— Sabe, às vezes, eu me pego pensando demais em como as pessoas vão reagir a esse livro. — Esme falou enquanto se sentava na poltrona de seu escritório, queixando-se mentalmente de sua lentidão.

— Será uma surpresa, disso não tenho dúvida nenhuma. — William falou com sua calma natural.

Esme deu um leve sorriso ao observar o seu "neto" postiço. As pernas cruzadas serviam de apoio para uma caderneta; um lápis descansava em sua mão, e as sobrancelhas levemente arqueadas lhe conferiam um ar marcante de alguém que estava sempre sendo debochado. Ao mesmo tempo, transmitia a segurança de um homem de poder. Esme tinha que admitir que isso lhe dava certo charme. Renesme tinha bom gosto.

— Mas, a esta altura, sei que a senhora não se importa mais com isso. — completou.

— Não. — respondeu pausadamente, refletindo sobre a própria resposta. — Na verdade, quando se chega a certa idade, é preciso quebrar alguns encantos.

— Se me permite dizer, não acho que seu encanto será quebrado. Muitos se surpreenderão, mas ficarão fascinados com essa nova nuance. Porém, seus filhos e netos deverão saber lidar com as consequências de algumas revelações.

Esme deu um sorriso maroto. Se dissesse que não tinha medo de como as pessoas receberiam algumas informações sobre seu passado, estaria mentindo. Durante todo esse tempo, fora treinada de forma impecável para não mostrar quem verdadeiramente era. Tinha medo de ser repudiada e de que seus filhos sofressem com isso. Temia mais por eles, por como aquilo poderia atingir o reinado de Edward e, futuramente, o de Renesme.

— Mas tem sido uma terapia e tanto. Isso me agrada muito.

— Imagino que deva ser mesmo. É bom quebrar algumas amarras.

— É libertador. E outra... Estou me lembrando de muitas coisas que ficaram guardadas por muito tempo. É como se eu estivesse fazendo uma limpeza no armário. Encarando o que eu não queria encarar. Perdoando, sentindo nostalgia, encontrando a mim mesma. Chega um momento em que precisamos fazer essa retrospectiva conosco.

— Concordo. E lhe digo mais: quero chegar à sua idade com uma memória tão boa quanto a sua.

— É um privilégio mesmo. Minha sogra não teve essa mesma sorte.

— Que bom que tocou nesse assunto... É sobre Elizabeth mesmo que iremos falar hoje.

William tirou uma revista velha e a colocou diante da rainha-mãe. Esme lembrava-se daquela manchete. As palavras eram duras, e o jornalista não tivera nenhum respeito. Elizabeth acabara de ser enterrada e lá estava a frase estampada:

"Annie agora, finalmente, uma rainha."

Carlisle quis processar o tabloide e tirar a revista de circulação, mas Esme o aconselhou a não gastar energia com aquilo. Ele estava de luto e deveria se concentrar nisso.

— Isso foi cruel!

— Certamente. Parte da imprensa marrom que, infelizmente, temos aqui em Belgonia. Mas o que quero saber é como a senhora se sentiu de verdade diante da morte de sua sogra.

Esme ainda tinha sentimentos conflitantes em relação àquele momento. Por muitos anos, fora atormentada por Elizabeth. Sentira raiva e, diversas vezes, desejara que ela simplesmente desaparecesse.

Com o tempo, porém, percebeu que ficara tão fascinada pela mãe de seu marido, tanto no bom quanto no mau sentido, que acabara se tornando quase uma extensão dela.

Mudara suas roupas porque Elizabeth a chamava de "cafona". Começara a aprender a se comportar de forma quase obsessiva para ser uma robô programada para sempre agir como uma lady, porque a rainha a chamava de "caipira". Quando ascendeu ao trono, acabou tomando decisões tão duras que certamente eram um reflexo de seu pior lado e da mulher de ferro com quem aprendera a conviver.

Muitas vezes pensou que não havia diferença entre as duas. Ainda hoje, vez ou outra, pegava-se buscando a aprovação da mulher que morrera havia tantos anos, mas que permanecia muito viva em seu inconsciente.

— Pobre Elizabeth! Quando ela morreu, já nem lembrava de quem era. Carlisle dizia que o gavião se tornara um frágil passarinho. Como eu poderia medir forças com ela naquele momento?

William assentiu e colocou o tablet ao lado da velha revista.

Esme ficou surpresa com o que viu. Não sabia que algum jornalista, sem ter o que fazer, resolvera destilar seu veneno acusando-a de sentir ciúmes da nora, Bella.

"A rainha tem medo de perder sua majestade?"

A matéria, publicada em 2012, mostrava Esme com um olhar duro para sua mais nova nora, enquanto Bella olhava para outra direção com um belo sorriso. A barriga de poucos meses, já saliente, revelava que Renesme estava a caminho.

Ela lembrava-se daquele dia em específico. Fora o primeiro compromisso público que tivera ao lado de Bella. Estava feliz por estar ali. Mais feliz ainda por compartilhar tantas experiências com ela. Era um momento de alegria. Estava animada por ser avó. Não cabia inveja nem qualquer sentimento negativo ali. Certamente a foto fora tirada em um ângulo desfavorável.

— Eu não sabia da existência dessa matéria, mas entendo a comparação que quer fazer. É uma sina e tanto a nossa. Claro que, em algum momento, vamos perder o posto supremo. Eu sempre soube que isso aconteceria um dia e nunca tive rivalidade com Bella por causa disso. Pelo contrário.

— E com Elizabeth?

Esme remexeu-se na cadeira. Tinha que admitir que, lá no fundo, sentira um certo triunfo quando seu "calcanhar de Aquiles" enfim desaparecera. Recriminou-se por pensar aquilo, ainda que por um milésimo de segundo. Não suportava a ideia de se tornar alguém como ela.

— Ela foi vencida no momento em que me casei com o filho dela. — Esme deu um sorriso irônico. — Foi melhor ver a cara de descontentamento dela enquanto eu passava pela nave da Abadia com o meu vestido de noiva caro.

William gargalhou. Muitas vezes esquecia que a rainha tinha esses comentários ácidos.

— Quando ela morreu, principalmente no estado em que estava, eu só senti pena. Na verdade, parecia que Elizabeth estava dando sua última cartada naquele momento. Aqueles primeiros anos de reinado estavam sendo tão insuportavelmente difíceis que era como se eu fosse capaz de ver o fantasma dela dando tchauzinho para mim e dizendo: "Fique agora com mais uma bomba nesse desastre que você ajudou a criar."

William percebeu novamente a culpa na voz da mulher à sua frente. Sabia que Esme ainda não estava tão desprendida assim do passado. Havia muitas mágoas e acidez corroendo seu íntimo.

No fim, parecia que a rainha-mãe sempre tentava provar seu valor para aquela que fora sua principal rival e jamais conseguira abandonar completamente o seu espírito de "vira-lata", mesmo com o passar dos anos.

— Pode me contar mais a respeito?

Esme assentiu e deixou que as lembranças tomassem conta dela.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 36: Acima do Sol

Quem está lendo este livro já deve ter percebido que a minha sogra é um tema recorrente por aqui. Não posso evitar, ela teve muita importância na minha vida, apesar dos nossos desencontros.

Eu costumava vê-la como um segundo sol. Ela se destacava, era uma verdadeira majestade; todos a seguiam sem questionar. Até posso dizer, com uma distância temporal segura e com franqueza, que ela brilhava bem mais do que o rei.

Desde que me casei, apesar do meu jeito rebelde para algumas coisas, eu seguia os seus comandos, assim como todos ao redor. Foi realmente muito drástico termos que seguir com os nossos próprios pés. Digo isso porque, no fim dos anos 90, Elizabeth foi diagnosticada com Alzheimer.

Na verdade, desde o primeiro ataque cardíaco do rei Pierino, ela já não era mais a mesma. Passou a cuidar do marido como um mantra e muitas decisões, das quais antes fazia questão absoluta de participar, passaram a ser secundárias.

Pouco tempo depois, começaram alguns lapsos de memória. Uma chave perdida, a data de um compromisso, o nome de alguém... Ela, a princípio, culpava o estresse, e nós também. Afinal de contas, Elizabeth nunca ficava doente, nem mesmo uma simples gripe. Ela era onipotente.

O problema foi que os esquecimentos foram ocupando espaços grandes demais em seu cérebro. Em compromissos oficiais, de repente, ela esquecia onde estava e se desesperava. Não reconhecia seus assessores nem seus seguranças. Lembrava-se de Pierino e pedia que ligassem para ele. Então, dava-se conta do que realmente viera fazer ali.

Elizabeth era muito teimosa para procurar ajuda médica por conta própria. Tivemos que lhe dar um "empurrãozinho". Fui pessoalmente com ela à primeira consulta. O médico tinha quase certeza do que se tratava, mas solicitou uma série de exames.

Fomos nos desmontando aos poucos quando ele nos disse, com todas as letras, quais eram suas suspeitas. Eu me sentia devastada diante daquela constatação; imagine Elizabeth. Olhei para ela e senti sua expressão pesar no meu peito. Pela primeira vez, senti pena dela. Aquele seria um dos piores cenários possíveis para o seu futuro. Alguém de tamanha altivez agora estava se perdendo dentro do próprio cérebro.

Depois da morte de Pierino, que ocorreu pouco tempo após o diagnóstico oficial do Alzheimer, Elizabeth ficou mais reclusa. Na verdade, foi quase como se ela mesma tivesse escolhido esse isolamento, mas isso só aconteceu depois que seu marido partiu. Antes, recusava-se a aceitar os fatos, ao mesmo tempo em que procurava registrar tudo o que podia, como uma súplica silenciosa para preservar a memória pelo maior tempo possível.

Porém, o destino apressaria uma sentença que todas nós, consortes, temos de enfrentar, caso não morramos antes disso acontecer. Refiro-me ao fato de perdermos o nosso poder para a esposa de nosso filho.

É uma hipocrisia absurda dizer que isso não provoca certa dor.

O trabalho como consorte, o poder que ele representa, toda a responsabilidade e o status que o título carrega acabam nos tornando viciadas. Ora, é a nossa única função ali. Como não sentir a perda de tudo aquilo que nos sustenta de um dia para o outro?

Como esposa do rei, Elizabeth mandava em tudo ao seu redor, mas o que a mantinha naquela posição era o marido. Na ausência dele, vinha eu, a próxima da fila.

Não sei até que ponto ela reagiu ao perceber que a mulher que nunca quis em sua família agora possuía aquilo que, até ontem, era seu por direito. Elizabeth apenas se afastou de tudo.

Carlisle a manteve como conselheira nos primeiros anos de reinado, mesmo sabendo de sua condição, como forma de mantê-la ativa. Ela assumiu a função, comparecia quando necessário, mas seus dias resumiam-se ao Palácio de Clarence. Era um afastamento autoimposto.

Não queríamos isso. Mantê-la perto de nós era primordial para cuidarmos dela e para que ela também cuidasse de nós. Por mais problemas que tivéssemos enfrentado no passado, ninguém melhor do que Elizabeth para nos guiar naqueles primeiros anos.

Mas foi uma decisão dela, e tivemos que respeitá-la. Entendíamos que o luto precisava ser vivido e que o Palácio de Belgravia não era o melhor lugar para acalentar a dor que ela sentia. As lembranças ali eram muitas, bem mais do que em Clarence.

Enfim, a avalanche de acontecimentos e conflitos que vivenciamos no início dos anos 2000 também não colaborou para que estivéssemos mais presentes ao lado dela. Foi um erro nosso, sem dúvida.

Um ano antes de seu falecimento, trouxemo-la de volta para sua casa. Elizabeth já não era mais a mesma. Quase não se lembrava de nada, apenas de recordações muito antigas. Às vezes, nem sequer sabia quem nós éramos.

Seus dias resumiam-se a olhar álbuns antigos, passear pelo jardim e contemplar o vazio.

Alice foi um grande consolo naquele momento. Elizabeth não a reconhecia. Achava que ela era uma amiga de adolescência, chamava-a de Lola e lhe contava histórias imaginárias. Quer dizer, não sabíamos até que ponto aquilo era verdade ou invenção de sua mente confusa. Mas minha filha, com sua doçura de sempre, a ouvia e permanecia ao seu lado. Entrava no personagem e nunca se cansava de acompanhar os passos da avó.

Eu também me aproximei muito de Elizabeth. Era o momento de acertarmos os nossos ponteiros. Sempre que podia, caminhava com ela. Tentava ajudá-la a não esquecer coisas importantes.

É claro que eu gostaria que tivéssemos nos entendido muito antes. Mas aquela era a maneira que encontrei de me desculpar e também de perdoá-la. Não porque eu quisesse ser uma mártir, mas porque era o certo. Precisávamos colocar todos os pingos nos is.

Foi doloroso vê-la daquela forma, mesmo sabendo que, um dia, aquilo aconteceria. Era uma situação que eu não desejaria a ninguém. Ver minha sogra tornando-se cada vez mais infantilizada, como se estivesse retrocedendo pelas fases da vida com o passar dos dias, foi a cereja do bolo para que eu compreendesse o quanto somos substituíveis.

Não importa o quanto achemos que somos indispensáveis, o quanto acreditamos ser capazes de resolver tudo ou o quanto imaginamos que todos dependem de nós. Não importa o dinheiro nem o poder que possuímos. Somos finitos.

Por isso, nada nunca me deslumbrou. Nunca pensei que pudesse ser imortal. Tudo o que fiz foi porque achei que era necessário para manter o sistema, porque era minha obrigação, sabendo que, a qualquer momento, minha hora também chegaria.

O poder me trouxe muito mais decepções diante da sujeira humana do que qualquer falsa sensação de onipotência. Quero apenas deixar as minhas experiências, boas e ruins, para os meus descendentes e esperar que eles sejam melhores do que eu. Afinal, o que é nosso está guardado. Escrito, como o início e o término de um livro.

O fim de Elizabeth foi tranquilo, em um ano em que tudo parecia estar entrando nos eixos. Tínhamos acabado de viver as grandes comemorações pela oficialização do título de príncipe herdeiro de Edward. Emmett estava bem em suas funções no exército. Não esperávamos mais nenhum grande acontecimento em nossa família. Queríamos apenas um pouco de paz.

Sabíamos que Elizabeth poderia partir a qualquer momento, mas nunca imaginamos uma hora exata. Ela se foi sem aviso, numa tarde de outubro. Bateu asas como um passarinho. Digo isso porque sua morte foi tão serena quanto o apagar de uma vela.

Ela já estava acamada. Não andava direito e fazia apenas pequenas caminhadas, sempre com muita ajuda. Não se alimentava sozinha e já não tinha controle do próprio corpo.

Tradicionalmente, tirava um cochilo após o almoço. Naquele quatro de outubro, a eterna rainha não acordou mais.

Ficamos devastados, claro. Ao mesmo tempo, seria egoísmo demais desejar que alguém que estava sofrendo prolongasse ainda mais sua dor. Elizabeth precisava descansar.

Apenas nos reunimos ao redor de sua cama, perplexos demais para dizer qualquer coisa. Carlisle aproximou-se do corpo da mãe e permaneceu abraçado a ela enquanto derramava lágrimas silenciosas.

Carmen não demorou a chegar e, quando entrou no quarto, segurou a mão de Elizabeth e começou a fazer algumas orações. Nós a acompanhamos até o momento em que seu corpo foi preparado para o velório.

Demos a ela a despedida que sempre sonhou. Aliás, ela própria havia deixado registrado como desejava que fossem seu velório e seu enterro. Cumprimos cada cláusula com muito respeito.

Elizabeth talvez não tenha sido, para muitos, a rainha mais popular. Mas, sem ela, muita coisa jamais teria acontecido. Seu carisma, sua inteligência e sua altivez foram fundamentais para Belgonia durante seu reinado. Tenho certeza de que ela tentou fazer apenas o seu melhor.

Quando seu caixão foi baixado ao seu lar eterno, senti como se o bastão tivesse, enfim, sido passado. Naquele momento, já não existiam duas rainhas. Senti o peso sobre meus ombros aumentar ainda mais.

Era uma responsabilidade imensa manter tudo funcionando por tantos anos, procurando evitar grandes problemas e polêmicas. Confesso que me sentia fracassada. O meu reinado e o de Carlisle já haviam começado em meio à tempestade. Pensei que nunca seria como Elizabeth.

Durante muito tempo, na verdade, inconscientemente, comparei-me a ela. Chegaram até a dizer que eu comemorara a morte de minha sogra. Não. Nunca me senti tão perdida quanto naquele momento.

Mas, enfim, a vida precisava seguir. Um dia, o mesmo acontecerá comigo. Espero apenas que o meu trabalho seja encerrado da maneira correta, com honestidade e muita paz, assim como aconteceu com Elizabeth.

Porque, no fim, ninguém está acima do sol.