POV: Sofia

Eu me chamo Sofia, e sou amiga do Matthew desde a infância. Tenho tantas coisas a dizer sobre ele! Não sei nem por onde começar.

Sempre fui uma menina meio quieta, com poucos amigos, e era bastante tímida quando criança. Meus pais trabalhavam o dia todo, e eu ficava numa escolinha perto de casa, em período integral. Quem me levava todos os dias era meu pai, enquanto minha mãe terminava de organizar a casa para os dois saírem para o trabalho.

Sempre fui mais próxima do meu pai. Minha mãe vivia dando atenção à minha irmãzinha mais nova, enquanto meu pai sempre foi mais apegado a mim.

Na escolinha eu via todos brincando em duplas e grupos. Violet era minha amiga, e eu sempre brincava de boneca com ela.

Porém, minha atenção era voltada a um menino que ficava sozinho perto da janela. Ele sempre estava ali, brincando com seus carrinhos, sem se importar com ninguém. Às vezes, pegava um caderno e escrevia qualquer coisa, e ninguém se atrevia a olhar.

Eu me lembro que numa manhã nublada, meus pais foram me levar para a escolinha de carro, para assim que saírem de lá, irem direto para o trabalho. Não havia nenhuma outra criança na escolinha, além de mim e do garoto que ficava sempre sozinho. Todos os pais pensam da mesma forma: não levam seus filhos pequenos para a escola numa manhã nublada. Com exceção dos meus, e os do garoto solitário. Como Violet não foi na escola naquele dia, e não havia mais ninguém para eu brincar, me atrevi a falar com aquele garoto que estava sentado, perto da janela, abraçando os joelhos, quieto. Todos tinham medo daquele menino, porque ele nunca falava com nenhuma outra criança, e eu até via as professoras falando com os pais dele sobre ele não se socializar com os outros colegas. Fui até ele e perguntei seu nome. Ele hesitou em dizer, mas respondeu de uma forma clara e que eu pudesse ouvir perfeitamente (já que eu esperava que ele fosse me responder de uma forma grosseira). Eu também disse meu nome, e depois disso, o deixei sozinho e fui para o outro canto da sala, brincar com a minha boneca, já que era bem provável que ele não gostaria de brincar comigo. Alguns minutos depois, ele foi até mim, cutucou meu ombro e sorriu.

—Você quer brincar comigo? — ele disse.

Fiquei surpresa pela reação, já que ele não falava com ninguém da sala. Mas acho que ele era apenas tímido.

~

POV: Matthew

Oi, meu nome é Matthew. Bem, eu sou amigo da Sofia há muito, muito, tempo, e não sei o que contar. É... começamos pelo começo, né?

Desde que eu era pequeno, eu fui bem tímido, nunca realmente me socializei muito bem, e o pior foi ter que passar quase um ano inteiro numa escolinha cheia de gente, quando eu tinha 8 ou menos anos de idade. Ninguém vinha falar comigo, eu só falava no ouvido da professora, eu era muito envergonhado. Meu pai vivia conversando comigo sobre isso, e eu ouvia, calado, o que ele falava pra mim... ele era bem compreensivo, mas o problema era colocar em prática. Então, com esse problema, todos os dias, nos intervalos, eu ficava sentado perto da minha janela favorita, — aí você se pergunta: "Ué, uma janela? Favorita? Que estranho..." — é, uma janela, que dava de frente a uma piscina e, alguns metros à frente, uma cafeteria, onde eu via pessoas andando, conversando, comendo... socializando! Tudo parecia um sonho pra mim, e tudo eu escrevia no meu caderninho que o meu psicólogo me deu... ele dizia que era meu amigo e iria me entender, então a gente iria brincar. Na época, eu adorava carrinhos, meu pai me levava pra sair com ele e eu ficava olhando pro chão, brincando e pulando, até que ela me deixava num lugarzinho onde haviam várias crianças, jogos e brinquedos. Aquele lugar era um paraíso, eu não precisava conhecer ninguém, eu só brincava com eles, me dava uma alegria e eu nem me importava mais com a minha timidez.

Acho que foi daí que minha vida começou a virar de cabeça pra baixo. E foi aí que todo mundo se preocupou, pensaram que eu era louco, mas... cá entre nós, aquilo era sim uma sensação de alegria, uma aura, que pairava sobre a brinquedoteca. E isso era diferente do que eu sentia com outras crianças na escolinha.

Eu desenhava tudo que podia e escrevia tudo, também. Eu desenhava minha mãe... a qual eu via muito pouco porque meu pai não me queria perto dela, eu não sabia o porquê. Mas tudo mudou, quando num dia nublado, chuvoso e cheio de névoa, meu pai me levou pra escola, que estava, realmente, vazia.

Foi aí que eu, olhando pelo reflexo da janela, vi que uma menina entrou com sua boneca ali na escolinha... e eu, logo, senti que algo mudou naquele dia tão chuvoso, neblinoso e deprimente. "Ela é muito bonita.", eu pensava, comigo mesmo. E, de fato, ela era. Cabelos castanhos, liso e enroladinho, olhos verdes como a grama sadia de um dia de verão... eu, simplesmente, não conseguia tirar meus olhos dela, até que eu vi que ela estava se aproximando.

—Ei, qual seu nome?

Eu me virei, espantado, fiquei, por alguns segundos, sem fala, mas respondi, alegre por ver que ela tinha uma aura, um espírito tão bondoso.

—Sou Matthew.

—O... meu nome é Sofia!

Se eu me lembro bem, eu fiquei sorrindo feito bobo pra ela naquele momento, apreciando a beleza dela. Daí ela virou e foi sentar no outro canto, brincando com a boneca dela. Eu esperei por um momento e depois, saí desesperado até ela.

—Você... você quer brincar comigo?

Ela acenou com a cabeça que sim, e então a gente brincou até a hora de ir embora. Ela foi antes de mim, meu pai havia se atrasado por causa da chuva por perto de onde ele trabalhava e eu fiquei ali com a moça que cuidava da gente, acho que ela se chamava Cecília. Ela gostava bastante de mim, mesmo eu sendo tão quieto e fechado.

Eu havia voltado pra casa alguns minutos depois, e enquanto eu tomava banho, brincava com meus carrinhos e figuras-de-ação e quase caía no sono, eu lembrava de minha nova amiga, que eu não queria que saísse do meu lado. Não mesmo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.