Digo um olá e um adeus
1 Capítulo 1
Eu apertei o botão do elevador nervosa, mesmo sabendo o que me esperava no final daquilo tudo. Não seria uma surpresa porque eu já sabia sobre ela, já a esperava, mas percebi que mesmo assim, estava ansiosa. Prendi a respiração, contei os meus passos no intuito de me acalmar, mas não adiantou de nada. Apenas continuei nervosa e assim que terminei de andar pelo corredor e abri a porta, mesmo esperando, acabou sendo uma surpresa.
Lá estava ele, sentado no sofá da sala, com aqueles olhos verdes e grandes me encarando. Um sorriso discreto de lado surgiu, para o lado direito, como sempre fazia. Quando fechei a porta atrás de mim, eu percebi que tremia. Era ele. Era Archer Milk que estava ali. O ator. Pisquei os meus olhos e lembrei, em nenhum momento eu andei sozinha, não subi de elevador sozinha, não andava sozinha pelo corredor. Minha mãe me acompanhava, assim como a assistente social. Ali na sala não estava apenas Archer, mas também algumas outras pessoas responsáveis pelo programa. Fiquei tão ansiosa que não conseguia me concentrar nas outras pessoas, apenas em nós dois.
Sonhei com aquele encontro por anos, mas nunca imaginei que aconteceria dessa forma. Na verdade, é a pior forma de conhecer o seu ator favorito. E sinceramente, não desejaria isso para ninguém.
- Alice Foster?
Archer tinha uma voz suave e rouca, quase não abria a boca para falar. Ele não era tão famoso assim, não era um Al Pacino nem um Robert de Niro, um ator que todo mundo conhece. Archer era um cara novo, que ralou na indústria do cinema. Tanto que ainda não obtivera nenhum papel principal, a não ser uma série que também não estava assim tão conhecida. Game of Thrones e Breaking Bad tinha um incrível poder de ofuscar todas as outras séries. Mas mesmo assim Archer e o resto do elenco, junto do criador da série, haviam participado da Comic Con em San Diego.
- S-Só... Alice.
Encolhia meus ombros, evitando o encarar ou qualquer outra pessoa. Eu tinha vergonha disso, sempre tivera. Archer também tinha. Bem, eu achava. Sempre tivesse essa péssima mania de achar que conhecia as pessoas, mesmo sem conhece-las. Eu achava isso pelas entrevistas em que ele dava, sempre nervoso, mexendo a perna, não olhando o entrevistador por muito tempo, com sorriso nervoso e mãos também nervosas. Eu me identificava com isso.
- Como você sabe, Alice. Estamos aqui para realizar o seu desejo. Você o guardou por muito tempo. Você solicitou um... Dia com o senhor Milk, certo?
Balancei a cabeça afirmando. Controlei a minha língua para dizer que havia demorado tantos anos na esperança de encontrarem a maldita cura para a minha doença. Mas mesmo que o tratamento tivesse parado ou ao menos deixado mais lento o avanço, eu não estava curada. Todos os dias tomava dezoito pílulas e a cada quinze dias era sujeita a uma tonelada de agulhadas, algumas na base da coluna que não me deixavam andar e sentar direito pelos próximos quinze dias. É o que acontece quando seu corpo resolve atacar a si mesmo.
Espiei pelo canto de meus olhos para Archer, nisso senti a mão da minha mãe em meus ombros e ela foi conversar pelos responsáveis. Archer não parecia tão confortável quanto eu. Não era um desconforto de “podia estar fazendo coisas melhores”, mas um meio “eu não quero conhecer uma pessoa que vai morrer sabe-se lá quando” ou até mesmo um “por que diabos ela me escolheu? ”. Sempre achei Archer humilde, tudo pelas entrevistas que eu assistia todos os dias antes de dormir no YouTube.
É, talvez eu tenha sido mesmo um pouco exageradamente obcecada por ele. Mas quando se tem um tempo de vida limitada, você se apega a coisas inimagináveis. E eu me apeguei a Archer. Engraçado dizer que me apeguei antes de assistir a algum filme em que atuou como coadjuvante.
Confesso, que mesmo faltando dois meses para os meus dezoito anos, ainda jogo RPG pela internet. Não esse de mesa com aquele dado vermelho cheio de dados, apesar de ter bastante interesse. Mas nesse RPG de Tumblr, onde você escolhe um ator famoso, cria uma história e passa a interagir com outros personagens. Eu gostava disso. Os baseados em Harry Potter sempre foram os meus favoritos. E bem, nisso acabei usando o próprio Arhcer como photoplayer ou shape, depende da pessoa.
Fiquei apaixonada pelo sorriso tímido e contido nos gifs, os olhos assustados e nervosos. Nos gifs em que ele estava sujo de sangue e coberto de terra. Foi então que resolvi ir atrás de seu trabalho e acabei indo para as entrevistas e quando vi, ele já era o meu protetor de tela no celular. Patético. Quando vi, todos os dias antes de dormir, fechava os meus olhos e me imaginava num mundo onde eu tinha uma saúde perfeita, trabalhava como atriz ou era a garçonete que o atendia e então ficávamos apaixonados um pelo outro e tudo terminava em sexo e sonhos eróticos para mim. Agora Archer estava ali na minha frente, mas nada disso que imaginei iria acontecer. Porque eu iria morrer em breve e outra razão que possivelmente ele estava fazendo um favor, então não teria nada de romance.
Enquanto os outros acertavam os detalhes, me deram uma cadeira. Apesar de parecer saudável, o meu corpo doía sempre, principalmente as minhas ligações. Meu nariz sangrava bastante também. Sentei na poltrona próximo a ele e não trocamos nenhuma palavra, havia uma puta constrangimento no ar. E eu já me arrependia de tudo aquilo. Nem para ser uma fã histérica eu servia.
- Hm... V-Você aceita tirar uma foto comigo?
Me vi dizendo, com uma voz fraca e idiota, aguda demais. Quando notei, meu celular já estava aberto, na câmera frontal e sem perceber, meus pés haviam se movido e agora eu estava sentada ao lado dele. Céus, ele cheirava bem. Desejei não ter nenhum mau hálito, havia tomado café da manhã, engolido meia porção de balinhas de menta, não seria possível ter logo agora em que eu estava sentado ao lado dele.
- Claro. Vamos tirar no meu também.
Não soube se ele estava sendo forçado ou não, na verdade, eu nem sabia o que diabos estava acontecendo. O tempo parecia estar rodando absurdamente rápido e absurdamente lento. Minha mente perversa de usuária do Tumblr só conseguia pensar como ele cheirava bem. Passei meu celular para ele, já que tinha braços maiores que o meu e eu não parava de tremer, e ele tirou as fotos. Nem prestei atenção no meu rosto, já sabendo que ele sairia com aquela carinha adorável de sempre. Agradeci e pouco depois minha mãe o chamou para agradecer e nos despedimos.
Quando cheguei em casa, depois de fingir prestar atenção em cada palavra da minha mãe, me joguei na cama do meu quarto sem entender o que tinha acontecido. Quando olhei para o relógio, nem havia passado três horas no total, o encontro durou no máximo meia hora e eu só tinha uma foto e poucas palavras trocadas. E para minha surpresa, eu estava bem, a vergonha do momento fez minhas bochechas ficarem coradas e me deu um ar de saúde. Pensei em postar no instagram, mas descobri que não queria que as pessoas soubessem que o conheci graças a aquele programa para futuros adolescentes e crianças mortas. Então apenas passei para o computador a imprimi.
Durante o jantar minha mãe disse que o encontro seria no sábado, dali a dois dias. Obviamente, não dormi durante três dias e quando chegou o sábado, bem, eu nem sabia o fazer. E se fiz, nunca soube como cheguei ali.
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