Um estrondo fez Emmett despertar num sobressalto. Ainda estava escuro. Olhou ao redor e reconheceu o próprio quarto. Rosie dormia tranquilamente ao seu lado. Estava tudo em paz.

Fechou os olhos e repetiu o exercício de respiração que aprendera na terapia. Inspirou lentamente. Expirou. Contou até dez.

"Calma... Você não tem mais vinte e poucos anos. A guerra acabou.", disse a si mesmo.

Permaneceu alguns instantes concentrado até sentir as batidas do coração desacelerarem. Havia muito tempo que não tinha um pesadelo como aquele. Talvez revisitar tantas lembranças para a biografia de sua mãe não estivesse lhe fazendo tão bem quanto imaginava.

Passou a mão pelo rosto úmido de suor e resolveu caminhar um pouco pelos corredores do Palácio de Clarence, onde vivia desde a sua aposentadoria.

Servir ao Exército fora o maior encontro que tivera consigo mesmo. Jamais negaria isso. Nem mesmo quando os pesadelos insistiam em trazer de volta o som das explosões e dos tiros.

Quando abdicara do trono, em 2001, aos dezoito anos, sentia-se completamente perdido. Estava livre, mas não fazia a menor ideia do que fazer com aquela liberdade.

Continuou caminhando pelos corredores silenciosos. Parecia um fantasma vagando pela própria história. Talvez tivesse sido exatamente assim durante boa parte da vida adulta.

Ao passar pela galeria de fotografias, parou diante de um retrato da família. Sorriu. A imprensa adorava afirmar que ele guardava ressentimento porque seus filhos jamais haviam recebido o mesmo tratamento dispensado aos sobrinhos. Era mentira. Sentia exatamente o contrário.

Orgulhava-se por seus filhos terem crescido longe daquele peso. Eles tiveram escolhas. Puderam decidir quem queriam ser. Ele jamais tivera esse privilégio.

Chegou até o aparador onde havia algumas garrafas e pegou um copo. Por um instante, pensou em servir um uísque, mas desistiu. Mesmo depois de tantos anos sóbrio, preferia não brincar com a própria limitação.

Se existia algo de que se arrependia profundamente era de ter acreditado, ainda adolescente, que seguir o "bonde" diminuiria sua dor, mas não amenizou. Nunca iria amenizar.

Ao menos o Exército lhe ensinara que nenhuma bebida seria capaz de resolver aquilo que nascia dentro da alma. As lembranças da clínica de reabilitação ainda eram assustadoramente vivas.

Lembrava dos tremores que teve nos meses em que passou internado na clínica de reabilitação. Acordava suado, como hoje, porém a sensação era de que iria morrer a qualquer minuto. O coração acelerava, a boca ficava seca. Precisava da droga por que iria morrer. Então, ficava violento, batia nas paredes e gritava, como gritava.

Hoje entendia que aquela violência era apenas um pedido desesperado de socorro. Mas, naquela época, parecia que ninguém conseguia ouvi-lo. Seus pais já não estavam ali, como faziam quando ele acordava assustado durante a infância.

Restava apenas esperar que a crise de abstinência passasse. Depois caía exausto no chão. Esperava o coração desacelerar. Esperava sobreviver até o dia seguinte.

Nascer na realeza tinha sido a sua sina, nada que fizesse poderia mudar isso. Mas se não fosse a maldita imprensa marrom que inventava mentiras, o perseguia, controlava as decisões de sua família, tudo poderia ter sido diferente.

Seus pais foram peões de um esquema armado há tempos. Eles se sentiam poderosos, achavam que podiam dominar o parlamento e a monarquia, no final, conseguiam mesmo.

Havia um vício histórico na realeza, o de quem se destacava mais. Os funcionários brigavam para quem tinha mais acesso aos membros sêniores da família real e esta se estapeava para mostrarem serviço. Como faziam isso? Com o apoio da imprensa, claro! Quem mais aparecia nas capas de revistas ou jornais era mais relevante e quanto mais relevância, mais poder. Era um ciclo tão vicioso que ficou claro para a mídia belgã que eles poderiam ter tudo que queriam. Isso por que eles influenciam a mente das pessoas e estas são capazes de fazer tudo, até pôr a sua cabeça a prêmio. A dele foi cortada sem chance de defesa.

Hoje faria tudo diferente. Naquela época acreditava que enfrentar os jornalistas resolveria o problema. Pensava que, se reagisse, conquistaria respeito. Aconteceu exatamente o contrário. Transformou-se no palhaço do espetáculo. Tudo o que queria era viver em paz. Ter o direito de existir longe das manchetes. Mas nunca lhe permitiram isso.

Quanto mais reagia, ais combustível oferecia aos tabloides. Demorou para compreender o jogo. Quando finalmente percebeu, já era tarde.

Naquele quarto gelado da clínica de reabilitação, deitado sobre o piso frio, compreendeu que destruíra a própria vida lutando contra inimigos que jamais poderia vencer daquela forma. O que antes ele tomava ou usava para tentar acalmar a sua fúria agora era o motivo dele estar ali sofrendo. Então, dai que resolveu dar um rumo para si mesmo.

O que ele queria fazer a partir dali? Diferente de Henry, que um dia lhe disse que queria cursar jornalismo, ou de Melany que sempre soube que seria veterinária para cuidar dos bichos que tanto amava, ele não havia nascido com opções.

O que era ser um príncipe? Bom, se você não fosse o herdeiro, iria ser um inútil que estava ali só para representar alguém em algum evento. Ele não queria ser um maldito parasita.

Desde criança só existia uma coisa que realmente despertava sua admiração: O Exército. Gostava das brincadeiras de soldado. Respeitava profundamente quem dedicava a vida ao país. Talvez aquele também pudesse ser seu caminho.

O mais difícil foi convencer Carlisle. Seu pai acreditava que aquilo era apenas mais um impulso inconsequente. Mas Emmett insistiu durante semanas. Não desistiu uma única vez.

Na época chegou até a pensar, com certa amargura, que, se fosse Edward fazendo o mesmo pedido, talvez a resposta tivesse sido imediata. Hoje sabia que não era verdade. Mas, naquele momento, era assim que enxergava o mundo.

— Está sentindo saudade daquele tempo, querido?

Emmett virou-se. Esme estava parada atrás dele. Sem perceber, ele segurava uma das antigas condecorações militares. Colocou-a delicadamente de volta à estante.

— A senhora não veio para Clarence justamente para se recuperar dessa gripe? Até onde sei, uma boa noite de sono ajuda bastante.

Ela sorriu.

— Bobagem! Daqui a alguns dias estarei nova em folha.

Sentou-se na poltrona ao lado. A chamada "gripe de outono" sempre aparecia no fim do verão. Edward insistira para que a mãe passasse alguns dias em Clarence, longe dos compromissos oficiais. O clima mais ameno certamente ajudaria em sua recuperação. Agora, os dois dividiam aquela madrugada silenciosa.

Emmett nunca gostara de demonstrar quando estava mal. Passara tantos anos sendo visto como o problema da família que aprendera a esconder qualquer fraqueza. Mas conhecia o olhar da mãe. Esme enxergava muito além das palavras.

— Se depender de mim, a senhora ainda volta a ser uma mocinha.

Ela riu.

— Ah, não. Gosto muito da idade que tenho.

— Mesmo reclamando das dores nas pernas?

— Isso faz parte da vida. Nosso corpo não foi feito para durar para sempre. Mas há uma vantagem. Hoje sinto que finalmente encontrei muitas das respostas que passei a vida inteira procurando.

Emmett sorriu. Concordava. Também acreditava viver sua melhor fase. Isso, porém, não significava que o passado deixara de doer. Algumas cicatrizes permanecem. Não sangram mais, mas continuam ali.

Esme observou novamente as medalhas. Depois voltou os olhos para o filho.

— Sinceramente... Nunca achei que entrar para o Exército fosse uma boa ideia.

Emmett arqueou as sobrancelhas sem sentir nenhuma surpresa naquela declaração da mãe.

— Imagino. Devia pensar que eu era um maluco procurando mais problemas.

Dessa vez, Esme não sorriu. Apenas levou a mão ao rosto do filho. Sabia que nenhuma resposta apagaria as culpas que ele carregava. Nem as que Edward também insistia em carregar. Os dois haviam transformado a dor em um círculo do qual pareciam incapazes de sair.

— Não era isso. Na verdade... Eu tinha medo de que o Exército fosse apenas outra forma de você tentar morrer. Eu me culpava profundamente por pensar assim.

Emmett respirou fundo. Esticou as pernas sobre o puff à frente. Era uma conversa pesada para aquela hora da madrugada. Mas, curiosamente... Também era libertadora.

Lembrava-se das vezes em que pedira insistentemente para sair do centro de reabilitação. Comunicava-se com os pais apenas por telefone e não gostava disso. Sentia-se claustrofóbico. Queria ver pessoas que não fossem viciados como ele ou enfermeiros idiotas falando baixo e repetindo palavras ensaiadas, saídas de um livro de autoajuda. Sentia que era um estorvo para os pais e que eles o haviam colocado ali para se livrarem do problema. Então, por que não o deixavam fazer logo o que queria e pronto?

Emmett, na época, teve que ameaçar o pai para que ele aparecesse no centro e conversassem para valer. Queria mostrar a ele que o Exército seria a sua salvação. A única forma de se manter firme no mundo e não sair flutuando feito um balão perdido. Que ele ainda podia dar um rumo à droga da própria vida.

Recordava-se do suspiro profundo de seu pai. Ele estava cansado, era nítido. Por um segundo, Emmett sentiu pena e quis dizer-lhe que procuraria um jeito de consertar as coisas, mas não disse. Manteve-se na defensiva. Tinha medo de Carlisle não aceitar o seu pedido se ele não recorresse à chantagem.

— Você entende que a vida lá não é como a que costumava ter, não é? Há regras que devem ser seguidas e riscos graves.

— Eu sei de tudo isso. — "Preciso ter essa experiência", pensou na época.

Carlisle olhou para ele mais uma vez com um semblante de exaustão. O Emmett daquele instante sabia o que tinha feito aos pais. Sabia que suas atitudes eram erradas. Mas sua mente, tomada pela mágoa, não admitia nada disso. Hoje compreendia que aquele ato de desespero era uma forma de mostrar ao pai, e a quem quer que fosse, que ainda tinham motivos para se orgulhar dele. Reconhecia o próprio egoísmo.

— Quando seu pai voltou do centro, depois de conversar com você, ele estava chorando. Nós dois estávamos perdidos. Era assim que nos sentíamos em relação a você e ao seu irmão. Temíamos o seu futuro lá dentro e não queríamos perder o controle sobre você novamente. Não queríamos que sua vida se transformasse em um desastre. Não é isso que se deseja para um filho. Mas confiamos em você mesmo assim. Não sei se consegue entender o que estou dizendo, porque é muito difícil colocar isso em palavras.

— Eu entendo. Olha, jamais gostaria que meus filhos passassem pelo que eu passei. Na verdade, eu também não saberia como agir. Mas, naquele momento, era disso que eu precisava, mãe. Eu estava descontrolado e necessitava de firmeza. Era uma forma de me encontrar.

É claro que os primeiros dias foram duros. Teve que se acostumar com muito pouco e a ser tratado de uma forma muito diferente daquela a que estava habituado. Em sua mente ingênua, imaginou que só precisaria se adaptar a vestir roupas mais simples, treinar bastante e seguir uma cartilha. Bom, isso ele já fazia. O que, no palácio, não era regrado?

Mas a vida dentro do quartel ia muito além disso. Não era apenas um conjunto de regras que precisava aprender a seguir. Tinha que compreender que ali não existia o "eu", e sim o "nós". O menino mimado precisava desaparecer para que pudesse entender o verdadeiro sentido de servir ao Exército.

Nunca esqueceu o que o capitão lhe dissera certa vez:

— Um erro seu, por ser um maldito idiota, pode matar várias pessoas inocentes.

Podiam ser palavras duras, mas eram verdadeiras. Comprovou isso quando esteve na guerra. Ali era "um por todos e todos por um". Qualquer erro significava morte e, diante dela, não havia espaço para egoísmo.

— Eu sei. Na verdade, eu sempre imaginei você em uma profissão como essa. — Esme disse ao filho, tomada pelas lembranças do menino que ele fora. — Eu só temia que você se destacasse e quisesse permanecer no Exército. Você não imagina o quanto eu ficava aflita quando o primeiro-ministro nos comunicava o interesse dos britânicos em formar uma parceria conosco para combater no Oriente Médio. Eu sabia que você seria competente em combate. Mas eu não queria perder o meu filho.

Emmett assentiu. Hoje certamente compreendia a dor dos pais muito melhor do que naquela época. Ele próprio se preocupava quando Henry saía de casa para mais uma aventura pelo mundo, sobretudo quando passava muito tempo sem dar notícias. No entanto, quando via alguma reportagem sobre o filho, sentia um orgulho imensurável. Era sempre a mesma questão: até que ponto os pais estão realmente preparados para deixar os filhos seguirem seus próprios caminhos?

— Entendo o que está dizendo. Não julgo você nem o papai, sabe? Mas, naquela época, eu precisava entender que não era o centro do mundo. Eu mudei muito no Exército.

— Eu sei que sim. Em poucos meses já o vimos mais forte, mais sério, completamente transformado.

É claro que estava. Fora repreendido diversas vezes, recebera um tratamento duro do capitão e, sempre que tentava se revoltar, as coisas pioravam. Precisou de um tempo para entender que aquilo não era pessoal; era necessário. Ou andava na linha e aprendia o que precisava, ou era dispensado. E ele não queria ser mandado embora. O que seus pais iriam pensar? Mais uma coisa na qual não dera certo. Não queria ser um imprestável. Então foi se moldando ao sistema, embora, no fundo, acreditasse que o capitão pegava mais pesado com ele por causa das fofocas da imprensa sobre o seu passado. Aquilo era o seu castigo.

Mas estar no quartel não era apenas dureza; havia também o lado bom. Só o fato de ter um pouco mais de privacidade e normalidade já o acalmava. Ali ninguém era diferente de ninguém. Todos comiam a mesma comida, tinham a mesma rotina, tomavam banho juntos e dormiam em camas duras. Lá, ele era apenas um recruta como qualquer outro. Era uma agradável sensação de liberdade. Conseguiu se soltar rapidamente, fez amigos e não se sentia julgado.

O Emmett de antes jamais sentiria prazer em acordar antes de o sol nascer. Mas, ali dentro, sentia-se renovado ao correr por quilômetros e depois enfrentar todo o treinamento necessário. Aprendeu a atirar e descobriu que gostava daquilo. Começou a imaginar como seria estar, de fato, em um campo de batalha, colocando tudo em prática. Dedicando-se ao máximo, foi conquistando o respeito dos superiores e, consequentemente, de si mesmo.

Focar no treinamento o afastava dos pensamentos sobre a droga. É claro que, muitas vezes, ainda sentia vontade. Sabia que não se livraria do vício tão facilmente. Porém, conseguiu disciplinar a própria mente, substituindo o desejo por longas corridas ou exercícios exaustivos. Funcionava, ou, pelo menos, funcionou naquele momento. Aos poucos, descobriu que seu novo vício era a guerra.

— Estar no quartel me ajudou a esquecer dos meus problemas, sabe? E, depois, no Iraque descobri que tudo o que me incomodava era pequeno demais diante da realidade de uma guerra.

— Nem me fale! Que coisa horrível foi tudo aquilo! E imaginar que aqueles conflitos no Oriente Médio nunca se resolveram de verdade me dá ainda mais angústia.

— E quer saber? Nem vão se resolver. A guerra é um bicho estranho. Dá uma adrenalina absurda e, quanto mais você luta, mais vontade tem de continuar lutando.

Esme estremeceu com aquele comentário. Emmett sorriu. Como dizia certo poeta: "Só as mães são felizes", porque elas são poupadas das desgraças do mundo.

Em um ano, Emmett concluiu o treinamento militar básico e temia que aquele fosse o fim da linha para ele. Lembrava-se de que, quanto mais a data da conclusão se aproximava, mais ansioso ficava.

Para um membro da realeza, aquele era o ponto final. Muitos integrantes masculinos da família eram recrutados para alguma instituição, Exército, Aeronáutica ou Marinha, mas, por serem quem eram, o treinamento servia apenas para demonstrar à sociedade que haviam cumprido sua obrigação "moral". Mas Emmett estava ali por sobrevivência. Não queria que tudo aquilo fosse apenas um faz de conta. Gostava do que fazia. Era aquilo que queria para a vida.

Por isso, não hesitou em procurar o comandante e implorar para permanecer e seguir para o treinamento avançado.

— Bom, essa é uma decisão sua, garoto. Muitos membros da família real param por aqui. Esse é o nosso protocolo e o acordo que firmamos com o seu pai.

— Eu sei. Mas eu quero continuar.

— Você sabe que, se continuar, existe a possibilidade de deixar de ser apenas um treinamento, não sabe?

— Mas é exatamente isso que eu quero. Durante esse tempo em que estive aqui, me descobri de verdade. É essa a carreira que desejo seguir. Soube que as coisas no Iraque estão pegando fogo, não é? Quanto tempo levará para o Exército belgão se juntar às tropas europeias em combate?

O velho Harold gargalhou. Emmett encolheu-se. Àquela altura, já temia seus superiores o suficiente para sentir-se um completo idiota a cada atitude que tomava. Estar diante de um deles já era desafiador; naquele momento, então, era ainda pior.

O príncipe sabia que o resultado daquela conversa mudaria o rumo de sua vida. Qualquer passo em falso poderia mandá-lo de volta para casa.

— A guerra é dura demais para um bebê que mal saiu das fraldas. Ainda mais um criado em berço de ouro, mocinho. Ainda falta muito para que eu considere a ideia de colocá-lo em um campo de batalha de verdade.

— Está preocupado porque sou filho do rei? Olha, não perca seu tempo! Eu não valho mais nada. Meu lindo bumbum envolto em fraldas foi chutado do trono. Se eu morrer agora, ainda vão lhe agradecer pessoalmente.

O coronel lançou um olhar severo para Emmett. O príncipe estremeceu. Não retiraria o que dissera. Era exatamente o que pensava.

Tinha certeza de que sua carreira na monarquia havia chegado ao fim e sequer cogitava deixar o Exército para ficar "coçando o saco", à mercê do que os outros esperavam para sua vida.

— A primeira coisa que você precisa entender, se realmente quer seguir em frente por aqui, é que todas as vidas importam, menos a do inimigo. Está me entendendo? O Exército não é lugar para suicidas. Resolva os problemas que tiver longe daqui, ouviu?

Emmett tinha certeza de que suas bochechas estavam vermelhas naquele momento. Quando entrou no quartel para iniciar o treinamento, evitou pensar em qualquer coisa que o tivesse abalado antes.

Assim como precisou permanecer limpo de substâncias ilícitas por um longo período, também quis manter a mente livre dos pensamentos que o atormentavam. Dedicou-se exclusivamente àquele universo e deixou que o mundo lá fora se resolvesse sozinho. Era óbvio que havia questões a serem resolvidas, ele apenas não queria mexer nelas enquanto, pela primeira vez em muito tempo, estava se sentindo bem.

— Eu não pretendo fazer nada disso. Deixei os meus problemas para trás. Quero começar de novo, dar um novo sentido à minha vida.

— Bem, terceiro-sargento Cullen, o que tenho a lhe dizer é que, no momento, você é jovem não apenas na idade, mas também em experiência. Aconselho que continue no treinamento, aumente sua patente e, depois, faça o curso para aspirante. Quando for um oficial de verdade, voltaremos a conversar.

— Obrigado, coronel. — Emmett respondeu com um sorriso maior que o rosto e o coração palpitando.

Assim se seguiram os meses. Emmett levou inteiramente a sério as palavras do coronel e dedicou-se como nunca antes. Sua vida passou a ser exclusivamente o Exército e nada mais. Muitas vezes deixava até de sair durante o período de folga para permanecer no quartel com alguns praças que também estavam ali. Passavam horas conversando, e o príncipe começou, finalmente, a entender o mundo. Aprendeu mais sobre a vida naquele período do que em muitos anos antes de ingressar no Exército. Parecia loucura, mas era a mais pura realidade. Percebeu que nunca havia vivido de verdade ou, se viveu, fora em um mundo completamente paralelo.

Emmett sabia que Harold havia comunicado Carlisle sobre sua decisão, e isso o incomodou profundamente. Nenhum de seus companheiros precisou da aprovação dos pais para ingressar na guerra, eles apenas eram comunicados de que aquilo aconteceria. Emmett sentia que o "cordão umbilical" jamais seria realmente cortado.

— Seu pai e eu nunca deixamos de nos importar com você. Apesar de você muitas vezes nos negligenciar e não querer nos ver nem permitir que participássemos de momentos importantes da sua vida. Nós nos orgulhávamos das cartas que chegavam até nós. Elas sempre vinham com a mesma descrição: "Ele é determinado, corajoso e duro na queda."

— Eu só estava tentando me dissociar um pouco de vocês, sabe? Queria viver o mundo real, andar com as minhas próprias pernas. Mas reconheço que fui um cretino como filho.

Esme sorriu. Emmett nunca perdia a piada, nem mesmo quando o assunto era sério.

— Quando o coronel Harold nos comunicou que você estava apto o suficiente para ir à guerra, aquilo partiu o meu coração. Eu disse "não" sem nem pensar. Já me doía o suficiente mandar tantos jovens, como você, para o Iraque e separá-los de suas famílias. Agora, meu próprio filho estava prestes a ir também...

— Mas, mãe, aquela era a nossa vida. Nós nos preparávamos todos os dias para, um dia, lutar de verdade. Faz parte do show! É muita falta de tesão você se preparar por tanto tempo e não ir às vias de fato.

— Por que os jovens têm essa ideia tola de que se sacrificar pelo país é algo mais honrado?

Era uma boa pergunta. Talvez não tão boa vinda de uma rainha consorte, que deveria compreender a importância de o Exército belgão unir-se aos britânicos. O marido dela era o chefe das Forças Armadas, droga! Mas Emmett sabia que, naquele momento, era a mãe quem falava. Por isso compreendia e respeitava aquele questionamento.

Ninguém sabe o que é realmente uma guerra até estar em uma. Fato. Durante muito tempo, ouviu seus companheiros, jovens como ele ou até bem mais velhos, falarem do Iraque como se fosse uma viagem para a Disney.

Em 2003, os caldeirões estavam em plena ebulição no Oriente Médio. Desde o ataque às Torres Gêmeas, em 2001, havia uma busca desenfreada por Saddam Hussein. Emmett lembrava-se de assistir às notícias sobre o atentado em Nova York e, mais tarde, associá-las à própria vida. Pouco tempo antes, ele mesmo havia provocado um atentado ao sistema monárquico. Chegava a sorrir ao pensar nisso, da mesma forma que seus companheiros sorriam quando imaginavam que seriam recrutados para dar uma surra naquele que fora ousado o suficiente para tentar abalar as estruturas dos Estados Unidos. Mas ali todos estavam indo com a missão de vingar as inúmeras vítimas da Al-Qaeda.

— Será que eles pensavam que a briga seria só com aqueles comedores de hambúrgueres? Agora esses terroristas de merda vão ter que enfrentar o mundo inteiro. — declarou um soldado ao lado de Emmett.

Quando a invasão ao Iraque aconteceu de fato, várias tropas da União Europeia se juntaram às tropas americanas para combater e desarmar o inimigo. Emmett acompanhava tudo como se fosse uma novela muito interessante. Sinceramente, não acreditava que a guerra duraria muito. Com tanto investimento bélico, seria fácil capturar Saddam e arrastá-lo pelas ruas. O príncipe apenas lamentava estar fora daquilo.

Porém, o tempo foi passando e o conflito se prolongava. Soube, também pelos jornais, que o Reino Unido havia pedido reforços a Belgonia e a outros países da União Europeia que ainda estavam fora do conflito. Pensou no pai e sabia que ele resistiria à decisão o máximo que pudesse.

— Temos coisas mais importantes nas quais investir nosso tempo e dinheiro do que em uma guerra que não é nossa. — Carlisle afirmara na época.

Sempre sensato, embora fosse completamente contra o pensamento da maior parte dos deputados. Felizmente, o primeiro-ministro do Partido Trabalhista estava ao lado dele naquela questão. Assim, podiam passar ao próximo tópico.

Entretanto, isso não impedia que os britânicos continuassem insistindo. Em 2004, o conflito já havia alcançado grandes proporções. As insistências beiravam uma ordem. Emmett sabia que Carlisle estava em uma situação delicada. As boas relações, não apenas comerciais, entre Belgonia e Reino Unido eram históricas. Temia que mais uma negativa pudesse trazer consequências. O "sim" acabaria vindo em algum momento, como de fato aconteceu.

Foi nesse contexto que Emmett começou a imaginar que sua hora chegaria. A essa altura, já era aspirante a oficial. Cumprira a promessa feita ao coronel e continuara o treinamento com disciplina exemplar. Fora aprovado com distinção nos testes quando foi promovido a segundo-sargento, mas ainda queria mais. Via seus colegas serem recrutados e aguardava sua vez com ansiedade. Mesmo assim, tentava manter a calma.

Em maio daquele ano, boa parte do quartel foi enviada para o Iraque. Estava perto. Ele sentia. Até que recebeu ordens para participar de um treinamento no Canadá com os britânicos. Emmett sabia que aquele era o sinal que tanto esperava.

Não estava em Belgonia quando Edward recebeu oficialmente o título de príncipe herdeiro. A imprensa especulou que aquilo havia sido proposital. Afinal, como ficaria a imagem de dois aspirantes ao trono no mesmo ambiente, justamente no momento em que um ascendia na sucessão enquanto o outro era definitivamente rebaixado aos olhos de todos? Ninguém via dois papas juntos, não é? Muito menos dois reis. Um precisava morrer primeiro.

Mas Emmett não pensava em morrer. Pelo contrário. Sentia-se mais vivo do que nunca. Embora, durante todo o treinamento pesado, a morte fosse mencionada o tempo inteiro. Ora, ninguém vai para a guerra pensando na vida. Quando você não mata, morre. E todos ali estavam justamente se preparando para essa possibilidade.

Estar em um campo de treinamento de verdade atiçava a adrenalina e o espírito primitivo de combate. Nenhum daqueles jovens imaginava que a morte pudesse alcançá-los. Não. Tudo ainda era muito abstrato, quase poético. O sentimento era de honra. Como era doce lutar pelo próprio país. Morrer, não. Lutar. Porque ninguém ali, até aquele momento, sabia o que era ver uma vida se esvaindo, estar encurralado ou sentir uma dor tão intensa que a única alternativa fosse esperar pelo fim. Tudo ainda parecia heroico.

Foram três meses intensos. Embora exausto, Emmett sentia-se radiante. Sua vida finalmente ganhava forma, e ele pensava e enxergava com mais clareza do que nunca. Era uma sensação semelhante à descrita por pessoas que ingressam em ordens monásticas: tudo ao seu redor parecia iluminado.

Emmett fazia questão de se desligar do que estava acontecendo "fora da bolha", principalmente das questões ligadas à sua família. Não que estivesse chateado. Sabia das escolhas que havia feito, mas, se era um tempo que eles queriam, ali estava. Seria uma espécie de limpeza de imagem. Agora queria ser apenas o sargento Cullen, e não o príncipe. Por isso, lia somente o que realmente lhe interessava.

Sabia que tudo estava piorando no Iraque, e sua vontade de voltar para Belgonia e ouvir que havia sido recrutado aumentava ainda mais. Também sabia que sua unidade substituiria a última que partira poucos dias antes do início do treinamento no Canadá.

Pelo que ouvira, os britânicos haviam colocado os belgãos na área de reconhecimento. Não iam diretamente para o combate, mas isso não deixava de ser perigoso. A qualquer momento, poderiam ser alvo de um atirador ou encontrar explosivos improvisados na estrada.

No início, poucos meses após os soldados belgãos serem enviados ao Oriente Médio, soube da morte de dez compatriotas. Quando voltou ao quartel, descobriu que esse número já havia subido para cem.

Ainda assim, Emmett não sentia medo. Estava mais engajado do que nunca. Qualquer coisa era melhor do que permanecer em Belgonia, que, para ele, era o seu verdadeiro campo de batalha. Mas logo recebeu um banho de água fria.

— Vamos mandá-lo para uma missão na África.

— África? Por quê?

— Os britânicos têm uma unidade de treinamento no Quênia e pediram que enviássemos alguns soldados para lá. Querem identificar focos terroristas ligados a grupos islâmicos instalados no continente. É aquela velha história, não é? Tem que cortar o mal pela raiz.

— Mas e todo o treinamento que tive no Canadá?

— Pensei que sua fase esnobe já tivesse passado. Você não queria ir para um campo de batalha? Essa é a sua oportunidade. Não pode escolher onde lutar.

Agora, ali diante da mãe, confirmava a teoria de que aqueles dez meses na África haviam sido resultado de uma interferência da família.

— Harold nos contou pessoalmente que você havia se candidatado ao curso para aspirante a oficial. Já estava há quase três anos no Exército e era plenamente apto para seguir em frente. Ele mesmo disse que não tinha mais argumentos para adiar isso. Fiquei assombrada.

— Imaginei que vocês estivessem envolvidos em algumas decisões do capitão. Mas, droga! Eu me sentia mal, sabe? Havia muito tempo treinava pesado para aumentar minha patente, conquistar reconhecimento e nada. Era frustrante. Parecia algo pessoal.

— Bom, me desculpe. Carlisle dizia: "Temos que deixá-lo seguir com a vida dele, Esme." Eu olhava para ele horrorizada. "Você quer que o nosso filho morra?" "Não fale besteira!", ele respondia. "Mas não podemos colocá-lo em um pedestal para sempre. Emmett precisa levar as próprias cabeçadas para criar juízo."

— De certa forma, foi isso mesmo que aconteceu. Então a ideia de eu ir para a África foi sua?

— Bom... Não. Eu apenas disse que para o Iraque você não iria. Precisei pensar rápido em uma desculpa. O pobre homem já estava cansado de mim. Mas ele não podia contestar o argumento de que você, por ser quem era, seria um alvo fácil. O Quênia acabou sendo um caminho mais simples.

Entretanto, um caminho entediante, pensou Emmett.

Quando chegou à África, percebeu logo que não haveria combates sangrentos. O trabalho era muito mais estratégico. Precisava liderar sua unidade, planejar operações para localizar focos terroristas e desestruturá-los. Estremecia só de lembrar daquelas longas horas, das cadeiras duras, dos livros intermináveis, decorando datas, analisando batalhas famosas e escrevendo dissertações sobre os mais complexos conceitos de estratégia militar. Se pudesse escolher, teria preferido passar mais cinco semanas no campo de treinamento.

Em algum momento, o príncipe simplesmente largou o "foda-se" e começou a comandar guiado pelos próprios instintos. Era perigoso? Era. Mas, de alguma forma, funcionou.

— Você é um maldito jovem doido, sargento Cullen.

Aquilo, para ele, soava como um elogio. No fim, compreendeu que precisava ter passado pela África. Estar ali funcionara como um estágio. Se não tivesse sido obrigado a desenvolver pensamento estratégico e exercer liderança, jamais teria aprendido tudo o que aprendeu.

Além disso, o continente era especial demais. Não apenas por suas belezas naturais, mas principalmente por seu povo. Conhecer aquelas pessoas, vivendo uma realidade tão diferente da sua e, muitas vezes, tão cruel, fez com que refletisse inúmeras vezes sobre o verdadeiro significado da vida. Foi como levar um tombo no início, mas, depois, encontrar a cura. Tanto que voltou à África diversas vezes, já depois de deixar o Exército, para participar de trabalhos sociais e também para se aventurar naquele rico universo cultural.

No entanto, o ano de 2005 chegou trazendo a notícia de que sua missão ali havia terminado. Ficou surpreso. Já estava acostumado àquela rotina e, modéstia à parte, acreditava ter alcançado grandes resultados. Então, o que havia acontecido?

— A situação no Iraque está cada vez pior. Vamos mandá-lo para lá. — Harold falou ao telefone.

Emmett ouviu tudo anestesiado.

— Prepare-se. Você partirá daí mesmo. É melhor enviá-lo diretamente para lá, de forma anônima. Assim diminuímos o risco de transformá-lo em alvo dos terroristas.

— Ok... — foi tudo o que conseguiu responder, ainda atordoado.

— Ah! E você foi aprovado no curso para aspirante a oficial pelo excelente trabalho que fez aí. Espero chamá-lo de tenente muito em breve.

Logo depois, ouviu apenas o bip da ligação sendo encerrada. Emmett abaixou lentamente o fone e sentiu as pernas tremerem. O que fazer quando, finalmente, a hora chega?

Sentou-se e permaneceu longos minutos tentando fazer com que aquelas palavras realmente entrassem em sua mente. Depois disso, foi só correria. Como Harold havia dito, ele não voltou para Belgonia. Mas tinha certeza de que seus pais já sabiam que estava sendo enviado ao Iraque. Ainda assim, não recebeu nenhum sinal deles. Nem um simples "boa sorte" ou um "volte vivo". Aquilo doeu. Mesmo assim, tentou não guardar mágoa. Afinal, fora ele mesmo quem decidira mantê-los à distância.

Passou quase dois anos em combate. Nos cinco primeiros meses, foi enviado de um lugar para outro, o que Emmett considerava péssimo para o reconhecimento da área. A sensação nos primeiros dias era eletrizante, não apenas para ele, mas para todos ao redor. Sentiu o estômago embrulhar ao ouvir as instruções diretas dos comandantes.

— Se morrer, morreu.

Simples assim, curto e grosso.

A rotina era intensa, sem espaço para pausas. Seu grupo, assim como tantos outros, mudava constantemente de base para evitar ataques surpresa do inimigo. A única constante era o som de bombas e tiros ecoando por todos os lados.

No começo, acordava assustado, acreditando que o território estava sendo invadido, mas, com o tempo, simplesmente se acostumou. Ouvir aquele barulho era a confirmação de que ainda estava vivo. Além do despertar ao amanhecer, o inseparável copo de suco, um mingau e o colchonete onde dormia. Não pudera levar muitos pertences para a guerra. Apenas algumas roupas e dois uniformes. Nada de telefones ou fotografias. As notícias de casa chegavam muito raramente, por meio dos jornais.

Alice lhe escrevia com frequência. Emmett surpreendera-se muito com isso. Ela tinha apenas treze anos quando ele deixara o palácio definitivamente. Naquela época, viviam em mundos completamente diferentes. O contato entre os dois era mínimo. Sua irmã ainda era apenas uma criança, enquanto ele parecia já ter vivido uma vida inteira. Mesmo assim, era profundamente grato por aquelas correspondências.

Nos momentos em que a solidão se tornava insuportável, eram as cartas de sua irmã que o faziam sorrir e lembrar que, um dia, ele também estivera na mesma fase da vida que ela.

Seus pais também lhe enviavam cartas, embora com intervalos maiores do que Alice. Eles se preocupavam, é claro, mas procuravam transmitir confiança. As mensagens lembravam muito as ordens recebidas dos comandantes. Foco sempre e fé em Deus. Emmett sentia que aquilo era um sinal de que sua relação com Carlisle e Esme estava se tornando cada vez mais distante.

— Naquele momento, pensei muito em como ficaria minha relação com vocês caso eu voltasse da guerra. — Emmett declarou à velha mãe.

— Eu e Carlisle estávamos apavorados com a ideia de você no Iraque. Mas não pudemos fazer muita coisa a respeito. Foi uma escolha sua, e tínhamos que respeitá-la. Para uma mãe, é difícil convencer o coração disso.

— Não tínhamos muito diálogo naquele momento, não é? Já imaginou o quanto uma conversa franca lá atrás poderia ter mudado tudo?

— Hoje tenho certeza de que sim. Porém, as circunstâncias nos calam. Pensamos em tantas coisas, criamos tantos receios, que a boca simplesmente se fecha.

— Eu estava naquela fase de pensar: "Sinto falta deles, mas não quero admitir". Fora todo o rancor. Cheguei a imaginar que, se morresse em combate, pelo menos teria uma manchete bonita nos jornais.

— Nem me fale sobre isso! Eu rezava um terço por você todos os dias. Ficava apavorada toda vez que recebíamos os relatórios da guerra, imaginando encontrar seu nome no obituário. Aquele foi o momento mais difícil da minha vida. Graças a Deus você resolveu voltar.

— Eu não resolvi voltar, mamãe. Eu fui ferido.

Emmett imaginava a guerra como um grande jogo. Cada dia era uma nova fase. Cada missão aumentava a dificuldade. O prêmio era simplesmente continuar vivo e passar para a etapa seguinte.

Pensar daquela forma era um consolo. Finalmente estavam em uma missão de verdade. Iriam combater terroristas. Que emocionante! Mas a guerra era exatamente isso. Viciava. Quanto mais tempo permanecia em combate, mais queria continuar ali, avançando de fase após fase.

O príncipe não economizou esforços. Deu o máximo de si a cada minuto. Por isso, foi acumulando promoções em uma velocidade impressionante. Aquela era sua vida. Então, viveu-a intensamente.

De vez em quando, recebia autorização para voltar para casa. Sempre que isso acontecia, era uma surpresa para todos que o haviam conhecido antes. Já não parecia o príncipe dos salões dourados nem dos bares. Estava muito mais forte. "Um brutamonte", como os amigos costumavam chamá-lo. Ou um urso, na opinião de Alice.

Os cabelos estavam mais ralos. Chegou a pensar em raspá-los completamente e ria sempre que imaginava que a reação das pessoas seria ainda pior.

Também estava mais bronzeado, com a pele cor de areia. A fina poeira grudava na pele suada e ele tinha a impressão de que jamais conseguiria removê-la por completo. Aliás, tudo naquele lugar se resumia à areia. Areia que se movia. Girava. Rodopiava. Como se sussurrasse o quão pequeno cada ser humano era diante do universo. Das cinzas às cinzas. Da areia à areia. E ali estava novamente a ideia da finitude. Não havia como fugir dela.

Enquanto seus olhos percorriam ruínas e becos em busca de armadilhas ou emboscadas, e os helicópteros dividiam espaço com o estrondo constante das explosões, tornava-se praticamente impossível não pensar que aquele poderia ser o último instante de sua vida.

Aos poucos, aquela sensação foi se infiltrando na mente de Emmett como um parasita. Diante daquele cenário de horror, embalado pelo zumbido grave dos rádios militares anunciando movimentações inimigas ou perdas do pelotão, ele já não conseguia desligar o cérebro e fingir frieza.

Dia após dia. Mês após mês. Tudo permanecia igual. Nas noites escuras, dormia mal, embalado pelos tiros ao longe e pelo peso das decisões que podiam custar vidas. Entre a camaradagem e o medo, o príncipe descobriu que a guerra não era uma questão de heroísmo. Era uma questão de poder. Assim como acontecia na realeza. No fim, tudo parecia se resumir à mesma disputa. Quem conseguiria impor mais força sobre o outro.

O ano de 2007 se aproximava e nada havia sido resolvido. Então era isso? A guerra consistia apenas em convencer o outro de que você era maior do que ele? Que sentido havia nisso? Para Emmett, nenhum. Aquilo começou a deixar de fazer sentido. A cada dia, sentia-se mais apático. Mais desanimado. Mais perdido.

Viu um grande companheiro morrer em uma explosão e foi encarregado de recolher seu corpo para levá-lo de volta à base. Enquanto observava os restos do amigo, imaginou-se naquele mesmo lugar. Como seria voltar para casa morto? O que pensariam dele? Ainda existia uma vida esperando por ele fora da guerra?

No fim de 2006, já estava em apuros, alternando entre crises debilitantes de letargia e ataques de pânico devastadores. Os quase dois anos passados ali estavam corroendo sua mente. E tudo piorou em uma única noite.

Ele e seu grupo conseguiram invadir um acampamento inimigo. Havia dias que tentavam localizar algo assim, mas todas as tentativas haviam fracassado. Até que surgiu a oportunidade. A ordem era simples: Eliminar qualquer um. Destruir tudo o que fosse possível.

Emmett saiu na caçada. Tentava convencer a si mesmo de que era apenas mais uma missão, como tantas outras. Até que encurralou um inimigo. O rapaz tentou fugir. Emmett foi mais rápido. Mas, quando finalmente o alcançou, algo mudou. Diante dele havia apenas um garoto assustado. Assim como ele próprio fora um dia.

O menino dizia coisas que Emmett não compreendia. Ainda assim, para o príncipe, aquilo soava como um pedido de clemência. Pensou durante alguns segundos. Olhou para trás. O acampamento já estava praticamente destruído. Se não fosse ele... Seria outro. Então atirou no garoto à queima-roupa. Aquilo foi a cereja do bolo para o fim de sua carreira no Exército.

É claro que já havia matado antes. Não uma pessoa. Talvez centenas. Mas nunca presenciara uma morte daquela forma. Tão perto. E, principalmente, nunca matara alguém olhando diretamente para seu rosto.

Não conseguia deixar de pensar que aquele era apenas um garoto. Ainda tinha uma vida inteira pela frente. Estava ali por causa de uma religião. De uma ideologia vazia.

Naquela noite, sua família jamais o veria ter filhos. Jamais o veria envelhecer. Receberia apenas condolências. Aquilo foi demais para Emmett. De repente, todo o prazer que sentia em estar ali desapareceu.

Então elaborou um plano covarde. Em uma das missões seguintes, afastou-se propositalmente do grupo e permitiu que um terrorista o visse. Foi um erro de principiante. Mas lhe rendeu a passagem de volta para Belgonia. E alguns ferimentos provocados por tiros.

Seus companheiros jamais souberam o que realmente acontecera naquele dia. Acreditaram que haviam caído em uma emboscada, porque tudo o que veio depois aconteceu rápido demais para que alguém pudesse compreender onde haviam errado.

— Eu nunca contei isso para ninguém. Quer dizer... contei ao meu psicólogo, na época em que fiz tratamento depois da recaída.

Esme permaneceu em silêncio diante da revelação do filho. Um arrepio percorreu seu corpo. Ouvi-lo descrever a morte daquele jovem iraquiano com tantos detalhes roubara-lhe a paz. Sempre soubera que, em um campo de batalha, matar fazia parte das regras. Mas nunca imaginara ouvir aquilo da boca do próprio filho. Ficou imóvel durante alguns instantes.

Emmett sabia que ela tentava assimilar tudo o que ele vivera. Era duro. Por fim, Esme voltou a se mover. Olhou profundamente nos olhos do filho e pensou que ninguém estava realmente livre de carregar um pouco do Médico e do Monstro dentro de si. Ninguém estava livre do pecado.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 35: O Exército de um homem só

Outro dia, estava conversando com Pietro quando ele me trouxe uma informação aleatória que chamou minha atenção. Estava com o celular na mão, lendo uma notícia sobre diferentes gerações, e disse:

— Você é uma baby boomer, vovó.

É claro que eu não entendi nada. Ele, então, prontamente me explicou, com uma paciência admirável.

Denomina-se baby boomer o grupo de pessoas que nasceu no pós-guerra. Uma geração que não era apenas um rótulo demográfico, mas uma explosão de esperanças e cicatrizes; um mundo que respirava aliviado, embora ainda estremecesse com o eco dos canhões.

Achei aquilo interessante e passei dias pensando no assunto. Jamais imaginei que uma informação aparentemente tão banal despertaria lembranças que eu acreditava não existirem mais em minha velha mente.

Por um instante, vi mamãe materializar-se na antiga cozinha de Orland. Seu corpo esguio enrijeceu ao ouvir um barulho vindo da rua. Ela tapou os ouvidos e se abaixou instintivamente. Poucos segundos depois, percebeu que era apenas o ronco de um carro.

Continuei olhando para ela com estranheza, sem interromper a mamadeira de vidro que segurava. Ela sorriu para mim e disse:

— Graças a Deus você jamais passará por um medo como esse!

Na época, e durante muitos anos, eu não compreendi aquelas palavras. Mamãe se referia à guerra.

É impressionante perceber que meus pais viveram entre dois grandes conflitos mundiais. Viram os representantes máximos de seu país morrerem nas mãos dos alemães. Durante boa parte da vida conviveram com um mundo instável, que literalmente explodia ao redor deles. Por isso, era um alívio olhar para a pequena filha que nada entendia e acreditar que ela jamais conheceria aquele medo permanente do fim.

No entanto, a guerra permanecia entranhada nos alicerces da nossa juventude, mesmo quando nenhuma bomba caía sobre nossas cabeças. Era o medo herdado. A disciplina rígida. Os silêncios nas conversas de família sempre que o passado ameaçava reaparecer.

Minha geração nasceu de um paradoxo: era fruto da celebração da sobrevivência e, ao mesmo tempo, guardiã das cicatrizes deixadas pela guerra. Crescemos aprendendo que o progresso era urgente, que a paz era frágil e que qualquer conquista poderia desaparecer em um piscar de olhos. E assim pensava que a guerra era nossa companheira constante.

Lá fora, existia uma Guerra Fria interminável, travada por valores ideológicos. Dentro de casa, vivíamos nossos próprios conflitos, batendo de frente com a sociedade. Saíamos às ruas pedindo mais liberdade. Mais amor. Éramos reprimidos. Mesmo assim, continuávamos gritando. Era como se algo dentro de nós sempre nos empurrasse na direção daquilo que parecia impossível alcançar.

Por que estou falando sobre isso? Não, ainda não estou caducando nem divagando sem sentido. Falo sobre isso porque percebo que jamais nos livramos daquilo que acreditávamos combater.

A guerra sempre esteve presente em cada instante da minha vida. E sei que, de alguma forma, também esteve presente na vida de muita gente. Um velho paradoxo constante.

A cada gravidez, imaginava que faria com meus filhos o mesmo que minha mãe sonhara para mim e para minha irmã. "Meus filhos não viverão em um mundo quebrado.", "Eles vão consertar tudo.".

Hoje percebo o peso injusto dessas expectativas. Era esperança demais colocada sobre ombros que mal começavam a existir.

Ainda assim, por um breve período, realmente acreditei que tudo estava entrando nos eixos. Nossas lutas ideológicas ficariam no passado. Bombas e guerras seriam apenas capítulos dos livros de História. Nossos filhos, os millennials, nos ensinariam como viver em um mundo melhor.

Ledo engano tanto para mim como uma sonhadora, fruto de uma geração de promessas, e também como mãe. Na vida pessoal, jamais deixei de viver uma guerra quase permanente. E, até este momento, acredito que vocês já tenham percebido isso.

O início dos anos 2000 esteve longe de ser um período de descanso. Dentro de casa, enfrentávamos as contradições dos nossos filhos. Lá fora, assistíamos ao nascimento de uma guerra que jamais imaginávamos testemunhar naquela altura da História.

Na nossa época, é claro que havia substancias entorpecentes. As drogas nunca foram novidade. Só não imaginava que elas estariam tão banalizadas como estiveram, e ainda estão, na época da adolescência de meus filhos. É quase tão fácil conseguir maconha ou cocaína quanto comprar uma Coca-Cola no restaurante da esquina.

É assustador pensar que uma geração com tanto potencial, tanto conhecimento e tantas tecnologias acabasse se deixando consumir pelo vício. Que dependesse de algo capaz de silenciar, ainda que por alguns instantes, os próprios conflitos internos. Foi exatamente isso que pensei quando Emmett precisou ser internado em uma clínica de reabilitação.

Ainda hoje me custa admitir os vícios do meu filho. Sobretudo porque carregávamos uma parcela enorme de culpa por tudo ter seguido um caminho tão tortuoso. Também havia a vergonha. Era inadmissível, aos olhos de muitos, que a família real de Belgonia tivesse uma ovelha negra. Onde estava a perfeição que tanto defendíamos em nossos discursos? Não conseguíamos resolver nem mesmo os nossos próprios conflitos.

Internamos Emmett em uma clínica discreta, distante do centro, da agitação, da imprensa e até de nós mesmos.

Uma breve nota foi publicada nos jornais para dar uma resposta à sociedade: "Estamos cuidando da situação.". Enquanto isso, Carlisle e eu repetíamos um ao outro que havíamos feito a coisa certa. Nossa parte estava cumprida. Agora cabia a eles "consertá-lo".

Confesso que chorei muito. Houve dias em que não tive coragem sequer de sair da cama. Olhava pela janela e a vida continuava seguindo seu curso, enquanto eu só conseguia pensar na minha falha como mãe. Queria desaparecer. Esquecer o passado. E continuava me odiando por sentir alívio ao saber que Emmett estava longe.

Mantínhamos pouco contato com ele. A clínica possuía regras rígidas. Defendiam que o dependente precisava manter distância da vida que levara até então. Às vezes recebíamos autorização para telefonar e ouvi-lo durante poucos minutos. Foi em uma dessas ligações que Emmett nos disse que pretendia seguir carreira no Exército. Aquilo caiu sobre nossas cabeças como mais uma bomba.

No início, Carlisle e eu tentávamos convencer um ao outro de que aquilo era apenas uma fase. Emmett nunca fora muito constante em suas decisões. Era apenas um garoto. Logo desistiria daquela ideia. Mas estávamos enganados. Meu filho demonstrou uma convicção impressionante durante a visita que Carlisle lhe fez na clínica.

Quando voltou para casa, encontrei meu marido completamente abatido. Sentou-se na poltrona diante da nossa cama como quem carregava o peso de um longo dia de trabalho. Insisti que Emmett ainda não estava recuperado o suficiente para deixar a clínica. Que seus pensamentos não eram coerentes. Mas Carlisle limitou-se a dizer:

— Precisamos deixá-lo viver as próprias experiências.

Fiquei vencida. Depois tentei convencer a mim mesma de que realmente não podia mantê-lo preso em uma redoma.

Emmett iniciou o treinamento militar com o entusiasmo típico de um jovem que ainda desconhece as verdadeiras consequências da guerra.

Naquele mesmo período, estourava a Guerra do Iraque, após os atentados de 11 de setembro. Uma tragédia! E, mais uma vez, volto a refletir sobre essa estranha fascinação humana pela guerra. Que bem ela produz? Quantas vidas precisam ser destruídas? Para quê?

Via meu filho mudar diante dos meus olhos. Estava mais forte. Os cabelos, quase raspados. Mais disciplinado. Mais controlado. Falava dos encantos da vida militar como tantos jovens que partem para a guerra alimentados pelo sonho heroico construído desde a infância por brinquedos e histórias de batalhas. Sem saber que um campo de batalha não tem absolutamente nada de grandioso. A morte jamais deveria ser glorificada.

Observei todas aquelas mudanças com enorme cautela. Ainda me custava acreditar que o mundo caminhava novamente para um conflito de proporções cada vez maiores. Via a ganância dos dois lados, a sede de vingança, vidas sendo destruídas. E tudo aquilo me provocava um profundo sentimento de repulsa.

Como esposa do chefe de Estado, eu não podia demonstrar publicamente meu descontentamento com os rumos que aquele futuro, no qual depositáramos tantas esperanças, estava tomando.

Como mãe... Eu apenas tentava encontrar algum consolo ao perceber que Emmett, enfim, parecia estar encontrando um lugar no mundo e conquistando reconhecimento na profissão que escolhera.

Do chefe dele só vinham elogios, e eu pensava que Emmett sempre tivera mesmo gosto pela coisa. Sua brincadeira preferida na infância era ser um soldado. Jamais imaginei que aquilo se tornaria algo além de um sonho infantil. Mas, ao mesmo tempo, sabia que ele seria um militar incrível.

Era duro ter que aceitar uma escolha tão arriscada feita pelo próprio filho. Porém, eu sabia que seria egoísmo da minha parte pensar apenas no meu sofrimento e não na felicidade dele. Todavia, eu não conseguia. Ainda mais sabendo que aquilo o levaria a um risco muito grande.

Você pode até estar pensando: "Mas Belgonia é um país tranquilo, jamais entraria em uma guerra.". Foi o que todos pensávamos, até que recebemos um pedido dos britânicos para enviarmos soldados para auxiliá-los no Iraque. É claro que nossa resposta foi não. A última coisa que queríamos era investir dinheiro e vidas em um conflito que não era nosso. Mesmo que fosse, Carlisle e eu sempre procuraríamos uma solução pacífica.

Foram dias verdadeiramente problemáticos para nós. Para contextualizar, preciso explicar que, desde o fim dos anos 1990, havia em Belgonia uma grande polarização entre os partidos conservadores e o Partido Trabalhista, que vinha em crescente ascensão. Eles elegeram o primeiro-ministro e aprovaram muitos projetos. O povo estava ao lado deles, um sinal de que os velhos tempos estavam ficando para trás. A coroação de Carlisle veio como a cereja do bolo.

Procurávamos não flertar com nenhum dos lados. Tínhamos nossas próprias ideias sobre como queríamos governar o país enquanto a bola estivesse em nossas mãos. Porém, tudo o que fazíamos era interpretado como um sinal de que apoiávamos algum grupo. Não dávamos cabimento a essas infantilidades. Já não éramos pais de crianças havia muito tempo e tínhamos coisas piores com que nos preocupar. Ainda assim, era cansativo tentar manter tudo em equilíbrio, de forma que não houvesse dúvida de que, em hipótese alguma, poderíamos tomar partido.

A guerra no Iraque colocou tudo por água abaixo. Desde o momento em que os britânicos pediram o nosso apoio, o Parlamento entrou em ebulição. O grupo conservador defendia que precisávamos estar ao lado das principais potências do mundo, que não podíamos ficar de fora do que afirmavam ser o "conflito do século".

O partido trabalhista falava sobre o quanto aquilo nos custaria financeiramente. Especialmente porque o nosso povo não poderia pagar a conta de outra nação. Carlisle e eu pensávamos nas vidas que seriam perdidas, além das que já estavam sendo.

Cresci acreditando que usar a violência em nome do poder era uma perda de tempo. As guerras sempre tiveram motivos estúpidos; eram o símbolo da ambição, de tudo o que havia de pior. Eu ficava pensando: "será que nunca aprenderíamos a lição?". Depois de anos de vivência, hoje sei que não.

Lembro-me especialmente de Carlisle vivendo um dilema infindável. Estava extremamente preocupado, não dormia direito, entrava e saía de reuniões. Eu apenas dizia para ele permanecer firme e continuar negando. Para mim, a resposta jamais seria "sim". Mas Carlisle tinha a necessidade de agradar ao maior número possível de pessoas. Era conciliador demais para um governante. Erro de principiante.

Enfim, acabamos apoiando as decisões do primeiro-ministro da época, que, inclusive, muitas vezes era sensato. O fato é que realmente não conseguimos agradar a todos. Muitos teceram críticas, e eu apenas dizia a Carlisle que não poderíamos apoiar conflitos armados que custariam tantas vidas.

O problema era que a guerra no Iraque estava se tornando uma questão de honra. Todos resolveram se voltar contra os islâmicos por causa de um grupo radical. Mas é sempre assim: quando as pessoas tomam partido de alguma coisa, a raiva entra em cena, e as ações tornam-se cada vez mais violentas.

Eu também temia por Emmett. Não vou mentir nem esconder que, muitas vezes, meus pensamentos eram egoístas. Como mãe, eu tremia só de pensar que, se entrássemos na guerra, estaríamos jogando nosso filho naquele conflito também. Eu queria impedir, a qualquer custo, que isso se tornasse uma possibilidade. Mais uma vez, lutava contra a maré.

Eu sabia que ele seria um excelente soldado. Tinha vocação para isso, embora me doesse o estômago admitir. Sabe como é? Eu queria o filho que idealizei desde o momento em que a possibilidade de formar uma família se tornou realidade. O filho que sonhei não usava drogas, não fazia escândalos nem se tornava um soldado.

Mas eu precisava admitir que, mesmo não sendo a realidade que eu desejava para ele, Emmett vinha se destacando. Estava limpo e mais responsável. O Exército estava conseguindo fazer o que Carlisle e eu não conseguimos durante anos, e isso era bom.

Embora nosso relacionamento estivesse frágil como uma fina folha de papel. Desde que meu marido lhe deu permissão para seguir a carreira militar, Emmett vinha se distanciando e, de certa forma, nós também. Estávamos felizes por ele estar bem e respirando, mas temíamos que a bomba estourasse a qualquer momento. Havíamos criado traumas demais nos últimos anos para esperar algo bom.

Na verdade, foi no momento em que descobrimos que Emmett estava em "más companhias" que nossa convivência começou a ficar cada vez mais difícil.

Quando entrou para o Exército, víamo-nos muito pouco. Primeiro eram dois fins de semana por mês; depois, apenas quinze dias durante as férias e nas datas importantes. Mesmo em casa, mantinha uma rotina de treinos, fosse correndo ou fazendo exercícios aeróbicos. Estava mais controlado, e pouco víamos daquele menino piadista de antes. Eu imaginava que o quartel tirava a cor das pessoas.

Mas era como Carlisle dizia:

— Pelo menos ele não está envolvido em problemas.

Mas não podíamos manter os problemas afastados para sempre, não é? Tentamos adiar pelo máximo de tempo possível os pedidos britânicos por reforços. Carlisle temia dar uma negativa definitiva. Tínhamos importantes relações históricas e comerciais. Portanto, não era apenas um "não" delicado. Aos poucos, fomos sendo pressionados cada vez mais, até que não tivemos como continuar recusando. Era como remar contra a correnteza ou tentar sair de um beco sem saída.

Mandamos nossos rapazes, com muita dor, para o Iraque. Eu acompanhava o número de jovens belgãos mortos no exterior com enorme pesar. Nunca escondi o fato de que acho, e sempre achei, que toda guerra é uma forma de morrer por nada.

Era angustiante ouvir que muitos deles partiam com entusiasmo, alimentados pela falsa ideia de que haveria glória em participar de um conflito daquela dimensão. Eu queria gritar e dizer que normalizar a violência como solução gera muito mais sofrimento do que progresso. No final, a morte e a destruição não levam a um objetivo definitivo para a maioria das pessoas.

Mas permaneci calada. Eu não podia abrir a boca para opinar sobre nada. Foi assim que vi meu filho crescer, patente após patente, com um nó na garganta.

Mais uma vez, não conversamos. Não sei se uma conversa séria teria resolvido alguma coisa, mas lamento que tantas palavras importantes nunca tenham sido ditas. Nem sequer pudemos nos despedir quando ele foi convocado. Soube por meio de um telegrama repleto de códigos que poderíamos perder Emmett a qualquer momento.

Foram alguns anos longe do meu primogênito, mas pareceram séculos. De repente, eu me lembrava das histórias de guerra do meu pai. Entrava em desespero. Rezava todos os dias. E sentia que perdia Emmett mais uma vez.

Cheguei a imaginar que o destino queria nos manter afastados de alguma forma. "Esse menino parece que quer se matar a qualquer custo", ouvi alguém dizer pelos corredores. E, por alguns instantes, eu concordava. Demorei anos para entender que não.

Emmett, na verdade, fazia parte do que o escritor Moacyr Scliar chamava de o homem de um exército só. Sua guerra não era ideológica, nem pretendia demonstrar o poder de sua nação. Era, sim, uma batalha contra si mesmo. Uma busca por sua própria autenticidade diante do que considerava superficial. Um encontro consigo mesmo ou com um propósito.

Penso também na ironia de tudo isso. Emmett era apenas um menino perdido. Justamente ele, que teve a vida inteira traçada no momento em que foi concebido. Esse propósito que lhe foi imposto tornou-se algo tão pesado e desagradável que lutar contra as regras lhe pareceu a atitude correta.

Entretanto, ao final da guerra, ele perdeu a si mesmo. Perdeu de vista o que realmente queria para a própria vida. Acho que, por muito tempo, nunca soube. O Iraque era apenas uma forma de provar algo para si mesmo.

Enquanto isso, Carlisle empenhava-se em encerrar o acordo com a Inglaterra e trazer nossos rapazes de volta. Não foi fácil. Havia muitas ideias contrárias. Quando conseguíamos convencer alguns deputados, parecia que estávamos vencendo algumas batalhas. Então, eles simplesmente tiravam o corpo fora. Ora! O importante era vencer. Não importava quem estava morrendo.

Traduzindo, foram quase quatro anos de tortura, de mais erros do que acertos. Carlisle e eu aprendemos muito nesse meio tempo, principalmente que, muitas vezes, não estávamos no controle. Tínhamos que sorrir, mesmo quando estávamos morrendo de preocupação. Calávamos quando queríamos gritar ou brigar. Persistíamos, mesmo quando amanhecíamos querendo desistir. Então, um tiro acabou com tudo.

Recebíamos poucas notícias de Emmett. Algumas cartas esporádicas ou poucos minutos de ligações. Farejávamos por atualizações sobre seus passos por meio daqueles que estavam ao seu redor. O que ouvíamos, na maioria das vezes, eram elogios: "Ele é um ótimo líder!", "Está tudo sob controle.". Aquilo era um sinal para nós de que ele voltaria vivo. Não nos importávamos como ele estaria quando o tivéssemos novamente diante dos nossos olhos. Se encontraríamos um homem maduro ou o menino alegre que conhecíamos antes. Talvez fosse apenas aquele soldado treinado para obedecer disciplinadamente.

Mas jamais imaginamos que o receberíamos quebrado. Quer dizer, Emmett já estava quebrado havia muito tempo. Agora, porém, era pior. Estava quebrado física e psicologicamente.

Recebemos, certo dia, uma ligação. Lembro-me vagamente daquele momento. Acho que meu cérebro fez o favor de apagar boa parte daquela dor.

A voz do outro lado da linha foi curta e grossa:

— Emmett está muito ferido. Foi levado com urgência para o hospital mais capacitado da região. A vida dele está por um fio.

Não sei explicar, sinceramente, o que aconteceu comigo naquele instante. Procuro na memória o que senti. O que fizemos. Só me recordo de que não podíamos revelar que ele estava em combate. Se fôssemos até ele, poderíamos expor o segredo, ou algo do tipo.

Passei a contar os minutos em desespero. Rezava a todo instante. Não me lembro de chorar, nem de quanto tempo demorou até que pudéssemos vê-lo.

A única coisa de que nunca me esquecerei foi da felicidade imensa de poder tocá-lo. De ouvir as máquinas emitindo seus sons e anunciando que ele estava vivo. O que realmente aconteceu? Ele foi vítima de uma guerra estúpida. Voltou com o corpo alvejado.

Alguns tiros atingiram seu corpo superficialmente; um deles, porém, acertou um órgão importante. Foi preciso muito esforço para mantê-lo vivo.

Sou profundamente grata à equipe médica que cuidou dele. Tanto no Oriente Médio quanto na Suécia. Especialmente às enfermeiras bondosas, que compreendiam que eu não conseguia sair de perto do meu filho. Algumas rezavam comigo. Outras tentavam me acalmar à sua maneira.

No fim, tudo deu certo. Mas as sequelas ficaram. Eu sei que sim. Para Emmett. Para nossa família. Para o país e para tantos outros que estiveram envolvidos em um conflito que não levou a lugar nenhum.

Meu filho, naquela época, chegou a confessar que era o soldado mais capacitado para estar ali, mas, ao mesmo tempo, era o indivíduo mais incapaz de lutar. Por quê? Porque tanto faz ser culpado ou ser competente. Nada faz sentido quando o propósito final não leva a lugar algum.

Hoje, tantos anos depois, já no fim da minha vida, não tenho medo de dizer muitas coisas sobre o passado. A quem ler este livro, deixo apenas uma certeza: A violência nunca é a solução.

As guerras existem para que os poderosos se tornem ainda mais poderosos, demonstrando sua força à custa da vida de inúmeras pessoas inocentes. O que mais posso dizer a respeito disso? Construa sua própria consciência em vez de seguir cegamente os padrões sociais que lhe são impostos.

Ideologias, quando passam a retirar a liberdade das pessoas e sua capacidade de viver plenamente, acabam se tornando apenas mais um conto da carochinha no qual querem que você acredite.

Quanto ao exército de um homem só... Tenho certeza de que ele aprendeu a lição.