Digimon Zero: The Lost Gate
5 Capítulo 5 (Episódio 2) - O Encontro
Notas iniciais
Eu estava numa floresta com árvores medianas, havia montanhas mais além, e tinha na minha mão direito... hmm... uma espécie de aparelho eletrônico pequeno, violeta com partes branco-azuladas e douradas, tinha uma tela minúscula, estava apagada. Eu não sei tipo de aparelho era. Era em formato de octógono, alternando entre grande e pequeno, grande e pequeno. Com dois botões metálicos em baixo de uma tela quadrada. Haruka fez uma observação após despertar naquele lugar desconhecido. Sentou, sentia-se tão cansado. Onde eu estou? Pensou ao levantar, e guardou o aparelho de origem misteriosa no bolso de sua bermuda bege, e começou a andar. Tinha perdido sua garrafinha de Coca, uma pena.
Caminhou por mais ou menos meia hora, a procura de alguém que pudesse ajudá-lo a voltar para o aeroporto — tinha dúvidas se estava em Tóquio, sequer no Japão, as árvores pareciam brilhar, como pixels numa imagem de tevê. Não, tinha que estar imaginando coisas (bobinho, é claro que não era imaginação. Mas o que fazer quando a pessoa bate a cabeça forte e se esquece de tudo que aconteceu antes de acordar num lugar estranho? Ele nem sequer lembrava que virara um monte de números!).
Parou para descansar um pouco, sentando debaixo da copa de uma macieira. Que floresta será essa? Parece até infinita. Não, mas não pode ser, até porque, não existem florestas que não acabam mais. Concluiu, mordendo uma maçã. Estranho… Era uma maçã, mas não tinha gosto de uma. O sabor era de rámen de porco com missô. Eu devo estar sonhando. Se beliscou, continuou na mesma: na floresta reluzente. Se beliscou de novo, nada. Beliscou com mais força, se estapeou algumas vezes, nada parecia funcionar. Só pode concluir por fim: Não é um sonho. Ai, Kami-sama…
Levantou e voltou a caminhar, e prosseguiu com sua busca enquanto comia a maçã-porco, na esperança de encontrar uma pessoa.
Depois de um tempo que pareceu uma pequena eternidade — e a maçã já acabara, infelizmente —, com sons de pássaros ao fundo, Haruka avistou algo: um tênis de marca preto, evidentemente calçava um pé. Até que enfim encontrei alguém! Alegrou-se, chegando mais perto, logo vendo uma perna, o outro pé, e então estava olhando para uma menina — mais ou menos da idade de Haruka —, que estava caída de bruços para o chão, algumas mechas de seu liso cabelo castanho-claro cobriam o rosto. Nas costas do colete branco dela estava pichada a frase “Rock ‘in’ Roll” com o desenho de guitarras cruzadas, tudo em rosa-choque, usava jeans e os tênis de corrida eram azuis-marinhos. Ela aparentava estar desacordada.
Quando Haruka se aproximou para acordá-la, ela abriu os olhos lentamente, verdes como as folhas de árvores iluminadas pela réstia da luz do sol ao poente.
— Salen, Salen… — ela gemeu ao sentar.
— Você está bem? — Haruka tocou seu ombro, preocupado.
— Estou… — respondeu. — Você viu o Salen? — Olhou exausta para Haruka.
— Eh, não. Você é a primeira pessoa que vejo nessa floresta — ele comentou, ajudando-a a levantar.
A garota finalmente notou que falava com um estranho e sua expressão relaxada mudou para uma autoritária, mas ainda sonolenta.
— Quem é você? — Largou a mão que Haruka a estendeu.
— Sou Haruka, prazer em conhecê-la. E você?
— Tila — ela disse sem prestar atenção demais nele, mas ocupada em estudar o ambiente ao redor.
— Posso te ajudar a achar o Salen. — Haruka se ofereceu meio atrapalhado.
— Por quê? — quis saber Tila, elevando uma sobrancelha.
— Pretende andar sozinha nessa floresta?
— Claro, por que andaria com um estranho como você?
— Porque dois pares de olhos procurando é muito mais rápido que apenas um par — respondeu Haruka convicto. Tila teria rido, se não estivesse com o humor péssimo.
— E daí? Eu te conheci agora. Não confio em você.
— Eu encontrei você sozinha e desmaiada. Te encontrei antes que algo ruim te acontecesse — Ele contestou, finalizando — Eu sou de confiança.
— Tá, sei. — Tila lançou um olhar desconfiado para ele (além dos esportes, ela também é craque em desconfiar das pessoas, especialmente desconhecidos).
— É sério! O que eu preciso fazer para que confie em mim? — Haruka se indignou.
— Não preciso. Apenas me deixe em paz, ok? — Tila lhe deu as costas e saiu andando. Até parece que vou confiar em alguém que acabei de conhecer, hum! Pensou, se metendo num corredor natural de salgueiros (daqui a pouco ela se arrepende, quer apostar?).
Tila andou por minutos a fio, sem parar de pensar no que podia ter acontecido a Salen. E seu avô? Morto a sangue frio… Não! Ele tem que estar vivo! Vovô não desistiria tão facilmente. Olhou em volta novamente, a floresta parecia não ter fim, e todo o canto que olhava parecia ser réplica de outro que vira antes. Aquele portal salvou a vida minha e de meu irmão. Graças a ele estou viva agora. Continuou em frente. Espere por mim, logo eu encontro você!
Mesmo sendo uma esportista, não demorou para Tila se cansar. Interrompeu sua caminhada na margem de um riacho de águas cristalinas, na margem do outro lado havia mais árvores bizarras com os troncos cheios de pontos brilhantes. Esse fim de mundo não pode ser no Japão. Devo estar em outro mundo. Observou, abaixando perto do riacho. E preciso descobrir o que é isso. Pegou do bolso da calça um aparelho pequeno (semelhante ao de Haruka), era prateado, verde-esmeralda e verde-metálico (uma coisinha linda, mas Tila achava esquisito), acordara com ele na mão e tinha aparecido misteriosamente na mesma mão em todas as vezes que tentou se livrar dele, então não tentara mais jogá-lo fora. A pequena tela continuava apagada, mesmo depois de ter apertado seus botões um monte de vezes — devia estar descarregado.
Tila uniu as mãos com concha, pegou um punhado de água e bebeu; repetiu o processo algumas vezes. Ela, ao contrário de Haruka, lembrava-se de que ela e o irmão haviam sido sugados por aquele portal digital. Salen e eu viramos um bando de números. Como é que aquilo aconteceu? E seu avô, o vovô Aristóteles! Ele fora baleado, será que ainda estava vivo? Preciso encontrar Salen!
Olhou ao redor, sem saber para onde seguir agora. Não sabia onde estava, estava perdida — apesar de não querer admitir. E não fazia a menor ideia de onde procurar Salen primeiro. O jeito é procurar às cegas. Bebeu um pouco mais de água e se afastou do riacho, seguindo pela margem em que estava, sempre em frente. Droga, eu era pra ter aceitado ajuda daquele garoto estranho… Tila se arrependeu (eu falei que ia acontecer!).
Mal ela saber que Haruka a seguia de longe, tomando cuidado para não ser visto por ela.
* * *
Se for um pesadelo, quero logo acordar! Fui arrastado da minha amada casa para o Japão e ainda fui abduzido. Que merda… Ainda avisei que não queria viajar, mas- Ah! Ninguém me ouve! Joseph caminhava a mais de duas horas sem ver uma alma viva naquela floresta estranha, que brilhava feito um céu de noite estrelada. Estava morto de fome, sono e sede, mas não se atreveria a dormir. Não depois de ter quase sido devorado por jacarés com presas de metal. Se não fosse aquele aparelhinho misterioso, teria virado picadinho. Por algum motivo que não sabia, os bichos pararam de avançar quando viram o aparelho, pareciam com medo dele. Santa coisinha estranha. Salvou minha vida. Agradeceu pela enésima vez, beijando o tal aparelho, esse em vários tons de azul e lilás.
Depois de tanto andar, um rio surgiu no seu caminho, ele cortava a terra em duas partes, separando-a em duas margens cobertas por grama. Que sorte a minha! Pensou alegre, agachando e bebendo da água que reluzia de limpa.
Por alguns instantes, ele pensou estar sozinho, mas uma voz perguntou e soube que não:
— Dare?
— Quem tá aí?! — Joseph levantou num salto, cerrando os punhos. Não importasse quem fosse, ia encarar.
Os arbustos a sua frente chacoalharam um pouco, e dentre eles surgiu uma menina usando um quimoninho curto e simples, por baixo uma camisa de alças verde-clara, com um grande três invertido branco no meio, e uma bermuda vermelha, ela calçava chinelos de madeira com meias listradinhas — listras brancas e amarelas. Ela era negra e tinha bonitos olhos castanho-avermelhados, seus cabelos era longos cachos castanho-louros… É aquela menina do aeroporto! Joseph teve certeza. Abaixou os punhos, não precisava bater em ninguém.
— Oi. Já nos vimos antes, lá no aeroporto — falou com a menina, que, sem entendê-lo, disse em japonês:
— Nani? Gomen, wakaranai yo.
Ótimo, ela não está entendo uma palavra que digo. Pensou Joseph, desesperado. Como ia fazer pra se comunicar com ela? Não lembrava de mais nada de seu estudo de japonês. No máximo, só sabia falar “Sayonara” e “oha yo”.
Foi nessa hora que um brilho estranho surgiu no ar, era azul e esfumaçado. De olhos arregalados, Joseph ergueu a mão, a luz-fumaça passou por seus dedos, era morna ao toque, ao invés de fria, como parecia ser por causa de sua textura igual a vapor de freezer.
— Que coisa doida… — disse ele.
— Eu entendi o que você disse! — exaltou-se Lua.
— Eu também — ele concordou, agora as palavras delas tinham soado no mais claro português brasileiro.
— Eh, ie, watashi não entendi o que você disse — o português se misturou um pouco com o japonês, mas deu pra entender (Joseph se lembrava que “watashi” era uma das formas de dizer “você” e “ie” representava “não”. Ele não é tão Zé Cabecinha assim).
— Eu sou o Joseph — apresentou-se, ela fez o mesmo:
— Meu nome é Lua. — A luz azul-esfumaçada desapareceu sem deixar rastro algum. Sumiu na poeira. Pensou Joseph, usando um de seus ditados favoritos.
— Sabe que lugar é esse? — perguntou a Lua.
— Não — ela negou, para sua infelicidade. — Eu acordei nesse lugar, depois de…
— Depois de quê? — Ele chegou para o lado dela.
— Nada, deixa pra lá. — Estava na cara que ela não queria falar daquilo, mas Joseph faz a linha de quem não desiste nunca.
— Pode contar. Prometo que acredito, não importa o que for.
Lua sorriu para ele. Acho que fui agradável. Joseph deu um sorriso idiota, não era todo dia que tinha uma menina bonita sorrindo para ele.
— Eu me desentendi com meu irmão e saí correndo sem destino — ela começou a contar. — Aí uma coisa muito estranha aconteceu. Um portal gigante apareceu e eu entrei nele sem notar, e já do lado de dentro, fui transformada em códigos, em números binários, sei lá! — Balançou as mãos, nervosa. Joseph a encarava atento. Lua parou por um momento, fitando-o perplexa. — Você acredita mesmo em mim?
— Sim, aconteceu o mesmo comigo!
— Bem, me sinto menos pior em saber que não fui a única. — Lua mexeu nos bolsos de sua bermuda e apanhou um aparelho eletrônico, pequeno e de forma octogonal, idêntico ao de Joseph, tirando pelas cores, o dela era creme e vermelho. — Você também ganhou uma coisa estranha assim?
— Sim, olha aqui. — Ele mostrou o seu para ela.
— O que será que são?
— Nem ideia. — Já que nenhum dos dois sabia a resposta, o melhor era ir andando. — Vamos tentar achar alguém?
— Vamos. — Joseph saiu andando à esmo de volta para a floresta, Lua o deteve ao dizer — Melhor seguir o rio. É uma forma de nos orientarmos, e assim não ficamos sem água pra beber.
— Tem razão — ele assentiu, e ambas as crianças (na verdade, jovens, ela tinha doze anos, e ele, treze) seguiram o curso do riacho.
* * *
Acho que todos estão se perguntando para onde foi Salen, o irmãozinho CDF de Tila. Bem, ele não foi tão sortudo quanto os outros e caiu sozinho naquele lugar estranho. E a parte da floresta em que surgiu era sinistra.
“Acordei numa floresta, cuja as árvores eram do mais límpidos ouro e prata. As árvores têm inscrições em alto relevo — algumas em todo o tronco e outras apenas nas folhas (não conhecia aquelas insígnias, tenho certeza absoluta)”. — Descrevia Salen ao decorrer que andava por aquela floresta de árvores de ouro e prata refinados. “Havia um aparelho diminuto em minha posse, meio preto, meio branco. Dois botões elevavam-se abaixo da tela apagada, devia estar sem bateria, pois não ligava. Curioso para descobrir do que tratava-se, guardei-o comigo.”
Nem com toda sua sabedoria, o irmão caçula de Tila fora capaz de descobrir o que era. Não se recordava de já ter visto um aparelho daqueles. “Perdi a noção do tempo que andei por essa floresta, apenas sei que tempo suficiente para cair em seus encantos hipnóticos.”
— Que floresta magnífica... — Salen sussurrou para si mesmo, ignorando sua razão.
O brilho da floresta era tão belo que, chegava a embriagar, Salen se sentia tão molenga, o calor no bosque era moroso. A luz que brilhava dos troncos metálicos era hipnotizante… Ele começava a se sentir tentado em colher alguns frutos preciosos, algumas folhas de metal valioso. Ninguém sentiria falta de algunszinhos…
Aquela floresta era maldita e abençoada, pois aqueles que requeressem sua ajuda, eram bem recompensados. Os que não, que entravam sem se anunciar, tinham os sentidos dopados, e o coração passava a ser tomado pela ganância. E quanto mais impuro fosse, mais rápido seria dominado (o tempo em que se estava ali também contava, e Salen perambulava já, sem que se desse conta, por uma hora e meia. A embriagues causada pela hipnose o impedia de notar o cansaço em suas pernas).
— Salen… — murmuraram seu nome, uma voz estranha, pensou ser feminina, ela ecoava por todo o lugar, deixando-o tonto.
— Quem está aí? — Ele parou, olhando assustado ao redor.
— Muito bem por ter chegado aqui — parabenizou a voz singular cortês.
— Quem fala?! — Salen se exaltou, apesar de saber que aquilo não era sensato. A partir daí, as pernas de Salen cederam a exaustão, e ele caiu na grama macia de filigranas de ouro maciço, respirando ofegante.
— Fique calmo. Logo os outros chegarão também.
— Quem…? — Os olhos do garoto pesaram, e não conseguiu evitar submergir na inconsciência.
* * *
Joseph e Lua ainda procuravam por alguém. Foi então que viram um brilho intenso e muito bonito. Entreolharam-se e em silêncio, concordaram em ver o que era e correram de encontro ao lugar de onde vinha aquela claridade. Descobriram que ela partia de outra floresta, que começava aonde a outra terminava. Parecia ter uma linha cortando o chão dividindo a floresta de vegetação verde e orgânica da floresta de prata e ouro. As flores e gramado da floresta normal na parte que havia a linha estavam queimadas, como se carpinteiros e escultores tivessem dividido seu vasto terreno e destruído a continuação da floresta e moldado outra, que alguns seres humanos considerariam uma utopia.
Quando pisaram na grama dourada da outra floresta, ficaram chocados com os elementos que a compunham. Suas árvores, de ouro branco e prata, e suas flores de bronze ostentavam como seus miolos, pedras preciosas: diamantes, rubis, esmeraldas, ametista, safiras... Era a floresta mais linda e rica dentre todas.
Andaram pelo que pareceu meia-hora pelo bosque precioso, Lua e Joseph já começavam a ser embriagados pela visão das gemas e metais preciosos — ela a ponto de desmaiar (Lua não é muito resistente, mimosa demais) quando encontraram aquele menino caído no meio do caminho, o rosto tampado pelos cabelos compridos. Ele gemia, enquanto segurava um estranho aparelho eletrônico, em forma de octógono…
— Ei! — Joseph foi o primeiro a reagir. Lua, com os sentidos recobrados ao normal, saiu do transe provocado pelo mar de preciosidades que os cercavam, e correu até o garoto como Joseph fizera. — Ô, ei! Acorde! — Ele tinha o garoto desacordado nos braços, tentava reanimá-lo. O pobrezinho está tão pálido… O que será que houve com ele? Pensou Lua apiedada.
— Ele está-? — ela perguntava, e surgiram duas outras crianças a sua frente, vindas do meio de carvalhos de prata e bronze cintilante. Pareciam zangados e tão perdidos quanto eles. Eram Tila e Haruka, e haviam acabado de sair de uma discussão.
— Quem são voc-?
— Salen! — Tila correu para o irmão, amparando-o. — Quem é você? O que fez com meu irmão? — Fuzilou Joseph com o olhar. O pobre garoto não teve nem tempo de responder, porque uma voz eloquente, doce e melodiosa reverberou pela floresta, chamando por eles:
Crianças escolhidas, eu os saúdo.
— Quem falou? — perguntou Joseph, olhando ao redor surpreso.
— Onde você está? — foi a vez de Haruka perguntar, Salen começava a recobrar os sentidos.
— Vamos, apareça! — exigiu Tila, pondo-se de pé.
Eu sou Lírian, a Canção Eloquente. Eu os trouxe para esse mundo. Sejam bem vindos a Okgeiden, o Mundo Digital. Respondeu a voz, plácida. Ela despejava paz, mas as crianças, de tão nervosas e confusas, não foram capazes de captá-la.
Fale com o autor