Setembro de 2046

Renesme se remexia na sua cadeira, sentindo-se extremamente enjoada. Tentava se concentrar no que estava havendo em sua frente e não ter que se levantar para ir ao banheiro novamente. Edward olhava para ela e perguntava se estava tudo bem e ela apenas assentiu, contando até dez em sua mente.

Acontecia no momento o julgamento de Bono Donnalson. Era o último dia de uma série de outras audiências que se estenderam por cansativas semanas. Levaram dias até que a defesa articulasse alguma coisa a favor do ex- deputado, fizesse de tudo para que não fosse para juri popular e a promotoria se articulasse com todas as provas possíveis para acusá-lo não só por crimes de corrupção, mas também pelo assassinato de Bella e Elton.

A tensão estava em todo lugar. O julgamento já entrava para seis horas de duração e os ânimos estavam mais do que agitados. Edward batia os dedos na mesa com um nervosismo aparente e Renesme sentia um calor infernal. O celular dela gemeu em sua bolsa e ela viu que era uma mensagem de William: “vão condená-lo por unanimidade. Você verá!”. Assim ela esperava.

O salão principal do tribunal estava lotado. Haviam jornalistas, estudantes de direito, curiosos, e claro, todos os envolvidos na investigação do caso. William decidiu ficar com Joel em um canto afastado da família real para evitar comentários que desviassem a atenção para o principal. Renesme sentia falta dele miseravelmente, mas achou melhor assim.

Também era a primeira vez que um monarca regente se fazia presente a um julgamento. As notícias eram apenas sobre isso. Mas Edward, através de um comunicado oficial, deixou claro que não iria interferir na decisão judicial e que estava acompanhando tudo como um viúvo e não como um rei.

— Agora com a palavra consedida ao advogado de defesa da sua alteza real, a duquesa de Richmond, Joshua Stowell.

Seria agora a última palavra a ser dada antes do juri se reunir e dicidir o destino final de Bono Donnalson. Toda a família real estava muito grata pelos trabalhos de Joshua. Ele era jovem, não tão experiente quanto os outros que ali estavam, não trabalhava no palácio há muito tempo, mas provara a sua imensa competência durante os oito meses que se seguiram.

Logo quando o caso foi mandado a julgamento, a defesa de Donnalson fez questão de culpar Bella de todas as formas para ao menos livrar Bono desse processo. A partir desse momento, Edward confiou em Joshua para defendê-la. Para ele era inadmissível que a vítima fosse culpada de alguma coisa, mas ele conhecia bem os meios escusos que Bono poderia usar. O advogado dele era da mesma espécie. Conhecido no meio por ser escandaloso no tribunal e fazer o maior estidalhaço na imprensa para chamar atenção e desmoralizar o adversário no caso. Não podia brincar com esse tipo de gente. Bella não voltaria mais para se defender, mas ele não iria deixá-los fazerem-na de vilã e acusá-la de loucura mais uma vez. Era a chance que ele tinha para fazer o que deveria ter feito por ela no passado.

Joshua tinha lutado bravamente para driblar os meios que o advogado de Donnalson queria utilizar para se dar bem. Não faltaram oportunidades para que isso ocorresse e estava sempre atento a qualquer possibilidade, dando o seu sangue para reunir provas suficientes para uma condenação justa. Edward o admirava e por isso confiou nele para o caso. Joshua podia ser chamado de “workaholic”, era organizado ao extremo e inteligente em seus argumentos para convencer qualquer um. Era exatamente isso que precisavam.

Renesme viu o jovem alto levantar-se e seguir para a tribuna com uma série de papéis em mãos. A sessão que havia sido conturbada desde o início, agora estava quase que totalmente silenciosa. Com excessão do som dos rabiscos do escritor Roger Divid, que acompanhava todo o caso para documentar no livro que escrevia. Joshua pegou uma das fotos de Bella tirada na cena do acidente e mostrou para todos. Tanto para Edward quanto para Renesme aquela era uma imagem difícil de ver. A princesa sentiu um golpe no coração, seus olhos já marejavam só em pensar em toda a maldade que tinha sido feita com sua mãe. Toda a força que tinha reunido durante todo esse tempo nas investigações estava por um fio. Ela só queria chorar.

— Olhem para esse rosto. Todos sabem o nome dela. Todos acompanharam a sua história. Agora me digam senhores e senhoras, o que essa mulher fez para ser assassinada de tal forma? Digam-me, por favor! Jurados, essa mulher foi perseguida, massacrada, feita de louca em sua própria casa por um homem contratado por esse senhor e morta por um grupo de fascistas apoiadores dele e por quê? Simplesmente por que defendia pessoas que nunca tiveram vez e voz na nossa sociedade. Ela só queria o bem, apenas isso. Acham justo alguém mandar matar uma pessoa em nome de Deus, de valores morais, de justiça, de religião? Escutem todos! Jesus não pregou o ódio e sim a paz. Que direito tinha esse senhor e seus apoiadores mandarem matar não só a sua alteza real, mas também Elton Rust? Que valores são esses que tiram o direito de alguém viver?

Todos olhavam atentos para o advogado. Renesme não conseguia mais se controlar diante das palavras de Joshua e começou a chorar descontroladamente. Desde que Bella falecera ela tentou ser forte. Organizou todo o funeral e participou de toda a investigação com a firmeza de uma rocha. Mesmo no período em que suas forças se esvaíram, onde passou por um período de reclusão, não tinha se permitido aceitar que sua mãe não estava ali. Sentia tristeza, cansaço, mas no fundo de sua mente havia aquela sensação que ela estava perto. Não tinha ido embora. Agora, depois de ter descoberto tudo parecia como um fim. Já vinha sentindo isso durante algum tempo, mas ali no tribunal, teve plena consciência que dessa vez Bella estava podendo ir em paz. Então, Renesme sentia que poderia enfim vivenciar o seu luto. Deixar esvair em lágrimas toda a dor que sentia.

— Não convém mais eu estar aqui relembrando todo o caso. Passamos dias revivendo tudo isso. O que aconteceu é claro para todos nós. Só peço de vocês agora apenas justiça. Essas famílias já perderam muito e merecem um julgamento justo para os seus entes queridos.

Joshua completou sua fala e saiu da tribuna deixando todos murmurando a respeito de sua fala. O juri se dirigiu para a sala ao lado e todos aguardaram a decisão deles. Renesme pensou que aqueles foram os minutos mais longos de sua vida. Não aguentava ficar ali. Estava sufocando, pediu licença e foi direto para o banheiro mais próximo.

Enquanto botava tudo para fora, pensava que antes até poderia acusar a sua gastrite nervosa por aquele desconforto. Mas agora era diferente. Toda manhã acordava enjoada, sua mestruação estava um mês atrasada. Sabia que estava grávida e isso lhe aterrorizava ainda mais. Não tinha tido coragem de fazer o exame ainda e nem de contar a William a novidade.

A ideia de ser mãe em breve a deixava nervosa. Não era por que não queria ter filhos. Mas talvez pelo fato de ter sido cobrada esse tempo todo para a maternidade, para dar a continuidade a linha sucessória ao trono e agora quando a possibilidade de estar grávida enfim chegara a assustava a responsabilidade que viria com tudo isso. Quis vomitar novamente, mas foi segurada por William, que mais uma vez era o seu salvador numa hora como aquela. Ela sorriu para ele ao lembrar disso.

— Gastrite nervosa de novo?

Ela não respondeu com palavras, apenas assentiu de leve. William a abraçou fortemente, passando as mãos carinhosamente pelas suas costas e sussurando em seu ouvido:

— Eu sei que esse é um momento horrível, mas vai acabar bem.

— Assim espero. William, eu não aguento mais reviver tudo isso. Parece um looping eterno. Um filme que nunca chega ao fim.

— Hoje vai ter o fim justo. Já vencemos muito até aqui. O juri jamais vai ficar ao lado de Bono.

Era o que Renesme tentava colocar desesperadamente em sua mente ansiosa. Em alguns dias seria o seu aniversário e o de Bella, a condenação de Bono era o presente ideal que ambas mereciam ganhar.

— Precisamos voltar para a sala de julgamento.

— Você está mesmo bem para retornar? Podemos ir para onde você quiser.

— Eu quero voltar. Preciso ouvir a sentença para saber que a justiça foi feita.

William assentiu e ajudou Renesme a se levantar. Rapidamente, ela lavou a boca e refez a maquiagem. Ele deu a mão a ela e seguiram juntos de volta a sala de julgamento. Se separaram apenas quando entraram para assumirem os seus lugares. O juri já havia voltado ao seu lugar e o juiz contava os votos. Edward olhou para a filha com preocupação.

— Está tudo bem?

— Sim.

O juiz agora já tinha a resposta. Olhou para todos e mais uma vez o silêncio foi implantado.

— Todos de pé!

Era o momento decisivo que ambos esperaram tanto tempo. Ninguém conseguia desgrudar os olhos do juiz, qualquer gesto parecia distrair do verdadeiro propósito. Bono Donnalson continuava com a cabeça estendida e o nariz empinado. Estava ali desmoralizado, desarrumado, tinha passado quase um ano na cadeia e ainda assim mantinha a pose de superior, como se acreditasse que ninguém poderia vencê-lo.

— O juri aqui presente analisou todo o caso. Ouviu as defesas e a promotoria e decidiu por unanimidade que o réu é culpado!

O povo todo ovacionou a decisão tomada pelo juri. Palmas e mais palmas podiam ser ouvidas em todo o recinto. Renesme ficou tão feliz que pela primeira vez abraçou o pai depois de meses de distanciamento dele. Ali naquele momento não existia mágoa. Apenas justiça. As feridas de ambos agora podiam se cicatrizar.

— Diante do exposto, condeno o réu a pena de morte pelo crime de traição a nação por corrupção, por ser o mandante de dois assassinatos hediondos e por ser o instrumento de pregação de ideais que ferem os direitos humanos.

Edward e Renesme agora recebiam todo o apoio das pessoas ali em volta. Quando saíram do tribunal, o público do lado de fora os ovacionaram. Ambos fizeram questão de pegar na mão do máximo de pessoas que conseguiram. Renesme tinha ciência do carinho transmitido por elas e sem o seu apoio muito não tinha sido feito. A pressão popular havia sido muito importante para a condenação de Bono e no rosto de cada um que ela apertou a mão podia-se ver que todos desejavam dizer a mesma coisa: “queriamos que Bella tivesse o direito de viver e não compactuamos com esse crime brutal!”. A princesa só podia sentir gratidão e agora podia tocar a vida para frente com novos caminhos a serem percorridos.

Os dias se passaram e o restante dos envolvidos nos crimes também foram condenados, porém com penas menos radicais que a de Bono, mas estavam fadados a ficarem anos na cadeia, sem fiança ou regime semi aberto.

Renesme, então, pôde se concentrar na sua possível gravidez. Adiou como pôde pensar no assunto. Ficava criando ideias em sua cabeça que a permitiam fugir dessa posibilidade, dizia para si mesma que seria difícil demais conseguir fazer o exame sem ninguém desconfiar ou que sua mestruação viria em breve, estava apenas passando por um momento de estresse. Até que decidiu tirar logo a prova.

Conseguiu um teste de farmácia e o fez. Ficou acanhada, agarrando as pernas sentada no chão e esperando ansiosamente os três minutos passarem. Demorou tanto para o relógio mudar de posição até que ela decidiu se levantar e tomar um banho para esfriar a cabeça da ansiedade. Minutos depois quando abriu a porta do box a primeira coisa que viu foi aquelas duas listrinhas que diziam tudo e antes que pudesse expressar qualquer emoção, o celular começou a tocar na pia. Era William. Ele sempre tinha esse poder de estar presente na hora certa.

— Olá, meu bem. – Renesme atendeu com a voz rouca.

— Oi. Está tudo bem?

A princesa limpou as lágrimas e vestiu o roupão.

— Está sim.

— Eu tive pensando... Por que você não dá uma passada aqui no flat? É sábado e temos que nos divertir de alguma forma já que não podemos sair para nenhum lugar público.

Sim, fazia oito meses que eles estavam oficialmente namorando, mas ainda tinham que viver o relacionamento às escondidas. A imprensa tinha caído em cima de William. No minuto que assumiram o namoro, eles foram em busca de qualquer coisa que pudessem desmoralizá-lo. O que não faltaram foram manchetes que o acusavam de “namorador”, “Vocês vão ver! A princesa vai pagar pela traição dela!”. Os políticos mais conservadores usaram a fama de William como jornalista polêmico para dizerem que ele acabaria com a monarquia infringindo a regra de imparcialidade política que a realeza tinha que cumprir. Alguns tablóides o acusaram de ser velho demais para a princesa, afirmando que ela ficaria viúva muito cedo e não teria filhos. Traduzindo, William era o sapo que jamais a opinião midiática iria transformar num príncipe. Por mais absurdo que tudo aquilo fosse!

Renesme no início achou que tudo passaria. Eles teriam que apenas continuar com a discrissão e não dá material para fofocas. Não era todo mundo que odiava William, mas uma boa parte criou um certo ranço só pelo que absorviam da impresa maldosa, sem ao menos conhecê-lo de verdade.

Era uma barra que eles tinham que suportar com paciência. Estava difícil especialmente para William. Ele era perseguido por paparazzis por onde ia. Teve que contratar seguranças para ficar na frente de seu apartamento em Belgravia e de Brocken Hall por que queriam tirar fotos dele com Renesme até por drones que circulavam aos arredores. Nenhum lugar era seguro, não havia mais um minuto de paz.

Ele aceitava como podia. Sabia que iria ser assim, todos que entraram para o ecossistema real tinham passado por isso também. Era meio que um rito de passagem e ele não queria deixar Renesme mais chateada do que já estava. Tentava segurar a onda com leveza, se fazendo de desentendido muitas vezes. Não costumava responder as críticas, entrava no jogo da realeza de “não reclamar e não explicar”. Só em um momento teve que esclarecer as coisas em um podcast que participava contando uma meia verdade da sua história com ela para tentar defendê-la das acusações de traição que a desrespeitavam. Isso ele não podia suportar.

Para William um dos maiores golpes que recebeu em seguida foi a sua demissão do “The Globe”. Ele não tinha contado a Renesme que tinha sido convidado a sair do jornal por que o seu relacionamento com ela estava dando muito o que falar e desviando a sereniedade do jornal. Ele agora preferia se concentrar em sua carreira solo. Criou um podcast de entretenimento jornalistico ao lado de sua sobrinha Zara e outro amigo de profissão. Também estava no Youtube dando dicas para novos jornalistas e escrevia um livro sobre a mesma temática. Tentava não se deixar levar. Sabia que toda essa situação era para levá-lo a loucura, mas não iria deixar isso ocorrer por que sabia de seus sentimentos por Renesme.

Por outro lado, eles tentavam vivenciar o seu romance da melhor forma que podiam. A princesa não abriu mão de ter tudo que um relacionamento comum teria e isso incluia conhecer a família dele. William não era contra que ela se aproximasse das pessoas que eram importantes para ele. Inclusive, fez questão de apresentá-la como sua namorada a filha logo quando ela chegou de Londres para estar com ele durante as férias. Renesme ficara muito preocupada com a reação de Katlyn com essa notícia. Na verdade, ela não sabia o que pensar. Nunca tinha tido essa experiência na vida, talvez agora ainda seria estranho se Edward se casasse de novo e isso a fez pensar como ficaria isso na cabeça da menina.

William tentou tranquilizá-la dizendo que sua filha crescera vendo seus pais separados. Para ela não seria difícil aceitar que ele estava tendo uma namorada que não era a mãe dela, Helen mesmo tinha um companheiro. Mas Renesme só ficou realmente calma quando Katlyn lhe deu um enorme sorriso e um abraço. Tudo tinha saído melhor do que ela poderia supor. Agora ambas eram muito amigas e conversavam sempre que podiam.

Mas ele tinha que admitir que não gostava da ideia de apresentá-la para a sua mãe. Não por vergonha ou qualquer outra coisa qualquer, mas pelo fato dele próprio não se dar bem com essa parte de sua família. Desde que saiu de casa, conversava raramente com a mãe e tinha muito receio de colocar Renesme naquele ambiente que ele detestava.

A visita a Gotland, onde as duas seriam apresentadas, só aconteceu por causa de muita insistência de Elizabeth e da própria Renesme, pois não seria justo estar com alguém sem conhecê-lo por inteiro. William, então, não teve escolha e assim partiram num domingo de agosto para passar um dia ao lado da velha senhora.

Renesme tentou encarar tudo numa boa. Ela estava diante da mulher que deu a luz ao homem que ela amava, estava no lugar onde ele vivera a sua infância e adolescência, estar naquela propriedade era entrar em contato com um outro lado de William Lamb.

Aquele nervosismo natural de estar diante de alguém importante na vida de seu namorado e o medo do que poderiam pensar dela bateu. Renesme nunca gostou dessa parte dos relacionamentos. Sempre ficava apreensiva nesse momento. Porém, Elizabeth Lamb a recebeu mais do que calorosamente. Ela até levou um susto quando a viu. William se parecia muito com ela. Porém, as semelhanças paravam nos grandes olhos verdes e no formato do rosto, não poderiam ter personalidades mais diferentes. Ela parecia ser uma senhora muito amigável, mas cercada de interesses sociais e muitos preconceitos. Não muito diferente de muitas pessoas da aristocracia que ela conhecera durante toda a sua vida.

Durante o almoço, Elizabeth fez questão de convidar uma série de amigos vizinhos à fazenda para apresentar Renesme. William se sentia extremamente desconfortável quando a sua mãe exibia a princesa como um grande troféu conquistado pelos Lamb, como se aquilo fosse uma grande batalha. Renesme tentou não se concentrar nisso e sim no monte de histórias sobre o seu namorado que ela contava e na porção de fotos dele durante vários estágios de sua vida.

Katlyn também os acompanhou a Gotland. A menina nunca teve muito contato com a família do pai e tudo aquilo era novidade para ela. William, na primeira oportunidade que teve de escapar, as levou para os lugares que costumava brincar enquanto era criança. Os três se divertiram andando a cavalo até a costa litorânea e sentiram a brisa gostosa que vinha dali.

— Esse é o seu quarto de criança? – Renesme falou enquanto entrava no último lugar que ainda não tinha visto na casa e não se surpreendeu em nada ao ver o recinto completamente fora dos padrões para um quarto infantil.

— Sim e pelo visto, mamãe não mudou nada.

— Ótimo! – disse Renesme enquanto passava as mãos pelo posteres pregados na parede que representavam filmes dos anos 2000 e bandas de rock dos anos 80. – Assim eu consigo me conectar com um outro você. — William apenas sorriu levemente.

— Quando Frederick e eu estávamos na pré- adolescência ficávamos acordados aqui até tarde assistindo filmes de terror estrelado por Charles Laughton e Anthony Hopkins, observando a "diferença espacial" entre o que acontecia na superfície do rosto de um ator e o que parecia estar acontecendo atrás de seus olhos.

Renesme assentiu e voltou a sua atenção para o velho violão sob a cama e William corou meio envergonhado.

— E pelo visto você também teve sua fase de músico.

— Isso era coisa de Frederick. Tivemos uma fase que achamos que poderiamos montar uma banda de rock alternativo, mas eu sempre fui péssimo músico. Eu gostava mais disso aqui.

Ele pegou o velho notebook “Apple” em cima da escrivaninha que estava também abarrotada de livros de todos os estilos. Ela já conseguia imaginar o jovem William ali escrevendo os seus primeiros textos.

— Foi aqui que eu descobri que queria trabalhar com escrita. Eu ficava horas lá fora observando as coisas acontecerem na fazenda e criava notícias a respeito.

— Imagino que conseguia transformar algo muito banal na coisa mais interessante de se ler.

— Não acredite muito nisso...

— Eu adoraria ler, sabia? Estão aqui?

— Não, eu os levei para Brocken Hall.

— Pois, eu quero ler todos. Eu adoro tudo que você faz.

— É mesmo?

Renesme sorriu e deu um beijo nos lábios de William. Katlyn os interrompeu entrando no quarto ao lado da avó.

— Pai é verdade que você e tia Emma faziam aposta de quem conseguia passar mais tempo no celeiro?

— Éramos meio selvagens naquela época. – William declarou piscando para Renesme. – Emma tem aquele jeito polido, mas ela era pior que eu e Frederick juntos.

— Isso é verdade. – concordou a velha senhora.

— Nós chupávamos doces cozidos e ela nos sacrifícava a ficarmos com eles até grudar no céu da boca. Você chegava em casa com o palato sangrando e fedendo a burro por estarmos horas nos estábulos. Emma sempre foi mandona e eu e Frederick, apesar de mais velhos, sempre a obedeciamos.

Renesme percebeu que apesar de tudo, William ainda no fundo tinha um certo carinho por Frederick. Guardava as boas lembranças que tinha dele, como se quisesse guardar consigo apenas a parte boa deo irmão por que o presente era bem diferente.

A tensão pairou no ar assim que ele apareceu. Os dois irmãos se olharam como se fossem dois inimigos, não se falaram, o que era triste de se ver. Frederick manteve a compostura e não deixou de comprimentar a sua nova cunhada e a sobrinha, mas não ficou muito tempo por lá para evitarem mais desacordos.

No fim do dia, a princesa entendeu o porquê de William querer absurdamente deixar de ser parte daquele modo de vida, de ser quem ele foi ensinado a viver.

— Me prometa Renesme que não vamos criar os nossos filhos dessa forma, por favor. – ele pediu enquanto os três voltavam para casa.

— Não vamos.

Agora diante do resultado do exame de gravidez, mais de um mês depois, toda essa discussão teria que ser real.

— Acho uma boa ideia, William. Estou me arrumando e já chego ai. – ela respondeu durante a ligação, tentando manter a voz firme e os pensamentos no lugar.

— Ok, estou te aguardando. Te amo!

— Eu também te amo!

Renesme então se escorou na parede e foi escorregando até chegar ao chão frio do banheiro. Deus ela estava grávida! Mil coisas passavam em sua cabeça. Primeiro não era uma alternativa para ela um aborto. Ela imaginava um futuro com aquele bebê, mas o principal era o fato que lhe preocupava era que aquela criança seria considerada uma “bastarda” para a monarquia por não ter sido concebida dentro de um casamento. Podia parecer estupidez, mas era verdade. Havia um artigo na lesgislação real que determinava que só poderiam ser considerados herdeiros, os filhos tidos dentro de uma união oficial. Sim, as regras eram bem claras e conservadoras dentro da realeza e não cabiam pessoas que transavam antes do casamento e tinham bebês sem planejamento.

Respirou fundo e tentou não pensar naquilo no momento e nem em mais nada. Levantou-se e foi vestir uma roupa. Agora ela pensava em como iria contar para William a novidade. Será que ele mudou aquela opinião que tinha quando conversaram a respeito meses atrás? Como ele aceitaria isso? A vida deles no momento estava complicada demais e o bebê tornaria isso cem vezes pior.

Ela pegou a peruca loira e colocou os óculos. Precisava de um ritual todo elaborado na hora de se encontrar com William. Precisava ir em um carro diferente toda vez. Pedir ao segurança para estacionar algumas quadras mais longe e seguir andando na penumbra até chegar ao destino esperado. Geralmente o lugar mais seguro para encontros ainda era o flat que ela alugara na época das investigações. Os paparazzis aindam não tinham descoberto o local, assim ela poderia entrar normalmente pelo estacionamento e ficar o tempo necessário com mais tranquilidade.

Tocou a campainha e William atendeu com a cabeça na porta a olhando com um olhar tão carente que a fazia querer pular em seus braços e enchê-lo de beijos.

— Você fica tão sexy com essa peruca loira.

— Se você quiser, eu pinto o meu cabelo de loiro definitivamente.

— Eu ia amar do mesmo jeito que a amo agora.

— Ia me amar até se eu ficasse tão grande como uma baleia?

— Você quer comer uma baleia? – William falou sorrindo. – Vem cá!

Ele a puxou para os seus braços e colaram os seus lábios. Eles já tinham se beijado um milhões de vezes e exploraram todo o espectro de um beijo, do terno ao lascivo, do exasperado ao apaixonado. Todas as vezes que se beijavam era uma sensação diferente. Renesme agora sentia um desejo enorme de tirar as roupas dele e se encaixarem de vez, mas o cheiro que vinha do cômodo ao lado fez o seu estômago roncar.

— Você avisou ao Santa Fé que hoje vamos passar a noite por aqui?

Santa fé era o apelido divertido que William dera a Wyatt Price, o novo segurança dela. Renesme tinha trocado toda a sua equipe uns meses atrás. Tinha feito uma seleção apurada e só ficou satisfeita quando teve plena confiança naqueles que havia escolhido. Amava todos e os achava incrivelmente competentes. Agora podia respirar aliviada por que tinha total certeza que não estava sendo enganada por aqueles que trabalhavam com ela.

— Ele deve imaginar. Você fez uma superprodução hoje, ein? Quer mesmo que eu fique aqui essa noite, hã?

— Eu sempre quero isso.

Ela assentiu e seguiu até a mesa. Estava muito bem organizada, tinha todas as comidas que eles gostavam e duas lindas velas acessas para dar ainda mais um clima romântico. William abriu uma taça de vinho e Renesme imediatamente tirou a taça dela de perto. Ele a olhou com desconfiança e ela começou a ficar nervosa.

O jantar foi ainda mais dolorosamente estranho. Ela fez de tudo para manter uma conversa que fizesse William não perceber o nervosismo dela, embora, de vez enquanto, ela desviava o contato visual. Sabia que ele já desconfiava que havia algo errado e ela simplesmente não conseguiu mais esconder e começou a chorar. Malditos hormônios!

— William, eu estou grávida. – soltou de supetão.

Ela viu que ele nem arregalou os olhos, parecia que já sabia e esperava apenas a confirmação dela. Renesme não duvidava que fosse isso mesmo. William era perceptivo demais para o seu próprio bem. A expressão dele continuava sem surpresa alguma, ele apenas a puxou para os seus braços e ela pôde chorar ainda mais abraçada a ele.

— Eu já desconfiava. – William sussurou no ouvido de Renesme enquanto acariciava as costas dela. – Você não toma café há uma semana, rejeitou o vinho agora e notei seus seios maiores e mais doloridos na última vez que estivemos juntos.

— Eu juro que... – ela agora gaguejava. Nem sabia o que dizer. – Não foi planejado. Eu não sei como isso aconteceu.

O jornalista a tirou de seus braços e olhou fixamente para ela. Renesme ficou temerosa com o que ele iria dizer, mas no rosto dele ainda não havia uma expressão grave.

— Nós dois sabemos como aconteceu. Não fale como se fôssemos dois adolescentes supreendidos com uma gravidez precoce. Estamos juntos, não estamos?

— Você não entende, William! Esse é o pior momento para uma gravidez. Nós nem podemos se quer sair juntos!

— Já aconteceu, meu bem, não há como escapar disso e em hipotese alguma eu quero que aborte o nosso bebê. Tudo que eu lhe disse a cerca de filhos é verdade. Eu seria um canalha se a abandonasse nessas circunstâncias e jamais faria isso, se é isso que essa sua cabecinha boba está pensando.

“Nosso bebê”, espera, William estava feliz com a gravidez, pensou. Agora ela se sentia lenta o suficiente por não ter previsto isso. Passou a mão na barriga lisa pela primeira vez e reconheceu que estava esperando mesmo um filho com aquele homem que ela estava loucamente apaixonada. Tinha tantas outras questões que seus pensamentos simplesmente estavam nublados.

William tirou uma caixinha preta do bolso e a abriu em frente a ela. Tinha um lindo anel de ouro branco, com corte oval, recheado de pequenos diamantes encrostrados ao redor de uma grande pedra de topázio azul.

— Não se preocupe não é nenhuma herança de família. – brincou. – Com excessão dessa pedra aqui no meio que certamente você deve reconhecer.

Claro que reconhecia. Vinha de uma das jóias preferidas de Bella. Antony deveria tê-lo ajudado com isso e simplesmente amou o fato de sua mãe está ali sendo representada. Seu irmão tinha razão, tinha certeza que Bella estaria muito feliz nesse momento.

— Eu planejava pedi-la em casamento há quatro dias atrás no seu aniversário. Mas não consegui. Fiquei imaginando todas as respostas que você poderia me dar. Eu ia me enrolar com as palavras e seria a proposta mais mal feita da história!

Renesme agora sorria. Naquele ano havia sido o primeiro que passava o seu aniversário com ele. No ano anterior, Aro a prendeu com uma festa horrorosa, mas dessa vez ela preferiu passar o dia inteiro com o seu namorado em Seraf na propriedade de seus pais. Queria apenas William e todo o amor que ele poderia dar a ela.

— Você é ótimo com palavras! Jamais iria gaguejar.

— Não experiemente falar comigo enquanto eu estiver nervoso. Fico irreconhecível!

A princesa se aproximou, deslizando os braços sobre os ombros dele. Observou vários pensamentos e emoções passando pelo rosto dele enquanto ele permitia que suas palavras a acalmasse. William encontrou os olhos dela novamente e ela pôde ver e sentir o amor e a devoção dentro deles. Tinha em toda a sua vida imaginado esse momento. Procurou o amor verdadeiro em tantas pessoas. Se decepcionou, seu coração foi partido várias vezes até que da maneira mais inesperada encontrou o que mais procurava nos braços daquele homem, o menos provável. Existia um ditado que dizia que “Deus escreve certo com linhas tortas”, certamente era verdade. Ela teve que passar por tantas perdas, tantos desafios para finalmente poder amadurecer e se tornar essa mulher que tinha se transformado. Se sentia mais firme não por causa de William, mas por tudo que ela teve que vivenciar e agora podia dizer que aquela mulher insegura, que parecia não se encontrar, era pequenininha dentro dela.

— Bom então você vai ter que se preparar para ter uma noiva chorona por alguns meses, oito para ser mais exata. Como pode ver, os hormônios estão me dominando.

— Essa é a minha última preocupação. Eu amo até os seus hormônios, meu pardal.

Ela sorriu, inclinando-se para que seus narizes quase se tocassem. William pegou o anel e colocou no dedo anelar direito dela e sem mais hesitação, os lábios dele cobriram os dela, suaves, doce e cheios de gratidão e compreensão. Ele envolveu seus braços ao redor dela, e Renesme se sentiu rapidamente aquecida apesar do ar frio do outono.

MANDEM PERGUNTAS PARA ESME. TODAS ELAS SERÃO RESPONDIDAS NA CONTINUAÇÃO DESSA HISTÓRIA.