01 de Outubro de 2045

Preocupação com as eleições era um eufemismo pra Edward. O dia primeiro foi muito mais do que difícil. Mas ele não podia mais calar. A morosidade no apuramento da CPI a Bono Donnalson e toda sua gangue aos diversos casos de violência e outros casos criminosos estava deixando-o maluco. Porém, lhe deu mais força para agir. Estava determinado a fazer tudo que tinha a seu alcance.

Primeiro de tudo, solicitou todas as provas que haviam sido coletadas pelo Serviço Secreto e analisou o que poderia ser mais bombástico. E pouca coisa não havia. Ver aquele material dava ainda mais nojo e revolta nele. Era incrível o quão estava óbvio que o parlamentar era um verdadeiro bandido e nada era feito para puni-lo. Onde Belgonia se tornou tão a mercê de corrupção? Para ele estava claro que muitos parlamentares estavam atrasando a CPI por que eram tão culpados quanto Donnalson.

Isso o impulsionou a seguir com o seu plano. Comprou um celular pré-pago e ligou para George, ex-segurança de Bella, pessoa que ela confiava muito e que demonstrava a Edward muita confiança, pediu a ele que procurasse um hacker que invadisse o seu notebook e vazasse todas as provas que incriminariam Bono Donnalson na internet. Sua intenção era que as pessoas fossem as ruas e cobrassem pessoalmente a CPI. É claro que isso também geraria um resultado desfavorável para o partido conservador nas eleições. Tinha suas ressalvas a Sean Renard, mas preferia ele do que qualquer um que poderia indicar um risco ao país.

Na noite do dia trinta de setembro tudo aconteceu como o rei esperava. Em todos os sites e redes circulavam os vídeos, prints de mensagens e fotos que comprovavam o envolvimento do partido de Donnalson com crimes de racismo e LGBTfobia. No dia seguinte, as pessoas foram realmente as ruas protestar. A raiva no rosto das pessoas era visível. Bella era a principal imagem usada para representar a luta daquelas pessoas contra os descassos que estava havendo no país.

Ver aquelas pessoas expressando a sua insatisfação, gritando por justiça nas ruas, era para Edward acolhedor. Era o que ele queria estar podendo fazer. Ficava pensando um zilhão de vezes em como a humanidade poderia ter se tornado tão imunda! Como as pessoas podiam querer tirar a vida de uma outra por sua cor, por sua opção sexual ou por sua opinião? Como ninguém viu essa corrente de fascismo dominar o país a ponto de uma guerra ideológica como aquela se instalar daquela forma? Onde ele estava quando Belgonia chegou a ser virada de ponta cabeça desse jeito? Mas agora ele não mais se calaria.

Pediu uma audiência com o primeiro ministro e decidiram que era hora de ele falar para todo o país. As pessoas precisavam saber que ele estava agindo e prol delas e assim foi. Entrou no ar para todos na véspera da eleição. Era seu primeiro discusso público, estava nervoso, porém motivado. Subiu ao pulpito e olhou para a câmara. Lembrou do rosto de todas aquelas pessoas que gritavam nas ruas por justiça e do rosto de Bella. Ela sempre esteve certa.

— Boa noite a todos e a todas! Gostaria de começar dizendo que estou completamente ciente de tudo que vem acontecendo em nosso país. Me reuni hoje com o primeiro ministro e juntos combinamos ações que visam combater qualquer atitude criminosa que vem se instalando em nossas intituições. Garanto a todos vocês que eu, como monarca, e principalmente como um cidadão Belgão, me sinto enojado com tudo que vem se propagando na imprensa e sendo investigado na CPI. Estou com o povo que foi para ruas hoje e por ele afirmo que nada sairá impune. Cobro veemente do parlamento a agilidade e mais transparência nas investigações desses casos de corrupção e violência que está sendo posto em pauta. Encerro dizendo que nosso país nunca foi e nunca será palco de ódio, de criminalidade e de ideologias que não sejam voltadas ao respeito e a cidadania plena.

Edward olhou firmemente para a câmera e sentiu os olhos marejarem de emoção.

— Belgonia voltará a ter orgulho de suas entidades e recuperará sua dignidade. Seguimos lutando para que dias melhores venham. Muito obrigado.

O cinegrafista dá sinal para o fim da transmissão e Edward desce do púlbito se sentindo mais aliviado. Sentia uma onda de força correr em suas veias como nunca antes. Estivera esses meses todos dormente. Presso em sua dor. Tudo que aconteceu em sua volta, ele acompanhou no piloto automático. Mas agora era diferente, ele sentia que tinha renascido.

No dia seguinte, esteve atento a todos os passos da eleição para primeiro ministro. Seus olhos iam da TV para o celular. Esperava o efeito de seu plano no resultado, mesmo sabendo que Bono por si só se destruiria.

Porém, as coisas começaram a se complicar quando apoiadores do partido conservador começaram a fazer algazarras nas ruas. Edward não podia imaginar que mesmo estando na mira de insvestigações, grupos dos “Águias” ou do “Salve o País” ainda iriam agir. Pelo que se podia ver, eles tinham coragem para tudo mesmo.

O rei tentava entender o que se passava na cabeça daquelas pessoas. Como não podiam ver que Bono era podre somente pelo fato de apoiar o uso de armas? Ou eram um grupo de mau caráter ou estavam possuídos por uma seita alussinógena. Só podia ser isso para explicar tanta maldade e cegueira junto.

Ele ainda tinha esperança que a polícia pudesse conter o grupo que se manifestava na rua, que praticava vandalismo em pleno céu aberto. Mas, pelo visto, Bóris era mesmo muito molenga! Vários grupos começaram a tomar estradas das cidades. Fazer barricadas a invadirem locais de votação. Edward não podia deixar que eles passassem ainda mais dos limites. Acionou o ministro da segurança e ordenou ele mesmo a conter os grupos que estavam atrapalhando as eleições.

Continuou acompanhando barbarizado tudo que acontecia, assim como William que voltou a estar nas ruas cobrindo os acontecimentos da eleição. Não tinha como não se surpreender com o verdadeiro estado de guerra que havia se instalado em Belgonia. Ironicamente pensou que não poderia ter escolhido melhor hora para voltar ao seu país. Para um jornalista tudo aquilo era um prato cheio. Mas ele se sentia enojado. Não se lembrava de presenciar tanto desajuste e violência em Belgonia antes. Pensou em quantos atos grandiosos de furia e criminalidade já havia acontecido desde que Bono Donnalson fora eleito deputado. Era uma verdadeira onda de ódio que estava tomando o país.

Passava pelas ruas com Nicole, que registrava tudo em sua câmera avidamente, tudo que acontecia. Quando chegou a redação do The Globe, começou a tentar entender tudo que estava havendo em sua volta, por que era tudo muito inacreditável. Bono Donnalson não deixaria ser derrotado de maneira nenhuma, nem que para isso usasse os meios mais covardes.

Começou a escrever, enquanto a TV permanecia aberta. As eleições se encerrariam em breve e tinha total certeza que o partido conservador seria derrotado, mesmo com todos os vândalos impedindo que as pessoas fossem votar. Agora tinhamos uma guerra declarada entre dois lados. Os insanos e os que tinham um pouco mais de juízo. Começou a escrever isso em sua matéria, mas apagou. Lembrou do acordo que tinha feito com a família real de não escrever mais matérias que tivessem cunho político e nem polêmico por conta de seu trabalho com a princesa. Então, voltou-se para o tom mais sério e tentou colocar uma certa imparcialidade. Era mais um texto que escrevia e Erick assinaria, por isso nada de tons irônicos e ferrenhos.

Lembrou-se de Renesme. Onde ela estaria agora? O que estava pensando sobre tudo que vinha acontecendo? Ainda estava sem notícias sobre ela. Apenas enviava alguns conselhos sobre eventos e sobre alguns discursos, mas nada de vê-la. O que sabia dela era através de Henry ou Joel. Continuou acomapnhando todos os dias as audiências da CPI e sempre se perguntava sobre o que ela estaria achando de tudo. Na verdade, a princesa estava constantemente em seus pensamentos. A cada reviravolta tinha vontade de mandar uma mensagem para ela, mas acabava deixando pra lá.

Suspeitava que havia sido ela a “vazar” informações cruciais descobertas pelo Serviço Secreto para a imprensa. Era algo que eles juntos faziam de vez em quando. Quis ligar para ela para perguntar. Mas não fez. Seria uma desculpa para ouvir a sua voz e isso poderia resgatar sentimentos que estavam sendo reprimidos. Se ela não o procurara é por que não queria vê-lo e isso doia em William.

Terminou de escrever a sua matéria e ficou alguns instantes olhando para a tela do computador. Modificou algumas coisas e voltou a ler. Sempre se sentiu um tanto perfeccionista, era um hábito que vinha tentando deixar desde que fora diagnosticado com a “Síndrome do Impostor”. Mas mesmo depois de anos de terapia e muito autocontrole, não era algo que saia assim tão facilmente.

Resolveu imprimir do jeito que estava antes que pudesse mudar mais alguma coisa. Olhou para o relógio e faltava menos de uma hora para a apuração. Respirou fundo e realmente esperou que os episódios macabros de hoje não dessem vitória para o partido conservador. Isso seria o que faltava para arrastar Belgonia para o buraco.

William pegou a sua matéria e se dirigiu ao cubículo de Erick Raeder, um jornalista político que era um bom amigo dele. Estava no The Globe desde seus últimos anos por lá, antes de se meter na fadídiga corrida em favor de Katlyn e um resgate a si próprio. O Visconde achava o seu colega um grande profissional e que tinha bastante potencial, por isso confiava os seus textos a ele.

— Erick, como vão as coisas?

— Dá pra acreditar que haveria atentados a nossa eleição mesmo com a CPI rolando solta? – Erick respondeu sem olhar para William. Seus olhos estavam vidrados na TV.

— Bono Donnalson é um macaco em uma loja de vidro. Ele não mede consequências.

— Mas isso é demais! Já viu isso acontecer antes?

— Sinceramente não... Estamos a um tempo vivendo em uma situação difícil.

— Tenho medo do que pode acontecer com Belgonia. Não tenho certeza se o candidato de Donnalson vença hoje as eleições, mas do jeito que essa corja está armada até os dentes é capaz de eles fazerem qualquer coisa.

— É uma possibilidade, infelizmente. Mas é pra isso que nós existimos. A imprensa deve cobrar as instituições e informar a população de tudo que vem acontecendo. Acredite, a máscara de Donnalson caiu. O povo não acredita mais naquela ladainha tosca de mito salvador que ele vinha pregando no ano passado e serão eles que irão atrás de que a justiça seja feita.

— Vimos isso ontem na passeata que fizeram nas ruas. Jamais pensei em ver isso diante dos meus olhos em toda a minha vida. Parece, William, que você atrai essas coisas. – Erick falou rindo.

— Acho que é mesmo. Trouxe isso aqui pra você publicar.

Erick pegou as folhas e leu por alguns segundos.

— Isso tá muito bom, amigo! Por que não publica como seu mesmo?

— Você sabe que não posso.

— É uma pena! Estamos carentes de suas grandes publicações. Vale mesmo a pena esse contrato com a realeza?

William pensou por uns instantes. Valia a pena? No momento tudo estava um grande hiato em sua vida. Tinha assumido o propósito de descobrir o que houve com Bella e Elton e somente por isso entrou no palácio. Porém, tinha conseguido progredir mais fora do que dentro da casa real. A sua presença lá era por Renesme, mas ela o queria longe no momento. Enquanto isso, sua cargo no The Globe estava mais parado do que as paredes que cercavam o prédio. Continuava escrevendo, mas apenas algumas notícias leves e algumas crônicas. Tinha pensado muito se ia ou não continuar com o acordo com a família real e havia decidido ficar. Por que não desistia fácil das coisas e nem sua palavra tinha dois significados.

— Vale sim.

E não disse mais nada, nem Erick foi mais a fundo. Havia algo mais importante no momento. O ministro da justiça estava agora se preparando para um pronunciamento na TV. Ambos os jornalistas esperavam que não tivesse ocorrido algo ainda pior do que vinha acontecendo.

— Boa noite! Encerram-se nesse momento as eleições e dar-se início as apurações. Desejo boa sorte a ambos os candidatos. Quero esclarecer que estive em reunião com sua majestade real e com o primeiro ministro. A partir disso tomamos ações para conter os montins organizados por grupos extremistas. Já prendemos os culpados em flagrante e já demos entrada nas investigações de quem motivou esses movimentos de vandalismo dessa manhã. Reafirmo que defendemos a democracia e nenhum eleitor saiu prejudicado ou deixou de votar por conta do que aconteceu. Fiz pessoalmente um levantamento nas principais sedes eleitorais em Belgravia e nas cidades do interior, onde houveram incidentes, e o número de abstinência não foi superior.

William olhava para Erick com desconfiança. Era óbvio que esses movimentos iriam prejudicar as eleições de alguma forma. Sentou-se na cadeira grande e suspirou desesperançoso. Não podia esperar nada de bom pudesse acontecer nesses tempos sombrios. Ele nunca fora pessimista. Sempre acreditava na justiça e no poder das instituições. Mas ultimamente, parecia que o dinheiro levava a melhor. Lembrou do suborno de Aro e a proteção que Bono tinha conseguido no parlamento. Se não cuidassem, a seita facista do parlamentar conservador não chegaria ao fim tão facilmente.

Erick olhou para o seu colega e teve que admitir para si mesmo que nunca tinha o visto tão abatido e até mais velho do que realmente aparentava. Todo o caso da duquesa e a guerra fria contra Bono Donnalson estava o destruindo. Tocou o ombro de William para animá-lo.

— Relaxe William! Vamos chegar a ver a luz do dia!

— Espero que sim. Tomara que ainda possamos continuar exercendo a nossa profissão livremente. Com Bono no poder é censura na certa.

Mas os gritos de alguns colegas na redação confirmavam o desespero de William. Não era uma salva de alegria e sim de lamento. Steven Felix, o candidato a primeiro ministro apoiado pelo partido de Donnalson estava vencendo.

Edward olhava para a televisão sem acreditar. Como um homem apoiado por um partido que defendia deliberadamente a violência, o ódio e o desesrespeito as instituições podia estar ganhando a eleição daquele jeito? Ele não podia acreditar no que estava vendo. Pegou o telefone e ligou para o ministro da justiça.

— Majestade.

— Veja o que está acontecendo ministro! Isso não é uma prova que essas manifestações de hoje provocou esse resultado que estamos vendo?

— Paciência, majestade. As urnas que estão sendo abertas são favoráveis ao partido conservador.

— Não pode ser! Quando o senhor irá começar a trabalhar e punir esses vândalos? Já não temos motivos suficientes?

— Devo lembrá-lo, majestade, que o senhor não deve agir nas eleições. Deve manter a neutralidade assim como nós. Se eu tomar qualquer atitude agora o partido conservador vai entender como um meio de prejudicá-los.

— Mas que isso sirva ao menos para a CPI. Não sei o que mais precisam para punir Donnalson!

— Estamos vigiando o chefe deles e garanto que qualquer atitude que eles tomarem agora contará na CPI. Tudo vai ser desfavorável a eles.

Assim Edward esperava. Coçou a cabeça e continuou olhando para a TV. O suor pingava de sua testa. O seu coração batia a celerado a cada atualização da apuração. Estava com ódio. Tinha vontade de resolver tudo com suas próprias mãos. Maldita regra de neutralidade! Queria gritar para todos o quão estavam enganados a respeito de Donnalson. Não viam que ele era o cara mal da história?

Nunca foi muito ligado à política parlamentar. Sempre foi instruido a ser imparcial e assim foi durante todo esse tempo. Para ele cada primeiro ministro eleito era apenas mais um, mas agora... Tudo estava em jogo. A integridade de seu país. A vida de cada um. A vingança de Bella...

Não gostava de Sean Renard. Achava-o um oportunista, mas era o que tinhamos de menos ruim para o momento. Ele tinha que ganhar. Edward continuou olhando esperançoso para a TV e o milagre aconteceu. Sean virou o seu opositor. O rei respirou aliviado. Os votos a favor do partido liberal ia crescendo e crescendo até que não havia mais jeito de uma reviravolta a favor do partido conservador acontecer. Ele comemorou em silêncio, mas só respirou mesmo quando foi anunciado oficialmente que agora o atual prefeito de Belgravia, seria no ano que vem o primeiro ministro do país, eleito com 48% dos votos.

Edward continuou acompanhando a apuração até o fim. Viu quando terminou e a câmara mostrou Sean e sua sobrinha, Marlowe, se encaminhando para o palco montado no comitê do partido liberal. Tinha que admitir. Sean tinha o seu carisma. Ele e Marlowe com aquele enorme barrigão formavam o casal perfeito.

— Boa noite pessoal! Obrigado! Obrigado! – Sean respondia a um grupo de eleitores animados. – Primeiro, eu gostaria de agradecer a todos que me apoiaram e lutaram para que esse país pudesse ter a chance de continuar sendo livre de toda essa zona de horror que foi implantada nesses últimos tempos.

O grito da plateia foi ainda maior. Até Edward queria gritar naquele momento também.

— Fizemos uma campanha limpa e trabalharei arduamente para enfrentarmos todos esses problemas que agoram nos perseguem. Será um trabalho difícil, eu sei bem disso. Mas tenho fé que conseguiremos e voltaremos a respirar aliviados ao saber que poderemos ao menos sair às ruas sem ter o risco de sofrermos algum tipo de vandalismo. O bem sempre vence, meus queridos. A maior prova disso foi o resultado das eleições de hoje.

— Renard! Renard! – Agora o povo não parava de gritar.

— Agora, pelo bem de todos, temos que deixar as nossas rivalidades de lado e lutar para que Belgonia continue sendo um grande país como sempre foi. Existem muitas pessoas que eu gostaria de agradecer nesse momento, mas agora eu queria declarar todo o minha gratidão a minha adorável esposa, amor da minha vida, Marlowe. Essa mulher, vocês não fazem ideia, trabalhou muito para que hoje pudéssemos conquistar essa vitória. – Renard beija a testa de Marlowe. – E também pela nossa filha que está para nascer e por toda essa nova geração que temos que reconstruir o nosso país para que seja um lugar melhor para todos viverem.

Palmas e mais palmas. Os balões coloridos desciam do teto e Edward se recostou na poltrona. Sorriu ao poder finalmente ver o céu se abrindo. COMENTE BASTANTE!