Dimitri
1 One Shot
Notas iniciais
Eu me perguntava há quanto tempo estava parado, encarando aquela tela sem ler uma única linha. O curto e-mail que recebi me fazia lembrar coisas que pensei terem sido esquecidas para sempre. Eu poderia simplesmente fechar a página e fazer de conta que nunca havia recebido aquilo, mas a curiosidade me mataria. O que ele estaria fazendo agora? Onde vivia? Com quem estava?
Comecei a ler.
“Oi, Dimi.” Usou meu apelido. Lembrei-me de quando ele me chamava dessa forma carinhosa, os cabelos longos e soltos grudados ao suor da testa. Li algumas linhas com memórias. Ri um pouco, recordando sua indignação com as notas que eu recebia depois de tanto me ajudar a estudar. O que eu podia fazer se prestar atenção ao que ele falava era quase impossível quando o tinha tão próximo? O resultado era muito mais tempo lado a lado dele, estudando.
“Ficarei por aí esta semana. A gente podia se encontrar...” Depois de tanto tempo e tanto sofrimento, ele diz as palavras mágicas. Quando eu acho que curei essa insana paixão, ele vem e trás tudo de volta. Joga na minha cara todas as vezes que senti a humilhação e inferioridade, que o amei e o quis.
A verdade é que nunca fiz justiça com Nikolai. Eu o amava com todas as minhas forças, mas nunca lhe disse. Meu espírito se agitava ao seu lado e me via tentado afastar o sentimento mais lindo que conheci até então. Tinha vergonha de verbalizar aquilo, por isso me esforçava em agradá-lo de outras formas. Fazia tudo por ele e vivi por ele.
Tudo acabou quando meu primeiro grande amor partiu. A Oceania longe demais para nos vermos sempre e eu não podia deixar minha mãe sozinha para segui-lo. Despedimo-nos calmamente, enquanto meu coração se apertava.
Foi preciso muita bebida, briga e sexo para me acalmar da solidão, que nunca se foi por inteira. Com a alma partida em pedaços, demora-se para se recompor, mas o ser humano não desiste facilmente. Enfrentei o olhar dos meus amigos e ergui a cabeça para a porta do quarto, o que na época era um grande passo para mim. O sentimento ainda pontava em meu peito, mas nunca mais deixaria me dominar. Não me arrependi de nada que fiz, simplesmente tentei esquecer. Caminhei pelas ruas com os olhos enviesados, mãos nos bolsos e lábios crispados durante anos, tentando alcançar meu nirvana só.
Quando me via agora, com esse ínfimo de esperança, tentando agarrar qualquer coisa a minha frente para não cair novamente, não sabia o que pensar. Se eu o chamasse, ele me ouviria? Se me prostrasse de joelhos aos seus pés, com o coração pingando em minhas mãos, me aceitaria? Não tinha razões para não dizer todas as palavras acumuladas em minha garganta durante todos esses anos, mas o medo era tão grande quanto sempre foi.
Respondi a mensagem com outra bem simples. “Amanhã, mesmo endereço. Meio dia.”. Não o dei chance de retrucar, seria aquilo e ponto.
Saí da pequena sala que era meu escritório, apagando as luzes e trancando a porta. Uma pequena parte de mim repreendia a alegria desnecessária que a outra sentia, cega aos pedidos da primeira. Ah, Niki. Havia tanto a contar. Ou não? Há muito tempo que minha vida se resumia ao trabalho, cama e bebida. Outras coisas mais importantes tornaram-se desnecessárias a meu ver. Ele não precisava saber de tudo. Não mesmo! Com os fones no volume máximo, vesti minha máscara e caminhei ao metrô.
O pequeno apartamento era o mesmo desde que havia me mudado para a Holanda. Ele conhecia o endereço pelas cartas e cartões postais trocados no começo. O café ainda estava morno na cafeteira e, pela primeira vez, não o olhei com repugnância ao escolhê-lo ao invés da garrafa de líquido branco no armário. O velho sofá vermelho me apoiou novamente em meus devaneios e não consegui terminar meus trabalhos para a tarde.
Meu caro amigo Sol se punha a vigiar outro lado do planeta quando minha porta começou a ser esmurrada. Abri calmamente, sem nem olhar quem era.
— Existe uma grande invenção da humanidade chamada campainha, que existe exatamente para evitar que pessoas como vocês arrombem portas.
— Nossa! Dimi está de bom humor! O que aconteceu, criatura? – Julia devolveu, achando graça de meu tom. Sua roupa, como sempre, combinando com a de Julian.
— Uma boa notícia! – Sorri, mostrando despreocupação.
Não foi preciso dizer nada para que os dois se sentissem completamente à vontade, com suas botas surradas balançando sobre minha delicada mesinha de centro depois de lavarem e esterilizarem as mãos. Ambos chamavam muita atenção com os chapéus peculiares que escolhiam, mas nunca se importaram com os olhares reprovadores que recebiam nas ruas. Eu sempre tive essa fraqueza excedente, preocupação com coisas tão banais, e me sentia com um misto de inveja e orgulho deles.
— Tirem as patas daí! Vou preparar mais café. Querem? – Me ignorando completamente, agarraram os controles do Nintendo e começaram a discutir sobre qual personagem cada um seria na vez. Entrei na cozinha, ainda rindo da infantilidade de meus amigos.
Minha vida não era tão ruim assim. Tinha meus dois companheiros de longas noites com filmes de terror, feriados doces recheados com os bolos da tia de Julian e fins de semana atolados de trabalho atrasado. Não importava o dia e a hora, os pilantras sempre apareciam para atazanar e, principalmente depois que minha mãe morreu, não fiquei só por um dia sequer.
Ambos se conheceram no fundamental e não se desgrudaram desde então. Ela era a garota bravinha, que ganhava qualquer disputa que envolvesse força bruta e inteligência. Ele era apenas um bobão, ainda chorando quando perdia o jogo. Era a dupla perfeita, quase gêmeos em tudo. Havia uma cumplicidade entre eles que eu sabia ser inalcançável a mim. Mas os dois ainda assim disputavam pelo posto de enfermeiro quando eu ameaçava qualquer resfriado, faziam compras quando eu esquecia e passavam horas tentando me fazer rir. Era impossível demonstrar toda minha gratidão a eles.
— Palhaços, o lanche está pronto. – Chamei, carinhosamente.
Em segundos os pães estavam atulhados sobre os pratos e as geleias eram freneticamente espalhadas de um lado ao outro. Eu me sentia feliz, como quando se levanta atordoado de um sonho muito bom e pensa que ainda está nele.
Julia e Julian passaram a noite em casa, entupindo-se de salgadinhos. Nem brigaram comigo por comer um pouquinho também e me parabenizaram por não ter posto uma única gota de álcool na boca.
No dia seguinte eles saíram cedo, indo aproveitar o dia em algum parque. Fui convidado, mas recusei sem mencionar o encontro marcado.
Fiz tudo calmamente. Limpei e arrumei a casa, regando as flores da janela e tirando algumas para enfeitar a mesa. Separei meu disco preferido e liguei o rádio, observando a maçã verde girando rapidamente. A música preencheu o ambiente e fui tomar banho enquanto assava o peixe.
Encontrei-me com devida roupa e comida no forno – longe de pronta – às 11h30min. Sentei-me na cadeira de balanço que ocupava lugar na minúscula sala, observando a janela. O cansaço chegou rapidamente, pois havia perdido o costume da agitação. O relógio marcava o mesmo horário e o ponteiro parecia torturar-me. Resolvi por tomar o coquetel antes do programado, afinal, não queria fazer isto na frente dele.
Os comprimidos caíam em minha palma e cada um deles parecia trazer-me um pouco mais de volta à consciência. Estava fazendo o correto? Não era justo com Niki. Estava sendo egoísta de novo, pedindo para que ele ficasse e entendesse ou enganando-o descaradamente. Já haviam me dito que os tempos mudaram e muito mais se conhecia sobre minha condição, mas o preconceito permanecia. Suportei os xingamentos e reprovações de todos, mas não conseguiria suportar os dele.
A dureza com que em um instante meu coração bateu gravou-se em minha mente. Nada poderia ser feito sobre aquilo. O cheiro gostoso de comida revirou meu estômago e acabou com meu apetite. Tudo parecia ser de vidro. Estavam vendo-me de novo e nunca suportei a exposição. Precisava me cobrir.
Levantei-me, pegando o casaco sobre a chapeleira. Calcei os tênis na soleira da porta e saí deixando-a destrancada. Meus passos ecoaram no corredor longo e sombrio. Preferi as escadas para descer os seis andares e cumprimentei o porteiro. A manhã estava gelada, mas meu amigo Sol despontava no horizonte, sereno. Arrependia-me de não ter pegado um cachecol, mas então lembrei que fora um presente de mamãe.
Meu caminhar era leve sobre o chão molhado, assim como minha respiração. Sentia-me especialmente forte aquela manhã, como se aguentasse até uma corrida. Sabia que meu médico provavelmente me repreenderia pelo descuido, mas valia a pena.
As primeiras árvores do parque surgiram ao longe e apertei o passo, socando forte as mãos congeladas dentro dos bolsos surrados. Um guarda-chuva vermelho espirrou um pouco de água em meus olhos e olhei feio para a senhora que o chacoalhou; a chuva havia passado há horas.
Um casal peculiar estava sentado em um banco em frente ao parque e me aproximei. Estavam tomando chá e conversando animadamente, pareceram surpresos em me ver.
— Dimi! O que está fazendo aqui só com esse casaquinho? Vai pegar uma gripe! – Julia ralhou comigo. Sentei-me ao seu lado, entre os dois e peguei um copo.
— Sabem, – comecei, pensativo – existem certos momentos desconfortáveis que podem ser evitados. Qual o problema em fugir deles? Se podem nos trazer tristeza, qual o problema em deixar as coisas como estão?
Julian olhava o chão, com um bico em seus lábios, tentando entender o que ouvia. Bati de leve no nylon, espantando a umidade dos braços. O chá me aquecia e já me sentia melhor. Não havia motivos para tristeza quando estava ao lado de meus melhores amigos, pois eles sempre me apoiariam, mesmo sem saber disso.
Passei a tarde no parque com eles e saí de lá direto para um hospital, com infecção na garganta. Do hospital não consegui mais sair e meu e-mail ficou esquecido para sempre. Minha casa só foi visitada novamente dois meses depois.
...
Nikolai ajeitava pela quarta vez seu cabelo no espelho do elevador. Esperara por aquele momento por longos anos e queria que fosse perfeito. Mas depois de muito bater, decidiu entrar e a porta estava aberta. O apartamento encontrava-se vazio.
Um peixe no forno terminava de assar, as panelas estavam tampadas sobre o fogão e a mesa arrumada de forma simples, combinando com o ambiente acolhedor. Fotos espalhadas pela sala mostravam três jovens sorridentes. Uma figura em especial parecia emagrecer cada vez mais em cada imagem. Nikolai franziu as sobrancelhas para a última foto, com ela deitada em uma cama de hospital, rodeada de flores dos amigos. Perdera grande parte dos curtos cabelos castanhos claros e os ossos estavam proeminentes, mas continuava tendo um belo rosto e olhos bondosos.
Sobre o rack uma pilha de caixinhas chamava atenção. Remédios dos mais variados nomes e tamanhos competiam em denunciar o que o homem temia. Seu amor estava doente, talvez há anos, e nada fizera para tentar ajudar.
Desligou o forno e sentou-se para esperar. E esperou durante toda a tarde. Dormiu na cadeira mesmo e quando acordou já escurecia. Voltou para o hotel em que estava pernoitando. Em todos os dias daquela semana voltou ao apartamento e o encontrou da mesma forma que o deixou na tarde anterior. Por fim, sábado chegou e teve que voltar. Com a passagem em mãos, foi uma última vez se despedir do lugar, onde tantas memórias estavam guardadas com carinho em livros, cartões e objetos. Não resistiu em pegar uma foto para si e saiu de lá, desolado.
Nunca mais voltou. Nunca mais suas mensagens foram respondidas. Mas três meses depois alguém o procurou pelo e-mail de seu amor, pedindo seu endereço. Um cartão preto foi enviado e, inconsolável, Nikolai leu a última carta da que receberia da Holanda.
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