Dinastia 3: A Rainha de Copas
38 Capítulo 38
Julho de 2007
O som tocava ao fundo, mesmo dentro do camarim, era possível ouvir nitidamente qual era a set list escolhida para o desfile daquele dia.
Rosalie sorriu ao lembrar que Luke estava tão nervoso com esse desfile em Paris que estava tendo dificuldades até para escolher as músicas que tocariam durante a apresentação das roupas da marca. Mas, ouvindo agora o que saía das caixas de som, ela pensava que tudo terminara no mesmo lugar.
Luke queria algo extraordinário. Era a primeira vez que organizava um desfile para aquela marca francesa tão importante. Queria arrasar, superar as expectativas, mas a modelo começava a acreditar que, quanto mais a gente tenta fazer algo muito diferente, mais acaba chegando ao mesmo resultado.
Rosalie olhou para si mesma mais uma vez no espelho e viu que suas bochechas começavam a ganhar volume novamente. Luke a mataria se soubesse que seus cinquenta quilos tinham se tornado cinquenta e dois. Pensou que não se importava mais com isso. Já passara o tempo em que vomitava tudo o que comia. Dessa vez não. Achou melhor deixar aquele sorvete de chocolate que comera antes de viajar dentro dela, enquanto sentia aquela dor de recaída ao pensar em Paul e em tudo o que ele fizera com ela. Mesmo assim, apertou ainda mais o espartilho para evitar os xingamentos dirigidos a ela.
Olhou para o cigarro de Suzi, largado sobre a penteadeira, e pensou em dar uma tragada. Mas logo afastou esse pensamento. Estava tentando parar de fumar e precisava cumprir essa promessa consigo mesma.
— Vamos, Rose! Você é a próxima.
Ela assentiu e seguiu em frente. Quando surgiu no início da passarela, viu as luzes brilhando todas em sua direção. Já não se impressionava mais. Mesmo com todos os olhares voltados para ela, nada daquilo a tocava. Era apenas mais um desfile, igual a todos os outros.
Rosalie apenas fez o que sempre fazia: desfilou e lançou aquele olhar que aprendera, desde muito nova, a usar para prender a atenção sobre si. Porém, sabia que era tudo artificial, uma imagem criada que, naquele momento, já não lhe agradava mais.
Mais tarde, quando tudo acabou, desceu para o after party, achando que estava ficando amargurada demais para alguém de vinte e dois anos. Ficou pensando nisso por mais um tempo até chegar ao bar.
É claro que sabia que aquela era a vida que escolhera seguir. Naquele momento, não sabia bem se tornar-se modelo havia sido um sonho ou apenas o caminho que dera certo. Independentemente do que fosse, não podia negar que se sentia orgulhosa de onde chegara: Modelo internacional. Uau! Tinha plena consciência de que vivera mais naqueles nove anos do que muita gente em toda uma vida. Loucura!
— Rose, quando vou me cansar de dizer que você foi belíssima?
A modelo virou-se e viu, nada mais, nada menos, que a princesa Carmen de Belgonia atrás dela. Mais uma vez, não pôde deixar de se surpreender com a beleza daquela mulher. Além de traços físicos que lembravam os deuses gregos, ela ainda se vestia muito bem. De tal forma que era quase como uma divindade.
— Você é sempre gentil!
— Você parece desanimada demais para quem acabou de brilhar usando um Chanel.
Rosalie apenas sorriu. Embora as duas já se conhecessem, não tinham um relacionamento consolidado. Mas, de alguma forma, Carmen conseguira se conectar com ela de uma maneira surpreendente.
— Tecnicamente perfeito. — corrigiu Rosalie. — Emocionalmente... Irrelevante.
Carmen a encarou.
— Vinte e dois anos e já tão lúcida, isso é surpreendente.
Rosalie suspirou, girando o anel no dedo.
— As pessoas acham que eu vivo um sonho. Mas é um sonho em que eu nunca acordo dentro de mim. Só acordo para os outros.
Carmen assentiu devagar.
— Passei a vida inteira acordada para os outros. Dormi para mim mesma.
Houve um silêncio confortável, daqueles que só existem entre pessoas que já se reconheceram uma na outra.
— Sabe o que eu queria quando tinha a sua idade? — continuou Carmen. — Ser modelo. Não uma princesa jogando xadrez político com o próprio rosto.
Rosalie riu, sem humor.
— Eu trocaria facilmente a passarela por não representar nada além de mim.
— Não minta. — disse Carmen, com suavidade. — Você ama ser vista. Só não ama ser possuída.
A frase atingiu Rosalie como um reflexo inesperado.
— E você? — perguntou. — Ainda sente falta?
Carmen respirou fundo.
— Todos os dias. Imagino como teria sido ser admirada sem ser um símbolo de um país.
Rosalie apoiou o ombro na parede.
— Engraçado como a gente sempre quer o que o título proíbe.
— Títulos não foram feitos para proteger. — respondeu Carmen. — Foram feitos para limitar com elegância.
A música mudou. Alguém riu alto demais ao fundo. O mundo insistia em ser superficial. Rosalie revirou os olhos. Estava apenas cansada de tudo aquilo.
— Eu estou cansada, Carmen. — disse Rosalie, mais baixo. — Cansada de pessoas que me tocam como se eu fosse uma promessa, não uma pessoa.
Carmen aproximou-se um pouco, o suficiente para que sua voz não precisasse competir com o som.
— Então talvez você precise sair do lugar onde todos acham que já sabem quem você é.
Rosalie levantou os olhos.
— E ir para onde?
— Para Belgonia.
— Isso é uma piada? — Rose franziu a testa.
— Um convite. — corrigiu Carmen. — Meu aniversário é em algumas semanas...
Rosalie não respondeu de imediato. Imaginou que, na festa de Carmen, haveria tudo, menos paz, mas não quis contrariá-la.
— Pense nisso. — disse Carmen. — Às vezes, uma festa não é uma celebração. É uma porta.
Enquanto isso, naquele mesmo ano, mas em outro lugar, Esme observava o filho em silêncio.
Emmett parecia bem. Ao menos mais corado, respondendo melhor ao tratamento. Ela se recusava a imaginar a possibilidade de vê-lo novamente em uma sala de cirurgia. Gostava de tê-lo ali, inteiro, diante dos seus olhos, e desejava, com todas as forças, que aquilo não mudasse. Mas temia. Emmett sempre fora como o vento: passava rápido demais.
— Tia Carmen vai dar uma super festa. Viu o convite? — perguntou ele, casualmente.
— Sua tia nunca se satisfaz sem uma boa festa. Ela gosta de publicidade, de eventos caros.
— E ela está certa. — Deu de ombros. — Não pelos holofotes, porque isso é um saco, mas pela diversão. A vida é tão doida e frágil que a gente precisa mesmo é se divertir.
— Pode ser... — Esme respondeu, sem convicção.
Pensou que Emmett parecia ter vivido, em pouquíssimo tempo, experiências demais para um único homem. Mas talvez fosse justamente isso que o tornara quem era. Um pé sempre à beira da vida e da morte. Por mais que quisesse mudar o destino do filho, sabia que era inútil.
— Eu vou a essa festa. — disse ele de repente.
Esme arqueou as sobrancelhas.
— Vai? Pensei que você detestasse as festas da sua tia. "Cheia de velhos", não eram essas as suas palavras?
Emmett gargalhou.
— Bom... Ela tem bons contatos também. Desfiles, eventos de moda. Quem sabe eu não encontro alguma modelo bonita por lá?
Esme revirou os olhos. Aquilo era um sinal claro: Emmett estava voltando a ser ele mesmo. Mulheres sempre foram sua especialidade. Nos últimos tempos, a guerra e a convalescença o haviam silenciado. O Iraque lhe arrancara a alma. Quando o reencontrara, parecia apenas uma carcaça ambulante. Agora, porém, o sorriso voltara. As piadas também.
— Tomara que uma delas prenda você de vez. — provocou ela. — Só para aprender a dar mais valor às mulheres.
Ele gargalhou, limpando a boca com o guardanapo. Esme agarrou-se àquele som. Fazia tempo demais que não o ouvia. Emmett contornou a mesa e beijou a bochecha da mãe.
— Acredite, mãe... Elas adoram o meu trato.
Esme jogou o guardanapo nele, e ele riu ainda mais, como quando era menino.
— Vai pagar pela sua língua.
— Não me jogue praga, mãe!
Dias depois, Rosalie, relutantemente, acabou aceitando o convite de Carmen e agora ali estava ela, olhando atentamente para o líquido marrom dentro do copo de vidro. Certamente já estava "alta" o suficiente para ficar ali parada, observando por um tempo considerável algo imóvel e irrelevante.
Precisava parar de beber. Tinha que pegar um avião de volta para os Estados Unidos e retornar à sua vida normal. Então, decidida, levantou-se de um rompante.
— Mas você é teimosa, hein? — disse uma voz atrás dela.
Ela olhou para trás e viu o homem que já encontrara durante aquela noite. Não tinha como negar que ele era muito bonito. Alto, musculoso, com os cabelos ralos. Sim, era um verdadeiro estereótipo ambulante. Certamente fazia o seu tipo.
— Teimosa por quê? Te conheço, por acaso? — respondeu Rosalie.
O homem à sua frente sorriu. Na verdade, gargalhou. De alguma forma, aquele sorriso mexeu em algum lugar dentro dela. Era um sorriso contagiante, que brilhava; não daqueles forçados aos quais estava acostumada em quem convivia.
— Passei a noite inteira querendo saber quem você é. Mandei algumas bebidas para a sua mesa. Já estava quase indo pedir arrego para a minha tia.
Rosalie olhou para ele e percebeu o olhar galanteador. Ajeitou-se na cadeira e cruzou as pernas. Era exatamente disso que os homens gostavam: sedução, carne... Esse também gostava, pelo visto. Dava para ver pelos sinais em seu rosto. Modelos eram sempre o alvo preferido dos caçadores de plantão. Elas traziam tudo o que eles queriam. Eram bonitas; eles achavam que eram fúteis e fáceis, e poderiam ser um belo troféu. Foi exatamente isso que Rosalie fora para Paul. Alguém que ele pudesse exibir e jogar fora quando se cansasse.
— Por que eu deveria conhecer você?
O homem olhou para ela, surpreso com a resposta. Bom, ela não fazia parte do estereótipo. Porém, de alguma maneira, ele gostava de desafios. Aproximou-se dela e sentou-se no banco ao lado. Seu olhar agora era penetrante, mas Rosalie não cederia tão facilmente.
— Talvez você não devesse. — respondeu. — Às vezes a gente conhece alguém só para lembrar quem a gente é ou quem não quer mais ser.
Aquilo a pegou desprevenida. Não era a cantada que esperava. Rosalie descruzou as pernas, o corpo traindo o interesse que não queria demonstrar. Olhou novamente para o copo esquecido sobre a mesa. O líquido marrom parecia agora ainda mais parado, quase cansado.
— Mas penso — continuou ele — que duas pessoas como nós não podem deixar de se conhecer.
— Você sempre analisa estranhos assim? — Rosalie perguntou, tentando manter o sarcasmo.
— Só os que parecem carregar uma mala invisível. — respondeu, sorrindo de canto.
Ela riu baixo, pela primeira vez naquela noite. Um riso curto, quase involuntário. Como se nem ela acreditasse que aquele sujeito tivesse sido capaz de tal proeza.
— Foi quase hipnótico, sabe? — comentou Rosalie com William, Esme e Renesme enquanto era entrevistada para o livro da sogra.
Havia algum tempo ela se encontrava ali, revivendo aqueles momentos do passado como se estivesse novamente dentro deles. A experiência era ainda mais intensa porque não eram apenas suas memórias que emergiam; havia algo coletivo sendo reconstituído.
— Então, eu deixei que aquele cara me conduzisse naquela conversa. Simplesmente, eu não estava no clima. Tinha passado dois anos em um relacionamento que me esgotou completamente. Eu não estava pronta para nada. Mas aí pensei: "Por que não?". Provavelmente seria a última vez que eu o veria. Ele não ia me ganhar com aquele papo todo, mas talvez conseguisse, ao menos, me distrair.
Agora quem sorria era a rainha. Observava o rosto da nora e via ali pura nostalgia. Rosalie relatava tudo sem se preocupar em medir palavras. Sempre fora assim: descomprometida com disfarces, autêntica, aberta às emoções. Como um vento forte, que atravessa tudo sem pedir licença.
— Acabamos ficando a noite inteira conversando. Paguei a língua, sinceramente. Eu não esperava me sentir tão bem ao lado daquele homem. Ele me fazia sorrir e eu nunca tinha me sentido tão leve antes. Eu olhava para aqueles olhos e sentia uma pureza que já não encontrava havia muito tempo nos homens com quem convivi.
— Imagino como deve ter sido. — comentou Renesme. — A vida nos impõe tantos desafios que, quando a paz chega, a gente quase desconfia.
William esboçou um leve sorriso, mas não olhou para a esposa. Continuou rabiscando algo em seu bloco de notas. Esme observava tudo com atenção. Achava curioso, quase irônico, como histórias do passado sempre acabavam encontrando o presente.
O relacionamento de Rosalie e Emmett havia sido uma tábua de salvação para ambos, assim como o de Renesme e William. Mas nunca fora um mar de rosas, como nos romances de banca. Houve crises. Houve rupturas. Como agora acontecia com a neta, guardando as devidas proporções.
Mais cedo, ao se aproximar do quarto do casal para a entrevista daquela manhã, Esme encontrou William encostado à porta. Do lado de dentro, era possível ouvir as risadas de Rosalie, Renesme e Bebela. O som era leve, contagiante, daqueles que convidam a entrar. Ainda assim, o jornalista permanecia ali, imóvel.
— E por que você não está lá dentro com elas? — perguntou Esme. — Pensei que Renesme tivesse pedido para participar da entrevista comigo hoje.
William suspirou e desviou o olhar para o chão. Esme compreendeu de imediato: não era apenas Renesme que estava abalada naquele casamento.
— Ela podia ter me contado. — disse ele, com a voz baixa. — Eu a amo mais do que qualquer coisa. Faria qualquer coisa para vê-la feliz.
A rainha segurou o braço do jornalista, afastando-o da porta, e tomou-lhe a mão. William ainda evitava encará-la. Esme teve, então, um déjà-vu de anos atrás, quando precisara intervir no relacionamento de Emmett e Rosalie. Tudo parecia se repetir, não nos fatos, mas nos sentimentos.
— Se continuar escutando por trás da porta e não entrar para conversar com Renesme, esse casamento não vai durar muito.
— Deus me livre! — respondeu ele, alarmado. — Eu sou louco pela sua neta, Majestade.
— Eu sei. — disse Esme, pousando a mão em seu ombro. — Sinto que tudo entre vocês é verdadeiro. Se não fosse, eu teria sido a primeira a me opor. Mas escute: casamentos não acabam porque alguém fala demais, William. Eles acabam porque alguém decide não falar nada.
Do outro lado da porta, o riso de Bebela soou mais alto. Esme imaginou Rosalie fazendo cócegas na menina. William sorriu discretamente, ainda com a cabeça apoiada na madeira.
— Ela mal dorme... Vive cansada, sensível. E, quando tento me aproximar, parece que estou sempre no momento errado.
— É uma fase. — respondeu Esme, com a serenidade de quem já atravessara gravidezes, coroações e solidões. — A maternidade chega como uma avalanche. Linda, necessária, mas avassaladora.
— Eu nunca quis que ela se sentisse sozinha nisso.
— E ela não está. — afirmou Esme. — Mas está assustada. Renesme ama você, ama Bebela e já ama essa criança que ainda nem nasceu. O medo dela é desaparecer. É sentir que o amor de vocês vire apenas logística, rotina, cuidado. Por isso, esteja com ela não só como pai, mas como amante. Faça-a lembrar que ainda é desejada. Que você não vai embora.
Esme piscou, num gesto cúmplice. William tocou seu ombro em agradecimento.
— Obrigado.
— Tudo vai se ajeitar. — disse ela. — Vocês ainda têm muita vida pela frente.
Esme acreditava nisso. E rezava para que o desfecho fosse bom para o casal, para a gravidez, para todos. Perder uma criança ainda em formação seria devastador. Para Renesme, a culpa seria eterna.
Horas depois, Rosalie retomava o relato.
— Eu era muito nova naquela época, mas parecia já ter visto de tudo. A imagem dos homens estava destruída para mim. Eu era cética. Fui eu quem encerrou a conversa. Já estava quase amanhecendo, a festa sendo desmontada. Eu precisava dormir algumas horas antes do voo para os Estados Unidos. Mas ele segurou minha mão e me surpreendeu mais uma vez.
Rosalie lembrava nitidamente do arrepio que percorreu seu braço. Sempre ouvira falar daquela eletricidade ao encontrar alguém especial. Nunca acreditara nisso. Seus pais haviam se separado quando ela tinha quatro anos e nunca conseguiram manter relações estáveis. Para ela, alma gêmea era um mito reconfortante.
Nem mesmo com Paul, após dois anos juntos, sentira aquilo. Havia amor, dor, perda. Mas o que sentia naquele instante era novo. E isso a assustava.
— Não vá agora — pediu Emmett.
— Eu preciso ir. Tenho um voo.
— Eu te levo para casa.
— Eu moro em Los Angeles.
— E daí? Arranjo um avião.
— Não. — respondeu rapidamente. Mesmo desejando se aproximar mais, precisava se conter. Aquilo não podia ser real. — Eu enjoo em aviões pequenos.
Mentiu com cuidado.
— Consigo um maior. Fica mais um dia. Precisa conhecer Belgonia e eu quero te apresentar.
— Não podemos negar que o tio Emmett tem uma lábia. — comentou Renesme, no presente.
— Quando a gente quer alguém de verdade, faz qualquer coisa. — disse William, encarando a esposa.
Esme percebeu o rubor no rosto da neta. Era um recado silencioso e necessário.
— Eu fiquei. — contou Nikki, sorrindo. — Ele foi convincente. Passamos o dia inteiro pela cidade. Hoje, olhando para trás, mal acredito que cedi daquele jeito.
— Quando é para acontecer, não tem como evitar — disse Esme. — O destino se encarrega.
— Acho que sim. Emmett tirou de mim coisas que ninguém tinha conseguido. No mundo da moda, aprendi a erguer muros altos. Mas ele, com aquele sorriso bobo e aquela positividade, revelou uma Nikki que eu mesma não conhecia.
Esme sorriu. O vento balançava as cortinas com suavidade. Pensou que a vida era feita disso: ciclos que retornam não para punir, mas para ensinar outra vez. Brisas e tempestades. E o segredo nunca foi evitá-las, mas reconhecer quem permanece depois que passam.
William voltou às perguntas. Esme retomou sua atenção, certa de que, pela primeira vez em muito tempo, todos estavam, enfim, no mesmo parágrafo.
Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 38: A brisa forte no canteiro
Sabe aquele tipo de pessoa que parece uma rajada forte de vento quando você está com calor? Aquela presença que refresca, que traz um sorriso imediato, uma leveza quase física? É assim que eu descrevo Rosalie. Uma mulher linda. Daquelas que impressionam à primeira vista. Mas, sobretudo, por ser alguém fora da curva. Livre. Desimpedida. E, acima de tudo, forte, sólida como uma rocha.
Devo confessar que foi estranho ver Emmett com alguém. Não pelo fato de eu já tê-lo visto com inúmeras mulheres entrando e saindo de sua vida. Isso nunca foi novidade. O que realmente me surpreendeu foi vê-lo apaixonado. Aquilo, sim, era novo. E não levou muitos minutos para que eu percebesse essa mudança em meu filho. Desde então, compreendi que havia ali um ponto de virada.
Emmett saiu do exército profundamente ferido tanto de corpo como de alma. Eu sabia que seus anos como militar haviam terminado e que ele precisaria, enfim, reorganizar a própria vida. Conversei inúmeras vezes com Carlisle sobre o meu temor em relação ao ócio que o aguardava. Emmett nunca soubera exatamente o que queria. Até então, sua trajetória havia sido uma sucessão de tentativas de entender o mundo e a si mesmo. Mas a surpresa veio por outro caminho.
Tudo começou com um nome surgindo, quase por acaso, em suas frases: Rosalie. Depois, Rosie. Até que um dia ele disse, de forma simples e direta:
“— Mãe, eu estou namorando.”
E boom.
Foi como uma explosão silenciosa. Rápida, inesperada, exatamente como tudo que Emmett sempre se propôs a fazer.
Eu sei que os dois se conheceram no aniversário de Carmen, em 2007. Poucos meses depois de Emmett retornar do Iraque.
Lembro-me bem daquele ano. Começara de forma difícil, mas, ao mesmo tempo, eu me sentia aliviada por tê-lo novamente ao alcance das minhas mãos. Meu filho, mais uma vez, provou sua força de vontade: venceu cirurgias, enfrentou as fisioterapias com disciplina. Ainda assim, eu sabia que o vazio permanecia. Seus olhos continuavam tristes. Algo ainda lhe faltava.
Naquele quatro de agosto, eu sequer sabia se ele compareceria à festa. Carmen adorava grandes eventos, mas o estilo e os convidados não eram exatamente o tipo de ambiente que agradava Emmett. Ainda assim, ele foi. Como se precisasse estar ali. Como se estivesse procurando, em qualquer lugar, uma forma de fugir dos próprios dilemas. Quase como se pensasse: “Se eu parar, eu caio.”.
Curiosamente, Rosalie também quase não foi à festa. Anos depois, ela me contou que havia sido convidada por Carmen muito tempo antes e, com o passar dos dias, chegou a duvidar que o convite realmente se concretizaria. Mas ele chegou. E, mesmo relutante, ela foi. Foi ali que o encontro aconteceu.
De certa forma, foi muito parecido com Carlisle e eu. Nenhum dos dois vivia seu melhor momento. Mas entre uma palavra e outra, eles conseguiram se reconhecer. A conversa atravessou a noite inteira e avançou pelo dia seguinte. Emmett pediu que ela ficasse mais um dia. Rosalie não resistiu e talvez nem soubesse que aquele dia extra em Belgonia mudaria o destino de sua vida. Assim como aconteceu quando confiei em Carlisle e lhe entreguei meu número. Quando as coisas precisam acontecer, elas simplesmente acontecem.
Como disse antes, nós não sabíamos exatamente o que se passava entre os dois. Foram bastante sorrateiros. Eu e Carlisle só descobrimos de verdade quando surgiram fotos deles em um estádio de beisebol, em Los Angeles, em novembro de 2007. Ainda assim, não éramos ingênuos.
Emmett, vez ou outra, inventava uma viagem. Passava alguns dias fora e voltava. Isso aguçou minha curiosidade. Carlisle, com a calma que sempre teve, pedia que o deixássemos viver. Ele estava aposentado, tinha seus recursos, precisava curar as próprias feridas. Mas eu sabia: havia algo mais ali. E havia mesmo.
Emmett estava se encontrando com Rosalie. Os dois se despediram de Belgonia com um beijo e a promessa de que não deixariam de se ver. Passaram um mês conversando por telefone. Depois, reencontraram-se e começaram a namorar de verdade. Ainda assim, optaram pelo silêncio. Decidiram se encontrar sempre que possível, discretamente.
Percebi que se tratava de algo mais sério quando Emmett resolveu passar o próprio aniversário longe de nós. Disse que viajaria para Paris e ficaria alguns dias. Aquilo era extremamente incomum. Só podia haver uma mulher envolvida, e não uma qualquer. As mães sempre sabem.
Dois meses depois, quando eles foram flagrados pelos paparazzi, eu já havia reconquistado um bom relacionamento com Emmett, como não tínhamos havia muito tempo. Conversávamos bastante. Estávamos próximos novamente. Por isso, foi quase natural começar a ouvir o nome de uma garota surgir aqui e ali no meio das conversas.
Esperei que ele mesmo me contasse. Não queria parecer uma mãe intrometida. Achei que fosse apenas mais um caso passageiro.
Pouco tempo depois, enquanto nos preparávamos para o Natal em Clarence, fui surpreendida pelo pedido de Emmett para levar essa tal garota. Foi ali que a ficha começou a cair. O sentimento foi dúbio. Parte de mim temia que fosse mais uma aventura arriscada, como tantas dos últimos dez anos. Outra parte, no entanto, desejava profundamente que aquela desconhecida fosse a luz de que ele tanto precisava.
Permitimos que ela estivesse conosco naquele fim de ano. Rosalie foi a primeira pretendente de um membro da família real a passar as festividades em Clarence antes do casamento. Havia um costume antigo de não convidar "estranhos" para o Natal no palácio. Antes, isso envolvia honra. Mulheres solteiras não participavam de um ambiente tão íntimo. Também era uma forma de nos preservarmos dos olhares alheios, ao menos naquele momento simbólico.
Mas, convenhamos, era 2007. Aquilo já soava arcaico demais. Além disso, estávamos curiosos, muito curiosos, para conhecer a mulher que conquistara o título de namorada de Emmett.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que a vi. Lá estava ela: alta, cabelos encaracolados em um loiro quase branco. Uma modelo. Livre demais. Desprendida demais. Não duraria, pensei. Mas ali estava.
— Oh, Emmett! Você me faz tão feliz! — ouvi Rosalie dizer, sorrindo.
Emmett a abraçava, tentando fazer cócegas. Pareciam dois adolescentes. Tudo era leve demais. Puro demais.
Rosalie o olhava com um brilho que eu reconhecia. Um olhar sem retorno. Por um breve instante, vi a mim mesma, mais jovem, ousada, teimosa, determinada a não ser moldada pela sociedade. Aquilo me desconcertou. Não podia ser... podia?
Emmett a observava com uma adoração escancarada, sem qualquer tentativa de disfarce. Era o tipo de amor que faz um homem querer ser melhor. Naquele instante, soube: ele estava pronto para o próximo passo. Meu filho estava apaixonado.
"Meu Deus... Ela pode salvar o meu menino."
Lembro-me claramente desse pensamento. Aquela mulher tinha desbloqueado algo dentro dele. Estava trazendo de volta o menino que se perdera na adolescência. Amei vê-lo assim: inteiro. Vivo. Como eu não via havia anos.
Nos dias seguintes, ficou evidente que Rosalie não havia conquistado apenas o coração do meu filho, mas o nosso também. Impressionava sua naturalidade. Eu esperava algum acanhamento diante de tudo aquilo: palácio, títulos, formalidades. Se existiu, ela não demonstrou. Parecia pertencer àquele mundo. Ou, ao menos, dançava conforme a música.
O que mais me surpreendeu foi sua maturidade. Apesar da pouca idade, tinha apenas vinte e dois anos, falava sobre qualquer assunto sem hesitar e tinha opinião formada sobre tudo. Percebi de imediato que sua personalidade não vinha apenas do berço, mas de quem já havia vivido muito. E, confesso, invejei sua altivez e clareza diante da sociedade, algo que eu ainda buscava naquela idade.
Carlisle encantou-se de imediato com a nora. Conversavam com naturalidade. Ela dizia algo espirituoso, ele gargalhava. Pareciam falar a mesma língua. Alice também a adorou à primeira vista. Minha filha havia se mudado para Nova York meses antes para estudar moda e estar diante de uma modelo experiente, com carreira internacional, era tudo de que precisava naquele momento. O assunto entre as duas parecia inesgotável.
Para mim, no entanto, só importava uma coisa: "Ela fará meu filho feliz?".
Observei tudo com atenção. A forma como Rosalie se comportava com Emmett. O frescor de um casal jovem. Os abraços frequentes, os beijos despreocupados, os sorrisos cúmplices. Mas o que mais me tocou foi o cuidado. Rosalie, vez ou outra, o ajeitava. Passava a mão em seus cabelos, escolhia suas roupas, corrigia sua postura. Havia zelo ali. Aquilo lhe rendeu alguns pontos positivos comigo e também a certeza de onde tudo aquilo poderia levar.
— É incrível como Emmett está apaixonado! — comentou Edward.
Fiquei grata por ele ter dito aquilo em voz alta.
— Sim. — respondi. — Parece que Rosalie se encaixa em tudo, não?
— Parece perfeita. Espero que dê certo.
— Eu também.
Mais tarde, deitada ao lado de Carlisle, aquele pensamento persistia. Rosalie e Emmett não saíam da minha mente. Eu já havia conhecido outras namoradas dos meus filhos. Sabia que era natural; sempre aparece alguém para roubar o coração deles. Mas, com Rosalie, havia algo diferente. Algo maior. Nem mesmo com as outras, algumas das quais mal cheguei a conhecer, senti aquilo.
Pensei em minha falecida sogra. Pensei em mim e em Carlisle. Será que ela sentira esse mesmo desconforto diante da minha presença? Seria normal esse tipo de ciúme silencioso?
Eu não queria ser como Elizabeth. Não queria ser um pesadelo de sogra. Queria apenas a felicidade dos meus filhos. Ainda assim, me sentia horrível por aquele sentimento estranho, quase possessivo. Um pertencimento tolo. Humano. Difícil de admitir.
Carlisle me abraçava com um braço enquanto, com o outro, tentava ler. Ao perceber meu silêncio e o olhar distante, beijou meus cabelos e perguntou:
— No que está pensando tanto?
— Gostou de Rosalie? — perguntei sem hesitar.
— Por que eu não gostaria? Ela é muito simpática.
— Acha que esse relacionamento com Emmett vai durar?
Ele colocou o livro na mesinha ao lado da cama e me olhou de frente. Eu me sentia cada vez mais boba.
— Não me diga que está com ciúmes do nosso filho? — perguntou, lendo meus pensamentos como sempre.
— Não sei...
— Olha, querida, já é surpreendente o fato de ele tê-la trazido aqui para nos conhecer. Você se lembra de alguma outra?
— Não. Acho que Rosalie é mesmo especial.
— Tenho certeza disso. Para falar a verdade, estou feliz que ele a tenha conhecido.
— Quero vê-lo progredindo. Crescendo como homem, e não se autodestruindo.
— Eu sei. Também penso nisso. Estou sendo boba por ter esse sentimento idiota.
Carlisle me abraçou com força, prendendo-me entre seus braços e pernas. Olhava para mim com aquele olhar terno que sempre me fez tremer e baixar a guarda.
— Deixe de ser boba. — disse com um sorriso. — Temos que deixar nossos pintinhos crescerem.
Assenti. Ele me beijou profundamente.
Os dias se passaram, e acompanhamos os dois à distância. Já não se preocupavam em esconder nada. Os tabloides sabiam que Rosalie havia sido apresentada a nós e estavam eufóricos por finalmente terem carne nova no pedaço.
Capas e mais capas traziam algo sobre ela e Emmett. Fotos dos dois, feitas por paparazzi internacionais, pipocavam sem parar, o que me fazia imaginar quanto dinheiro não fora gasto nisso. Mas sempre havia retorno. Fofoca atrai leitores.
Pensei que, para Rosalie, talvez não fosse tão difícil quanto havia sido para mim, uma completa desconhecida no meu tempo. Ela era modelo, conhecia bem o mundo das celebridades. Talvez fosse fácil adaptar-se ao nosso também, imaginei.
Não havia como não pensar nisso. Qualquer pessoa que se casasse com alguém da realeza precisava se imaginar dentro desse ecossistema. Emmett não herdaria o trono, mas jamais se desvincularia da família. Estaria ligado à realeza pelo resto da vida.
Tentamos, a princípio, não nos envolver na vida dos dois. Queríamos que vivessem o namoro com liberdade, que atravessassem todas as experiências necessárias. Se aquilo se transformasse em algo maior, então, sim, os receberíamos de braços abertos. Eu não perguntava a Emmett como as coisas iam. Esperava que ele nos contasse quando quisesse. Ainda assim, tinha certeza de uma coisa: ele se apaixonava cada vez mais.
Rosalie tinha um poder sobre ele que ninguém mais tinha, nem mesmo eu ou Carlisle. Ele a ouvia e seguia o que ela dizia. Era sempre um "Rosie me disse isso" ou "acho que a Rosie tem razão". Aquele relacionamento estava se tornando uma necessidade entre os dois, e eu sabia bem onde aquilo poderia levar. Afinal, havia vivido isso com Carlisle. O que começou como simples conversas entre amigos transformou-se em dependência mútua. Precisávamos estar juntos, contávamos com a opinião um do outro, até nos tornarmos inseparáveis. O resultado foi uma união duradoura. Eu esperava que esse também fosse o destino de Emmett e Rosalie.
Por isso, não foi surpresa quando ele veio até mim dizer que queria pedi-la em casamento.
Se existe uma lista de momentos que jamais esquecerei, esse certamente está entre os dez primeiros. Ele entrou no meu escritório de mansinho, como um gato em busca de carinho. Abraçou-me e beijou minha bochecha. Eu sabia que queria algo.
— Mãe, eu estou apaixonado.
— E eu não sei?
Emmett riu, com a mesma gargalhada da infância. Um som de que eu sentia falta.
— Acho que vou pedir a Rosie em casamento.
Ele me observou atentamente, como quem mede o impacto de uma notícia. Eu já esperava aquilo, só não tão cedo. Eles se conheciam havia apenas cinco meses.
— Não acha que está rápido demais? Pode assustá-la, querido.
— Já pensei nisso. Mas estou cansado de viajar para vê-la. Quero tê-la comigo, perto, para sempre.
— Vocês já conversaram sobre isso?
— Não.
— Então pense bem. Relacionamentos precisam de tempo para florescer.
— Estou me sentindo um principiante idiota. — confessou. — Nunca me preocupei com essas coisas antes. Agora é diferente. Eu preciso dela. Rosalie me tocou de um jeito que nunca imaginei que alguém tocaria. Louco, não?
Confesso que temi que aquela impulsividade fosse dependência. Como se ela fosse um remédio para dores antigas. Rosalie o mantinha focado, entorpecido pelos sentimentos que só o amor desperta, e eu temia que aquilo fosse necessidade, não escolha.
Naquele momento, eu não a conhecia o suficiente para saber se ela poderia se aproveitar das fragilidades de Emmett. Via apenas sua personalidade forte, sua firmeza nas palavras e seu carisma inegável. Não era o bastante para calar minhas dúvidas. Mas elas se dissiparam. Todas. Uma a uma, com o passar do tempo.
Emmett acabou pedindo Rosalie em casamento pouco depois daquela conversa. Foi surpresa para todos, menos para mim. Eu sabia que ele faria o que queria. Sabia até que ele estava desenhando o anel de noivado. Vi os rascunhos por acaso e lhe ofereci uma joia da nossa coleção. Ele recusou. Queria criar algo único, feito por ele. Achei o gesto lindo.
Depois disso, aceitei. Emmett estava encantado. Rezei para que desse tudo certo. No fim, era só isso que eu queria: a felicidade do meu filho.
Ele a pediu em casamento no Dia dos Namorados de 2008, durante uma viagem que os dois fizeram à África. Quando meu celular tocou, eu soube na hora o que havia acontecido. Meus olhos se encheram de lágrimas assim que ele nos contou. Carlisle e os demais ficaram apenas de boca aberta. Meu marido achava que Emmett estava se precipitando, embora Rosalie parecesse, à primeira vista, uma boa garota.
A equipe do palácio ficou desnorteada. Ela entraria para a realeza? Haveria necessidade de uma preparação especial, já que Emmett havia abdicado? As perguntas surgiam em sequência, e eu apenas pedi que os deixassem viver o momento.
Mas, é claro, essas questões não poderiam permanecer sem resposta por muito tempo. Carlisle, eu e nossos analistas jurídicos entendemos que, se desejassem manter a vida à parte da monarquia, esse seria um direito deles. Ainda assim, temi que Emmett se mudasse para os Estados Unidos para ficar mais perto de Rosalie. Ela tinha uma carreira consolidada; não a abandonaria assim, pensei. Senti que o estava perdendo outra vez. E isso doeu.
Carlisle então propôs uma alternativa: caso quisessem, poderiam tornar-se membros "servidores" da monarquia. Um cargo que lhes permitiria representar a realeza em ocasiões específicas, sem pertencer oficialmente a ela. Não receberiam o fundo real; seriam remunerados apenas pelos serviços prestados. Isso lhes daria liberdade e os manteria perto de nós. Assim como eu, Carlisle também não queria Emmett distante. Já havíamos passado tempo demais longe dele.
Essa segunda opção foi escolhida por Rosalie. Muitos a atacaram por isso. Questionavam como uma mulher com uma carreira tão sólida poderia abrir mão de tudo em nome de um casamento.
Depois soube que ela abraçava diversas causas feministas, e as pessoas passaram a usar os próprios argumentos dela contra ela mesma. Não gostei nada disso. Como se o feminismo excluísse qualquer outra possibilidade de escolha que não fosse o trabalho.
Mas Nikki foi clara ao dizer, na época:
"— Ser feminista é ter direito às escolhas, sejam elas quais forem.".
Eu não poderia concordar mais.
Depois dessa declaração, minha curiosidade por conhecê-la melhor só aumentou, e tive muitas oportunidades após o noivado. Rosalie decidiu encerrar seus compromissos profissionais e contratos antes de se mudar definitivamente para Belgonia.
Tivemos uma reunião com ela e Emmett para entender as intenções dos dois. Fiquei admirada com sua forma de se expressar. Sempre decidida. Seus gestos exalavam força. Rosalie tinha um dom raro: liderava sem impor, convencia sem pressionar. As pessoas simplesmente se encantavam ou se deixavam conduzir por seus argumentos. Eu mesma já começava a me sentir hipnotizada.
Com o tempo, entendi que aquela altivez não vinha apenas de uma personalidade forte. Era fruto de sobrevivência.
Rosalie era americana, mas seus avós maternos eram mexicanos. Muito antes de seu nascimento, ela já estava destinada a herdar a perseverança de seus antepassados, sobretudo após a separação dos pais. Sua mãe precisou sustentar sozinha a propriedade rural onde viviam, no interior de Rochester, criando duas crianças pequenas. Rosalie foi criada por uma mulher que precisou ser forte todos os dias. Não havia mentira alguma em seus ideais feministas. Ela aprendera cedo a reconhecer as dores e a resistir a elas.
Aos treze anos, um olheiro a encontrou e lhe propôs um teste em uma agência de modelos. Foi Rosalie quem insistiu para que a mãe permitisse que seguisse a carreira. Ela já sabia o que queria. Com força de vontade e determinação, enviou fotos para inúmeras agências e marcas. Seu jeito bonito e carismático logo despertou interesse. Vieram os comerciais, os anúncios, e a carreira começou a decolar.
Aos dezessete anos, já estava emancipada. Caminhava pelas passarelas do mundo, conhecia pessoas, aprendia as regras do jogo. O glamour tornou-se sua casa, assim como os desprazeres de um universo feito de aparências.
Muito jovem, desenvolveu transtornos alimentares. Sabia que seus contratos dependiam de uma silhueta fina. A ansiedade a fazia comer doces compulsivamente e, depois, provocava o próprio vômito para evitar o ganho de peso. Com o tempo, sua mente adoeceu ainda mais. Vomitar já não parecia suficiente. Passou a fumar e beber para emagrecer, completamente obcecada com o próprio corpo.
Quando ela me contou tudo isso, só desejei que ficasse mais perto de mim. Para que eu pudesse cuidar dela. Qualquer dúvida que ainda restasse em mim desapareceu naquele momento. Eu compreendi por que Rosalie não fazia questão de abrir mão da própria carreira e entendi, sobretudo, que, por trás de tudo o que ela me contou, havia ainda mais. Muito mais.
Passei a acompanhar os trabalhos que Rosalie havia feito ao longo da carreira e, embora nem todos, muitos traziam uma sexualização excessiva de seu corpo. Eu me perguntava como podiam fazer isso com alguém tão jovem. Simplesmente não entrava na minha cabeça! Era evidente que muita gente se aproveitou de seu rosto bonito e de seu corpo para cometer crueldades em nome do trabalho. Seus vícios e transtornos não surgiram do nada; foram consequência direta de um sistema cruel. Eu entendia, com clareza, o quanto ela desejava sair daquele lugar.
Minha admiração por Rosalie só cresceu à medida que vi seus novos projetos surgirem como uma fênix erguida dos próprios conflitos do passado. Era bonito vê-la usar a própria voz para causas femininas, conscientizando meninas, ajudando no combate à violência doméstica e ao machismo ainda tão profundamente enraizado em nossa sociedade. A ONU não poderia ter escolhido representante melhor, e as mulheres belgãs tampouco poderiam ter alguém mais eloquente, firme e perseverante ao seu lado.
Nos três meses que antecederam o casamento, tornou-se evidente que Rosalie e Emmett se completavam de uma forma rara. Era mais do que química. Eles se compreendiam, sobretudo nas dores, porque eram semelhantes. Um servia de equilíbrio ao outro. Não se anulavam. Sustentavam-se. Por isso, entreguei um dos meus bens mais preciosos em suas mãos com tranquilidade e alegria.
Vê-lo ali, no altar, emocionado, com os olhos brilhando, radiante diante de uma nova fase da vida, me fez entrar quase em piloto automático. Um filme passou diante dos meus olhos. Lembrei-me de quando sonhei em ser sua mãe antes mesmo de estar grávida. Do instante em que o tive nos braços pela primeira vez. De vê-lo crescer. Das dores que atravessamos juntos. Era uma sensação impossível de explicar, profunda demais para palavras.
Hoje, sinto gratidão por poder contar essa história com eles ainda juntos, ainda firmes. Desse casamento vieram três dos meus seis preciosos netos, que ajudei a criar como se fossem meus próprios filhos. Além disso, tive o privilégio de conviver com meus bisnetos e confirmar, dia após dia, que Emmett fez uma boa escolha.
Mas seria desonesto dizer que o caminho deles foi simples desde o início. O casamento trouxe à tona dores que o amor, sozinho, não conseguiu conter. Emmett ainda lutava contra o vício em bebidas, um hábito antigo que insistia em atravessar a rotina dos dois e ferir aquilo que tentavam construir.
Rosalie, por sua vez, começou a sentir o peso das regras, das expectativas, dos olhares constantes. A liberdade que sempre fora sua base passou a ser negociada diariamente, e isso a sufocava.
Vieram as brigas. O silêncio. A distância dentro do mesmo espaço. Algo se quebrou ali. Eles se afastaram por alguns meses, cada um tentando sobreviver à própria dor. Pela primeira vez, temi que o amor deles não fosse suficiente.
Mas Emmett fez uma escolha. Decidiu enfrentar o tratamento do seu vício, não por obrigação, não por medo, mas porque queria viver. Queria ser inteiro. Queria ser digno do amor que recebera. Aos poucos, eles se reencontraram. Não como antes. Voltaram diferentes. Mais cautelosos. Mais conscientes. O amor permaneceu, mas agora caminhava ao lado das cicatrizes.
Foi ali que compreendi algo que só o tempo ensina. Nem todo amor nasce pronto para sustentar tudo. Alguns precisam quase se perder para aprender a ficar.
E aprendi, observando os caminhos que passaram diante de mim, que há histórias que não pedem pressa. Pedem coragem. Pedem verdade. Pedem a decisão diária de permanecer, mesmo quando ficar dói.
Alguns casamentos não se salvam por promessas. Salvam-se por escolhas. Alguns amores são feitos de resistência. De respeito às cicatrizes. De uma força que não exige explicação. Emmett não é a cura de Rosalie, e ela não é a salvação dele. Eles sabem, talvez melhor do que todos nós, que o amor não apaga traumas, não reescreve o passado, não devolve futuros roubados.
O amor apenas senta ao lado da dor e diz: Eu fico.
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