Renesme sorria enquanto entrava no banco de trás ao lado de sua mãe. Se sentia tão leve quanto nunca. Bella olhou para a cara de satisfação da filha e apertou a mão dela.

— Essa sua ideia de distribuirmos cestas básicas para aqueles que ficaram prejudicados no blecaute foi ótima. Você viu como eles ficaram felizes?

— Era o mínimo que podíamos fazer, não é? Eu só não queria que tivesse despertado tanta atenção. Acredito que para a gente fazer boas ações não precisa que todos precisem ficar sabendo.

Desde muito nova, Renesme seguia com a mãe para lugares que certamente uma princesa não era esperada. As duas, muitas vezes os três, quando Antony já tinha idade o suficiente para acompanhá-las, em mais absoluto sigilo, iam a hospitais públicos, abrigos, retiros, locais que realmente encontraria a realidade dura e diferente que ela e o irmão vivenciavam no palácio. Para Bella sempre foi uma prioridade fazer com que os filhos conhecessem os dois mundos.

Apesar disso, Renesme nunca se considerou muito ativa como deveria ser em relação há trabalhos filantrópicos. Para a princesa caridade não devia ser algo forçado, mas feito de bom grado nas horas necessárias. Sabia que tinha muita gente em seu meio que usava os trabalhos voluntários como um meio de se promover e se enojava disso. Ela sempre entendeu que o lado social era uma das grandes bandeiras trabalhadas dentro da monarquia, era como se fosse um retorno para a sociedade de tudo que eles usufruíam como membros da realeza. Mas ela sempre achou que a mudança devia vir não de uma caridade provisória, mas de projetos duradouros que ajudassem a sanar os inúmeros problemas que haviam no mundo real. Porém, quando muitas vezes isso não era possível, ela nunca hesitou em ajudar positivamente, como na viagem a Angola, onde ela realmente estava ali, não por marketing, mas espontaneamente e de coração.

De repente, ela lembrou-se de Tom e do que ele a disse sobre como só se poderia saber como a situação era difícil quando se passava por ela. Era exatamente assim, era muito fácil se prender em um universo de luxo e amenidades. Ela o agradecia por trazê-la de volta a terra e ajudá-la a fincar os dois pés no chão. Ele tinha razão em dizer que ela precisava conhecer mais o seu povo. Foi tão tocante estar ao lado deles. Olhar para o rosto de todos, olhar bem no olho, sentir o toque. Era como se todo o seu trabalho burocrático ganhasse mais sentido por que agora ela sentia o quanto aquelas pessoas precisavam dela e de todos dentro da família real. Mas de uma maneira verdadeira e não como uma obrigação protocolar da firma monárquica.

— Eu não quero ser nenhum mártir, mãe, mas alguém me disse uma coisa muito importante que pensei a respeito. – iniciou. — Muitas vezes ficamos tanto tempo presos naquele palácio que não vemos a realidade ao nosso redor.

— É verdade. Eu sempre pensei dessa forma. O palácio deixa a gente cega de muitas maneiras. Eu tinha tanto medo de perder a minha essência quando eu me casei com o seu pai.

— É mesmo? – perguntou a princesa. — Nunca me falou sobre isso.

— A primeira coisa que eu percebi quando comecei me relacionar com a família é que tudo que eles faziam era muito programado, nada muito natural. Eu via a sua avó e seu avô e percebia que eles tinham sido completamente moldados por aqueles urubus de ternos que trabalham para eles. E eu não queria me transformar em uma outra pessoa.

— E acha que depois desses anos todos, você mudou?

— Mudei. Não tinha como ser diferente. Eu me dediquei a minha vida inteira a eles. Segui a cartilha tudo certinho até que eu percebi que eu estava sumindo também e eu não queria isso. Mas agora estou me resgatando de volta.

Renesme abaixou a cabeça e sentiu um peso de preocupação. Ela vinha presenciando uma onda acelerada por mudanças drásticas em Bella enquanto desenvolviam os seus projetos juntas. A princesa se orgulhava de verdade da honestidade, da empatia e da resiliência de sua mãe, mas como as coisas estavam ocorrendo, a princesa tinha medo que ela pudesse a vir se prejudicar e se decepcionar. O mundo não estava preparado para uma pessoa como ela.

— Mãe, sobre isso... Eu realmente aprecio essa sua vontade de mudar as coisas. Eu mesma queria ter essa liberdade de fugir um pouco das regras, mas cuidado, tá? Eu não quero que se machuque. Você bem sabe que não é só o palácio que pode se voltar contra você.

Bella acariciou o rosto da filha e beijou a testa dela. Renesme queria entender de onde ela tirava tanta calma e confiança.

— Não vai acontecer nada comigo, você vai ver. Mas eu também quero que me prometa uma coisa, por favor. Diante de qualquer coisa, nunca mude a sua essência, ok? Você é tão autêntica e sensível. Preserve o seu espírito bom.

— Você me ver de uma forma tão boa, mãe. Dá até para acreditar.

— Você é que não se ver da maneira correta. Precisa ter mais autoestima e mais segurança em si mesma.

Renesme olhou para o lado de fora e viu o carro parar em frente ao ateliê da sua tia Alice. Anos depois, ela finalmente conseguiu se desligar um pouco dos serviços reais para se dedicar a sua carreira como estilista. A princesa era agora mais empresária do que um membro sênior da monarquia. Conseguiu ser dona de uma das marcas de roupas mais vendidas de toda Belgonia e hoje estava começando a preparar o vestido de noiva de sua sobrinha mais nova, para o seu maior deleite.

— Tem certeza que não quer vir comigo? Vai ser mais do que uma prova do vestido de noiva da Melany, mas sim grande encontro de garotas.

— Infelizmente não posso. Tem um compromisso importante com o seu pai e é inadiável!

— Ok. Nos vemos depois então.

— Te amo!

— Também mãe.

A princesa olhou para o ateliê e respirou fundo. Estava sinceramente feliz pelo casamento de Melany com George, eles eram um dos seus primos preferidos e queria muito que eles conquistassem tudo que eles mais queriam. Mas estar diante de vestidos de noivas e planos de casamento a fazia lembrar que ela mesma tinha que começar a pensar nisso, mesmo repudiando essa ideia no momento.

Ela mal entrou no recinto e já podia ouvir vozes elevadas e alegres. Com certeza Marlowe já estava provocando a todos com suas tiradas irônicas e inesperadas. Renesme sorriu e assim que entrou no estúdio da tia, pôde vê-la tirando as medidas de uma Melany ansiosa.

— Oh Ness que bom que chegou! Estou aflita aqui diante de tantas possibilidades. Essas aqui não estão ajudando em nada e eu confio no seu bom gosto.

Renesme se aproximou da prima e beijou a sua bochecha.

— Qualquer coisa vai ficar lindo em você, Mel. Você já é tão bonita!

— Ainda mais com esse corpinho maravilhoso! – comentou Alice enquanto terminava de tirar as medidas da sobrinha.

— É o que eu venho dizendo para ela. – falou Rosalie abraçando a filha. – Mas ela não escuta o que eu digo.

— Vamos falar, qualquer coisa também não. Você e George são da realeza. Quantas pessoas não vão ficar de olho no que você vai vestir, ein? Tem que ser algo esplêndido! – falou Marlowe.

Melany fez uma cara de preocupada e saiu andando pela sala com Alice no seu encalço.

— Isso que me dá uma aflição! Eu não quero ficar com algo que todos vão comentar e rir de mim. Além do que, George também tem que gostar.

— Não escute a sua irmã, querida. – falou Esme. – Quem tem que gostar é você. O George só vai vê-la, após a sua entrada na Igreja. Eu, por experiência própria, sei como é estar num vestido que você não se sente bem dentro dele.

— É mesmo vovó? – Perguntou Renesme surpresa. — Eu acho o seu vestido de noiva um luxo! Um verdadeiro clássico!

— Um clássico completamente desconfortável! Ele pesava toneladas! Eu nem mesma pude dar nenhum palpite sobre isso. Tudo foi escolhido pela bisavó de vocês da maneira que ela achava que era o ideal para o modo real.

— Mas ela estava certíssima, de certa forma. Não na parte de não deixar você escolher, vó, mas uma noiva real tem que está um vislumbre! – opinou Marlowe.

Renesme pegou algumas revistas e mostrou uns modelos que estava vendo para Melany e para Alice.

— Eu acho que para Melany tem que ser algo romântico como ela e com uma dose de clássico. O que acha da união desses modelos?

Melany observou os detalhes com atenção enquanto Alice já tratava de desenhar o modelo na folha de rascunho. Renesme observava o desenho da tia e acreditava que ficaria um lindo vestido de noiva e acentuava todas as melhores características da prima.

— Eu gostei! Acho que poderia o vestido ser todo de seda e na parte de cima um tule transparente com um pouco de renda bordada. Não podemos esquecer da renda de Milton, todas as noivas reais tem que ter.

— Exatamente! – concordou Renesme.

— Quero uma manga longa de tule, tia Alice.

Rosalie quase chorosa aproximou-se mais da filha e abraçou os seus ombros. Renesme olhava a cena com um misto de incredulidade. Ela sempre viu o casamento como algo super estimado e colocado numa realidade oposta do que realmente era. Mesmo sendo romântica o suficiente para acreditar que encontraria a sua cara metade, nunca se imaginou em algo pomposo que lembrava uma cena de contos de fadas. Ela não acreditava em algo construído com amor fosse o final feliz, mas um começo de uma trajetória que, como qualquer coisa na vida, tinha os seus altos e baixos. Mesmo cercada de casamentos bem estruturados ao se redor, a princesa preferia encarar as coisas com racionalidade.

— Você vai ficar linda, querida! Mal posso acreditar que a minha caçulinha já vai se casar! – declarou Rosalie.

— O tempo passa mesmo rápido! – concordou Esme. – Querida, temos que tirar um tempo para você escolher a sua tiara.

— Vou poder usar uma tiara, vovó?

— Claro, querida! Quero que escolha a que achar mais bonita.

Melany deu uma risada provocativa e todos olharam para ela.

— Que bom que nós, relegados, vamos poder usar algo tão trivial como uma tiara.

— Não fale desse jeito, Lowe. – repreendeu Esme. – Mesmo vocês não tendo títulos reais, jamais deixaria as minhas netas se casarem sem uma tiara.

— Fico aliviada, então. Pensei que a gente não tivesse essa consideração. Sempre me senti como um membro oficial da realeza. Não é por causa de uma bobagem do papai que muda isso. Eu poderia estar na terceira posição da linha para o trono agora.

Renesme olhou para Marlowe com a sobrancelha curvada. Estava percebendo que a sua prima não estava nos seus melhores dias, mas sabia também que de todos os filhos de seu tio Emmett, ela era a única que não tinha se conformado com o fato de não ter herdado um título real e sempre fazia questão de trazer a tona um assunto tão evitado na família como a abdicação do primogênito do rei e da rainha. Fato esse que tinha acontecido há mais de quarenta anos, mas que vez por outra eclodia nos pilares da família real.

O príncipe Emmett abdicara quanto tinha apenas 18 anos. Passava por momentos turbulentos em sua vida. Desabafava como podia no uso de drogas e álcool a sua falta de liberdade. Tantas polêmicas causou que acabou abdicando do trono em nome de seu irmão, Edward, com a ajuda de sua própria mãe. Isso acabou mudando o destino de muitas pessoas, incluindo o de Renesme e dos filhos de seu tio, que foram excluídos da linha sucessória.

No fundo, a princesa sabia que a prima entrava no jogo de sair conquistando os melhores partidos de Belgonia para tentar ter um pouco mais de atenção e destaque.

— Se as coisas tivessem sido assim, prima, com certeza facilitaria muito as coisas, especialmente para mim.

— Não vamos mais falar sobre algo que já aconteceu há tantos anos atrás, por favor! – pediu Rosalie. – Vamos nos concentrar no vestido de Melany.

— Tem razão, querida. – concordou Esme com desconforto.

Alice terminou o esboço do modelo do vestido. Renesme ficou encantada com o resultado final, assim como todos. Não pôde deixar de pensar como seria a sua vez. Com certeza o dela tinha que ser três vezes mais bem bolado e pensado. O vestido de noiva de alguém de sua posição dentro da realiza era mais um espetáculo público no grande dia do que cerimônia de casamento em si. A princesa tremeu um pouco ao pensar isso. Por que tudo relacionado a ela tinha que ser tão grande?

— E Você, Ness? Aposto que com esse bom gosto o seu vestido de noiva vai ser deslumbrante! – Afirmou Marlowe.

— Tem um longo caminho para isso. Ainda tenho que achar o noivo primeiro.

— Por que quer. – falou Esme entrando na conversa. – Aposto que existem um milhão de rapazes maravilhosos por ai que dariam tudo para se casar com você, Ness.

— É, mas será que o que eu escolherei de verdade vai estar à altura das expectativas?

— Tem que escolher o melhor, Ness! Não adianta se casar com um pobretão qualquer como costuma acontecer bem na nossa família...

Rosalie fez uma cara feia para a filha do meio e aproximou-se da afilhada, acariciando de leve os ombros dela.

— Não tem pressa, Ness. Tudo ao seu tempo.

— Eu sei, tia Rosie.

— Também não ligue para os comentários da Lowe. Ela está assim por causa dessa história toda do casamento da Mel.

— Eu não ligo. Já sei como ela é.

Renesme respirou fundo e deu de costas para Marlowe e voltou a se concentrar na escolha do restante dos acessórios de Melany e prometeu não pensar em nada voltado ao seu destino preconcebido.

Enquanto isso, do outro lado da cidade estava Bono Donalson irritado, andando de um lado para o outro em seu escritório. Tinha acabado de receber a notícia dos seus assessores que a tal duquesa “defensora dos viados” tinha atacado novamente, atrapalhando a sua imagem de “O Salvador da Pátria” após o blecaute.

— Eu não acredito que aquela desgraçada já foi atrás de simpatizantes! – gritava ele a todo vapor. – E você não sabia que isso iria acontecer?

O rapaz em sua frente se ajeitou na cadeira e pensou no que iria dizer. Engoliu em seco e escolheu as palavras com cuidado.

— Eu soube dos planos de suas altezas reais essa manhã e não deu para comunicá-lo a tempo. Por isso que pedi para ser dispensado do trabalho.

— Droga! Isso é um absurdo! Essa mulherzinha só atrapalha! Quanto menos a gente espera, ela vem com uma nova artimanha.

— Dessa vez a ideia não foi dela, deputado, mas sim da princesa.

— E você acha que ela também pode ser um problema? Sempre achei aquela menina muito sem sal. Sem graça até o pescoço!

— A princesa é mais calma com relação à mãe. Eu averiguei a situação e segundo apurei, a duquesa não tem intenção em se envolver ao lado de nenhum dos partidos políticos. Ela vem se envolvendo com a fundação Multicores e intenciona lançar alguns projetos envolvendo a comunidade gay, mas é mais como uma maneira de homenagear aquele amigo dela que morreu.

— Mesmo assim. Não podemos perdê-la de vista. Continue fazendo o seu trabalho e me contando tudo que acontece.

— Sim, senhor.

— Eu quero que você vá mais além. Se infiltre mais dentro da família, faça com que eles confiem em você a ponto de lhe dá informações muito confidenciais. Obviamente você a trará todas para mim depois.

— Eu sei como fazer isso, senhor.

— Só não se deixe envolver demais. Você deve estar do nosso lado e não do deles.

— Pode deixar, senhor. Eu sei que caminho seguir.

— Espero mesmo. Confio em você.

O rapaz assentiu e observou Donalson dar um sorriso esperançoso. Ele sentiu o seus ombros pesarem não só pelas mãos do deputado, mas por todo o peso que sua função lhe cabia.

— As coisas estão prestes a mudarem a meu favor, meu rapaz. Sinto isso.

Donalson fitou o vazio ao mesmo tempo que as nuvens começavam a se fechar do lado de fora.