Dinastia 2: A Coroa de Espinhos
36 Capítulo 36
O flash da câmera cegam os olhos de Tom.
— Vire para o outro lado!
O ex – segurança virou-se para a esquerda e evitou olhar para o clarão. Era triste a sua sina, estar numa cadeia, logo ele que quisera ser o justiceiro. Chegava até ser engraçado o fato de que procurara justiça no lugar mais errado possível.
— Levem ele para sala do interrogatório.
— Não vou para a minha sela?
— Ainda temos muitas perguntas a lhe fazer.
Claro que tinham e ele estava disposto a responder tudo. Não queria mais segredos. Chega! Sua libertação seria falar logo tudo e mandar pro inferno quem quer fosse. Se deixou ser levado, aos empurrões, para a sala quente e apertada que já estivera antes quando se entregou a polícia.
Ainda lembrava da cena da entrada do policial a paisana, que se denominou Joel, entrando em seu quarto de hospital lhe dizendo que Renesme lhe pedira para que ele se entregasse. Foi de partir o coração, é claro! Nenhuma das suas feridas doiam tanto quanto aquilo. Mas ela estava certa, ele devia isso a ela e ponto. Por isso se entregara. Agora era tudo ou nada.
O policial o jogou na cadeira como se ele fosse um conjunto de roupa suja e sem se preocupar que até uns dias atrás ele estivera num hospital. Ok! Sem piedades aqui e ele merecia tudo aquilo. Estava em sua frente o delegado e um investigador que ele já conhecera antes.
— Cadê aquele policial que veio colher o meu depoimento antes?
— O Joel não está à frente do caso. Ele apenas recebeu um pedido da sua alteza para lhe fazer algumas perguntas.
Tom assentiu. Era uma pena. Queria saber como Renesme estava. Podia parecer mentira, mas ele realmente estava preocupado com ela. Se sentia arrassado por fazê-la sofrer. Gostava dela de verdade e se arrependia amargamente por ter participado do sofrimento dela e era por isso que ele queria se redimir. Esperava que ao se entregar pelo menos estaria pagando um pouco do que fizera a ela, já que não havia qualquer possibilidade de reverter o que houve.
— Quero que me conte tudo, desde o começo.
— Eu vou contar. Estou disposto a colaborar.
— Ótimo.
O delegado ligou o gravador e pôs em sua frente e Tom sentiu um nervoso. Aquele momento não deixava de ser intimidador. Não que todas as jarradas d’ água e a pouca comida já não o tivesse mostrado como era duro uma vida na cadeia. “Você merece!”.
— Você se alistou ao movimento “Águias da Nação”?
— Sim. Eu já havia confirmado isso.
— Por quê?
Tom se lembrou do dia em que seu pai falecera. Um dos piores de sua vida, sem dúvida. Lá estava ele naquele corredor lotado. Sentia o cheiro daquele desifetante hospitalar que para ele, naquele minuto, simbolizava morte. Lembrava-se dele abraçado ao corpo do pai na maca e de toda raiva que ele começou a sentir a partir dali.
Nascera em Clarence, numa família de seis. A cidade era cheia de pompa. Passava todos os dias pelas ruas do centro e olhava com desprezo para todas aquelas lojas que vendiam como artigo de luxo aqueles ítens sobre a família real como se eles fossem à coisa mais importante do mundo, a mais sagrada. O que eles faziam de bom? Lá estava ele andando rápido para pegar um pouco de comida na escola por que em casa não havia e é por que seu pai trabalhava de sol a sol naquelas minas para ganhar apenas uns trocados. Era um mundo injusto. Virado pelo avesso.
— Por que na época eu achei que era uma causa justa para se lutar. Eu queria fazer justiça contra um monte de descaso que há por ai. Achei que lá iria conseguir ajudar a reverter isso.
Achava mesmo isso na época. Depois de ver o pai ali morrendo asfixiado numa maca qualquer num hospital público depois de anos trabalhando naquelas minas... Pra ele foi o fim. O gatilho necessário de anos de revolta. Não queria seguir nas minas, tinha que canalizar a sua raiva de alguma forma. Se alistou para o exército e lá ficou em treinamento. Por lá conheceu umas pessoas que pareciam pensar como ele. Disseram-lhe que iam fazer um movimento em Clarence. Que iam lutar para combater as injustiças que tinha por lá e o convidaram. Ele se motivou e resolveu participar das primeiras reuniões. Aquilo lhe deu gás, lhe deu a força que ele precisava. Um norte para aquilo que ele realmente queria.
— Você sabia dos crimes que eles cometiam? Homofobia? Xenofobia? Racismo?
— No começo não. As primeiras reuniões eram realmente ligadas às causas das minas. Era um movimento republicano e só.
É claro que depois começaram a lhe convocar para alguns movimentos onde Bono Donnalson aparecia. Tom olhava para o jeito que ele falava e conseguia sentir o efeito das palavras dele. Hoje pensando bem, qualquer pessoa em desespero, com fome, doente, acreditaria no que ele dizia. Ele tinha uma oratória incrível e seduzia com as palavras que ele escolhia, tão certas para o momento.
— Por quanto tempo fez parte do movimento?
— Dois anos. No começo, eu ia apenas para as reuniões, mas à medida que o tempo ia passando eu comecei a ser pressionado a entrar de vez nos atos do movimento.
— Que atos eram esses?
— Todos os tipos que você imagina. Todos que você citou.
O delegado se aproximou mais dele com um sorriso sarcástico de quem duvidava cada vez mais do que ele dizia e cruzou as mãos.
— Se diz ser tão justiceiro por que participava desses crimes? Ou você não sabia de que tudo isso era errado e estava agredindo e matando pessoas inocentes?
Tom sorriu. Era verdade, ele sabia que era errado e tinha total ciência de sua estupidez. Porém, ele jogava um pouco da culpa no discurso “transformador” de Donnalson. Ele como muitos outros tinham sido seduzidos pelos ideais de construir uma nova nação. O que vinha acompanhado disso era consequência.
— O senhor tem razão. Foi estupidez.
— Mas você chegou a participar de algum deles?
— Não. A minha função sempre foi de espião. No caso de Elton, eu tinha que me fazer de gay e descobrir tudo que podia sobre ele e sobre a fundação. O plano era destruir a escola, como realmente aconteceu, e nessa ação, eu estive presente. A morte de Elton também foi obra do “`Àguias”. Eu sabia que o chefão se interessava em por cabo nele e principalmente depois que ele começou a andar com a duquesa.
Lembrava bem desse momento. Nessa época ele já não estava mais no exército. Tinha desistido, aquilo não o levaria a nada. Mas precisava sobreviver e mandar uns trocados para casa. Entrou numa agência de seguranças e começou a exercer funções por lá. Era tudo meio que uma fachada por que o trabalho de espião no Águias o impressionava mais. Ele gostava dessa função de estar em todos os lugares infiltrado, saber de tudo e ninguém saber nada sobre ele.
Até que foi chamado para mais uma missão. Essa lhe parecia grande, lhe parecia arriscado e exigia um preparo. Donnalson estava interessado em Elton. Ele sempre queria se vingar daqueles que falavam demais. Isso parecia infantil para Tom. Mas regras eram regras. Resolveu aceitar e criou um personagem em procurou a Multicores. Tentou ao máximo se passar por alguém sofredor, que queria “sair do ármario” e não conseguia. Sabia que as pessoas tinham uma queda por pessoas fracas e assim foi. Logo todos já eram amigos dele e lhe passavam informações importantes.
Se aproximar de Elton não foi difícil. Ele era bem acessível. Tom pesquisara ao máximo sobre ele e descobriu que ambos tinham muito em comum e isso seria um passaporte e tanto para investigar mais sobre ele. Descobrir mais sobre os seus pontos fracos. Jogou para o ativista algumas informações reais sobre a sua própria vida e viu ele se soltar diante dele. As pessoas sempre soltavam mais sobre si mesmas quando encontravam alguém parecido com eles mesmos.
— Você esteve presente no assassinato dele?
— Não. Mas sei tudo que houve. Os meus ex-colegas de movimento me contaram. Nessa época, eu estava somente investigando no palácio. Não fazia mais parte do caso do Elton.
Não passara muito tempo na Multicores, pois logo ele recebera outra missão. Queriam que ele se candidatasse a vaga de segurança no palácio para investigar sobre a família real, mais especificamente sobre a duquesa de Richmond. Ela andava atacando Donnalson mais do que o esperado para um membro da família real. Bono tinha essa ideia de acabar com a monarquia. Tom estava começando a perceber que ele queria era ter mais poder para si. Achava impossível que um dia a realeza se acabasse, mas apesar de muito ambicioso, o plano de Donnalson era corajoso e por isso seguiu em frente com o seu novo disfarce.
Não foi difícil entrar no palácio. Analisaram o curriculo dele e fizeram uma entrevista. Fácil! Aparentemente você ter experiência no exército conta muito para quem quer trabalhar para a realeza.
Ser escolhido para ser o segurança da princesa foi um golpe de sorte que Tom jamais esperou. De repente, ele fora convocado em seu primeiro dia a ir a Clarence, sua cidade natal, para ser o segurança da pessoa mais próxima da duquesa possível. Se tivesse sido combinado não teria dado tão certo. Para incrementar ainda mais, ele combinou com um antigo amigo seu de infância para atirar próximo a área do palácio. A intenção era criar uma cena onde ele apareceria como o herói. Precisava garantir o seu lugar e ganhar a confiança de todos. O fato de ter tido a chance de salvar logo a princesa foi outro golpe de sorte inesperado.
— Pode me descrever o que os seus amigos contaram a respeito do crime?
— Eu não estava mais com eles. O meu lance era só no palácio. Afinal de contas, eu precisava ficar vinte quatro horas por lá. Mas eu estive presente no dia da invasão da escola. Eles precisavam de alguém que conhecesse a área.
— Por acaso esse cara das imagens é você?
O investigador pegou o tablet e colocou em frente a Tom. As imagens eram exatamente do dia em que depradaram a escola da instituição. Não sabia que tinha sido alvo das câmaras de segurança. Nem reparara nisso, talvez essa tenha sido a brecha para que o tal Joel descobrisse tudo. Na hora ele estava mais preocupado em tentar sair dali sem dá na mira de qualquer um. Na verdade, ele não queria participar desse ato grotesco. Já nesse momento tinha se dado conta de tudo de podre que o Águias fazia e representara. Tinha se iludido e percebera isso. Seu tempo no palácio ao lado de Renesme lhe ensinaram isso e já se arrependia amargamente. Tentava sair, porém era um círculo vicioso.
— Sou eu sim.
— Você ajudou a depradar a escola?
— Não. Só dei as coordenadas. Como você está vendo, sai antes e sem que eles percebessem.
— Depois disso qual foi a sua participação realmente na morte de Elton?
— Eles mandavam para ele ameaças. Você já devem saber bem como era. Isso fazia parte dos joguinhos dos “Águias”. Eles queriam deixar as pessoas piradas para se tornarem presas fáceis. Eles sabiam de todos os passos dele. O seguiam, grampearam o telefone. Na verdade, nessa parte eu contribui.
— Colocou o grampo no telefone dele?
— Não precisava. Bastava um código e eles conseguiam tudo que eles queriam.
— E como ocorreu o crime em si?
— Mandaram um trote pra ele. Disseram que eram trabalhadores da obra de um centro que ele e a duquesa estavam construindo e que havia tido um problema por lá. Eles o pegaram de surpresa, deram uma coronhada nele de costas e ele nem chegou a ver quem era. Depois o levaram para um galpão abandonado que eles usam frequentemente para os serviços sujos e lá o mataram e esquartejaram.
Tom contava tudo isso com um grande aperto. Um dos seus maiores arrependimento foi ter sido, de alguma forma, complice desse ato grotesco. Na época, já tinha declarado o seu desejo de não participar mais de nada relacionado ao Águias. Não estava nem ai. Sabia que não podia mais. Porém, no minuto que ameaçaram a família dele foi à gota d’água. Sabia que os caras podiam fazer muito mais do que só ameaçar, então foi o jeito colaborar.
Entretanto, a dor era maior toda vez que olhava para Renesme. Sabia que não era merecedor dela e que estava a atraindo na cara dura. No começo foi muito fácil conduzir todo o esquema. Tinha nojo em estar no ambiente como o do palácio. Diante de tanta hipocrisia. Estar ao lado de todos eles o provocava, de alguma forma. Então, repassar informações não lhe era demais. Bastava entrar no jogo, levar a conversa para um lado mais pessoal com a princesa que ela lhe respondia tudo que ele precisava.
Mas depois, ele foi se encantando de verdade por ela. Foi vendo o quanto ela tinha por trás daquela imensa beleza. Tinha um coração puro de verdade, ítegro como tudo que ela fazia e dizia. Além daquela grande química que os prendiam. O problema dela era só essa rede de proteção em que ela estava inserida. A dominavam, controlavam-na e a elouqueciam de tal forma que ela parecia não conhecer muito o mundo real que a cercava. Era uma presa fácil diante dos inúmeros tubarões que a cercavam. Ele via isso e cada vez mais queria protegê-la. Mas como ele faria isso se ele mesmo estava ali agindo contra ela?
— Na época da invasão da escola, eu já não queria mais fazer parte do movimento. Eu disse isso a eles, mas recebi uma ameaça. Eles prometeram matar a minha família.
— Está me dizendo que foi coagido a participar do crime da escola e de Elton, isso? E o da duquesa? Foi também?
— No começo não. Eu estava lá para colher informações e fazia isso por prazer. Eu odiava o fato deles terem tanto e muitos terem pouco. Porém, eu fui enchergando as coisas de maneira diferente.
— Então, não esteve envolvido no assasinato da duquesa?
— Não. Mas eu sei quem esteve e pode acreditar. Foi uma pessoa completamente diferente do que vocês imaginam.
— Haviam outras pessoas que queriam matá-la?
— Sim e ganhou o primeiro que conseguiu chegar perto dela naquele dia.
— Quem foi?
No minuto em que Tom abriu a boca para responder, a porta da sala do interrogatório se abriu. Nem havia dado tempo do ex-segurança pensar em como iria contar à informação que sabia. Um policial alarmado entrou no recinto anunciando que estava havendo rebelião no pátio do presídio. Todos saíram alarmados e Tom ficara sozinho na sala. Tudo estava num alvoroço tremendo e ele não queria fazer parte daquilo. Porém, para a sua surpresa, entrou na sala alguém que ele havia visto rapidamente antes. Era um dos membros do Águias e naquele instante teve a certeza que a confusão la fora fora proposital. A hora dele tinha chegado. Iam silenciá-lo antes que ele revelasse coisas demais.
Assim foi feito. O ex- parceiro de movimento pegou uma gilete do bolso e foi até Tom rapidamente e cortou o seu pescoço com tanta habilidade que nem mesmo Tom pôde se defender. O seu corpo ensanguentado tombou na cadeira e caiu no chão. O seu assassino saiu da sala sorrindo sem nem mesmo se importar com as consequências. COMENTEM BASTANTE!
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