Dinastia 3: A Rainha de Copas
29 Capítulo 29
Esme segurava a mão de Edward. Percebia o desconforto dele. Remexia-se na cadeira, balançava as pernas e as cruzava, vez ou outra, de maneira alternada.
Ela não sabia bem o porquê. O certo é que ele adiara muitas vezes esse encontro com William. Porém, Esme não podia afirmar se era porque Edward tinha uma enorme dificuldade de falar sobre sua vida, ainda mais quando se tratava de uma parte tão difícil do passado, ou se era para evitar o genro. Independentemente do que fosse, ela estava feliz por ele estar ali. Havia muitas coisas que aconteceram que não foram ditas em voz alta, postas em discussão. Ela precisava olhar para o filho e ouvir o que ele nunca lhe disse. Precisavam disso para se curarem definitivamente.
O relógio velho anunciou a hora vindoura ao mesmo tempo em que a porta do escritório foi aberta. William e sua pontualidade ímpar.
— Bom dia, majestades! — saudou o jornalista com uma reverência bastante formal para o nível de intimidade que tinham.
— Oh, querido! Quando vai aprender que somos da família?
Edward não expressou nenhuma palavra. Esme sabia que ele estava nervoso, e William entendeu que havia sido melhor agir assim.
— É força do hábito.
Deu um leve sorriso e tentou se concentrar em pegar o seu bloco de notas. O seu sogro não estava em seu melhor dia; podia sentir isso. Já havia tido momentos ao lado dele mais agradáveis.
— Bom... Hoje nos concentraremos apenas no momento do falecimento do rei Pierino.
Esme assentiu e Edward permaneceu inerte. William sabia que entrevistar o rei não seria uma tarefa fácil. Renesme já o havia alertado sobre os traumas que ele tinha, especialmente sobre esse período em questão. Então, pretendia ir com calma com o seu sogro, dando-lhe o espaço necessário.
— Eu não gosto muito de falar sobre a minha vida. Especialmente a respeito do que aconteceu. Se eu fechar os olhos agora, posso claramente lhe contar tudo o que vi, ouvi e senti naquele dia. Estava tudo tão cinza! Eu me sentia o garoto mais perdido no mundo.
22 de novembro de 1999
Edward virou-se na cama, abriu os olhos e ficou olhando para as paredes de seu quarto. As janelas estavam fechadas, mas, pela escuridão do quarto, tinha certeza de que estava nublado lá fora. Resolveu levantar de uma vez. Não tinha conseguido dormir direito e não seria agora que isso aconteceria.
Desde o dia anterior, as coisas não estavam indo bem. Todo mundo andava muito agitado com a internação do seu avô. Parecia que uma bomba-relógio estava prestes a explodir a qualquer instante.
Sinceramente, não esperava que Pierino fosse partir. Tinha certeza de que seria como da outra vez. Seu avô era um homem tão forte! Ele mesmo dizia que “balançava, mas não caía”. Edward acreditava nisso. Porém, não tinha como não se contaminar com toda a tensão ao redor.
No café da manhã, encontrou Alice sozinha na mesa. Não havia nenhum sinal de Emmett pelo caminho. Não acreditava que ele tivesse ficado na escola. Devem tê-lo trazido à força. Na verdade, até imaginava como ele estava e não queria vê-lo daquela forma.
— O vovô não vai morrer, não é, Eddy? — Alice perguntou.
Edward olhou bem para ela. Sua irmã era apenas uma garotinha e talvez nem tivesse noção das consequências que viriam com a partida de Pierino. Na verdade, nem ele mesmo tinha. Sabia que seu pai se tornaria rei e isso é algo ruim?
— Não sei, Alice. Mas ele está sendo bem acompanhado. Não vão deixá-lo partir.
— Eu pedi muito para Deus ontem protegê-lo.
— Você fez certo. Onde estão papai e mamãe?
— Foram para o hospital. Eles foram chamados lá e por isso estou com medo.
Edward levantou-se de sua cadeira e deu um abraço apertado na irmã.
— Tudo vai ficar bem.
O restante do dia foi uma confusão só. Mais uma vez, gente para lá e para cá. Edward tentou agir normalmente, mas estava difícil demais. Resolveu ler no jardim, porém, uma chuva torrencial começou a cair. No outono era sempre assim. Mas parecia que tudo tinha sido multiplicado por cem naqueles dois dias.
Então, algo surreal aconteceu. Um estridente som contaminou tudo ao redor. Parecia que todos os telefones do palácio tocavam ao mesmo tempo e isso só podia significar uma coisa... Sentiu o coração acelerar. Uma sensação ruim o abateu. Tapou os ouvidos e correu para o seu piano.
Enquanto tocava o mais alto possível, tentava se libertar daquele sentimento que começava a corroê-lo. Sempre teve medo do novo. Temia o que poderia acontecer agora com o seu pai no trono. Não queria pensar que algo poderia dar errado. Entretanto, temia o inesperado.
Continuou tocando e tocando. Não queria sentir nada. Estava ansioso. A tensão ao redor o estava deixando maluco. Não queria pensar no seu avô como um homem morto. Queria lembrar apenas dos momentos bons que passaram juntos.
— Alteza...
Edward virou-se e viu um funcionário do palácio atrás dele.
— Sim.
A expressão do funcionário era das piores. Parecia um boneco de cera.
— Seus pais estão à sua espera e à de seus irmãos na sala ao lado.
— Certo.
O funcionário saiu tão silenciosamente quanto entrou. Edward já sabia o que havia acontecido. Mas era difícil de acreditar. Não havia tido convivência com seus avós maternos por eles terem falecido cedo demais. Então, Pierino e Elizabeth eram as figuras que representavam essas figuras familiares. Agora, parecia que abria um grande abismo.
Edward respirou fundo e seguiu até a sala ao lado, onde seus pais gostavam sempre de se reunir. Antes de abrir a porta ouviu as vozes lá de dentro. Encostou o ouvido na madeira para ouvir.
- Eu ainda estou abismada com que ele nos disse no hospital.
- Não tem a menor possibilidade de colocarmos Edward a frente de Emmett na sucessão.
- Por que ele disse aquilo?
- Não leve em consideração, meu bem, papai não estava bem. Na verdade... Há mais coisas que me preocupam no momento.
- Eu sei...
Então veio o silêncio. Edward tentou digerir tudo que ouvira. Existia mesmo a possibilidade de ele se tornar o herdeiro ao trono? Não! Isso parecia uma grande palhaçada! Mas se Pierino havia dito... Ele sempre sabia de tudo.
As mãos de Edward começaram a tremer e ele sentiu-se escorregar pela porta fechada. Agora sim o chão havia aberto para ele.
****
- Eu não sabia que você tinha ouvido aquilo.
- Foi sem querer... Entende como aquilo foi difícil pra mim? Eu tinha perdido meu avô, o único que eu conhecia, e agora havia a possibilidade de eu ficar no lugar dele um dia.
- Mas isso nunca passou pela nossa cabeça naquele momento.
- Eu sei. Mas aquilo não saiu da minha mente. Parecia que ele clima sombrio, o cheiro de incenso, as rosas... Tudo significava o fim de tudo sabe?
- Essa era a sensação que vocês tinham? Do fim da monarquia? – William perguntou sem parar de fazer anotações.
- Eu não imaginava que a monarquia haveria um fim. – Edward respondeu antes que Esme falasse. – Na minha cabeça não havia a possibilidade de haver uma Belgonia sem um rei. Mas não deixava de ser um fim. Papai estaria lá agora, e consequentemente, eu também e isso me assustava.
- Assustava a mim também. Sempre assustou. Era uma grande responsabilidade que agora era nossa. E quando eu olhava para o futuro, pela primeira vez, eu não sabia o que poderia acontecer.
Edward assentiu e William deixou o bloco de lado por uns instantes. Ele sempre achara muito louco o fato de que aquelas pessoas não tinham o direito ao luto. Tudo era relacionado ao governo e as responsabilidades. Mas havia morrido alguém ali!
- Eu queria entender como funcionou na cabeça de vocês o fato dessa transição. Alguém tem que morrer para que o outro venha ascender ao cargo. Isso é muito estranho e confuso pra mim.
- É para nós também. Recentemente eu perdi meu pai e era só isso que eu conseguia pensar. O trono era em segundo plano. Principalmente que na minha cabeça, havia aquele pensamento de que aquele era o lugar dele e não o meu.
- Esse era o mesmo pensamento do seu pai. Pierino tinha ficado no trono por cinquenta e quatro anos e a monarquia Belgã tinha a cara dele. Então, acho que é uma sensação contínua de quem vem assumir trono depois de um reinado tão longo.
- Pra mim sempre importou mais a perda daquela pessoa. Parece que não, mas o vovô teve uma importância absurda na minha vida. Esse lance de Hereditariedade é a coisa mais injusta do mundo na monarquia.
Esme refletiu sobre as palavras do filho. Tinha medo de parecer insensível ao pensar que a lei da vida era sempre o velho dar ao lugar ao novo. Era como numa viagem de trem onde entram e saem passageiros. Uma hora a nossa trajetória também teria que ter um fim.
- Pra você ter uma ideia eu nunca consegui sentir mais o cheiro de rosas sem lembrar de pessoas que já morreram. Infelizmente, eu tenha vindo a sentir muito ultimamente.
Esme pegou na mão do filho novamente e encostou a cabeça na dele. Ela também teve essa mesma sensação, de estar fadada a ter que perder as pessoas queridas, mas o que era a vida senão um constante recomeço? Cabia a compreensão que um dia isso iria acontecer com eles próprios também.
- Infelizmente isso faz parte, querido. Nossa missão aqui não é eterna. As pessoas só vão embora quando são esquecidas.
Edward assentiu tristemente. Mas jamais aceitaria que tudo um dia deveria chegar ao fim.
Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 29: O fim de uma era
Ninguém nunca está preparado para a perda de alguém. Por mais que você já tenha tido inúmeras despedidas, quando uma morte acontece, há sempre o vazio. Foi assim após o falecimento de Pierino. A sensação era de que o chão havia se aberto debaixo dos nossos pés.
É claro que, no momento em que ele saiu desacordado do palácio para a internação, já podíamos esperar que talvez não resistisse. Mas a esperança é teimosa. Nunca vai embora, mesmo quando não há nada que possa ser feito.
Logo pela manhã, Carlisle e eu fomos chamados para visitá-lo no hospital. Meu marido estava silencioso e eu, entorpecida demais por tantos acontecimentos de uma vez. O rei estava muito fraquinho, como um passarinho que caiu do ninho. Mas estávamos acostumados a ver Pierino com uma força tão grande que saímos do hospital com a sensação de que aquilo não passaria de um pesadelo. Ele iria resistir mais uma vez.
Entretanto, algumas horas depois, os telefones começaram a tocar insistentemente por todo o palácio. Compreendemos o significado daquilo. Nunca esquecerei daquele momento. Enquanto eu ia à procura de Carlisle, os funcionários que passavam por mim mudavam, um a um, a sua expressão. Estavam se dando conta da transformação. Mas eu não queria falar sobre aquilo. Porque, antes de qualquer coisa, acima de trono e política, havia uma família em luto ali.
Carlisle estava de costas, com a cabeça encostada na janela. Aproximei-me devagar e o abracei. As lágrimas desciam pelo seu rosto silenciosamente. Não nos falamos. Apenas ficamos grudados um no outro.
— O que adiantou tudo o que fiz? — sussurrou entre soluços. — Ele se foi e me restou apenas arrependimento.
— Nesse momento, não pode pensar dessa forma. Lembre-se de tudo o que viveram juntos. Acho que é essa a sensação que devemos guardar daqueles que foram importantes para nós.
Ele tirou os braços em volta de mim e uniu as nossas mãos, agora com um sorriso nostálgico.
- Uma das lembranças mais antigas que tenho é dele me levantando para o alto. Eu sorria e ele me olhava com os olhos brilhantes. Foi um momento tão especial, que tempos depois cheguei a duvidar se não era apenas imaginação minha.
- Ele tinha muito orgulho de você, Carlisle. Você precisava ver a cara dele quando Emmett nasceu.
Me lembrava bem das palavras, machistas até, que ele disse quando viu o pequeno bebê. Seu neto, extensão dele. Mas era aquilo. Homens como ele era não conseguiam mostrar sentimentos de forma emocionada. A virilidade vinha primeiro, porém aquilo não significava que não era uma forma de amar, de se orgulhar.
- Ele me disse que eu tinha puxado a teimosia da vovó e que um dia eu seria um rei melhor do que ele... Espero dessa vez agradá-lo.
- Você será o melhor rei que esse país já teve. Não duvide disso.
Lá estava a história do trono novamente. Era tão horrível que isso era algo tão insociável na realeza. Era como se a pessoa que havia morrido nada significasse mais. “Que venha o próximo!” e fim. Eu não permitiria que fosse daquela forma. Pedi aos funcionários que dessem um tempo. Precisávamos absorver tudo com calma.
Quando Carlisle se recuperou um pouco, resolvemos nos reunir com as crianças. Aquela seria a parte mais difícil. Meus filhos já tinham perdido tantas pessoas importantes em sua família... A morte de Pierino cairia como uma bomba. Especialmente para Emmett.
Respirei fundo e assumi a responsabilidade de informa-los da melhor maneira que eu pude. Carlisle permaneceu calado o tempo inteiro. Apenas apertava a minha mão.
Observar a expressão de cada um deles mudar em minha frente foi algo que jamais esqueci. Era como se eu tivesse falando em câmera lenta e a informação fosse entrando aos poucos. Edward se encolheu, Alice chorou baixinho. Emmett... Bom, ele gritou. Era um som visceral. De certa forma, representava bem o que todos estavam sentindo.
Ele correu para os meus braços e eu o recebi de forma automática. Eu ainda estava ressentida pelo comportamento dele no dia anterior. Mas o que eu podia fazer? Ali estava o meu menino novamente. Tão frágil de como era quando ainda era um bebê. Ficamos assim até todos saírem do recinto. Carmen havia chegado ao palácio e era hora de acertar os detalhes do velório e enterro de Pierino.
- Mãe, o que será de mim agora? – perguntou o jovem Emmett baixinho.
- Você vai assumir as funções que até ontem eram de seu pai.
- Eu não quero mãe.
Coloquei a mão no queixo do meu filho e fiz com que ele olhasse para mim. Com uma expressão severa disse:
- Coragem filho! Esse é o seu dever!
- Isso é tão injusto!
- Não é. Mas paciência que tudo dará certo no final.
Tentei acreditar no que disse ao meu filho enquanto o consolava, mas no fundo eu sabia que não ia ser assim tão fácil. No meu interior, havia uma velha incerteza de que as coisas não estavam em seu lugar correto. Emmett não estava bem e precisava ser tratado, mas como? Nunca na vida eu tinha presenciado um problema como o dele e essa situação me corroía. Minha mente dava voltas sem saber o que fazer ou como me portar diante disso. Naquele momento eu só esperava que com o tempo ele iria entender que não era a tempestade que havia criado.
Na verdade, nos dias que se sucederam não tivemos tempo para administrar as pequenas goteiras que caiam no nosso teto. O que hoje reconheço que foi um fio de escape que encontrei para não encarar a situação de Emmett de perto. Foi algo imperdoável! Não há o que argumentar.
Enfim, Carlisle resolveu fazer uma mudança bem significativa nos protocolos. Geralmente, os soberanos não tinham velório público. Era tudo muito discreto e íntimo. Havia uma missa e um cortejo até o cemitério. Esse era o único momento que as pessoas tinham contato com os seus soberanos e Carlisle não achava isso justo. Pierino havia sido o rei até então que havia tido o maior reinado. Muitas gerações não chegaram a conhecer outro governante durante suas vidas.
Então, ele bateu o martelo que primeiro haveria um velório para a família e depois ele seria aberto ao público por algumas horas. Todas as pessoas precisavam ver o corpo para também acreditarem que era mesmo o fim de uma era. Foi uma decisão acertada.
Foram três dias de muita tristeza. Não sai de perto de Carlisle e ele também não queria ficar longe de mim. Era como se precisasse da minha companhia para continuar tendo forças. Ficamos fazendo um exercício de lembrar apenas o que foi bom. Descobri tanto sobre o passado da família naquele momento! Era como se um mundo novo tivesse se aberto. Uma nova narrativa que eu desconhecia totalmente.
O mesmo aconteceu durante a visita das pessoas no grande salão de baile. Ficamos nos reversando em estar ali perto do caixão enquanto o público passava em volta. Eu podia ouvir relatos impressionantes, como quando o Pierino estava velando os seus pais. Os mais antigos lembravam-se de como ele era jovem e tinha perdido as pessoas mais importantes de sua família de uma maneira tão trágica! Uma senhora chegou a afirmar que ele parecia um menino indefeso e que todos o abraçaram.
E ali estava o momento mais sublime de todos. Quando o ser humano se sobressaia ao monarca. Pierino também teve seus desafios. Era o filho sobressalente, sempre na sombra do alto e bonito Lourenzo. O seu destino era algo que ele nem sabia qual seria. Talvez entrasse para o exército e depois serviria a realeza sem muitas expectativas. O reino popular de seus pais iria durar muitos anos ainda. Belgonia seria um lugar diferente. Se casaria com mais liberdade de escolha e teria filhos que seriam livres. Um dia ninguém reconheceria mais que eles vinham de uma família de sangue real.
Mas ninguém esperava que os alemães fossem se vingar da rainha, do rei e de seu herdeiro por negociarem com o inimigo. Uma bomba dentro de um trem. Quem poderia imaginar? Principalmente um jovem de 21 anos que com um piscar de olhos teve que aprender a governar um país, mesmo sentindo um peso e uma dor absurda.
Na hora da morte todos se tornavam apenas humanos. Tão frágeis como uma pluma ao vento.
Enquanto o caixão descia para o seu descanso final, eu só pensava: “Vá em paz, Pierino. Sua missão foi cumprida.”
O sol reapareceu no céu depois de dias de nuvens carregadas. Era o sinal de uma nova era que despontava.
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