Meados de 2000

Emmett abriu os olhos com dificuldade. Sua cabeça pesava; aliás, tudo parecia infinitamente exaustivo. Não sabia que horas eram. Sua mente estava confusa e o quarto parecia girar ao seu redor.

— Oi, cara! — ouviu alguém dizer ali perto e tentou se levantar, mas não foi uma tarefa fácil. — A festa de ontem te pegou mesmo, hein?

Agora a voz parecia mais nítida. Era seu amigo, Bertie.

O príncipe resolveu enfrentar o desafio imposto pelo próprio corpo e sentou-se na cama. A claridade ardia em seus olhos.

— Que idiotice é essa de me acordar a essa hora? — Emmett falou com a voz rouca.

— Que horas você acha que são? Você já perdeu as duas primeiras aulas. Tem sorte de ter sido eu quem veio te acordar.

Emmett passou as mãos pelo rosto. Mais uma vez teria de ouvir a ladainha de que, se continuasse faltando às aulas, acabaria reprovando. Seria um pesadelo passar mais um ano naquele lugar. Seu único consolo era saber que, no ano seguinte, estaria livre dali de uma vez por todas.

— Merda!

— Bom... pelo menos o seu dia não vai ser tão ruim quanto o do seu irmãozinho.

— Como assim?

— Olha só esta belezinha!

Bertie jogou uma revista sobre a cama. Ela se abriu justamente na página em que havia uma fotografia de Edward acompanhada da manchete:

"Uma delícia de príncipe."

Ermett sentiu o estômago embrulhar.

— Coitado! Deve estar sendo zoado pela escola inteira. — Bertie comentou, sem conseguir conter o riso.

— Eu também já saí em um monte de revistas.

— Mas não na G Magazine, bebê.

Ermett fez uma careta e atirou a revista na lixeira.

No palácio, porém, as coisas não estavam melhores. Carlisle estava absolutamente enfurecido. Como podiam publicar a fotografia de seu filho de apenas quatorze anos em uma revista masculina? Aquilo ultrapassava qualquer limite.

— É inacreditável como não existe mais respeito algum!

Esme observava o marido caminhar de um lado para o outro sem conseguir colocar em palavras tudo o que sentia. Estava enojada. Com raiva. E tomada por uma indignação tão profunda que parecia impossível descrevê-la.

Sentia culpa também. Fora ela quem idealizara uma aproximação maior entre o Palácio e os meios de comunicação. O acordo, porém, era simples: as informações divulgadas seriam apenas aquelas autorizadas pela Casa Real.

Mas era ingenuidade imaginar que isso bastaria. Os tabloides jamais deixariam de ganhar milhões perseguindo a família com suas câmeras e alimentando manchetes sensacionalistas. Como fui estúpida por não imaginar que isso continuaria acontecendo?, pensou.

Depois que Carlisle e ela passaram a comparecer publicamente, quase sempre em compromissos oficiais, os paparazzi voltaram suas lentes para os meninos, em busca de qualquer história, de preferência, escandalosa.

— Eu avisei, majestade. — disse o chefe de Relações Públicas. — Ninguém brinca com a imprensa. Quanto mais se oferece, mais eles querem.

Como urubus sobre a carniça, Esme pensou, tentando conter a própria fúria. Quando algo atingia seus filhos, doía muito mais do que se acontecesse com ela.

— Mas nem tudo está perdido. — falou Hawthorne Abendsen, presidente do Departamento de Imprensa do Palácio. — Edward é menor de idade. Processem a revista e publiquem uma nota de repúdio. Não se pode divulgar a imagem de alguém sem autorização, muito menos a de um adolescente. A opinião pública ficará do lado de vocês.

— O problema não é esse, Abendsen. — respondeu o chefe de Relações Públicas. — Eles não vão parar. Pelo contrário. Vão se sentir afrontados por causa do processo. É claro que perderão na Justiça, mas o ressentimento permanecerá. A imprensa belgã é extremamente agressiva.

Carlisle bateu com força sobre a mesa. Esme nunca o tinha visto daquela maneira. Mexer com os filhos era seu ponto mais sensível, assim como era o dela.

E a situação da família vinha se deteriorando rapidamente. Emmett estava completamente fora de controle. Era comum o telefone tocar trazendo mais uma notícia preocupante sobre ele.

Esme sentia-se impotente por ainda não ter conseguido fazer o filho compreender a gravidade do caminho que estava seguindo. Nada parecia surtir efeito.

Descobrira recentemente que ele passara a usar cocaína. Sua vontade era trancá-lo em um quarto e esconder a chave. Queria protegê-lo. Mas já não sabia como.

O fato de os paparazzi estarem constantemente em seu encalço só piorava a situação. Não havia como esconder o óbvio. O filho deles havia se tornado um problema. E problemas vendiam jornais.

— Não quero saber! — Carlisle gritou. — Eles não mandam na nossa vida. Precisam entender que não têm o controle sobre nós. Vou processá-los e exigir que essa maldita revista seja retirada imediatamente de circulação. Tudo tem limite!

— Eu adotaria uma abordagem mais moderada. — insistiu o chefe de Relações Públicas. — Pediria apenas uma retratação. O diálogo costuma ser a melhor alternativa.

— Não neste caso. — Carlisle respondeu, decidido.

— Concordo. — Esme falou pela primeira vez. — Esses tabloides passam dos limites. Com eles, não existe acordo.

— Há uma coisa que vocês precisam entender. A realeza sempre será refém da imprensa. São eles que constroem narrativas e, muitas vezes, chegam até a influenciar quem usará a coroa.

Esme sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algum tempo aquela sensação a incomodava. Era estranho terem escolhido justamente Edward para aparecer naquela revista. Ele representava uma alternativa muito mais promissora do que o irmão problemático. Ela não queria acreditar que existisse gente tentando substituir Emmett por Edward aos olhos da opinião pública.

Mas, ao mesmo tempo... Também já não conseguia duvidar disso.

Meados de 2048

William desligou o carro em frente à entrada do Palácio de Clarence. Tinha que confessar que escrever a biografia da rainha estava se tornando muito mais interessante do que imaginara. Tudo começara com apenas uma entrevista com Esme, mas, quanto mais curioso ficava, mais sentia vontade de aprofundar a pesquisa.

E quantos arquivos estavam guardados para ajudar a contar aquela história! Cartas, filmagens, fotografias, memorandos, matérias de jornais e revistas... Tudo apresentava diferentes versões daquela mulher e da vida que ela vivera. William sentia-se como se estivesse dentro de um filme.

Diante de tanta informação, algo que jamais imaginara ter acesso, compreendeu que o projeto do livro não poderia se limitar apenas às memórias de Esme. É claro que ela era o centro de tudo, mas ele queria confrontar os acontecimentos com todo o acervo encontrado e oferecer ao público uma narrativa bem fundamentada.

Estavam justamente em um momento crucial da história: o início dos anos 2000, quando tudo parecia um verdadeiro turbilhão.

Particularmente, William não se lembrava daquela época. Era apenas uma criança. Recordava-se apenas de sua mãe torcer o nariz sempre que o assunto era Emmett Cullen. O príncipe havia se tornado um tabu muito antes de sua abdicação. Sua rebeldia na adolescência era malvista por praticamente todos e fazia um contraponto ao início do reinado de Carlisle. Enquanto o novo rei promovia mudanças amplamente elogiadas na monarquia, seu filho mais velho inspirava insegurança quanto ao futuro.

William compreendia, de certa forma, as decisões de Emmett. Não o julgava. Ele próprio também abrira mão de muitas coisas e conhecia bem a sensação que permanecia no peito depois de uma grande escolha. Não se arrependia de ter deixado de ser o administrador das terras de sua família. Mas, às vezes, sentia uma estranha culpa, como se tivesse sido egoísta ou cometido um enorme erro.

Talvez por isso queria ouvir Emmett. Sabia que ele poderia carregar sentimentos semelhantes. Ninguém jamais lhe dera a oportunidade de contar sua versão dos fatos.

Assim, quase por impulso, William decidiu ir ao Palácio de Clarence para entrevistá-lo pessoalmente. Emmett aceitou prontamente. A conversa poderia muito bem acontecer por telefone, mas William já havia embarcado completamente naquela investigação. Queria olhar o príncipe nos olhos e observar suas expressões. Nada revelava mais do que as entrelinhas.

Quando chegou à grande sala de estar, deparou-se com uma cena improvável. Emmett brincava com o neto de poucos meses. O menino gargalhava enquanto o avô o erguia no ar, fingindo que era um avião.

Era uma imagem que muitos jamais acreditariam ver. O príncipe que um dia fora conhecido pelos escândalos parecia, na verdade, apenas uma grande criança.

— Desculpe marcar esse encontro de forma tão inesperada. — William disse, depois que ambos se sentaram, agora sem brinquedos nem um bebê por perto. — Acabei interrompendo seu momento com o seu neto.

— Não precisa se desculpar. Carlisle ficará aqui por alguns dias. Melany viajou para um congresso em Paris, e George resolveu tirar algumas férias atrasadas para acompanhá-la.

— Eles devem estar mesmo precisando de um tempo a sós. Quando os filhos nascem, o tempo de um casal praticamente desaparece.

— Com certeza. E, para nós, avós babões, nada melhor do que passar um tempo com os netos.

— Crianças realmente transformam o ambiente.

— É verdade. A melhor fase da minha vida foi quando meus filhos nasceram. Mas vou logo avisando: ter netos é ainda melhor. — Emmett gargalhou.

— Vou ter que concordar. Não sei o que seria de mim sem as minhas filhas.

William permaneceu alguns segundos em silêncio até que Emmett, inquieto como sempre, interrompeu seus pensamentos.

— Você disse que tinha algumas perguntas...

— Sim. Outro dia eu conversava com Renesme depois de ouvir novamente a entrevista que fiz com você. Ela comentou uma conversa que vocês tiveram. Você disse que a mídia teve grande culpa em tudo o que aconteceu.

— Foi uma das culpadas. — A expressão de Emmett mudou completamente. William percebeu que ainda existiam muitas feridas abertas. — Não tiro a minha responsabilidade. Fiz muita besteira naquela época.

— Eu consigo compreender a decisão que você tomou, Emmett. — William insistiu com delicadeza. — Eu mesmo abdiquei de todo o glamour que uma família tradicional poderia me oferecer para viver segundo minhas próprias escolhas. Até hoje algumas pessoas me olham torto. Elas esperavam muito de mim, mas aquela não era a vida que eu queria. Guardadas as devidas proporções, acho que temos isso em comum.

— Eu me sentia como se estivesse trancado em um quarto sem janelas. Era uma sensação sufocante. Como uma...

— Claustrofobia?

— Isso. Acho que é essa a palavra. É horrível não conseguir enxergar nenhuma perspectiva para o próprio futuro. Eu era muito novo quando meu avô adoeceu. Nunca nos explicaram direito o que significava ser rei. Eu entendia apenas que era uma obrigação enorme.

— Isso o assustava.

— Muito. Eu só queria escapar daquilo. Queria respirar, mas parecia impossível.

— E as drogas lhe davam essa sensação de alívio?

Emmett respirou fundo. Sentia-se como se estivesse em uma sessão de terapia.

Lembrou-se da época em que serviu ao Exército. A adrenalina lhe proporcionava uma sensação parecida de liberdade. As drogas deixaram de produzir esse efeito havia muito tempo. Mas ele nunca havia parado para refletir verdadeiramente sobre tudo o que vivera, sobre aquilo que realmente o incomodava ou sobre a origem de seu vício.

Foi apenas muitos anos depois, com a ajuda de um psicólogo, que conseguiu desbloquear essas lembranças. Agora, a biografia de sua mãe o obrigava a reviver tudo outra vez.

— A maconha me acalmava. A cocaína eu usava mais para acompanhar os meus amigos. Nunca gostei de verdade. Mas isso tudo era consequência de algo muito maior.

— Entendo. Eu li muita coisa sobre essa época. Você sempre foi retratado como o vilão da história. Considerando tudo o que aconteceu com Edward, ninguém percebeu que o problema estava dentro da família e que era muito maior do que apenas um adolescente rebelde.

— O problema é que ninguém sabia o que acontecia com Edward. Eu era o escudo dele. Para todo mundo, ele era o santo e eu, o demônio.

— Você ainda pensa assim?

— Ele nunca teve culpa. Mas eu sentia raiva dele naquela época. No fundo, eu sabia que jamais teria a inteligência dele para administrar toda aquela pressão. Também tinha certeza de que ninguém realmente me queria no trono. Só que, como o herdeiro era eu, toda a parte difícil recaía sobre mim, enquanto a glória parecia destinada a ele.

William concordou em silêncio. Jamais acreditara completamente naquele discurso de que "sempre fomos unidos". Os tabloides exageravam muita coisa, mas, às vezes, conseguiam captar fragmentos da verdade.

Pegou algumas revistas do início dos anos 2000 e as colocou sobre a mesa. Emmett caiu na gargalhada. Nem mesmo a raiva parecia capaz de roubar-lhe o bom humor.

— Não podemos negar que Edward tem charme. Até uma revista gay resolveu escolhê-lo. Como eu poderia competir com isso?

— Você ficou com raiva na época?

— Fiquei com aquela sensação boba de que agora até aqueles urubus preferiam ele.

— Era ciúme.

— Sim... Também. Mas o principal era perceber que pintavam cada um de nós de um jeito diferente. Eles me perseguiam. Faziam de tudo para que eu perdesse a cabeça e reagisse. Assim vendiam revistas com a minha cara estampada e ganhavam milhões.

— Isso nos leva de volta à primeira pergunta. Você acredita que a imprensa contribuiu para a sua abdicação?

— Acredito. — Emmett respirou profundamente antes de continuar. — Eu convivia com a imprensa belgã desde criança, mas eles nunca tinham direcionado o foco para mim. Respeitavam o fato de sermos menores de idade. De repente, eu estava nas capas dos jornais. Ora era tratado como um príncipe encantado; ora como um completo idiota. E, quando perceberam que isso dava dinheiro, nunca mais deixaram de me perseguir.

— Tenho aqui algumas capas de tabloides daquela época. — William organizou as revistas diante dele. — Primeiro, você era o adolescente bonito e popular. Depois passou a ser o rebelde, o viciado e o conquistador.

— Não posso negar que também aproveitei bastante. Namorei muito, bebi além da conta e tirei proveito das facilidades que meu título proporcionava. O problema era usarem tudo isso para ganhar dinheiro às minhas custas e ainda me colocarem contra o meu irmão.

— Colocaram vocês dois um contra o outro?

— Você ainda duvida? Quanto mais eu era apresentado como o irresponsável, mais colocavam na cabeça das pessoas que Edward era o bom. E isso fez muita gente acreditar que ele também seria o melhor para o país. Nós sempre fomos marionetes nas mãos da imprensa. No fim das contas, foram eles que venceram. Escolheram o próximo herdeiro e descartaram para sempre o príncipe inconveniente que vivia brigando com eles.

— O Palácio nunca conseguiu controlar isso?

— Não. Mamãe e papai acreditaram que poderiam conduzir o jogo, mas foi uma grande ilusão. Naquela época, e ainda hoje, qualquer pessoa podia tirar uma fotografia, perseguir você e vender uma história aos jornais. Se a assessoria do Palácio resolvesse desmentir tudo, ninguém faria outra coisa da vida.

— Tudo em nome do dinheiro.

— Só quem não ganhava nada com isso era eu. — sorriu. — Tiravam minha privacidade, inventavam histórias e eu não podia fazer absolutamente nada.

— E isso acabava empurrando você ainda mais para as drogas.

— Exatamente. Você soube do que Bertie e meu querido tio fizeram?

— Sim. Foi horrível.

— Pois aquilo representa exatamente o que a monarquia pode se tornar: um jogo sujo de poder que acaba consumindo você. Eu não queria fazer parte daquilo.

— Mas ainda se sentia culpado por ter abandonado tudo.

— Sim. Principalmente depois do que aconteceu com Edward. Eu não fazia ideia dos problemas que ele enfrentava. Como eu disse, fui egoísta. Pensei apenas em mim, enquanto ele sofria. Depois foi um verdadeiro efeito dominó: Edward, Bella, Renesme... e, por fim, sua filha.

William permaneceu em silêncio. Emmett também. Não havia mais nada a dizer. A verdade, finalmente dita em voz alta, permanecia entre os dois como algo impossível de ignorar.

Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 32: Os Fazedores de Reis

Tínhamos, havia muitos anos, uma figura no Palácio que gostava de se autodenominar "o fazedor de reis". Sua história remontava ao tempo de Thomas, filho do primeiro rei, em meados da década de 1890.

Naquela época, Belgonia crescia economicamente em um ritmo impressionante. O comércio prosperava desde que um de seus maiores empresários assumira o trono e fundara o país.

Mas chegou o momento em que aquele antigo comerciante transformado em rei deixou de concordar com as ideias daqueles que o haviam colocado no poder.

Ora... O poder costuma produzir esse efeito. Quanto mais se possui, mais se deseja.

Então, os grandes empresários concluíram que talvez fosse chegada a hora de acabar com a monarquia. Foi nesse contexto que surgiu o chamado "fazedor de reis".

Na verdade, ele não apareceu do nada. Era um aristocrata muito próximo da Família Real. Como fiel escudeiro, passou a ouvir atentamente tudo o que os comerciantes mais influentes desejavam e transmitia essas informações ao então príncipe Thomas.

"Eles não gostam do protestantismo? Então a religião oficial será o catolicismo."

"Não querem mais ser associados à antiga metrópole? Então romperemos de vez com os suecos."

Tudo isso acontecia enquanto o velho rei já estava desgastado e doente. Os jornais passaram a falar apenas do príncipe herdeiro e de sua coragem. A opinião pública mudou. O fazedor de reis cumprira sua missão: Thomas tornou-se rei. E Belgonia consolidou-se como uma monarquia parlamentar.

Mais tarde, o jovem Pierino perdeu os pais e o irmão em um atentado nazista contra o trem em que viajavam. De segundo na linha sucessória, tornou-se o primeiro. Foi então que um velho amigo da família reapareceu.

Mais uma vez, o fazedor de reis estava ali. E devo admitir... Para quem estuda política, como fui obrigada a estudar, é impossível não reconhecer sua genialidade. Pegou uma pedra bruta e a transformou em um diamante. Tudo o que fazia era orientar seu rei a agir exatamente da forma que a população desejava, garantindo que isso chegasse aos rádios, aos jornais e às revistas. A mágica acontecia.

Durante os dez primeiros anos de reinado, Pierino tornou-se praticamente imbatível em popularidade. Mais uma vez, a monarquia havia sido salva.

Acontece que, em 1955, o fazedor de reis morreu. Mas outros vieram ocupar seu lugar. Principalmente a partir dos anos 1980, quando os tabloides passaram a dominar o cenário editorial. Mas aí você pensa: Não! Ninguém pode acreditar em algo tão bobo estampado na manchete de uma revista.

Mas pode. As pessoas acreditam. Não é à toa que o número de tabloides oficiais circulando no país passou de três para vinte até o fim de 1999. A fofoca sempre chamou atenção; naquele momento, ela havia se tornado um grande negócio.

Carlisle e eu acompanhamos tudo isso e quase sempre fomos vítimas desse tipo de imprensa. Acontece que é um círculo vicioso. Quanto mais você aparece em uma revista, mais é lembrado pelas pessoas. É por isso que muitas celebridades fazem questão de permanecer constantemente na mídia, ainda que por meio de notícias negativas. Afinal, isso atrai atenção e, consequentemente, surgem oportunidades de trabalho, contratos publicitários e dinheiro.

De um jeito ou de outro, a conta sempre fecha. Mas, para quem ocupa um trono, a lógica é completamente diferente. A monarquia precisa ser vista como uma instituição acima de qualquer suspeita. Deve servir de exemplo.

Por isso, éramos obrigados a nos vigiar o tempo inteiro, para não deixar a peteca cair. Com o passar dos anos, percebemos que nossa verdadeira bússola eram os jornais. Vivíamos quase como personagens de um desenho do Coiote e do Papa-Léguas, presos em uma perseguição interminável por aprovação.

Traduzindo... Os fazedores de reis agora eram os jornalistas. E eles sabiam muito bem disso.

Quando William me perguntou se eu acreditava que a imprensa havia influenciado a abdicação de Emmett, eu não poderia responder outra coisa. Sim. A mídia teve um papel enorme. Ela escreveu o final da história que desejava contar.

Na época, porém, não percebemos isso. Estávamos ocupados demais tentando consolidar nosso governo naqueles primeiros meses. Confesso que fomos egoístas. Pensamos apenas como governantes, quando deveríamos ter pensado também como pais. E os sinais estavam diante dos nossos olhos.

Nunca gostei de ver meus filhos, ainda tão jovens, transformados em notícia, muito menos estampando capas de revistas. Quando Emmett apareceu pela primeira vez em uma publicação voltada para adolescentes, aos quatorze anos, quis imediatamente impedir a circulação daquela edição.

Ele era apenas um garoto. Não queria que aquilo se tornasse o primeiro passo para uma exposição ainda maior. O Palácio, porém, não permitiu que eu fizesse nada. A justificativa era simples: não havia nenhuma notícia negativa. A reportagem apenas dizia que ele era o capitão do time da escola. Aquilo fortalecia a imagem da família. Era considerado boa publicidade.Depois vieram outras reportagens. E, mais uma vez, nada pudemos fazer.

Nunca gostei da exposição dos meus filhos. Sempre me enfurecia ao ver paparazzi seguindo seus passos desde tão pequenos. Mas eles eram figuras públicas. Diziam que fazia parte do processo.

Confesso também que, como qualquer mãe, sentia orgulho cada vez que via meu filho sendo elogiado. O que eu não percebia era que, quanto mais ele vendia revistas, mais fotógrafos passavam a invadir sua vida em busca de novas manchetes.

Também jamais imaginei o quanto aquela falta de privacidade destruiria sua saúde emocional. Emmett nunca quis ser rei. E, olhando para trás, compreendo que a culpa foi inteiramente nossa. Jamais o preparamos para aquele destino.

Toda a responsabilidade caiu sobre seus ombros quando ele ainda era jovem demais para compreender o verdadeiro significado da Coroa e tudo o que ela exigia.

A exposição nas revistas alimentava sua vaidade. Ao mesmo tempo, criava uma cobrança silenciosa para que fosse sempre o mais bonito, o mais popular, o vencedor. Era peso demais para um adolescente.

Quando descobrimos que Emmett estava bebendo, foi graças a Marko, nosso secretário na época. Uma jornalista entrou em contato com o Palácio dizendo possuir provas de que o príncipe frequentava pubs e consumia bebidas alcoólicas. Isso aconteceu muito antes de os tabloides publicarem as primeiras fotografias dele embriagado, em 1998.

Minha primeira reação foi desacreditar completamente da história. Mesmo assim, Marko resolveu investigar. No fim das contas, a jornalista não possuía fotografia alguma. Seu único "furo" era o relato de um barman.

Sorri aliviada. Parecia evidente que tudo não passava de uma mentira. Mesmo assim, Carlisle chamou nosso filho para conversar.

— Você está bebendo, Emmett?

— Como é? — perguntou ele, surpreso.

Carlisle explicou toda a situação. Eu apenas desejava acreditar que nosso filho jamais teria coragem de fazer aquilo. Estávamos perdendo tempo.

— É mentira, pai. Nada disso é verdade.

O que eu não sabia era que meu filho já havia aprendido a mentir. E fazia isso muito bem.

Depois surgiram outras histórias. E o que fizemos? Nada. Empurramos o problema com a barriga. Mais uma vez, foi a própria imprensa que acabou nos obrigando a enfrentar a realidade, ainda que tarde demais.

O próprio Palácio pagou alguns tabloides para acompanhar a visita de meu marido e de Emmett a um centro de reabilitação. Ou seja, nós mesmos acabamos nos rendendo às garras da mídia.

Quando Edward também começou a despertar o interesse dos jornalistas, aparecendo em toda espécie de publicação, de revistas adolescentes até revistas masculinas voltadas ao público adulto, meu mundo desabou.

Lembro-me de esconder o rosto entre as mãos e chorar durante horas. Mais uma vez, senti que estava fracassando como mãe. Tive a terrível sensação de que perderia aquele filho também.

Conseguimos retirar algumas publicações das bancas. Vencemos alguns processos contra os tabloides. Mas, no fundo, sabíamos que aquelas eram apenas batalhas. A guerra seria eterna.

No fim das contas, o fazedor de reis continuava trabalhando. A diferença é que já não era representado por um único homem. Agora eram muitos. Alguns carregavam câmeras. Outros, blocos de anotações. Todos eram tão poderosos quanto aquele aristocrata que, um dia, mudara duas vezes o destino de Belgonia.