Dinastia 3: A Rainha de Copas
1 Capítulo 1
Maio de 2048
Geralmente datas festivas, como o Dia das Mães, páscoa, natal, onde toda a família estava reunida era um dos seus momentos favoritos. Em meio as suas rotinas atribuladas, era difícil poder reunir todos em um só lugar. Esme estava satisfeita por estar junto de cada um deles e poder transmiti-los todo o seu amor. Porém, dias como aquele lhe dava também um tanto de melancolia. Estava diante de seus três filhos, seis netos, três bisnetos e mais um a caminho, porém a pessoa que construiu junto com ela esse grande laço de sangue não estava ali. Carlisle amava esse tipo de evento, era um verdadeiro “arroz de festa” que dava tudo para uma animação em conjunto com os seus. Fazia três anos de sua partida e ela ainda sentia falta dele todos os dias.
Andou um pouco pelos arredores do jardim em busca do conforto da luz solar naquele belo dia de primavera e encontrou sua neta mais velha acariciando sua barriga de cinco meses de gravidez, enquanto olhava apaixonada para o marido logo adiante brincando com a filha deles, Isabella, e a pequena Diana. Esme amava flagrar sem querer esses momentos doces. Se aproximou dela e a surpreendeu com um beijo em sua barriga, sendo que ela mesma foi surpreendida pela resposta vinda do feto que se mexia como uma borboletinha dentro de Renesme.
— Esse garotão está animado! – falou enquanto sentava-se ao lado da princesa.
— Ele está bem acordado. Exagerei nos doces por pura gana e agora estou aqui prostrada.
— É assim mesmo, meu bem. Você terá um menino Cullen, já sabe como não param quietos. E pelo que eu me lembro de seu marido quando pequeno também não podemos dizer que ele era uma criança calma.
— Bom, se esse bebê tiver a mesma energia que Bebela, eles irão acabar comigo e com William. Vamos ter que colocá-los para a adoção. – Renesme falou sorrindo, mas com um riso que Esme conhecia bem. Ela mesma falava isso quando seus três filhos era pequenos, mas não queria passar um minuto longe deles.
— O tempo passa rápido, querida, quando a gente ver, eles já estão adultos.
— É o que o William sempre diz. Por isso faz tanta questão de estar sempre com a nossa filha.
— Ele parece ter jeito com crianças. Nunca vi Diana tão entretida antes.
— Ele deve estar contando alguma de suas histórias.
E lá estava o olhar apaixonado novamente. Ela estava extremamente contente em poder ver essa expressão no rosto de sua neta. Finalmente, podia dizer que a paz e a justiça reinaram. Como poderia a rainha deixar de se emocionar com aquele belo quadro da vida familiar? Mesmo agora, quase dois anos depois do casamento de Renesme e William, a diferença de idade pouco importava quando um amor tão profundamente evidente existia entre os dois. Ela estava tão obcecada por ele como no início e William se mostrou um parceiro, pai amoroso e dedicado. Também não poderia haver um companheiro mais solidário e qualificado para a princesa. Apesar de sua promessa de que não buscaria nenhum título real ou interferiria na vida política, William abraçou o papel de guiá-la e orientá-la em todos os aspectos de seu papel como futura monarca, era quase um pacote completo.
— Estava pensando no que acabou de dizer... Você viu William criança. Que ironia!
— Pois, é. Antes desses jornais o acusarem de velho deviam olhar para mim. – disse sorrindo.
— Esse é o comentário mais injusto do mundo! Como se ninguém envelhecesse.
— Sim, vivemos nessa ditadura do novo e o descarte do velho. Mas ninguém sabe o prazer que eu sinto por ter quase noventa anos e ter uma visão das coisas que eu tenho a partir da experiência que ganhei. Nada no mundo pode te surpreender mais com essa idade, querida.
— Deve ser interessante, vó. Você conheceu tanta gente, tem tantas histórias para contar.
— Tenho mesmo. Vivi coisas que muita gente jamais viverá e eu sou realmente grata por tudo que passei.
— Quer saber? Você devia escrever um livro.
— Um livro? Não sou escritora, meu bem. Ia sair uma porcaria!
— Vó, certamente você é a pessoa mais interessante que existe! Sério! O seu humor, a sua inteligência, a sua coragem e o coração gigante... Acredito que as pessoas precisem te conhecer de verdade.
Um livro? Que ideia absurda! Na verdade, nunca passou em sua cabeça sobre o que queria que as pessoas pensassem dela. Isso podia ser uma grande preocupação para quem está dentro da realeza. Criar uma imagem pública e outra privada. Ela não, em nenhum momento dos seus 45 anos de reinado quis ser quem não era. Então, por que iria querer que as pessoas a conhecessem agora?
A pequena Diana correu e se enroscou em suas pernas. Ela pegou a sua primeira bisneta e colocou no colo, assim como fazia com a mãe dela, Marlowe, e com o seu avô Emmett. William se aproximou das duas, deu um selinho em Renesme e colocou a sua filha quase adormecida no colo da esposa.
— William – Renesme iniciou baixinho. – Eu estava sugerindo a vovó que ela escrevesse um livro contando as suas histórias de vida.
O jornalista coçou o queixo e balançou a cabeça em concordância.
— Seria uma excelente forma de comemorar os seus noventa anos em outubro, majestade.
— Não, meninos, isso seria uma grande bobagem!
— Vovó, você já parou para pensar que isso será também como um registro histórico? As pessoas que conviveram com você sabe o que passou e como você é, mas e seus bisnetos? E as gerações futuras? Imagina que muita coisa que circulou e que circula sobre você pode não ser exatamente verdadeiro ou como você queria que ficasse guardado? Então, essa será a sua chance.
Por aquele lado, realmente seria algo interessante. Ao longo dos anos, muita coisa saiu sobre ela e sua família. Muitas versões sobre fatos importantes que nem sempre correspondeu a verdade. Em diversas ocasiões foi chamada de coisas que não a agradou e que nunca pode realmente se defender, não que isso importasse agora, mas por um outro lado seria interessante deixar para a eternidade a sua versão da História.
— Eu não saberia escrever esse livro...
— Eu poderia lhe ajudar, majestade. – William sugeriu. — Seria o meu presente de aniversário para a senhora.
Então, foi aqui que tudo começou...
Esme: Sua Verdadeira História – Prólogo
Olá meu nome é Esme... Por um momento pensei começar o meu relato de histórias assim. Porém, parei e me perguntei: como se deve começar algo do tipo? Quem realmente está por trás disso? A mulher? A Rainha mãe? A figura pública? A menina rebelde e sonhadora que saiu de Orland com os pais para tentar uma vida nova na capital? Bem... Não sei. Todas elas são a mesma dentro de mim sem nenhuma distinção.
Olhei bem para o meu querido William, que estava me ajudando nessa empreitada e fiz essa pergunta a ele. Meu neto postiço, como um grande jornalista que era, saberia me responder.
A primeira pergunta que ele me fez foi uma bem difícil: Como é ser uma rainha? Olhei bem para ele e pensei, é isso mesmo? Mas ok, tudo muito gostaria de me perguntar isso. Certo, como é ser uma rainha? Não tenho essa resposta. Ninguém é capaz de se preparar para um cargo desses. Eu fui o que eu acreditava que tinha que ser. Segui o que eu achava que era certo seguir. Só sei que a responsabilidade é grande. Como não seria? O país inteiro conta com você. É como segurar a batata quente como naquela brincadeira de criança. Agora é sua vez, vai! Só que aquela batata sempre vai estar quente até você finalmente poder passar para outra pessoa. Não posso realmente descrever como é a sensação, mas posso contar como tudo aconteceu.
Por vezes, penso se a história de Esme Anne Platt teria sido diferente da de Esme Cullen, mas a graça da vida é justamente esta: cada um tem sua história. Cada indivíduo é único e eu só posso contar o que eu vivi. O que penso, quem eu sou e como cheguei até aqui. Foi pensando nisso que eu resolvi contar para vocês um pouco sobre a minha versão das coisas.
Ao longo dos anos, muito foi contado sobre mim, sobre as pessoas que eu amo, sobre o que vivemos juntos. Nem sempre o que foi divulgado era totalmente real. Isso acaba criando uma série de imagens sobre você mesmo na cabeça das pessoas. Te aproxima delas e ao mesmo tempo te afasta. É como estar num grande multiverso com várias versões de si próprio.
Estou completando noventa anos e realmente nunca tentei ser nada mais do que sou. Tenho plena certeza de tudo que fiz, alguns arrependimentos, muitas felicidades e mais gratidão do que qualquer outra coisa. Não me preocupei em rebater tudo que a mídia falava sobre mim. Não me interessava. Até o presente momento, eu ainda penso, quem pode ler sobre essa senhora já muito ultrapassada? Quem realmente quer saber o que aconteceu a trinta ou quarenta anos atrás?
Bem, aqui estamos. Não tenho nenhum interesse em criar uma imagem para a eternidade como uma mártir, uma rainha gloriosa digna de pódio, ou qualquer outra coisa do tipo. Estou me dando conta que meu tempo está findando naturalmente, então por que não compartilhar alguns momentos de minhas vivências? Por que não esclarecer alguns mal entendidos? Por que não falar abertamente sobre algumas coisas? Quem sabe algo em que vivi e aprendi venha dar alguma experiência a alguém? Essa é a motivação.
Durante a jornada da construção desse livro quero que esse meu eu antigo ressurja e por isso não estranhem quando lerem essas páginas. Pra começar, quero dizer:
Oi, Eu sou Esme, a rainha, a mulher, a viúva, a mãe, a avó, a bisavó, a menina do interior, a jovem revolucionária, a senhora idosa, tudo que mora dentro.
***
Alguns dias se passaram desde aquele domingo onde a ideia do livro surgira. Esme ainda imaginava se seria uma boa ideia continuar com isso. Nunca foi muito aberta a deixar que os outros conhecessem o que estava verdadeiramente dentro de si mesma. Era meio que o segredo que ela gostava de guardar em meio a uma vida sem qualquer privacidade.
Subiu as escadas sentindo- se cansada. O dia tinha amanhecido com um belo sol, ótimo para receber várias pessoas em seu jardim para a Festa Anual da Primavera. Todos os anos tudo era muito igual, descia ao lado dos membros seniors da família real, cantavam o hino e saiam para conversar com os convidados. O que mudava era que ela já não tinha mais a mesma energia de antes.
Esse evento específico sempre foi importante para ela e para Carlisle. Quando se casaram essa festa tinha outro significado. Era um evento para fazer o entrosamento entre a família real com a aristocracia e os políticos. Um jogo de acordos que ela particularmente odiava fazer parte. Mas, por incrível que pareça, foi nesse evento que aprendeu o “bê a bá” da coisa. A Rainha Elizabeth, sua sogra, era muito persuasiva, conseguia exatamente o que queria nesses encontros, acordos, aprovação de projetos, financiamentos, tudo. Esme aprendeu bem a observando como deveria manter aliados e afastar aqueles que não lhe eram importantes no grande tabuleiro de xadrez que era a sociedade e a política belgã.
Quando Carlisle e ela ascenderam ao trono fizeram questão de mudar o contexto daquele encontro anual. Não queria algo apenas entre nobres e políticos, mas queria ouvir as pessoas que realmente importavam. Então, abriram as portas para que plebeus, membros ou não de instituições de caridade, ativistas, religiosos, pessoas de destaque em algum projeto local, ou seja, qualquer um que não seria convidado antes.
Para os dois era muito importante ouvir o povo e se aproximar dele, pois assim, saberiam como agir em seus trabalhos e ter uma boa balança sobre o que estavam pensando. Esme e Carlisle sempre souberam que a monarquia era algo ultrapassado e qualquer coisa seria importante para mantê-los de pé e para nortear os seus trabalhos.
Além do que, ela adorava ouvir os relatos de cada um que conversava. Era bom estar em contato com pessoas comuns, isso a aproximava do mundo de onde ela veio. Era como estar diante da realidade de fora da casa de vidro. Dava um certo conforto.
Uma batida leve na porta interrompeu os seus pensamentos.
— Entre.
O funcionário do palácio entrou formalmente, lhe fazendo uma reverência elaborada, mesmo depois de anos isso lhe ainda parecia bizarro demais. Ela levantou as sobrancelhas o questionando.
— William Lamb está aqui fora e pede para vê-la, majestade.
— Deixe-o entrar, por favor.
— Com certeza, senhora.
Esme observou-o sair e William passar por ele com um sorriso debochado. Ela tinha que confessar que gostava muito do jeito dele. O esposo de sua neta parecia sempre preparado para sorrir, principalmente de coisas que iam contra os seus valores ou interesses. Era crítico, sem ser ruim. Isso a lembrava um pouco de si mesma.
A rainha viu o jornalista com diversas pastas e papéis, isso a deixou extremamente curiosa para saber o que ele estava aprontando. William não guardou segredo por muito tempo. Colocou diante dela diversos recortes de jornais e revistas antigas que claramente ela era o assunto.
— Você é um belo fofoqueiro, William. – declarou de cara e tirando um riso dele.
— Você acha, senhora?
— Bom, ao menos vejo que levou um tempo considerável para reunir tudo isso sobre mim.
— Ossos do ofício, majestade. Eu sempre vou estar de olho nas notícias, mas sabendo que boa parte delas não trazem a verdade sobre as coisas ou são apenas interpretações sobre fatos.
— Isso é verdade e acredita que eu devo esclarecer tudo isso no meu livro.
— Não tudo, mas é importante que você tenha o controle sobre a sua própria narrativa e pra isso é bom que tenha acesso ao que falaram sobre você.
Esme respirou fundo e tentou não se prender a tudo que estava em sua frente. Muita dessas notícias tinha lhe causado um grande horror e queria ter podido rebater no passado. Mas procurou sempre seguir na discrição. O lema “nunca explicar e nunca reclamar” sempre foi muito forte dentro do palácio e se uma coisa ela tinha receio era de piorar as coisas. Imaginar que estaria fazendo algo em benefício próprio e estar deixando tudo pior. Então deixava quieto. Embora, que depois passou a controlar melhor o que saia sobre si mesma ou sobre a sua família.
— Entendo o que fala. Eu sei bem como é importante manter as informações certas sobre você em domínio público.
— O sei que sabe. Por isso, para melhor nos nortearmos elaborei essas perguntas para fazê-la. Algumas são esclarecimentos sobre essas notícias mais importantes e outras são curiosidades minhas que podem ser de interesse dos leitores também.
William a entregou a folha rasgada do caderno com mais de trinta perguntas feitas em próprio punho por ele. Esme foi capaz de ver pelos riscos e pelo formato da caligrafia a maneira como o jornalista estava empenhado em escrever a história junto com ela. As letras desalinhadas significavam pressa, saíram dessa forma por que ele tinha medo de esquecê-las. As palavras riscadas significavam temor e cuidado ao escolhê-las e o punhado de perguntas era um sinal que esse livro iria render. No mais, Esme podia dizer que havia gostado do teor do que iria ser questionado a ela.
— Reitero em dizer que você é um fofoqueiro, William.
Mas uma vez, ele sorriu.
— Então vamos a primeira pergunta?
Esme: Sua Verdadeira História – Capítulo 1: Como nossos pais.
A primeira pergunta que me foi feita foi: Que tipo de coisas em você que gostaria que as pessoas realmente conhecessem? Claro que começaria com esse questionamento. Estou escrevendo um livro sobre mim mesma e é lógico que algumas coisas serão expostas. Mas por onde começar?
Não precisa ser da realeza para ter uma preocupação com a imagem que as pessoas tem de você, porém isso tem peso maior quando se faz parte da monarquia. Por aqui é quase obrigatório ter que assumir várias versões de si próprio. Há muitos personagens construídos ao longo dos anos. Alguns são criados para defesa de si mesmo, por temor que descubram quem é de verdade, outras vezes você assume uma identidade por pura e espontânea pressão por que acham que seria melhor assim.
Não me excluo disso. Porém, para se ter uma exata noção do que realmente sou, é necessário voltar há 70 ou 80 anos, mais especificamente para Orland da década de 60. Posso afirmar com certeza que nunca fui uma mulher de muitas ambições. Se perguntar para qualquer menina o que ela deseja ser no futuro, em algumas respostas com certeza seria: “quero ser uma princesa”. Eu era o tipo mais selvagem de criança.
Eu adorava brincar na rua, correr, subir em árvores e fazer pirraça. Por incrível que pareça, eu não era uma garota tão certinha na minha primeira infância. Eu cheguei até a quebrar a perna quando tinha 8 anos depois de cair de uma árvore que havia escalado para roubar as belas maçãs do vizinho rabugento. Eu simplesmente era livre.
Acredito que herdei dos meus pais essa valorização da vida que se tem. Meu pai, John Platt, tinha uma mercearia no nosso bairro, poucas quadras de distância da minha casa. Nunca o vi reclamar de ter que ir todos os dias as margens do rio Klart Vatten para comprar os melhores peixes antes mesmo do sol nascer, ou na feira do mercado central, longe o suficiente para precisar de um transporte, e voltar com tudo fresquinho para vender no seu comércio. Ele amava o que fazia e principalmente dos contatos que tinha com as pessoas. Como bom geminiano, era muito comunicativo e adorava trocar ideias com grupos diferentes.
Já Karen Platt, minha mãe, era professora por vocação. Tinha uma criatividade fora dos limites. Sempre tinha boas ideias que certamente eram destinadas para as suas aulas. Esse era o seu maior prazer. Eu dizia que ela era uma mistura de psicóloga com artista. Se havia um problema, certeza que ela já poderia tirar uma solução rápida da cartola, por que tinha uma inteligência social acima da média e seu instinto observador mapeava o cenário de emoções e situações antes que qualquer um percebesse. Além, de saber pegar o pouco para transformar no muito. Eu mesma adorava sair com ela pelas ruas catando materiais reciclados e transformar em brinquedos ou instrumentos lúdicos.
Ou seja, os meus pais viviam dentro de sua própria zona de conforto e passava isso para mim e para a minha irmã, Lily. Estávamos felizes naquele universo do bairro, onde mais parecia uma cidade dentro de outra, onde todos se conheciam e pareciam uma extensão de nossa própria família. Então, eu era o fruto do meio e estava satisfeita dentro do meu próprio universo.
Agora me lembrando de Orland já posso sentir o calor que essas memórias tem. Me lembro exatamente do afago que meu pai me dava. Éramos uma família de muitos carinhos. Nunca teve um dia em que não houve um abraço ou uma palavra amiga. Gestos de amabilidade não era bem parte cultural de Belgonia. Tínhamos um sangue inglês e sueco que naturalmente se tratam com frieza. Mas consigo enxergar agora o quanto éramos fora da curva e isso diz muito sobre o tipo de pessoa que me tornei.
Outra pergunta que recebi foi sobre como foi a minha infância e adolescência. Tenho que confessar que as memórias específicas fui deixando um tanto esquecida, como se precisasse disso para sobreviver ao meu novo ecossistema, mas acho que agora devo ser justa com elas.
Quando me lembro da minha vida em Orland vem uma imagem colorida das paredes das casas uma perto da outra. Sinto o cheiro de comida no ar. Eu tinha uma vizinha que adorava testar várias receitas que ela mesma inventava e sempre corria para a janela dela para tentar descobrir que comida era apenas pelo aroma. Também escuto as vozes das pessoas todas falando de uma vez. É como música para os meus ouvidos.
Éramos felizes por lá ou era eu que era pequena demais? Não sei bem. O meu bairro não era um dos mais luxuosos da cidade. Ninguém tinha muito dinheiro, mas lembro que todo mundo se ajudava um pouco. Lembro bem das festas em conjunto e das fofocas no pé da porta, coisas bem normais de cidades pequenas. Porém, como as casas eram muito próximas, todo mundo era meio que família.
Meus pais compraram a casa que morávamos quando mamãe estava grávida de mim. Os dois trabalharam duro para isso. Não queriam começar uma família em uma situação complicada, apesar de que nunca tivemos dinheiro sobrando. Lembro bem de ouvir os dois falando sobre isso na cozinha, em voz baixa para eu e Lily não ouvirmos.
Os dois se conheceram em 1955, minha mãe já era professora da escola primária recém – aberta no centro de Orland e meu pai herdara o comércio dos pais dele. O encontro foi improvável. O Santo padroeiro da minha cidade é São Sebastião e todo janeiro há muita festa em torno da matriz. Minha mãe nem queria ir para a quermesse, mas a amiga dela insistiu muito. Tadinha! Professor trabalha demais! Foi lá, sem querer, que ela esbarrou no meu pai. Quer dizer, esbarrou é forte demais! Os amigos deles esbarram eles. Sentiram que um não tirava os olhos um do outro durante as voltas pela pracinha e não tinham coragem de se falarem. Então, os amigos tiveram que dar uma ajudada. Depois desse dia, graças ao santo, nunca se separaram. Inclusive, mamãe sempre dizia que se tivesse tido um menino ao invés de duas meninas, tinha o nomeado de Sebastian.
Os dois vinham de famílias tradicionais. O namoro era vigiado pelos meus avós maternos, que eram extremamente católicos. Lembro que a vovó Lucy era bem beata, baixinha, com longos cabelos brancos e imagino que sua cara carrancuda deve ter apressado os meus pais a se casarem um ano depois de se conhecerem.
Para a minha sorte e de Lily, nossos pais não eram tão conservadores como o resto da sociedade dos anos 60. Pelo contrário, eram bem liberais para a época deles. Mamãe sempre partiu da ideia que o tempo da prisão e da dor morreu com o nazismo na segunda guerra. Você podia ouvir sempre eles dizerem: “as nossas meninas vão ser quem elas querem ser.”. Mais ainda assim, podiam nos ver na missa em todos os domingos, com roupas comportadas, estudávamos em uma escola religiosa, apesar de ser por que mamãe trabalhava nela. Inclusive, eu sempre fazia questão de grudar a saia de forma que parecesse um short acima do joelho antes de passar pela porta do colégio por que me ajudava na hora de correr, mas sempre havia uma freira mandando eu abaixar depois. Tudo isso ajudou a formar a nossa personalidade.
Todo mundo dizia que eu era emoção e Lily razão. Concordo, apesar de eu achar que ela tinha um sexto sentido poderoso demais para um cérebro analítico e ouvir o contrário dela. Minha irmã era dois anos mais nova que eu, porém isso não impediu que fôssemos muito unidas. Ela era o meu complemento, minha guia, meu cérebro, minha companheira. Enquanto eu vivia pelos meus instintos, Lily era focada. Ela vivia trancafiada em casa ao redor dos livros. Ela era muito inteligente e determinada. Não havia nada que ela não pudesse conseguir com a sua grande força de vontade e habilidades. Mas quando precisávamos uma da outra, corríamos para a nossa cabana de lençóis no nosso quarto e passávamos horas conversando. Sempre estávamos lá uma para a outra e foi assim até o fim.
Lembro de ir ao encontro dela quando ouvi sem querer papai dizer a mamãe que não havia mais jeito. O nosso comércio estava à beira da falência. Queria que Lily me dissesse alguma coisa boa, que me tirasse daquela agonia. Eu sabia que ela estava apavorada também, mas olhou bem nos meus olhos e disse: “vamos confiar neles. Tudo vai ficar bem!”.
Porém, não foi bem isso que aconteceu. Papai fechou a mercearia por que não tinha mais jeito. A gente ouvia por todo o bairro as pessoas dizendo: “a crise tá pegando todo mundo”. Eu não queria saber de todo mundo, queria que tudo ficasse bem de novo. Queria a magia da minha infância de novo. Nunca gostei de conflitos.
Meu pai ficou particularmente mal depois de fechar a loja. Ficava em casa o tempo inteiro tentando consertar tudo pela frente ou criar coisas com restos de madeira. Minha mãe sustentava a casa sozinha com o seu parco salário da escola. As coisas realmente estavam complicadas. Não chegamos a passar fome, mas dava pra sentir as coisas se apertando para isso não chegar a acontecer.
Até que dona Karen resolveu pedir ajuda ao tio Fred que tinha condições um pouco melhores que nós. Papai e ele nunca foram tão apegados, apesar de irmãos. Mas não pôde recusar o convite que ele nos fez para se juntarmos a casa dele em Belgravia. Titio trabalhava numa fábrica de sapatos bem grande na capital e acabou conseguindo uma vaga para o papai. Não era bem o que ele gostava de fazer, mas era melhor do que nada. Então, lá formos nós mudar de vida.
Isso foi em 1974. O dia que nos mudamos é uma das minhas memórias mais vivas de antes de eu pertencer à monarquia belgã. Estávamos há dias no processo de mudança. Para mim era algo triste. Meu mundo era aquele bairro. Eu conhecia cada pedra daquele calçamento. Ainda hoje na minha inconsciência me volto para lá. Então, como deixar tudo aquilo? Estava sendo difícil para todos nós, na verdade. Meu pai nunca se acostumou com a sua nova vida. Acredito que ele começou a morrer a partir desse momento. Mas o que podíamos fazer? Era o que tínhamos para o momento.
Recordo-me demais de correr por todos os cômodos da casa e me despedir de cada um deles. Segurei firme na mão de Lily e fiquei vendo a nossa velha residência sumindo aos poucos enquanto o carro se afastava através da estrada. Virei o corpo para frente, sem mais querer olhar para trás. Eu nunca mais voltaria para aquele lugar.
Aquele cheiro de mudança vindo no vento que entrava na janela da camionete, foi a muito tempo, mas sinto na ferida viva do meu coração. Agora revivendo tudo, lembrando o que eu vivi, sangra novamente. Na parede das minhas memórias, esta é a lembrança do quadro que dói mais. Mas pensando bem. Tudo isso foram peças para formar o meu xadrez. Apesar de tudo que fiz, no final, somos como os nossos pais. Somos o lugar onde viemos e é essa verdadeira Esme que vocês precisam conhecer. Então, meus senhores, esse é o princípio de tudo.
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