanto para esse país. É como se cada uma delas costurasse cada momento. Isso é tão especial!

Anne riu. Enquanto pegava na roupa do National Day.

— Enquanto eu só lembrava das dores nos pés.

Emma gargalhou.

— Isso também faz parte da História.

— Bom, sim, mas para mim isso aqui é mais importante.

Emma olhou a caixa com interesse e abriu levemente a tampa. Anne não a impediu. Sabia que a filha era um ser incontrolável, assim como a sua curiosidade.

— Espere um instante...

Emma pegou cuidadosamente a caixa. Abriu-a de vez e deu um sorriso saudoso,

— Não acredito...

Anne retirou um pequeno vestido branco com detalhes azuis. Emma levou a mão à boca.

— Você tinha cinco anos.

Emma pegou delicadamente a peça.

— Meu vestido...

Anne sorriu.

— Lembro que você estava tão feliz em se apresentar na peça da escola. Quase deixou a nossa costureira na época para saber como estava se encaminhando a criação do vestido.

— Sim... Eu lembro...

— Eu quase cheguei atrasada naquela apresentação. Eu tinha um compromisso e me odiei pelo fato de ter que cumpri-lo e não poder ter ido a sua escola antes.

— Você chegou quase no final.

— Achei que não conseguiria.

— Mas conseguiu. Isso foi o mais importante.

Emma continuou revirando a caixa e viu outra peça que a fez querer voltar no tempo. De repente, lembrou-se de si mesma cercada de canetinhas coloridas e as mãos todas sujas de tinta. Sua mente tinha tantas ideias que quase não conseguia reproduzi-las. A princesa sorriu, algumas coisas nunca mudavam.

— O primeiro que você insistiu em desenhar e cria-lo do zero.

— Você guardou isso?

— Tudo.

Emma retirou outro pacote. Depois outro. Sapatos minúsculos. Laços de cabelo. Uma bolsinha infantil. Até que, no fundo da caixa, apareceu uma pasta de cartolina já bastante envelhecida. Anne abriu devagar. Eram folhas, dezenas delas. Vestidos desenhados com lápis de cor. Anotações escritas com letra infantil. No canto de uma delas: "Emma Cassel — estilista.". Emma começou a chorar.

— Meu Deus...

Emma folheava cada desenho como quem reencontrava uma parte esquecida de si.

— Eu nem lembrava que existiam.

Levantou os olhos para a mãe.

— Por que você guardou tudo isso?

A pergunta fez Anne permanecer alguns segundos em silêncio. Olhou novamente para os papéis. Respirou fundo.

— Porque eu tinha medo.

Emma franziu a testa.

— Medo?

— Primeiro... De que um dia você pensasse que eu enxergava apenas os seus irmãos.

O sorriso da filha desapareceu. Anne continuou:

— O Ernest precisava de nós o tempo inteiro. O Edmund também. Havia crises, escândalos, hospitais, reuniões, emergências...

Sua voz começou a ficar embargada.

— Muitas noites eu me deitava pensando: "Será que hoje eu conversei direito com a Emma?". — Baixou os olhos. — Eu tinha medo de estar perdendo você enquanto tentava salvar seus irmãos.

O silêncio tomou conta do salão. Anne acariciou um dos desenhos.

— Então eu guardava tudo, os desenhos, os cartões, as flores que você colhia para mim. Eu não queria estar perdendo você também. Era como se eu dissesse para mim mesma: "Eu também estou vendo minha menina crescer.". Só tinha medo de que um dia você acreditasse que eu tinha deixado.

Emma fechou lentamente a pasta. Depois segurou as duas mãos da mãe.

— Engraçado... Eu nunca senti isso.

— Nunca?

Emma balançou a cabeça.

— Nunca achei que você me amasse menos.

Sorriu com ternura.

— Eu sabia que o Ernest precisava mais, que o Edmund precisava mais. Mas quando eu precisava... Você sempre aparecia.

Anne não conseguiu responder. As lágrimas simplesmente desceram. Emma enxugou delicadamente o rosto da mãe.

— Você sabe qual é a minha lembrança mais forte da infância?

Anne negou com a cabeça.

— Entrar escondida no seu closet.

As duas riram.

— Eu experimentava seus sapatos enormes. Colocava seus colares. Vestia seus casacos e ficava desfilando em frente ao espelho.

Anne gargalhou entre as lágrimas.

— Eu sabia! Eu encontrava meu closet todo bagunçado e só me vinha em minha mente um nome.

— Você era a primeira mulher elegante que eu conheci.

Olhou novamente para os vestidos expostos.

— As pessoas acham que eu me inspirei nas grandes maisons francesas.

Passou a mão pelo vestido da coroação.

— Mas minha primeira inspiração sempre esteve dentro de casa.

Anne segurou o rosto da filha.

— E você foi muito além de mim.

Emma sorriu.

— Não. Só consegui ir tão longe porque alguém guardou meus primeiros desenhos quando nem eu acreditava que eles importavam.

Anne abraçou a filha demoradamente. Ficaram assim por alguns instantes.

— E segundo... Guardei tudo isso que era para me gabar depois que eu era a mãe da melhor estilista desse mundo!

Emma gargalhou e depois limpou as lágrimas. Abriu novamente a pasta e retirou um dos desenhos infantis. Aproximou-o do vestido que havia acabado de posicionar para a exposição.

— Sabe que ficou igualzinho. — Emma comparou o vestido do desenho ao exposto.

Anne sorriu e colocou os dois lado a lado.

— Acho que esse também merece um lugar no museu.

Emma olhou surpresa.

— Meu desenho?

Anne sorriu.

— O desenho também. Mas, acima de tudo, a menina que o fez.

Emma permaneceu em silêncio.

— Você é um dos capítulos mais bonitos da minha história.

Emma correu até a mãe, como fazia quando criança e pela primeira vez em muitos anos, Anne sentiu que uma culpa antiga, silenciosa e profundamente enraizada finalmente encontrava descanso.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 39: A menina que abriu o próprio caminho

Tenho que fazer uma reparação por aqui. Acho que estou deixando pouco espaço para falar sobre a minha filha. Isso é imperdoável, porque Alice sempre foi meu anjo, a minha paz diante do caos e, ao mesmo tempo, uma pequena tempestade que nos pega de surpresa. Não seria justo não dedicar um capítulo para falar sobre o meu cristal.

Já cheguei a relatar aqui o quanto Alice foi inesperada, em todos os sentidos. Mas isso a representa bem. Ela nunca foi, e nunca será, o tipo de pessoa que vem com uma receita debaixo do braço.

Porém, não posso dizer que ela não foi desejada. Carlisle, o tempo todo, sonhava em ter a sua princesinha e eu, de certa forma, também. Depois que Emmett nasceu, tivemos a experiência de ter um menino e, então, pensei que seria muito legal ter agora uma mini parceira. Acredito que toda mulher deseja ter uma menina para ser a sua boneca. Ela veio, só não no tempo em que queríamos.

Alice me ensina muito. Aprendo com ela desde que a dei à luz e, quando menos espero, lá está ela me dando uma grande lição. Primeiro de tudo, ela é um excelente contraponto aos seus irmãos. Emmett é a imprevisibilidade, Edward é a sabedoria e Alice é a afetividade. Ela transmite alegria genuína e esperança, mesmo diante das situações mais sombrias. Sua energia ilumina o ambiente e conforta quem está ao seu redor.

Mas isso não significa que seja apenas calmaria. Não mesmo. Alice tem uma personalidade muito forte e uma teimosia que a impulsiona para a frente. Desde pequena eu observava isso nela e me preocupava.

Ela, baixinha, com seu jeitinho dócil, acabava dobrando o pai e os irmãos para cederem às suas vontades. Carlisle nunca escondeu o quanto Alice era a sua pequena adorada. Paparicava-a de toda forma, e eu dizia:

— Cuidado para não a mimarmos demais.

Tudo o que eu não queria era que ela fosse apenas uma garota fútil do celeiro da corte. Sempre tive essa preocupação com relação a como seria o futuro dela. Na realidade, dentro da monarquia só tem um protagonismo de verdade quem está muito próximo da linha sucessória. Depois da terceira posição, os demais perdem muito espaço dentro da seara da realeza e tornam-se apenas mais um na multidão.

Eu definitivamente não queria isso para ela. Mesmo antes de Edward ser o próximo a ocupar a "cadeira grande", já sabia que ele se formaria e teria um futuro além da monarquia. Mas Alice teria? Por aqui, a gente teme os "karmas", ou seja, as histórias que acabam fatalmente se repetindo. Eu não queria que minha filha tivesse o destino da tia.

Carmen nasceu a segunda na linha sucessória e, com o tempo, desceu para a quinta posição. É claro que isso aconteceria naturalmente quando os filhos de Carlisle viessem a nascer e, depois, os netos dele. Porém, ela estava presa a ser uma princesa, assim como os outros membros da família real. A prisão do título a impedia de ser qualquer outra coisa. Alice teria a mesma sina: casaria com algum nobre e seguiria com seus trabalhos até não ser mais necessária.

Por isso, nunca impedimos nossos filhos de sonharem. Queríamos que estudassem e pensassem em um plano B. Mas Alice não parecia querer mais do que já tinha. Era feliz com o agora, com os pequenos prazeres. Tive várias conversas com ela quando era mais jovem sobre o futuro, sobre os caminhos a seguir, e Alice sempre me olhava com confiança e dizia:

— Mamãe, meu futuro vai ser maravilhoso! Eu sei disso.

Era aquele olhar de quem vive o hoje e não o amanhã, mas com uma certeza tão grande que não havia como contra-argumentar.

A única coisa em que eu via que ela tinha muita aptidão era para a moda. Isso desde muito pequena. Quando tínhamos que aparecer em público, Alice sempre se preparava muito antes. Gostava de misturar suas roupas, detestava repeti-las. Quando não conseguia algo que queria, desenhava seus próprios modelos para que fossem confeccionados. Eu ficava pasma. Como alguém conseguia entender tão bem o nosso mundo de aparências e usar sua personalidade forte para convencer todos dos seus desejos?

Mas era a semelhança com o destino de Carmen que continuava a me atormentar. Cada vez que o tempo passava, Alice ficava mais parecida com a tia. Porém, por mais que isso me preocupasse, quando ela atravessava a adolescência, eu tinha muitas outras dores de cabeça que acabavam desviando meu foco dela. Volta e meia, eu recuperava a sanidade e pensava: todos os problemas que estou enfrentando existem porque mantenho meus filhos presos às minhas próprias expectativas. Isso me jogava em uma teia e, de certa forma, me impedia de enxergar tudo o que eles tinham de bom.

Então, quando Emmett e Edward deixaram de ser o foco de todos, a imprensa voltou seus olhos para Alice. Acusavam-na de ser uma "patricinha consumista". As revistas mostravam fotos de uma menina carregando inúmeras sacolas de compras, saindo de uma loja ou outra. Ia com as primas a desfiles, festas e eventos, e, aparentemente, sua futilidade era grande demais para quem esperava uma princesa boazinha, estudiosa, responsável e dedicada o suficiente para ajudar todo o país.

Isso me deixava mal em um nível estratosférico. Primeiro, porque tocavam justamente nas minhas maiores preocupações. Segundo, porque eu odiava essa maldita intromissão. Ao menos Alice não parecia se importar tanto quanto eu. Continuava com sua tranquilidade de sempre. Ou seria uma ingenuidade que a impedia de se afetar pelo mundo lá fora?

Enquanto isso, eu permanecia presa ao ciclo vicioso de me culpar por tudo o que julgava estar dando errado na vida dos meus filhos. Eu deveria ser mais invasiva ou deixá-los seguir seus próprios caminhos? Dúvida eterna.

Mas Alice tinha seus próprios planos e não estava alheia ao que realmente queria para o futuro. Decidiu que seguiria para Nova York para cursar moda. Quando nos avisou da decisão, já estava aprovada na faculdade e tinha até alguns apartamentos em vista. Foi hilária a expressão de espanto de Carlisle ao ouvir aquelas palavras. Eu apenas sorri, aliviada, e disse:

— O que esperar de Alice? Sua filha veio para nos surpreender!

Foi uma correria louca para planejarmos e organizarmos sua ida para a América. Para o palácio, parecia uma grande loucura uma princesa belgã ir morar em outro país e, ainda mais, em outro continente. Entretanto, Alice batia o pé e não mudava de ideia. Já tinha um plano traçado. Tivemos apenas que aceitá-lo, com uma ou outra adaptação.

Fomos, Carlisle e eu, acompanhá-la em sua matrícula e ajudá-la na mudança. Alice parecia um "pinto no lixo", toda serelepe com a amiga que dividiria o apartamento com ela. Já sabia como enfeitaria os cômodos, que lojas queria conhecer em Nova York, quais restaurantes e cafeterias precisava visitar. Enquanto isso, Carlisle chorava em silêncio, dando-se conta de que sua princesinha tinha crescido e estava batendo asas para voar. E eu? Bom, eu apenas sorria.

É claro que me doía saber que ela estaria tão longe. Nossas conversas passariam a ser apenas por telefone ou e-mail. Não teria mais suas visitas surpresa ao meu escritório, com abraços e beijos. Sentiria falta dos seus carinhos e das suas risadas alegres. Mas o que eu poderia fazer? Ela estava feliz, e era isso que importava. Alice teria sua formação superior, estava traçando seu próprio caminho. Era tudo o que eu poderia desejar para ela.

Era duro perceber que os filhos crescem, deixam de ser nossos bebês e se entregam ao mundo. As mudanças nos afetam, mas precisamos nos acostumar, porque isso faz parte da vida.

Além disso, eu sentia que ela precisava desse contraponto. Morar nos Estados Unidos lhe daria a oportunidade de conhecer um mundo completamente diferente daquele em que foi criada. É claro que havia um segurança em sua cola o tempo inteiro e que seu padrão de vida continuaria muito acima da média. Ainda assim, seria uma chance de viver fora do palácio.

Lembro-me de estarmos conversando ao telefone e de ela me contar que era maravilhoso ir ao supermercado, correr no Central Park ou comer em algum lugar com os amigos sem ter mil paparazzi tirando sua foto do lado de fora.

Nunca vou esquecer da vez em que Alice me ligou em um horário nada convencional para perguntar se eu já tinha cozinhado alguma vez.

— Por que essa pergunta agora, Alice? São dez da noite por aqui, querida.

— Eu acho que queimei o macarrão, mãe! — Alice respondeu, em completo desespero.

Apenas gargalhei. Não havia outra reação possível. Enquanto isso, ela se dividia entre chorar e rir ao mesmo tempo.

— Eu pesquisei no Google como fazer essa droga, mas não deu. Mãe, eu estou em desespero!

E continuei rindo. Parece uma bobagem muito grande, e realmente é. Porém, por mais incrível que possa parecer, nós não temos esse sabor do "normal" por aqui. Coisas simples podem ser muito complicadas. Ir ao banco, à academia, fazer compras no mercado ou no shopping, em tempos de muitos celulares à postos ou de câmeras de alta resolução e longo alcance, torna-se uma tarefa difícil. Às vezes, até incômoda.

Quantas vezes, nos primeiros anos dentro da realeza, eu via o desespero dos lojistas com o monte de gente invadindo a loja onde eu estava apenas para ficar perto de mim ou tirar uma foto? Eu apenas olhava para os atendentes com um olhar de "desculpa".

Então, saber que minha filha estava vivendo todas essas experiências tinha um gosto diferente. Além disso, Alice estava fazendo aquilo de que mais gostava. Era muito bom ouvi-la falar sobre o que estava aprendendo e sobre como criava suas próprias técnicas.

Ela me mandava seus primeiros modelos, e eu ficava orgulhosa. Lembrava dos meus velhos tempos desenhando plantas para os projetos da faculdade. Que felicidade ver Alice tendo a oportunidade de criar algo que era verdadeiramente seu.

A saudade apertava demais da minha pequena tempestade de paz. Mas fazer o quê? Precisávamos aprender a viver na ausência dela também. Li, certa vez, alguém dizer que a coisa mais saudável que podemos fazer pelos nossos filhos é deixá-los seguir suas próprias escolhas e caminhos. É a mais pura verdade, mesmo sendo difícil para uma mãe grudenta como eu.

Enfim, ainda em Nova York, Alice já decolava. Criou modelos para campanhas publicitárias da Coca-Cola, e suas amigas da realeza e do mundo da moda já usavam suas roupas. Não poderia ter sido um começo mais promissor.

Mas não seria apenas a carreira de Alice que seria construída nos Estados Unidos. Ela também conheceria o amor da sua vida durante sua estadia por lá.

No amor, Alice sempre foi discreta. Assim como Edward, preferia relacionamentos sérios. Tivera um longo namoro de três anos em Belgonia e ficara, esporadicamente, com alguns garotos, nada escandaloso. Seu relacionamento mais famoso, até então, havia sido com um cantor bastante popular por aqui, mas não durou muito.

Em poucos meses de faculdade, ela já havia se tornado uma garota popular, como sempre fora. Alice tinha esse poder de fazer com que todos gostassem muito dela. Havia um brilho tão forte em sua personalidade que naturalmente chamava a atenção das pessoas.

Uma de suas amigas percebeu que essa luz havia despertado o interesse de um rapaz que costumava sentar-se no fim do refeitório. Alice, então, passou a prestar atenção nele e percebeu que talvez a amiga tivesse razão.

Porém, o garoto parecia extremamente tímido. Tinha um jeito retraído, andava com poucos amigos e passava mais tempo sozinho, mergulhado nos próprios pensamentos ou escrevendo alguma coisa. Talvez o jeito dele não chamasse a atenção da minha filha para um possível namoro.

Mas o que Alice tinha de observadora, não tinha de paciente. Passou a lhe dar inúmeras oportunidades para que ele se aproximasse. Porém, nada acontecia. Impaciente e em um ato de coragem, foi até sua mesa e perguntou de supetão:

— Você vai ou não vai me chamar para sair?

O rapaz olhou para ela assustado. Depois abriu um sorriso tímido. Foi o primeiro dia de um longo e duradouro relacionamento.

Era exatamente o passo de que aquele jovem introspectivo precisava para finalmente se aproximar da garota que admirava de longe havia tanto tempo.

Jasper Hale era estudante de Direito. Havia saído do Texas para tentar um futuro diferente daquele vivido por sua grande família, em Midland. Nenhum de seus irmãos concluíra os estudos, pois todos ajudavam o pai na fazenda. Como terceiro de quatro filhos, esperava-se que seguisse o mesmo caminho. Mas sabia que não tinha vocação para aquilo.

Queria conhecer novos universos. Era ambicioso o suficiente para acreditar que poderia construir uma carreira que lhe proporcionasse mais oportunidades do que a venda de produtos agrícolas. Assim, vivia como podia em Nova York, dividindo apartamento com alguns amigos.

A única coisa que manteve em comum com os irmãos foi o gosto pela música. Os meninos Hale cresceram em uma família extremamente musical, e cada um desenvolveu talento para um instrumento diferente. Jasper fazia apresentações em bares e festas com os amigos para complementar a renda e conseguir sobreviver na cidade.

Isso conquistou Alice logo de cara. Ora, por aqui também temos um enorme apreço pela música. Imagino que ela tenha se sentido em casa.

Apesar de bastante reservado, um homem de poucas palavras, Jasper expressava sua sensibilidade através da música. Suas composições eram sinceras e tocavam profundamente quem as ouvia.

Foi em um desses shows que ele fez um pedido de namoro cantando uma música escrita especialmente para ela. Alice não poderia ter ficado mais encantada. Sendo uma romântica incorrigível, dificilmente poderia ter imaginado um pedido melhor.

Nós só soubemos do namoro quando Alice voltou para casa e contou a novidade como se estivesse relatando algo absolutamente banal. Eu já desconfiava de que ela pudesse estar com alguém pelo tom das nossas conversas, mas não queria ser invasiva. Não foi, portanto, uma surpresa. Foi mais uma enorme curiosidade de conhecer o homem que havia conquistado o coração do meu bebê.

Carlisle ficou um pouco enciumado, como era de se esperar. Mas bastou conhecermos Jasper, pouco antes do casamento de Edward, para percebermos que tudo ficaria bem. Jasper era conservador o suficiente para garantir a Carlisle que realmente queria construir um futuro ao lado de Alice.

Além da conversa aberta, do gosto pela leitura, da inteligência e da sensibilidade musical, dificilmente haveria combinação melhor para conquistar um sogro ciumento. Quanto a mim, eu estava simplesmente feliz por Alice.

Percebia que Jasper era completamente fascinado por ela, enquanto minha filha o conduzia com a mesma delicadeza com que sempre fazia todos ao seu redor seguirem naturalmente o seu ritmo. Um completava o outro em todos os sentidos. Nunca tive tanta certeza de que um relacionamento daria tão certo quanto aquele.

Mesmo sabendo das dificuldades que surgiriam quando Jasper fosse confrontado com a possibilidade de entrar para a realeza, confesso que eu estava tranquila quanto a isso. Naquela altura, eu já não tinha dúvida de que o amor era capaz de abrir fronteiras.

Ainda assim, era curioso imaginar como um homem reagiria diante de tantas imposições da vida monárquica sem jamais ter pertencido a esse universo. Até então, apenas mulheres "plebeias" haviam ingressado na família real.

Não podemos negar que vivemos em um mundo machista. Para muitos homens seria inimaginável abrir mão de tantas coisas por causa da esposa. Se para as mulheres isso já é uma tarefa difícil, para um homem talvez fosse ainda mais, considerando a velha educação que recebemos, ensinando nossos meninos a serem provedores e protagonistas, nunca os coadjuvantes.

Mas eu sabia que Jasper era bem resolvido. Meu santo bateu com o dele muito rapidamente. Sentia que ele jamais se sentiria diminuído por Alice. Pelo contrário. Ela era sua maior motivação. A força que o impulsionava. Isso estava estampado muito mais em seus olhos do que em qualquer palavra que pudesse dizer.

Quando Alice retornou para Belgonia, após concluir a faculdade, falou sobre a possibilidade de estar com Jasper, dentre outras coisas também. Disse-nos que ele estava disposto a mudar-se para o nosso país, que não suportavam ficar longe um do outro. Já estavam namorando havia três anos. Era tempo demais para se separarem.

Eu via Carlisle absorver tudo o que Alice dizia rapidamente, com uma expressão de quem sofria de cólicas. Confesso que me divertia mais do que me preocupava. Naquela altura, eu já não me estressava mais.

— Você quer virar estilista, quer se casar, sem deixar suas funções por aqui... Mais alguma coisa? — Carlisle perguntou, quase sem fôlego.

Alice apenas fez seu olhar pidão e a melhor expressão de “cachorro que caiu do caminhão de mudança”, como sempre fazia. Eu sabia que Carlisle não resistiria. Ele nunca negava nada à nossa filha. Eu só queria rir.

— Você não diz nada, Esme?

— Deixe-os morando juntos por um ano para ver se realmente Jasper se acostuma com as coisas da “firma”.

Carlisle me olhou como se eu fosse uma louca, e Alice bateu palmas, animada.

— Não acha que isso é demais?

— Não acha melhor ele passar por essa adaptação antes? Não é como se estivéssemos no século XIX, em que eles precisavam se casar primeiro para ter certeza de algo.

Ele ficou pensativo. Carlisle não era conservador. O lado aquariano dele jamais permitiria isso, mas, naquele momento, ele pensava como monarca. Éramos católicos, e as regras da Igreja são levadas muito a sério por aqui. Como divulgadores dos bons costumes para o país, seria um grande escândalo se justamente nós quebrássemos essas regras. Mas o medo em relação a Jasper era maior.

Além disso, o palácio e o parlamento queriam se aproximar dos “novos tempos”. Então, como Alice em breve desceria algumas posições na linha sucessória, logo seria “café pequeno”.

Assim, Jasper e Alice receberam a permissão para morar juntos, com a promessa de que logo se casariam na Igreja, como manda o protocolo. Foi bem melhor assim. Os dois puderam viver juntos em uma realidade que é desafiadora para qualquer casal. Não existe isso de dar certo imediatamente. Uma coisa é namorar, outra é viver sob o mesmo teto. Nada melhor do que experimentar isso por si mesmos.

Deu certo. Claro que daria. O vínculo entre Alice e Jasper foi construído principalmente a partir de um equilíbrio entre duas personalidades profundamente diferentes, mas que se completam de maneira quase simbólica. Alice precisa de alguém que a mantenha mais firme na realidade, enquanto Jasper precisa de alguém que o faça sair um pouco do chão. Dessa forma, o amor entre eles não se constrói apenas sobre atração ou afinidade, mas sobre a capacidade de um enxergar no outro aquilo que ainda está em processo de formação.

Jasper entrou oficialmente para a família depois de um ano morando com Alice. Eles se casaram com toda a pompa que mereciam e que podíamos proporcionar. Ele assumiu o título de “Duque de Northfolk” e desempenha excelentes trabalhos como promotor da cultura entre nossas crianças e adolescentes. Como bom músico, desenvolveu inúmeros projetos de incentivo, além de ser um grande apoio em questões jurídicas. Sua paciência infinita e sua calma são inspiradoras para mim. Confesso que não há melhor momento do que conversar com meu genro e sentir que tudo está bem.

Entretanto, não foi apenas no amor que Alice mostrou que podia quebrar regras. Acho que a maior prova de sua resiliência está no trabalho como estilista.

Alice sempre confiou nos próprios instintos e isso é muito poderoso. Sabíamos, Carlisle e eu, que não poderíamos deixá-la desperdiçar esse talento. Fizemos, então, uma espécie de correção histórica para as mulheres da Dinastia Cullen: permitimos que Alice tivesse sua carreira na moda em paralelo às suas funções como princesa.

Seria terrível se ela tivesse, como Carmen, seu sonho destruído por um título imposto pelo nascimento. E quem ganhou? O mundo, é claro.

A marca de Alice tornou-se uma das mais famosas e respeitadas do mundo. Já ouvi muitos afirmarem que ela começou com vantagem por ser quem é. É verdade que isso lhe abriu portas, mas não a definiu. O estilo de suas criações dialoga com movimentos contemporâneos que valorizam o consumo consciente, peças atemporais e design funcional e, ao mesmo tempo, antecipa tendências. É como se ela conseguisse prever o que cairá no gosto popular muito antes de isso sequer ser cogitado.

Esse “faro” a fez lançar diversos modelos de sucesso e conquistar reconhecimento não apenas do público, mas também da crítica especializada. Provou que poderia ter uma carreira sólida, autoral, e não apenas um projeto sustentado pela própria fama. Isso me orgulha profundamente.

Alice, para mim, é um símbolo de determinação e coragem. Sou imensamente feliz por o mundo ter reconhecido isso e abraçá-la como merece. Eu não poderia desejar mais nada para minha filha.

Mas Alice ainda nos daria mais uma lição sobre determinação e coragem. Quando engravidou, foi a primeira vez em que, honestamente, não consegui me alegrar com a chegada de um novo neto. Foi um dos momentos de maior apreensão da minha vida.

Alice sofria de uma endometriose grave, descoberta quando tinha apenas quinze anos. Na época, o médico indicou diversos tratamentos, mas foi categórico ao dizer que dificilmente ela conseguiria engravidar. Ouvir aquilo foi devastador. Lembro-me de segurar sua mão, como se pudéssemos nos consolar mutuamente.

Eu sabia o quanto aquela notícia poderia ser dolorosa. No entanto, Alice não reagiu como eu esperava. Apenas assentiu diante do médico e nunca mais tocou no assunto. Nós também silenciamos. Não permitimos que o palácio usasse aquilo, no futuro, como uma forma de pressioná-la por causa da linha sucessória.

Mas, quando Alice e Jasper se casaram, sabíamos que esse tema inevitavelmente voltaria à tona. Eles adotariam? Como explicar ao público que talvez não houvesse um bebê real vindo deles?

Então, quando Alice engravidou, todos enxergaram aquilo como um milagre. Eu, no entanto, senti o peito se apertar de um jeito que não sei explicar.

Numa manhã, meu celular tocou. Era Alice. A princípio, só consegui ouvir seu choro do outro lado da linha.

— Alice, está tudo bem, meu amor?

Então ela respondeu, com a voz entrecortada:

— Mãe, você pode vir aqui em casa?

— Claro.

Assim que terminei meu compromisso, corri para lá, imaginando mil coisas. Aquilo me lembrou um pouco os tempos em que Alice era criança e vinha até nós depois de um pesadelo, pedindo aconchego. Mas, dessa vez, eu sentia que havia algo maior do que um simples sonho ruim.

Alice raramente demonstrava medo. Era como se essa palavra nem existisse para ela. Minha filha sempre fora positiva demais. Em pouquíssimos momentos se permitiu encarar a possibilidade de que algo realmente ruim pudesse acontecer.

Quando cheguei, encontrei-a chorando no sofá. Em suas mãos, havia um exame de gravidez com resultado positivo. Apenas me agachei diante dela e a abracei. Ficamos assim por longos minutos, sem dizer nada. Não era preciso. Até que ela cochichou em meu ouvido:

— Esse bebê vai nascer saudável.

Assim, com toda a certeza que sempre existiu dentro dela. Eu a olhei, abismada.

— Alice, não. Essa gravidez é arriscada demais.

— Claro que não. Eu vou conversar com Jasper. Nós vamos ter esse bebê. Ele vai nascer prematuro, mas vai sobreviver.

— E você vai?

Ela apenas me encarou, quase sorrindo. As lágrimas desceram uma última vez por seu rosto bonito. Naquele instante, tive vontade de chacoalhá-la, de chamá-la de louca, de gritar contra o mundo inteiro. Eu não aceitaria perder minha filha. Por ela, eu também seria capaz de qualquer loucura.

— Mãe, vai ficar tudo bem.

Mas aquelas palavras não entravam em mim. Carlisle concordou comigo. Também enxergava a insanidade de tudo aquilo. Porém, o que poderíamos fazer? Jasper também não queria perdê-la, mas quem seria capaz de ir contra Alice? Ao menos ele era mais sensato do que ela naquele momento. Tratou de confiar nos médicos, nos tratamentos e em todas as possibilidades científicas que pudessem ajudá-los.

Foram sete meses de preocupação, cuidado e temor. Alice teve uma ameaça de aborto no terceiro mês e precisou ficar de repouso durante toda a gestação. Parecia que cada segundo vinha carregado de incerteza, e a ansiedade nos consumia aos poucos. Confesso que, a cada dia, eu temia o pior.

Larguei todos os meus compromissos e permaneci com Alice o máximo de tempo que pude. Carlisle também se fazia presente sempre que possível. Diante dela, tentávamos ser um pouco mais otimistas. Quando estávamos sozinhos, apenas chorávamos. Parecia que, mais uma vez, lutávamos contra um destino já traçado.

Alice, porém, permaneceu firme. Seguiu tudo o que os médicos mandaram, e seu otimismo parecia inesgotável. Recrutou as melhores estilistas para confeccionar as roupas do seu filho. Chamou os melhores designers de interiores para montar o quarto de Pietro. Quase deixou todos ao seu redor loucos, porque queria saber, a todo instante, como tudo estava ficando e, como não podia sair da cama, exigia fotos, detalhes e atualizações constantes. E assim foi até o fim da gravidez.

A médica que a acompanhava decidiu marcar a cesárea para a vigésima oitava semana de gestação, quando o bebê já estava perto de completar um quilo e meio. Foi muito honesta com todos nós ao dizer que Alice não suportaria mais do que aquilo. Era melhor prevenir do que remediar. E assim foi feito.

No dia 18 de agosto de 2015, Pietro veio ao mundo. Foi uma vitória e também a prova de que sua mãe, mais uma vez, insistira em acreditar. Um menino lindo, pequenino, mas saudável. Precisou ficar na incubadora para ganhar mais peso e crescer um pouco mais. Mas, como Alice disse depois do parto:

— Ele está aqui e está bem. Isso é o que importa.

Já não havia mais espaço para o pessimismo. Respirei aliviada. Minha filha estava viva, e eu tinha em meus braços o meu terceiro neto. O que mais uma avó poderia querer?

Acompanhamos cada pequena evolução de Pietro como se fosse final de Copa do Mundo. Cada vitória dele era celebrada como um título. Foi assim quando ele mexeu pela primeira vez na barriga de Alice, com seus chutes apressados; quando respirou sem aparelhos; quando mamou sozinho. Tudo nos parecia imensamente precioso.

Hoje, Pietro é um homem bonito, responsável e com um futuro promissor pela frente. E ainda penso em como Alice foi corajosa ao insistir que ele sobreviveria. Mais uma vez, minha filha me ensinou que nem sempre o futuro precisa ser motivo de medo. Às vezes, ele só precisa ser confiado.

Passei anos tentando protegê-la do mundo, dos julgamentos, das armadilhas do título e dos velhos fantasmas da nossa família. Mas a verdade é que Alice nunca precisou que eu abrisse o caminho por ela. Minha filha nasceu sabendo abrir portas sozinha.

Hoje, quando olho para a mulher que ela se tornou, sinto que enfim posso respirar em paz. Alice não foi engolida pela coroa, pelo sobrenome ou pelas expectativas dos outros. Construiu a si mesma com a mesma delicadeza e firmeza com que desenhava seus primeiros vestidos na infância. E talvez essa seja a sua maior beleza: Alice nunca deixou de ser luz, mas aprendeu também a ser direção.

Se antes eu temia pelo destino da minha filha, agora só consigo agradecer por ele ter sido tão generoso com ela. Porque Alice não apenas encontrou o seu lugar no mundo; ela fez do mundo um lugar mais bonito com aquilo que é.