Dinastia 3: A Rainha de Copas
34 Capítulo 34
Era mais um domingo ensolarado. William se perguntava quando o clima ameno do outono belgão finalmente daria as caras. Correr atrás da pequena filha certamente não ajudava a tornar o calor menos desagradável. Ainda assim, ele jamais trocaria o sorriso alegre da menina de cabelos cacheados por qualquer outra coisa. Estar com Bebela era a sua razão de viver.
Mais tarde, conseguiu fazê-la sentar-se em seu colo. Enquanto observavam o belo jardim do Palácio de Belgravia, inventava histórias inspiradas na paisagem para entretê-la. Precisava admitir que a menina era uma excelente ouvinte, embora, vez ou outra, fizesse questão de dar seus próprios "pitacos" na narrativa.
Mais ao fundo, Renesme conversava com a rainha-mãe diante da entrada do Museu Real. As duas organizavam os últimos detalhes da exposição sobre a vida de Esme, que seria inaugurada na semana de seu aniversário.
Mesmo já entrando estágio final de sua gestação, sua esposa não conseguia ficar parada. William imaginava que Bebela havia herdado aquela disposição da mãe.
Esperava que, um dia, as duas se tornassem rainhas fortes, capazes de escrever a própria história. Era o que desejava depois de conhecer toda a trajetória turbulenta da Dinastia Cullen, embora soubesse que esse seria um enorme desafio diante dos ciclos que pareciam se repetir dentro da monarquia belgã.
— Alguém está com a bateria esgotada.
William virou-se e viu o rei, seu sogro, acomodar-se ao seu lado. Sentiu a velha insegurança surgir. Poucas pessoas ainda conseguiam provocar aquela sensação. Era aquele sentimento quase instintivo que muitos homens experimentam diante do pai da mulher que amam. Por mais irracional que fosse, parecia existir desde sempre.
— Do jeito que ela correu e brincou, era esperado que o corpinho pedisse descanso. Mas tenho certeza de que a cabecinha dela continua funcionando a todo vapor.
Edward sorriu discretamente.
— Geminiana...
William riu.
— Pensei que o senhor fosse do tipo que não acreditava em signos.
— Sou do tipo que não duvida de nada.
O jornalista apenas sorriu e voltou a observar a filha adormecida. Na verdade, ainda tinha certo receio de conversar com o homem sentado ao seu lado. Edward jamais demonstrara desgostar dele propriamente. Era grato pela ajuda na investigação da morte de Bella. Mas William sempre tivera a impressão de que o rei jamais aceitara completamente seu relacionamento com Renesme. Os dois nunca haviam parado para conversar de verdade.
Às vezes, William tinha vontade de colocar tudo em pratos limpos. Afinal, era casado com a princesa havia quase dois anos. Era pai dos dois netos do rei. Mas sempre acabava deixando o assunto em banho-maria.
— Bella costumava dizer que todo geminiano convive com duas almas brigando dentro do mesmo corpo. No meu caso, ela dizia que uma delas tinha fugido para aproveitar a vida. — Edward sorriu, nostálgico.
— Nem sempre precisamos corresponder ao que os astros esperam de nós.
— Pois é... Espero que nossa Bebela saiba aproveitar muito bem os dois lados dela.
— Também espero.
O silêncio voltou a se instalar entre os dois. William ainda estranhava o fato de Edward ter tomado a iniciativa de procurá-lo. Sabia que o rei vinha adiando, de propósito, a entrevista para a biografia de Esme. William respeitava esse tempo. Pela breve conversa que já haviam tido, entendia que aquela não seria uma entrevista fácil. Depois de alguns instantes, resolveu quebrar o silêncio.
— Acho que o senhor nunca encontrou esse outro geminiano dentro de si.
Edward arqueou levemente as sobrancelhas.
— É mesmo?
— Acho que não. Se me permite dizer, seu medo do mundo foi silenciando essa outra voz até ela quase desaparecer. Mas, às vezes, é importante permitir-se viver um pouco mais.
Edward olhou para o genro e sorriu. Era exatamente o tipo de coisa que Bella costumava lhe dizer. Se ela ainda estivesse ali, certamente concordaria com William. Na verdade, talvez os dois sempre tivessem se dado muito bem.
— Para falar a verdade, não me lembro de uma fase da minha vida em que eu não tivesse medo de alguma coisa. Sempre existia uma voz dizendo: "Cuidado, você vai cair." Ou então: "Não fale isso, vai desagradar alguém." "Seja assim.", "Seja assado."
Deu uma pequena risada.
— É cansativo.
— Imagino.
— Muito mais do que parece.
William permaneceu alguns segundos pensativo.
— Às vezes fico imaginando em que momento as vozes das pessoas deixam de ser apenas vozes e passam a ser a nossa própria consciência.
Edward refletiu.
— Nunca tinha pensado nisso.
— Não sou psicólogo, mas acredito que a forma como somos criados influencia muito mais do que imaginamos.
— Também acho.
Fez uma pausa antes de continuar.
— Morria de medo de que Renesme passasse pelo mesmo que eu. Quando ela era criança, percebia o quanto era tímida e pensava: "Meu Deus! A história não pode se repetir."
Sorriu ao olhar para a filha ao longe.
— Ainda bem que ela conseguiu se encontrar.
— Tenho certeza de que sim. Mas, antes disso, Renesme precisou enfrentar muitas dificuldades para descobrir que não existe ninguém mais poderoso do que ela mesma.
— É verdade...
Edward permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois voltou a falar.
— Acho que ela também teve muita ajuda sua.
William sorriu.
— Não. Renesme já nasceu pronta. Só demorou um pouco para perceber isso.
Os dois voltaram a olhar para a princesa. Ela gesticulava animadamente enquanto explicava algo para Esme e, de vez em quando, acariciava a barriga, como se conversasse com o bebê que ainda estava por nascer. William sentia-se o homem mais sortudo do mundo por vê-la ali, carregando mais um filho deles.
Já Edward apenas contemplava, orgulhoso, a mulher forte em que sua filha havia se transformado.
— Eu sei que não começamos com o pé direito... — disse o rei.
William voltou-se para ele, surpreso.
— Acho que nunca tivemos uma conversa de verdade.
— Não tivemos. Mas eu sempre compreendi o senhor. Achei que eu não fosse exatamente o homem que imaginava para sua filha.
Edward soltou uma breve risada.
— Ah, não! Nunca foi isso. Se eu impedisse minha filha de se casar com quem ama, estaria negando toda a minha história e também a do meu pai. Ver vocês felizes me deixa muito tranquilo. E, claro, vocês ainda me deram dois netos maravilhosos.
William sorriu.
— Então, qual era o problema?
O rei respirou fundo.
— Quando Renesme foi obrigada a se casar com Alec, eu não consegui protegê-la. Aquilo doeu tanto em mim quanto nela. Era impossível não lembrar da época em que também fui empurrado para um destino que nunca escolhi.
— A sucessão ao trono.
— Exatamente. Assim como aconteceu comigo, também não havia saída para ela. O Parlamento queria que eu fosse rei. E queria que Renesme se casasse com o príncipe de Volterra. Por isso, tive medo de que ela estivesse se agarrando a você apenas como uma forma desesperada de fugir daquele destino.
William balançou a cabeça.
— Não foi isso que aconteceu, senhor. Renesme e eu construímos nossa relação antes mesmo de pensarmos em qualquer envolvimento amoroso. Acho que fomos bastante responsáveis, mesmo com todos os caminhos tortuosos que a vida colocou diante de nós.
Edward assentiu lentamente.
— Eu sei. E vocês se amam. Isso é evidente. Mas o mundo lá fora é cruel. Eu sabia que as pessoas falariam. Não queria vê-la sofrer mais do que já havia sofrido.
— Então minha presença ainda o fazia lembrar daqueles julgamentos?
O rei sorriu de lado.
— Acho que sim. Era uma forma meio torta de tentar protegê-la. Mas quero apagar isso de vez. Você ama minha filha. É um excelente pai. E sei que é exatamente o homem de quem Renesme precisava.
William apenas sorriu. Agora conseguia compreendê-lo muito melhor. Pensou em Katlyn. Talvez, quando ela apresentasse o primeiro namorado, ele também sentisse aquele mesmo impulso de protegê-la. Por enquanto, porém, sua filha ainda apenas começava a descobrir o interesse pelos garotos. Ainda havia tempo. Respirou fundo. Cada fase chegaria no momento certo.
O domingo prosseguiu tranquilamente no Palácio de Belgravia. Sempre que possível, Esme e Edward faziam questão de reunir toda a família para o almoço.
Naquele ambiente, Edward encontrava uma paz que há muitos anos acreditava ter perdido. Enquanto alimentava a neta, era tomado por uma profunda nostalgia. Bella sempre sonhara com uma família unida.
Os dois haviam construído seu próprio refúgio depois de tantos anos tentando encontrar um lugar onde realmente fossem aceitos. No fim das contas, descobriram que não precisavam de muitas pessoas. Bastavam eles quatro. Ali Já tinham tudo de que precisavam.
Depois que Bella se foi, tudo aquilo foi interrompido de forma brutal. Seus filhos deixaram de falar com ele e, de certa maneira, Edward compreendia o motivo. Bella não recebera a proteção que merecia. Foi ele quem a colocara naquele mundo cruel.
Então Bebela nasceu e mostrou a todos que, com o tempo e muito amor, até as feridas mais profundas podem começar a cicatrizar.
Agora Anthony estava ali ao seu lado, sorrindo. Pedia-lhe sugestões de composições para alguns artistas e Edward já sabia que passaria parte da noite tentando ajudá-lo a encontrar a letra perfeita. Gostava de ver o filho prosperando na gravadora de Jasper. Ali, Tony podia colocar seu talento artístico em prática sem o peso constante da vida na realeza.
Também lhe agradava vê-lo ao lado de Ashley. Os dois possuíam algo que ia muito além da química que um dia existira entre ele e Bella. Pareciam duas peças de um mesmo quebra-cabeça. Eram amigos, parceiros e companheiros de aventuras.
Edward sabia que ambos ainda eram jovens e imaturos. Nem sempre levavam a vida tão a sério quanto deveriam. Mas talvez fosse justamente isso que tornasse a relação deles tão bonita. Juntos, transformavam qualquer dia comum em uma nova descoberta. Ver o filho feliz também o fazia feliz.
Mais tarde, todos se deixavam envolver pela voz de Anthony e pelos acordes suaves de seu violão. Bebela havia adormecido outra vez, permitindo que seus pais finalmente descansassem um pouco.
William apreciava aqueles raros momentos de tranquilidade ao lado da esposa. Com uma das mãos, acariciava seus cabelos. Com a outra, percorria lentamente a barriga já bastante arredondada de Renesme. O bebê parecia calmo. Assim como a própria mãe, que quase cochilava encostada em seu ombro. Sem conseguir resistir, William beijou-lhe os cabelos.
— Acho melhor subirmos e descansarmos um pouco antes de pegarmos a estrada para casa. — sussurrou.
Lauranne apenas assentiu. Ele segurou sua mão e a ajudou a levantar.
Edward observava a cena à distância. Quando os dois já se afastavam, aproximou-se.
— Vocês não vão embora agora, vão?
— Não, papai. Vamos apenas descansar um pouco lá em cima. O senhor sabe... Grávidas não costumam ter uma bateria muito duradoura.
O rei sorriu.
— Eu sei. Vá descansar, querida.
Os dois voltaram a caminhar. Mas Edward tornou a chamá-los.
— William...
O jornalista voltou-se imediatamente.
— O senhor se importa se fizermos aquela entrevista agora?
William sorriu, surpreso.
— De forma alguma.
Renesme retribuiu o sorriso e seguiu sozinha para o quarto que sempre ocupava quando estava em Belgravia.
William acompanhou o sogro até uma pequena sala ao lado. O convite o pegara completamente de surpresa. Mas aprendera, ao longo da carreira, que um bom jornalista precisa estar preparado para qualquer oportunidade. Ainda mais quando se tratava de Edward, que raramente demonstrava disposição para revisitar o passado. Não podia desperdiçar aquele momento.
Assim que os dois se acomodaram, o rei rompeu o silêncio.
— Emmett comentou que suas entrevistas parecem sessões de terapia.
William riu discretamente.
— Confesso que essa nunca foi a intenção. Mas procuro extrair de cada um tudo o que pode me oferecer. Assim, as memórias da sua mãe ganham novas camadas e a história fica mais completa.
— Estou curioso para saber onde isso vai dar.
— Acho que muita gente vai se surpreender.
Edward apenas concordou com um leve movimento de cabeça. Permaneceu alguns instantes em silêncio. William também esperou. Já aprendera que conversar com o sogro exigia paciência. Tudo acontecia no tempo dele. Então, finalmente, Edward perguntou:
— O que exatamente você quer saber de mim?
— Não vou perguntar sobre os acontecimentos que antecederam a abdicação do seu irmão. Na nossa última conversa, o senhor já me deu pistas importantes.
Edward fez um discreto gesto afirmativo.
— Não há muito mais a dizer. Eu apenas tentava sobreviver.
— Então é assim que enxerga a vida? Como uma sucessão de dias em que o objetivo principal é sobreviver?
Edward passou a mão pelos cabelos.
— Acho que sim... Era como se, todos os dias, alguém me lembrasse que eu não pertencia àquele lugar. Era uma sensação constante de desconforto.
— Por quê?
— Acho que tudo começou quando percebi as expectativas das pessoas ao meu redor. Nunca gostei de multidões. Eu só queria ficar com meus pais e meus irmãos no meu pequeno mundo seguro. Nunca sabia o que dizer quando havia muitas pessoas por perto. As câmeras me assustavam.
Sorriu sem graça.
— Acho que você não vai conseguir entender isso.
William respondeu imediatamente.
— Eu não preciso entender. Isto aqui não é um julgamento. É apenas a sua história.
Edward assentiu.
— Eu sei. Só estou tentando montar o cenário.
— E está conseguindo. Na verdade, fico feliz por confiar isso a mim. Imagino que poucas pessoas tenham conhecido quem o senhor realmente é.
O rei sorriu com melancolia.
— Pouquíssimas. Talvez apenas Bella... E minha família. Quando percebi que ser príncipe exigia uma exposição muito maior do que eu suportava, comecei a esconder minhas dificuldades. Enquanto Emmett ocupava todas as manchetes, eu vivia tranquilo. Podia fazer planos. Podia fugir dos compromissos oficiais. Achava que, sendo o segundo da linha sucessória, e depois o quinto, teria uma vida relativamente livre.
— E quando o foco passou para o senhor?
Edward soltou uma breve risada.
— Foi constrangedor. Eu era o garoto dos caramujos.
William franziu a testa.
— O garoto que vivia escondido dentro da concha?
Edward sorriu.
— Não exatamente. Quando eu tinha uns onze ou doze anos, via alguns meninos pegarem caramujos e jogá-los contra os muros só para quebrar suas conchas. Aquilo me deixava profundamente triste. Então eu passava recolhendo os que ainda estavam vivos para protegê-los.
William sorriu.
— Era um gesto bonito. Não esperava menos do senhor. Se me permite dizer, sua mãe sempre fala da sua sensibilidade.
Edward voltou os olhos para a janela. Do lado de fora, turistas fotografavam continuamente a fachada do Palácio. Nunca havia um único dia sem câmeras apontadas para aquele lugar.
Depois de alguns segundos, murmurou:
— Talvez eu também fosse um daqueles caramujos. Só que ninguém apareceu para me proteger quando eu precisei.
William percebeu seus olhos marejarem. Sentiu um aperto imediato no peito. Dias antes, Esme lhe contara sobre a depressão do filho e sobre sua tentativa de suicídio. Aquelas lembranças voltaram imediatamente.
"— Tudo começou com o isolamento. — Esme lhe dissera. — Achávamos que ele precisava apenas de tempo para entender o novo papel que teria depois da abdicação. Pensávamos que fosse uma reação normal.
William perguntara:
— E vocês conversaram com ele?
Esme encolhera os ombros. Mais um gesto carregado de culpa.
— Conversamos, sim. Carlisle e eu tentamos explicar tudo o que havia acontecido. Mas acho que, quando chegamos até ele, a imprensa já tinha contado essa história muito antes de nós. Toda aquela abdicação foi transformada em espetáculo.".
William voltou ao presente. Tentava imaginar como um garoto de apenas quinze anos poderia compreender que o irmão, até então seu maior exemplo, havia mergulhado no vício. Assistir àquela queda dia após dia devia ter sido devastador.
— Imagino que descobrir que seria rei tenha sido a pior notícia da sua vida.
Edward respirou fundo.
— Foi. Demorei muito para acreditar. Embora hoje perceba que tudo caminhava naquela direção.
— Nunca desconfiou da preferência dos seus avós pelo senhor?
— Meu avô gostava muito da minha companhia e eu também gostava da dele. Ele me contava histórias. Eu podia passar horas ouvindo. Mas nunca interpretei aquilo como um sinal. Meu pai, apesar da juventude rebelde, jamais teria coragem de romper uma tradição centenária. Se isso aconteceu, foi porque as circunstâncias o obrigaram.
— Emmett comentou que essa proximidade entre o senhor e seu pai o intimidava.
Edward sorriu.
— É mesmo? Não havia motivo. Ele sempre foi o preferido de todos. Inclusive meu. Era meu exemplo. Na verdade, ele fazia comigo o mesmo que eu fazia com os caramujos. Protegia-me.
William assentiu.
— Deve ter sido difícil quando começaram a compará-lo ao seu irmão nas revistas.
Edward corou discretamente.
— Foi muito constrangedor. Imagine aparecer em uma revista masculina aos quatorze anos. Os meninos da escola começaram a desenhar órgãos genitais em todos os meus cadernos por causa daquela reportagem. Eu não sabia nem como reagir. Nem o personagem popular que eu tentava interpretar conseguia sobreviver àquilo. Imagine se descobrissem que eu sequer tinha transado ainda.
William sorriu discretamente. Edward continuou:
— Eu simplesmente não entendia por que estavam fazendo aquilo comigo. Eu estava tão bem no meu canto...
— E quebraram sua concha.
O rei assentiu.
— Completamente. Naquela época, eu finalmente acreditava que as pessoas tinham começado a gostar de mim. Entrar para o time da escola me deu uma popularidade inesperada. Achei que tinha descoberto a fórmula para que todos me deixassem em paz.
William inclinou-se um pouco para a frente.
— Posso arriscar uma interpretação?
Edward sorriu.
— Claro.
— Talvez as capas de revista tenham servido para consolidar justamente esse personagem que o senhor criou para sobreviver.
Edward caiu na gargalhada. William, mais uma vez, foi surpreendido. Nunca sabia o que esperar daquele homem.
— Você lê muito bem as pessoas.
William sorriu.
— Foi assim que ganhei a vida todos esses anos.
— Excelente. Já lhe disse que Bella teria adorado conviver com você?
— Na verdade, nós nos encontramos uma vez.
Edward ergueu as sobrancelhas.
— Sério? Eu não sabia. Foi nessa época da parceria com Bono?
— Mais ou menos. Foi apenas um encontro. Mas bastou para que eu gostasse muito dela.
— Bella era muito especial! Assim como você, tinha uma enorme sensibilidade para compreender as pessoas e as situações ao seu redor. Tenho certeza de que vocês teriam sido grandes parceiros.
William sorriu.
— Teria sido um privilégio conviver mais com ela. Mas me diga, era isso que Bella representava para o senhor? Alguém que realmente conseguiu compreendê-lo?
Edward permaneceu alguns segundos em silêncio.
— A princípio, sim.
Sorriu discretamente ao mergulhar nas lembranças.
— Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que a vi. Era tão bonita e tão diferente de todas as outras pessoas que eu conhecia. Mexeu comigo imediatamente.
Fez uma breve pausa.
— Bella tinha uma capacidade rara de enxergar aquilo que quase ninguém conseguia ver. Para ela, eu nunca fui uma aberração.
De repente, Edward voltou àquela manhã de fevereiro de 2010. Era o início de mais um semestre na universidade. Não esperava que nada extraordinário acontecesse. Todos os começos de semestre pareciam iguais.
A única diferença era que, por estar próximo da conclusão do curso, finalmente podia escolher algumas disciplinas eletivas que realmente despertavam seu interesse, em vez de limitar-se às matérias ligadas à Administração Pública.
Na verdade, grande parte do curso o entediava. Às vezes imaginava como seria sua vida caso pudesse desistir de tudo Quem seria Edward se tivesse liberdade para escolher? Só de pensar nessa possibilidade, sentia uma estranha empolgação. Seria médico? Gostava de cuidar das pessoas. Fascinava-se pelo funcionamento do corpo humano. Ou talvez músico. A música sempre fora seu refúgio. Será que conseguiria viver dela? Jamais descobriria. Nascera príncipe. E essa parecia ser a única profissão que o destino lhe permitia exercer.
Desviou os olhos da ementa da disciplina de Literatura Regional, sua próxima aula depois do intervalo, e observou o movimento no refeitório. Como sempre, o lugar estava lotado. Havia muitos rostos novos. Calouros.
Edward sorriu consigo mesmo. Todos pareciam empolgados. Ainda não faziam ideia do peso que a universidade lhes imporia dali a alguns meses. Achou o pensamento um pouco amargo demais. Afastou-o.
Continuou observando o ambiente até que um rosto chamou sua atenção. Era uma jovem bonita. Mas o que realmente lhe despertou interesse foi a expressão. Mesmo cercada de pessoas, parecia deslocada. Como se não pertencesse àquele grupo. Edward conhecia muito bem aquela sensação. Desejou, em silêncio, que ela encontrasse seu lugar.
Pouco depois, o sinal anunciou o fim do intervalo. Ele caminhou até a sala de aula, distraindo-se com o novo livro de Joseph Mathews, um de seus grandes amigos escritores. Pensava que precisava visitá-lo em breve quando alguém interrompeu seus pensamentos.
Ergueu os olhos. Encontrou dois intensos olhos verdes. Era a garota do refeitório. Sentiu um frio inesperado percorrer o estômago. De perto ela era ainda mais bonita.
Naquele instante, não fazia ideia de que aquela jovem, responsável por fazê-lo perder completamente o rumo dos pensamentos, um dia se tornaria sua esposa. A mãe de seus filhos. A mulher que inspiraria um país inteiro. Muito menos imaginava que ela jamais sonhara em viver ao lado de um príncipe.
— E quando o senhor começou a sentir que era uma aberração? — perguntou William, trazendo-o de volta ao presente.
Edward respirou profundamente.
— Nascer dentro da realeza já faz de qualquer um uma aberração.
Sorriu sem humor.
— Mas a situação piora quando toda a atenção do mundo passa a ser direcionada para você. Quando comecei a aparecer constantemente na mídia, minha vida virou um verdadeiro inferno.
Sua voz ficou mais baixa.
— Os paparazzi me perseguiam como loucos. Todos os dias surgiam histórias novas a meu respeito, e muitas delas eram completamente falsas.
Fez uma pausa.
— Eu sabia o que Emmett estava enfrentando. Ele me contava o quanto era difícil. Mas só compreendi de verdade o que significa perder a paz quando aconteceu comigo.
William apenas assentiu.
— Imagino...
Então viu o homem à sua frente desmoronar. Ali não estava o rei. Nem o símbolo da monarquia. Nem a figura pública admirada por milhares de pessoas. Estava apenas um homem profundamente ferido.
Edward voltou a mergulhar nas próprias lembranças. Recordava-se do desespero que sentia cada vez que surgia uma nova reportagem a seu respeito. Queria desmentir tudo. Mas não podia.
Os flashes dos fotógrafos lhe provocavam uma sensação quase claustrofóbica. Sentia como se roubassem pedaços de sua identidade sempre que uma câmera era apontada em sua direção.
Então passou a evitar sair. Seu quarto tornou-se um abrigo. A escola, um esconderijo. Na verdade... Seu maior desejo era simplesmente desaparecer. Dessa forma, aqueles homens deixassem de persegui-lo. Talvez, assim, ele deixasse de ser um erro.
— Majestade, podemos parar por aqui, se o senhor preferir. — William tentou interromper.
Edward pareceu não ouvi-lo. Continuou falando.
— Era como se enfiassem um cano pela minha garganta.
William estremeceu.
— Todos os sonhos que eu alimentava desapareceram no instante em que ouvi, por acaso, que Emmett iria abdicar. Aquilo me destruiu. Tudo em que eu acreditava deixou de existir. Vi pessoas que amava se afastarem porque não suportavam a pressão E o que sobrou para mim? Apenas a desilusão.
Edward jamais esqueceria o instante em que seus pais lhe disseram que a abdicação de Emmett era definitiva. Lembrava-se do vazio. Como se sua mente simplesmente tivesse apagado. Não conseguia sequer imaginar como assumiria um destino que sempre pertencera ao irmão.
William conseguia visualizar perfeitamente aquele momento. Era como uma pane completa no sistema da monarquia. Uma tela azul.
Dias antes, ouvira Esme relatar os mesmos acontecimentos. Agora compreendia que pais e filhos haviam vivido exatamente a mesma tragédia... Mas em mundos completamente diferentes.
— Imagino que descobrir que seria rei tenha sido a pior notícia da sua vida.
Edward assentiu.
— Foi. Demorei muito para acreditar. Hoje percebo que tudo caminhava naquela direção. Mas, naquele momento... Parecia impossível.
William permaneceu em silêncio. Edward respirou fundo antes de continuar.
— A cereja do bolo foi quando minha namorada terminou comigo.
Sorriu, mas havia apenas tristeza naquele sorriso.
— Eu a amava. Ela esteve ao meu lado durante quatro anos. Acompanhou tudo o que aconteceu comigo. Mas não suportou.
E como poderia? Os paparazzi passaram a persegui-la como urubus. Inventavam histórias, invadiam sua privacidade. Se nem eu suportava aquela vida... Como poderia exigir que ela suportasse?
William respondeu com delicadeza.
— Não era para ter sido assim, majestade.
Edward ergueu os olhos, surpreso.
— Quando nos envolvemos com uma pessoa pública, sabemos que, de alguma forma, também nos tornaremos públicos. Não estou dizendo que isso seja justo. Porque não é. Mas essa é a realidade. Ainda assim.. Quando amamos alguém de verdade, fazemos o possível para permanecer ao lado dela. Foi isso que fiz por Renesme. E foi exatamente isso que Bella fez pelo senhor.
Edward baixou a cabeça.
— Eu sei. E, justamente por saber disso, tinha medo de que você também não suportasse. Conheço a crueldade da imprensa e das pessoas. Sabia que iriam julgá-lo pelo seu passado. Ou simplesmente por não corresponder às expectativas delas. Jamais quis que minha filha sofresse o que eu sofri.
William sorriu.
— Eu nunca desistiria dela. Só me afastaria se fosse um desejo dela.
Edward retribuiu o sorriso.
— Fico muito feliz por vocês terem encontrado a felicidade apesar de tudo. De verdade.
William permaneceu alguns segundos refletindo antes de responder.
— Então permita-me dizer uma última coisa. Esses acontecimentos precisam permanecer onde pertencem. No passado. O senhor não é culpado por tudo o que aconteceu. Assim como seus pais também não são os únicos responsáveis. A vida é muito mais complicada do que gostaríamos. Às vezes seguimos caminhos tortuosos. O importante é impedir que esses erros continuem governando o presente.
Edward respirou profundamente.
— É exatamente isso que tento fazer há muitos anos. Passei meses tentando entender por que minha mãe fez tudo aquilo. Por que Emmett mergulhou nas drogas daquela forma. Mas a única coisa que eu conseguia sentir era dor. Por isso tentei acabar com ela. Se sobrevivi.. Talvez fosse porque ainda havia algo que eu precisava viver.
— Exatamente. Sua mãe me contou sobre seu período de depressão. Sinto muito que tenha passado por tudo isso.
Edward sorriu com serenidade.
— Eu também.
Acho que nunca fiquei completamente bem. Na verdade... Ainda estou aprendendo a sobreviver. Mas Bella me ensinou tanta coisa através do trabalho dela no Talk.Seria egoísmo da minha parte não tentar transformar essa dor em alguma forma de ajuda para outras pessoas. Acho que é isso que venho tentando fazer. Ressignificar.
William sentiu um arrepio percorrer o corpo. Naquele instante compreendeu por que escrever aquele livro estava sendo tão transformador. Não estava entrevistando reis. Nem rainhas. Nem príncipes. Estava diante de pessoas despidas de seus títulos. Pessoas que, pela primeira vez, permitiam ser vistas exatamente como eram. E isso era infinitamente mais poderoso do que qualquer manchete que já escrevera.
Ao ouvir Edward falar sobre os dias mais sombrios de sua juventude, William enxergava um pouco de si mesmo. Quando Ellen o deixou, também sentira que o próprio mundo desmoronava. Como se, de uma hora para outra, já não restasse mais nada. Como se até sua própria existência tivesse perdido o sentido. Fracassara como filho. Como marido. Como pai.
Toda aquela busca desesperada por reconhecimento profissional talvez fosse apenas uma tentativa de provar a si mesmo que podia ser alguma coisa além de um completo imbecil. Mas de que adiantara? Ele perdera tudo.
William estremeceu outra vez. Detestava revisitar aquela fase da própria vida. Sabia exatamente como era ser arrancado dos próprios sonhos e lançado violentamente de volta à realidade. Como era sentir as asas serem cortadas de uma só vez.
— Eu compreendo tudo o que o senhor está me dizendo. Suas palavras são viscerais. Quem já enfrentou qualquer transtorno emocional se reconhece nelas. O mais difícil, muitas vezes, é permitir que as pessoas próximas consigam se aproximar para ajudar. Seus pais ficaram completamente desnorteados quando perceberam a gravidade da situação. Como acontece com tantas famílias, eles simplesmente não estavam preparados para lidar com aquilo. Ainda bem que Bella conseguiu alcançar o senhor.
Edward sorriu.
— Bella era extraordinária! É justamente por isso que quero dar continuidade ao trabalho dela. Não quero que mamãe nem você escondam o que aconteceu comigo. Tenho certeza de que saberá retratar essa história da maneira certa.
— Será exatamente como o senhor desejar.
Edward assentiu. Sentia-se surpreendentemente leve. Jamais imaginara que uma conversa tão sincera com o próprio genro pudesse lhe fazer tão bem. Talvez fosse exatamente disso que precisasse havia tantos anos. Pela primeira vez, acreditava que dali em diante as coisas poderiam ser diferentes.
William consultou rapidamente suas anotações.
— Só mais uma pergunta.
Edward sorriu.
— Claro.
— Como foi receber oficialmente o título de príncipe herdeiro ao completar dezoito anos?
Edward respirou fundo. A lembrança o levou imediatamente àquela manhã na Abadia, diante de centenas de pessoas, durante a cerimônia que marcaria definitivamente sua nova vida.
Naquele junho, a pior fase parecia ter passado. O ano anterior, porém, havia sido um verdadeiro inferno. Ainda tentava recuperar o tempo perdido na escola. Precisou cursar um semestre extra para concluir os estudos. Um privilégio reservado apenas a alguém da realeza. Ninguém jamais soube o verdadeiro motivo. Todos estavam ocupados demais falando da cerimônia de investidura.
Pouco antes, passara alguns dias internado depois de cortar os próprios pulsos. Lembrava-se de permanecer horas encarando os curativos. Chorava. Perguntava-se repetidamente por que ainda estava vivo. Alice não deveria ter aparecido. A decisão sobre viver ou morrer deveria ter sido apenas dele. Até que... Tudo mudou.
Certa manhã, ouviu uma movimentação incomum no corredor do hospital. Perguntou a uma enfermeira o que havia acontecido. Ela respondeu que um ônibus escolar havia sido atingido por um caminhão desgovernado. Muitas crianças morreram ainda no local.
A mulher suspirou antes de dizer:
— Como Deus pode levar crianças tão pequenas? Às vezes acho que, quando chega a hora, simplesmente chega...
Aquelas palavras ficaram ecoando dentro dele. Se tantas crianças haviam partido... E ele continuava vivo... Talvez realmente ainda não fosse sua hora.
Ergueu os olhos para o crucifixo preso à parede do quarto. "É isso, Deus? O Senhor ainda me quer aqui? Mas por quê?".
Pouco depois, viu o pai falando pela televisão. Carlisle lamentava a tragédia. Sua voz transmitia uma sinceridade tão profunda que Edward desejou atravessar a tela apenas para abraçá-lo. Naquele instante compreendeu algo que jamais havia entendido Ser rei era também ser um ponto de apoio para quem sofria. Se Deus o mantivera vivo, talvez fosse porque esperasse exatamente isso dele.
Edward voltou ao presente.
— Talvez você não acredite...
William apenas permaneceu em silêncio.
— Mas, quando a gente percebe que Deus continua conduzindo nossos passos, tudo muda. No dia em que compreendi que sobrevivi porque ainda tinha uma missão... Entrar naquela Abadia lotada e receber o título de príncipe herdeiro deixou de parecer um castigo. Pela primeira vez, aquilo fez sentido.
William sorriu.
— Eu acredito. E, sinceramente... Ainda bem que o senhor aceitou essa missão.
Edward apenas respondeu:
— Obrigado.
Em seguida, estendeu a mão ao genro. William olhou para ela por um instante. Depois levantou-se. Ignorou o cumprimento formal e puxou Edward para um abraço. Naquele momento, finalmente compreendia quem aquele homem realmente era. Muitos poderiam chamá-lo de fraco. William enxergava justamente o contrário. Via alguém que sobrevivera quando quase não restava mais forças. E isso exigia uma coragem que poucas pessoas possuíam.
Edward foi surpreendido pelo gesto. Por alguns segundos permaneceu imóvel. Depois retribuiu o abraço com sinceridade. Sentia-se em paz. Mais uma vez, William lhe prestava um enorme favor. Era grato por tudo. Por ajudá-lo a compreender a própria história. Por amar Renesme. Por fazê-la feliz. Talvez aquele abraço fosse exatamente o recomeço de que ambos precisavam.
Esme: Sua Verdadeira História — Capítulo 34: O desalento do menino
Devo confessar que nunca estivemos tão perdidos quanto nos dias que sucederam a abdicação de Emmett. Carlisle e eu éramos, teoricamente, os responsáveis por resolver tudo. Os "donos da bola", como costumam dizer. Então por que não sabíamos o que fazer? Como preencher aquele vazio que havia se instalado dentro da nossa própria casa?
Fomos profundamente egoístas naquele período. Passei quase uma semana inteira trancada no quarto. Chorava o tempo todo. Era como se todo o estresse acumulado durante anos tivesse finalmente encontrado espaço para desabar sobre mim.
Pela primeira vez compreendi o verdadeiro desalento. O desprazer de existir. Olhava-me no espelho e via apenas uma mulher fracassada. Sentia-me inútil. A pior mãe do mundo. Queria apenas desaparecer.
Carlisle conseguiu ser mais forte. Enquanto eu me afundava na culpa, ele tentava recolher os pedaços da nossa família. Sabia que aquela dor não era exclusivamente minha. Nós dois havíamos fracassado. A diferença era que ele compreendera antes de mim que não podíamos permanecer caídos.
Certa noite, entrou silenciosamente no quarto. Deitou-se ao meu lado. Abraçou-me por trás. Ficamos longos minutos em silêncio, encolhidos um contra o outro no escuro. Sentia sua respiração tocar meu pescoço. E, curiosamente... Aquilo trouxe um pouco de luz àquele lugar tão sombrio.
— Esta é a hora de tentarmos consertar tudo. — disse baixinho.
As lágrimas continuavam escorrendo pelo meu rosto. A culpa me consumia como um veneno.
— Emmett já está internado. Edward terá aulas complementares na escola para ajudá-lo nessa nova fase. Aos poucos, as coisas voltarão aos eixos.
Não consegui responder. Naquele momento eu tinha certeza de que estávamos todos condenados. Apenas me virei para encará-lo. Passei a mão por seus cabelos. Depois por seu rosto.
Carlisle continuava sendo um homem incrivelmente bonito. Mas era sua bondade que mais me emocionava. Eu não o merecia. Mesmo assim, era infinitamente grata por tê-lo ao meu lado. Sem ele nada mais faria sentido. Ele era a minha luz.
Naquele instante pensei que, se Deus havia colocado Carlisle em minha vida e nos permitido construir uma família juntos, talvez ainda existisse algum propósito reservado para nós. Foi esse pensamento que finalmente me fez levantar da cama.
Na manhã seguinte tivemos, enfim, uma conversa com Edward. Até então jamais havíamos parado para falar abertamente sobre tudo o que havia acontecido. Era evidente que ele conhecia os problemas do irmão. Toda a tragédia havia sido exposta pela imprensa. Mas, dentro da nossa própria casa, aquele assunto transformara-se em um enorme tabu. Fingíamos normalidade onde ela já não existia.
Naquela manhã decidimos abandonar os rodeios. Edward nos observava atentamente. Via medo em seus olhos. E quem não teria? Eu queria pedir perdão. Queria abraçá-lo. Queria dizer que tudo ficaria bem. Mas nenhuma palavra saía da minha boca. Não havia nada que pudéssemos fazer. Edward teria de seguir em frente como novo herdeiro. E nós precisaríamos aprender a governar um reino que acabáramos de receber.
Perguntava-me constantemente se tudo aquilo não o destruiria também. Queria segurá-lo pelos ombros e perguntar se realmente estava preparado. Mas permaneci em silêncio. Assim como ele. Limitava-me a concordar quando necessário. Ainda assim, seus pequenos gestos me transmitiam alguma esperança.
Eu sabia que Edward assumiria aquela responsabilidade sem reclamar. Era extremamente disciplinado. Aprenderia tudo o que fosse necessário. E jamais permitiríamos que enfrentasse aquele caminho sozinho.
Quando tudo aconteceu, Edward tinha apenas quinze anos. Era jovem demais para carregar um peso daquela dimensão. Carlisle decidiu poupá-lo no início. Preferiu mantê-lo concentrado na escola para que pudesse concluir os estudos antes de mergulhar completamente na vida pública.
Nos fins de semana, porém, passavam horas conversando. Meu marido fazia questão de prepará-lo, pouco a pouco, para as responsabilidades que um dia seriam suas.
Edward começou a nos acompanhar em alguns compromissos oficiais. Sempre discretamente. Jamais reclamava. As pessoas o adoravam. Ele retribuía todos os cumprimentos com a timidez de sempre.
As câmeras pareciam amá-lo. Não existia um único registro ruim. Sorrindo ou sério... Meu filho sempre saía bem nas fotografias. Sem que ele percebesse, o país começava a construir a imagem do príncipe perfeito.
Até que, em uma noite de sábado, no ano de 2004, ouvimos um grito estridente. Era Alice.
Carlisle e eu corremos o mais rápido que pudemos para descobrir o que havia acontecido. Encontramos a pior cena que um pai e uma mãe poderiam presenciar. Gostaria que aquela imagem tivesse sido apagada para sempre da minha memória. Mas ela sempre volta para me atormentar.
Embora, naquele instante, o que eu sentia fosse infinitamente menor do que o sofrimento do meu filho. Nada jamais seria grande o suficiente para se comparar ao que Edward enfrentava. Levamo-lo imediatamente para o hospital. Ele respirava. Estava vivo, apesar da enorme perda de sangue, sobreviveria.
Eu observava seus braços cobertos por curativos e pedia a Deus que transferisse para mim, em dobro, toda a dor que ele carregava.
Naquele momento compreendi que aquela ferida não terminaria ali. Era apenas o começo e havia dores que jamais desapareceriam completamente.
Mais uma vez, não fui capaz de reconhecer os sinais da depressão. Durante os dias em que Edward permaneceu internado, pensei inúmeras vezes em minha mãe. Nós a perdemos porque não soubemos compreender sua dor. Agora, mesmo depois de tudo o que aprendera ao longo da vida, eu repetia exatamente o mesmo erro. Era desesperador que o ciclo tivesse se repetindo com o meu filho, a quem eu amava mais do que a mim mesma.
O sofrimento de Edward não surgiu de repente. Também não foi obra do acaso. Fomos nós que ignoramos os sinais. Ele sempre fora mais reservado. Tinha poucos amigos. Gostava da própria companhia. Jamais imaginei que aquela personalidade pudesse esconder tantas inseguranças.
Principalmente porque, ao ingressar em Hollywarts, parecia ter encontrado seu lugar. Estava no futebol, era um bom jogador. Voltava para casa contando, com entusiasmo, sobre as olimpíadas de Ciências. Mantinha um namoro estável com Chô. Para nós, transmitia a imagem de um rapaz feliz. Mas aquela felicidade escondia rachaduras que não conseguimos enxergar.
A exposição intensa na imprensa, algo que antes praticamente não existia em sua vida, começou a destruir essa falsa sensação de estabilidade.
Carlisle e eu repetimos o mesmo erro que tantos pais cometem. Acreditamos que nossos filhos já eram suficientemente maduros para caminhar sozinhos. Colocamos os deveres da Coroa acima da convivência familiar.
Quando encontramos Edward ferido, depois de ter atentado contra a própria vida, compreendi que havíamos falhado profundamente. Nem sequer sabíamos que, poucos dias antes, Chô havia terminado o namoro. Vimos algumas notícias sobre ela na imprensa, mas jamais imaginamos o que realmente estava acontecendo.
Depois que Edward passou a ocupar o primeiro lugar na linha sucessória, os tabloides voltaram imediatamente sua atenção para a jovem que namorava o futuro herdeiro. Mesmo sem que meu filho jamais tivesse exposto publicamente aquele relacionamento. Até então, tudo se limitava aos familiares e aos colegas de escola. Mas a vida pública tem uma característica cruel, e o pior, não há como não arrastar pessoas próximas junto com você na alta exposição proporcionada pelos tabloides de plantão.
Depois que recebeu alta, Edward finalmente nos contou como tudo havia acontecido. Foi naquele momento que percebi que a máscara que ele sustentara durante tantos anos havia desmoronado. Sua voz tremia. Os lábios vacilavam a cada frase.
Enquanto descrevia o caos em que sua vida havia se transformado, cada palavra atingia a mim e a Carlisle como uma punhalada. Tentamos compreendê-lo. Tentamos apoiá-lo. Mas havíamos perdido tantos capítulos de sua vida que já não sabíamos mais como reconstruir aquela relação.
A ajuda veio de onde jamais imaginaríamos, Joseph Mathews. Na época, era apenas um jovem escritor que começava a conquistar espaço depois do lançamento de seu primeiro livro. Nós o conhecemos justamente naquela ocasião.
Algum tempo depois, ele voltou ao palácio para nos entregar um exemplar de sua nova obra. Foi então que, por acaso, encontrou Edward.
Naquele período, nosso filho permanecia afastado da escola para que pudéssemos acompanhá-lo mais de perto. Talvez fosse exatamente daquele encontro que ele precisasse. Joseph possuía uma sensibilidade rara. Os dois criaram uma amizade espontânea. Parecia que se conheciam havia muitos anos. Foi Joseph quem convenceu Edward a procurar um psicanalista e um psicólogo. E ele aceitou. Também foi Joseph quem despertou novamente a curiosidade que sempre existira dentro dele. Incentivou-o a estudar idiomas, a viajar, a investir na música, a descobrir quem realmente era.
Foi mágico vê-lo voltar a sorrir. Ainda havia momentos difíceis. Dias em que Edward caminhava pela casa com o olhar perdido e o semblante cansado. Era aí que eu apenas o abraçava e dizia que tudo ficaria bem. Embora, no fundo, nem eu tivesse certeza disso.
Jamais poderíamos imaginar que nosso reinado seria marcado por tantas avalanches. Hoje apenas lamento que tudo tenha acontecido daquela maneira.
Enquanto o observava atravessar a nave da Abadia para receber oficialmente o título de príncipe herdeiro, ao completar dezoito anos, rezava em silêncio para que Deus o protegesse. Minha culpa jamais desapareceria. Pedia perdão a Deus e também ao meu filho.
Mas, quando olhava para o sorriso de Carlisle e para a esperança estampada no rosto das pessoas presentes, encontrava um pouco de paz. Edward havia crescido. E eu acreditava, de todo o coração, que um dia conduziria Belgonia com serenidade e sabedoria.
Ao fim da cerimônia, chorei ao vê-lo vestido com o uniforme de príncipe herdeiro. Ele caminhou até mim e me abraçou com força. As lágrimas também escorriam por seu rosto.
— Eu te amo, querido. Tenho muito orgulho de você. Nunca se esqueça disso.
Edward beijou minha testa. Não disse uma única palavra. Eu o abracei outra vez. Com tanta força que parecia querer impedir que o mundo o levasse novamente para longe de mim. Acariciei seu rosto.
— Encontre o verdadeiro Edward dentro de você. Não deixe que ele volte a se esconder. Seja livre, meu querido.
Ele sorriu, ainda emocionado.
— Estou tentando.
E eu sabia que continuaria tentando. Na verdade, Edward sempre esteve em busca de um candeeiro que iluminasse seus próprios caminhos. Durante muitos anos, Bella ocupou esse lugar. Mas eu sabia que isso, por si só, não bastava.
Ninguém encontra a verdadeira paz enquanto depende da luz de outra pessoa para seguir em frente. A cura só começa quando temos coragem de acender a própria chama. Hoje, vejo meu filho assumir publicamente os transtornos que enfrentou. Vejo-o incentivar outras pessoas a buscarem ajuda, transformando a própria dor em acolhimento. E isso me enche de orgulho. É um grande passo. Talvez, o primeiro de muitos no caminho definitivo para a paz.
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