Digimon - O Mundo Dos Sonhos

8 Cap.8 - Particularidades, Descobertas e o primeiro


Notas iniciais
"Eu ia ficando cada dia mais perdido e mais distante deles. Até entendo a intenção em me proteger, mas logo quando descobri tudo eu fiquei muito estressado."
-Ivan-

CAPÍTULO VIII

PARTICULARIDADES, DESCOBERTAS E O PRIMEIRO CONTATO

Minha mãe e Lucas estavam no supermercado, Ivan estava em casa terminando de conversar com Lara, minha avó havia capotado no quarto da minha mãe e Jonas estaria estudando ou assistindo TV. Se fosse um dia antes diria que estava dormindo, no supermercado com os dois, na casa de Jonas ou deixando mensagem na caixa postal de Ivan. Mas não. Estava de cara com meu sonho. Sentindo à flor da pele a melhor sensação de desejo realizado.

Estava agora de frente para o ovo chocado que misteriosamente chorava para mim.

- Se você está aqui, como tem som saindo aí de dentro? – Perguntei confuso. –

- GUH! – Foi a resposta que recebi, acompanhada de uma feição muito excitada. –

- Porque você não fala? Deixa pra lá, essa não é a prioridade.

Cheguei mais perto do ovo e escutei um som muito desconfortante como se algo se mexesse no meio de toda aquela geleca. Ainda estava surpreso e assustado com toda a cena do nascimento daquela bolinha que já estava em minhas mãos, fora toda a noite anterior que eu ainda tinha pra absorver. Então imaginei que a minha cota de surpresa estivesse esgotada. Estava errado.

Aproximei-me do ovo com cautela e quase enfiei a cabeça nele de tão perto que estava. O barulho gosmento havia cessado, dando espaço para escutar outro som não menos curioso. Parecia o som de alguém pegando fôlego, como se para espirrar. Pouco antes de me afastar, recebo um jato de gosma no rosto acompanhado de um barulhinho engraçado.

- KISHIM! – Foi o que identifiquei do som enquanto limpava aquela sujeira do rosto e escutava a risada gostosa do chifrudinho. –

- Mas que nojo! De onde veio esse esgui..

Minha voz travara graças ao que vi descoberto após a sujeira. Era outra bolinha. Não conseguia entender a lógica daquilo, mas de um único ovo haviam nascido duas bolinhas praticamente idênticas. Tirei a outra lá de dentro sem saber se sentia nojo ou ficava confuso.

Terminei de tirá-lo lá de dentro com muito cuidado e percebi a euforia daquele que já estava do lado de fora.

- Gente... O que é isso? Você conhece ele? – Perguntei ainda abobado. –

- GYAH! – Respondeu com uma felicidade além da compreensão. –

Era um bichinho exatamente do tamanho do outro e com as características físicas similares. As diferenças estavam em sua cor e quantidade de chifres. Aquele segundo ser que havia tirado do mesmo ovo tinha uma tonalidade amarronzada, caramelo. A pele se assemelhava muito mais a de um humano graças à sua cor. Do topo da bolinha brotavam não um, mas três chifres que se comportavam de uma forma bem equilibrada. Eram um pouco menores que o chifre único do ser verde que agora estava em meu ombro direito, já que usava as duas mãos para segurar o marronzinho e tirar os pedaços de casca de ovo que havia nele.

****

Enquanto eu estava maravilhado com tudo o que estava bem à minha frente, Jonas estava no meio de um sonho que seria ao menos incomum para ele. Jonas se via num local amplo e mal iluminado. Parecia uma arena de batalha. Circular, arquibancadas ao redor e uma área vasta no meio. Tudo completamente vazio, inclusive a área. Um único feche de luz, apontado diretamente para ele, que dava a visibilidade falha do local.

O chão liso e espelhado refletia seu olhar de angústia e preocupação. Ele sentia que corria algum tipo de risco ali e que precisava correr. Ele corria. Ele escorregava no chão liso e era perseguido por sua sombra, causada pelo efeito da luz que o acompanhava onde quer que fosse.

Jonas não via saídas e a área parecia infinita, já que ele não chegava a lugar algum. Em certo ponto ele parou de correr e apoiou-se sobre seus joelhos, ainda de pé. Assim que a primeira gota de suor caiu de sua teste, um pequeno buraco se abriu no chão e algo surgiu de lá numa velocidade incrível.

- O que... é isso? – Foram suas primeiras palavras desde então.

O objeto até então identificável parou no ar bem à sua frente e ele pôde entendê-lo com maior clareza.

- É um cilindro? – Perguntava Jonas esperando que a resposta seguisse a luz até ele. –

- PRA QUE SERVE ISSO? – Gritou olhando para os lados, confuso. –

O objeto parecia simples dando uma olhada rápida, mas quando não houve respostas, Jonas ateve sua atenção ao objeto estranho. Era um cilindro transparente em sua totalidade. Tinha tampas prateadas nas extremidades e algo como símbolos cravados em um verde muito brilhante nelas. O seu conteúdo era estranho para Jonas. Parecia ser algo etéreo. Era azul e disforme, passavam correntes de energia à todo o tempo que faziam acender números que pairavam ao redor da nuvem azul sem a menor explicação lógica.

- QUE PORCARIA É ESSA E ONDE É QUE EU TÔ? ISSO É ALGUMA BRINCADEIRA DE MAU GOSTO? OLHA, EU VO...

Antes de finalizar sua frase o cilindro passa velozmente por Jonas, chamando sua atenção. Ele começa a se mover sozinho ao redor dele até que cai no chão, os símbolos verdes brilham numa intensidade mais forte do que já estava e o vidro racha.

- O que tá acontecendo?? ONDE EU TÔ?

Jonas só queria sair dali. Ele escuta o som do vidro terminando de quebrar e sente um movimento estranho em volta do recipiente. Assustado, corre para longe do cilindro e quando olha para trás, uma massa densa da cor do fluido que estava dentro do cilindro e com uma forma aterrorizante de uma boca aberta com presas afiadíssimas parte para cima dele. Ele acorda.

Ofegante, desnorteado, suado e aliviado Jonas percebe que está no seu quarto e seu primeiro movimento é olhar embaixo da cama.

- Tá aqui. – Pensou alto, arvorando a voz. – Nessa loucura de pesadelo eu só podia pensa que tinha a ver com você.

Falou para o ovo que se encontrava debaixo de sua cama. Jonas levantou da cama e assim que pisou no chão, escorregou e caiu de cabeça. O chão estava melado com algum tipo de gosma transparente, meio esverdeada. Havia acabado de acordar, estava abalado com o pesadelo e ainda tomou uma queda daquelas.

- Mas que droga é essa? Será que... Mãe!! Acho que Karen tá gripada, ein? Tem meleca dela no chão do quarto todo!

Quase saindo do quarto, Jonas nota um bilhete preso em seu espelho escrito pela sua mãe.

“Filho, fui à rua comprar

o remédio da sua irmã.

Cuide dela enquanto isso.”

- Hm, imaginei que ela estivesse precisando mesmo. Karen! Cadê você menininha? Ai! O que é isso?

Jonas desgruda do pé um pedaço do que parecia ser uma casca de ovo.

- Casca de ovo? AI MEU DEUS!

Desesperado, ele puxa o ovo de baixo da cama e constata que ele havia visto a parte inteira já que sua ponta estava aberta e não havia nada além de um poço de gosma dentro dele. Jonas não sabia o que fazer nem o que pensar. Tinha que cuidar da irmã, entender seu pesadelo e descobrir o porquê de não se lembrar da noite anterior.

- UÊEEEEEEEEN!!!

- Karen? Ai gente, que rolo! Karen, tá chorando menininha? Cadê você, em?

- Tô aqui, momon!

- UÊEEEEEEEEEEEEEEN!!!!

- Aqui onde? – Perguntou desnorteado, ainda no quarto. –

- UÊEEEEEEEEEEEEEN!!! UÊEEEEEEEEEEEN!!!

- No quarto de mamãe!

- Tá bem, tô chegando! Pode parar de chorar.

- Mas eu não tô chorando momon, quem tá chorando é ele...

- Ele quem, menina? Tem algum primo nosso aqui tamb...

Jonas chega ao quarto e dá de cara com Karen sentada no chão, alguns brinquedos ao seu redor e um bicho no colo. Seus olhos se arregalam e seu coração palpita muito forte. Ele sabia que aquele pequeno ser era quem tinha saído do ovo. Não sabia como nem porque estava no colo de sua irmã mais nova, mas tentou controlar a situação com a calma que ainda lhe restava.

- UÊEEEEEEEEEEEEN!!!!

- Porque o peludinho tá chorando, momon?

- Não sei, Karen. Você da ele pra mim pra eu poder acalmar ele?

- Não! É meu! Eu vi ele pulando na sala e peguei!

- UÊEEEEEEEEEEEEEEN! UÊEEEN!!!

- Eu vou te devolver, só vou fazer ele parar de chorar, tá bem?

- “Pomete” que devolve?

- Prometo. Agora me dá ele aqui, ta?

- Tá bom. Toma.

Assim que o ser foi para o colo de Jonas, pareceu melhorar seu humor. Jonas o levou para o quarto e foi analisa-lo com cuidado. Era um ser pequeno, cabia em suas duas mãos abertas. Era basicamente uma bola muito peluda e branca. Os pelos começavam no topo da cabeça e se alongavam até caírem ao final de seu corpinho arredondado que sendo apalpado, parecia ter só cabeça. Eram pelos longos e lisos. Um pouco acima do par de olhos grandes e pretos que tomavam boa parte do que poderia ser classificado como o seu rosto, havia duas orelhas em pé e que dividiam a cor entre o branco do resto de seu corpo e um tom amarronzado. Essa mudança de cor acontecia de forma espontânea, como em cachorros de raças misturadas. Abaixo dos olhos e praticamente coberta de pelos, estava a sua boca sem lábios. Apenas um corte horizontal de um lado a outro de sua cabeça /corpo.

Jonas sentou na cama e parecia exausto mesmo tendo acabado de acordar. O ser que estava em suas mãos o surpreendia e o assustava. A criatura parecia feliz em seu colo e havia parado de chorar. Ele pôs a mão na cabeça e lançou ao ar a dúvida que o corroía:

- Você é um Digimon? É isso?

****

A minha palavra de ordem era excitação. Qualquer preocupação e todo problema que eu pudesse passar estava guardado e lacrado na minha mente. Não é todo dia que algo tão surreal passa a fazer parte da sua vida de forma comprovada.

Assim que terminei de limpar o bichinho marrom, ele esticou a sua cauda em direção ao ombro que o verdinho estava. Percebi que queria ficar junto do outro que parecia ser seu irmão ou ao menos um primo distante. Coloquei os dois juntos em cima da mesa da cozinha e fiquei admirando seus sorrisos e brincadeiras. Lá no fundo, esperava que o celular tocasse e me acordasse de um sonho. Estava bom de mais pra ser verdade.

Escutei o celular tocando, mas não me importei com o que poderia ser. Nada seria mais impressionante do que ver aquelas criaturinhas em minha frente, existindo, respirando, brincando. Foi aí que pensei: “ Duas criaturinhas, parecidas. Uma verde e outra marrom. Chifres...”

- Claro! Óbvio! Como não tinha percebido isso antes?

Eles pararam de brincar e olharam pra mim atentamente. Com olhar de criança curiosa. Parecia que havia conseguido a atenção deles. O verdinho ainda tinha a cauda do irmão na boca quando soltou e também olhou para mim.

- Vocês são os gêmeos! Os irmãos que evoluem pra Terriermon e Lopmon! Gente...isso é tão... incrível! – Falei muito animado. –

A resposta foi uma grande brisa. Eles me olharam como se não entendessem o que eu dizia e eu abstraí porque notei que seu comportamento era tal qual o de um recém nascido e não entender as coisas que acontecem ao seu redor é uma dessas características.

Eu não tinha o mínimo de controle da situação e nem fazia ideia de como resolvê-la. E isso não me afligia. Cada movimento deles, cada sorriso, cada gritinho que um dava ao ser mordido pelo único dentinho que ficava fora da boca do outro me causava uma sensação mais extasiante que a anterior. Era tudo lindo, tudo perfeito. Escutei novamente um som vindo do D-VICE, mas não me importava o mínimo com aquilo, no momento.

- Vocês estão aqui... Estão aqui mesmo! Como isso é possível? Vocês são tão lindos e... Macios e... Reais! É A REALIZAÇÃO DO MEU MUNDO DOS SONHOS!!!

Escutei um barulho vindo do quarto da minha mãe. Foi o momento que lembrei que minha avó estava em casa, dormindo.

- Putz! Que vacilo! A culpa é de vocês... Me deslumbrando desse jeito. Minha vó vai acordar! Venham aqui, vocês dois.

Peguei um em cada mão. Eram tão pequenos assim. Eles pareciam muito frágeis também. Uma pele macia e fina e que por mais que fosse de cores tão exóticas, tinha aparência real. Era real.

Corri para dentro do banheiro e me tranquei lá com os gêmeos. Minha avó levantou da cama e pelo som de seus passos se esvaindo, deduzi que estava indo na direção da cozinha. Ou o fundo.

- O FUNDO! Ela não pode ir pra o fundo se não vai encontrar o ovo quebrado! Vou deixar vocês aqui... É... Dentro da pia! Pra não ficarem andando por aí longe da minha supervisão. Fiquem quietinhos, tá?

- GYAAAH! – Responderam em coro como se tivessem entendido. –

- Preciso ir lá agora, então sem barulho!

Corri com muita pressa para a cozinha e para não perder tempo, cheguei gritando:

- NÃO, VÓ! NÃO FAÇA ISSO!

- O quê, menino?

Congelei de vergonha ao perceber que ela estava apenas fritando um ovo. A cena foi meio irônica do meu ponto de vista e me tirou um sorriso breve que ficou no ar. Minha avó ainda estava confusa, mas virou para o fogão e continuou preparando seu lanche inconveniente. Não posso negar que aquela cena me causava certa aflição. Ver um ovo, no fogo, borbulhando.

- AAAAA! PARA COM ISSO! – Fiquei inerte. –

Quando percebi, o grito já havia escapado e deixado seu eco de desconforto no ar. Do jeito que parei, estava. E meus olhos ficavam de um lado pro outro, tentando desviar a atenção dela enquanto me aparecia um sorriso sem graça.

- Você tá ficando doido, menino? Tá usando drogas, é? É isso? Sua mãe sabe disso? A gente te criou tão bem... Não me decepcione!

- Calma, vó. Não é nada disso.

- Então é o que?

- É só que... Er... Eu virei... um... VEGETARIANO! Isso!

- Mas ovo não é carne!

- É porque é uma nova classe. Se chama OVEGETARIANO!

Aquela frase veio acompanhada de um único pensamento: “Mas que merda eu acabei de falar?”

- Vocês jovens e suas modas. Tudo bem... Não frito um pra você, mas vou comer o meu ovo!

- Certo... Tá bem. É. OVO! AAAAAAAAAAAAA!

Corri para o fundo e deixei a minha avó mais confusa do que já estava. Chegando lá, não havia mais o mínimo de indício da existência de um ovo. Simplesmente havia sumido. Sem pedaços de casca, sem gosma nojenta, nada. Eu não me importei. Achei melhor porque não teria que procurar uma forma de esconder o ovo ou inventar alguma teoria absurda sobre galinhas gigantes alienígenas.

Voltei para o banheiro e ignorei mais uma vez aquele som chato e repetitivo. Minha felicidade estava me cegando e eu não notei isso por um bom tempo.

****

Jonas analisava a situação de forma minuciosa e calculada. Poderia sair fumaça da sua cabeça a qualquer momento de tantos neurônios que ele queimava para conseguir encontrar uma explicação lógica pra essa...

- Distorção da realidade. Só pode ser. Algum tipo de choque de realidades ou eu estou ficando doido... Não dá porque Karen também te viu.

Olhou para o pequeno ser com ternura nos olhos. Por mais que estivesse mal e sem perspectivas da situação, Jonas não conseguiria culpa-lo por nada. Era sensato de mais para isso. O ser correspondia a Jonas com seus imensos olhos pretos e reluzentes. A pequena bola peluda fechou os olhos e se aconchegou no colo de Jonas, o que lhe tirou um pequeno sorriso.

- Você é um mistério. Essa teoria de Digimon é só um palpite. Não tenho como dizer o que você é... Não conheço muito Digimon. Pelas características gerais, diria que você é a cabeça viva de um cachorro muito peludo com orelhas de coelho! Pensando assim, você é muito estranho...

Seus olhos se cruzaram de novo e o ser produziu um som que poderia dizer: “No fim dá tudo certo e se ainda não deu certo, é porque ainda não é o fim.” Pode ter sido o primeiro traço de visão de futuro vindo de Jonas depois de muito tempo. Jonas sempre andou passo por passo. O futuro pouco importava para ele, mas sua feição era de preocupação com o que aconteceria depois.

- Vou começar tentando entender sua fisionomia. Pronto, fica aqui na cama. Hm, olhando de longe você parece um bichinho comum todo encolhido e com as orelhas baixas. Essa orelha é tão contrastante... Se a ciência não dissecasse tudo o que não conhece, te levaria pra algum lugar onde te descobrissem.

O pequeno olhava para Jonas curioso. Talvez estivesse tentando entende-lo bem como o contrário. Cada piscada de seus olhos e cada movimento de sua respiração era contemplado por Jonas que tentava dar uma classificação a ele.

- Só olhando não da pra ter uma perspectiva muito precisa. Deixa eu sentir você direito.

Jonas tocou na ponta da orelha do peludo que teve uma reação involuntária de mexê-la, como os cães e gatos fazem. Ele continuava tocando e a orelha mexendo, provocando uma cena engraçada. Os dois riram um pouco juntos, o que ajudou a dar um toque mais leve à situação.

- Seus reflexos são normais.

- Gyuh! – Disse o ser esboçando um sorriso. –

- Ei, você fala!

Ele piscou os olhos duas vezes seguidas e virou o corpo um pouco para a esquerda. Jonas se aproximou e acariciou o bichinho, como se estivesse sentindo seu pelo. Alisou-o por um tempo e logo em seguida, apalpou-o para sentir o seu corpo. A reação da criatura foi instantânea. Ele começou a rir. Era uma risada meio esganiçada, mas com um tom fino. Como se fosse um bebê rouco.

- HAHAHA! Você ri engraçado! – Falou Jonas intensificando aquilo que já estava se tornando uma brincadeira.

- HIHIHIHIHIHIHIHIHI!

O momento de descontração foi interrompido no momento em que Jonas escutou o som de mensagem proveniente do seu D-VICE, o fazendo lembrar de sua prioridade: Descobrir o que estava acontecendo. Instantaneamente tomou uma feição séria e preocupada. Parou de brincar e o bichinho pulou em seu colo. Pegou o D-VICE em cima do hack do computador e constatou que havia uma mensagem.

- Por favor, alguma pista. Isso tem que me ajudar em alguma coisa... O QUÊ?

Os olhos de Jonas saltaram para fora de tão abismado que ele ficou. Seus batimentos cardíacos poderiam causar ondas ao seu redor de tão fortes. Começava a tremer e causou uma sensação de desconforto no ser que estava em seu colo.

- N-n-não tem como ser co-coincidência. É impossível! Como?

Não era uma mensagem comum. Sequer era uma mensagem. Um desenho era formado por traços que formavam na caixa de texto uma forma cilíndrica.

- Isso não é brincadeira.

****

O D-VICE insistia por atenção, mas eu tinha minha prioridade precisamente classificada no momento. Não estava me importando nem um pouco com a próxima promoção do “Blablablametro” da Tim ou para ganhar pontos num quiz que me perguntaria se o nome do novo papa argentino era Maradona, Buenos Ayres ou Lamayonése. E também não pensei que aquela mensagem poderia ter um cunho importante. Poderia me guiar pelo caminho que tinha a frente e que eu tapava com euforia e excitação temporária.

Voltei para o banheiro e tranquei a porta enquanto minha avó ainda estava na cozinha. Quando olhei para a pia, os dois pequeninos estavam bem encolhidos, um ao lado do outro e pareciam dormir. Olhei para eles com uma cara boba, como de um pai que vê seu bebê dormindo. Posso dizer isso com propriedade, já que vi minha feição no espelho que fica bem acima da pia.

Encarei-me por alguns instantes. Meu olhar parecia vago. Como se estivesse hipnotizado, funcionando no automático. Tinha olheiras imensas abaixo dos olhos, resultado de uma noite conturbada e de pouco descanso. Penetrei na minha própria íris perdida e percebi que estava fora de mim.

Naquele exato momento meu inconsciente estava tentando me avisar que nada do que estava me acontecendo era bonitinho, nem um lindo sonho se realizando. Estava sendo puxado de volta de um mundo confortável e ideal para a realidade duvidosa e imprevisível que havia pela frente. Minhas perguntas voltaram à tona como um turbilhão: “São Digimons?”, “o que estão fazendo aqui?”, “como vieram parar aqui?”, “como isso tudo pode ser real?”, “eu estou enlouquecendo?”.

Meu corpo começou a tremer involuntariamente e intensificar esse tremor de forma contínua. Não queria me mexer. Estava ali, me encarando, e jogando sob mim mesmo o fardo da realidade e o peso que estava para carregar a partir dali.

- N-n-não da-dava pra s-s-somente realizar um s-sonho? Porque tem que ter tantas dúvidas por trás disso? – Indaguei baixo, choramingando. –

- Porque uma vontade tão ingênua tem que vir carregada de reflexões? Se vocês estão aqui, alguma coisa muito ruim está para acontecer. ACORDA CAÍQUE!

Gritei. Gritei do fundo da minha garganta, arranhando-me de dentro para fora com a rispidez da verdade. As lágrimas corriam pelo meu rosto que agora tinha um semblante incoerente de alívio e desespero. Caí no chão e lá fiquei. Precisava chorar, precisava sentir a dor da incerteza.

- Obrigado... Obrigado seja lá quem for por ter me feito entender que não podia ficar assim por muito tempo. Obrigado por ter me feito ver isso antes que fosse tarde.

Agradeci aos céus, talvez a mim, talvez a Deus. Em meio aos meus soluços, indagações e agradecimentos eu pensava no que estaria reservado para meu futuro. Estaria fadado a morrer? O que viria após esse contato direto? Porque eu me tornei um escolhido? O que seria um escolhido?

Levantei-me e recompus. Limpei as lágrimas do rosto e sentindo ainda um leve formigamento no corpo, acordei os pequeninos que pareciam muito cansados. “Teria deixado dormirem se não estivessem tão sujos...”, pensei.

- Guuh?

- Gyah... – Foi o que disseram acordando e abrindo seus olhinhos pretos e vivos bem devagar.

- Vocês precisam de um banho. – Falei com um sorriso satisfeito e complacente no rosto. –

- Huh? – Perguntaram em coro.

- Vou tirar essa gosma que ainda tá presa em vocês. É o tempo que preciso pra me recompor. Por mais que vocês façam parte de um sonho, estão aqui de verdade e por esse motivo virão com muita bagagem a se carregar. E se vieram para mim, significa que tenho que carregar esse peso com vocês. Não vou dar as costas pra nada que apareça e vou tentar me focar nos fatos o máximo que eu puder. Vai ser difícil controlar toda essa euforia, mas é necessário.

Nesse momento já havia colocado os gêmeos numa bacia que enchi com água morna. Ainda não havia me realizado para o quão real eles eram, mas suas sensações me ajudavam a absorver isso. Ao entrarem na água, a pele deles se arrepiou um pouco e para quem via, era como um bebê humano comum se arrepiando. Tirando os detalhes, obviamente.

Jogava água neles e sentia o alívio que vinha de seus corpinhos frágeis. Ensaboei a cauda daquele que agora nomeava de Zerimon. Havia lembrado seu nome em algum momento enquanto os via brincar na cozinha. A textura era macia, como um lóbulo da orelha e se apalpasse um pouco, sentia uma estrutura de suporte no centro, meio cartilaginosa.

Chocomon, como havia deduzido, me lembrava mais um humano se por assim dizer. Sua pele amarronzada era mais semelhante ao de uma pessoa e escondia mais as finas veias que se mostravam com maior intensidade pela pele verde-clara de Zerimon. Ele parecia não gostar muito de água. Tentou pular da bacia umas duas vezes e deixou escapar umas duas bolhas da boca.

Eles eram biológica e psicologicamente crianças. Brincavam e se esbaldavam na água, ela espirrava em mim e eles riam. Uma risada gostosa e confortante. Deixei-me levar pelo momento de felicidade, mas achei que estava tudo bem curtir um pouquinho mais aqueles dois antes de encarar meus pensamentos novamente.

- GYAAAAAH!!!

- GUUUUUYAAAH!!! – É o que eles mais falavam, com sorrisos no “rosto”. -

- Vocês já estão limpos o suficiente. Se te limpar um pouco mais, você vai ficar da cor do seu irmão, Chocomon. – Brinquei. –

- É melhor eu enxugar vocês logo e

Não houve tempo nem para reticências em minha mente. Desesperei-me ao perceber o problema que eu tinha em mãos e não notava.

- Onde eu vou esconder vocês? – Perguntei aflito. –

Os dois se entreolharam e depois olharam pra mim com uma expressão de pura e inocente dúvida. Não deviam nem fazer ideia do que significavam todas aquelas palavras que saiam da minha boca.

- Caramba, caramba... Caramba, caramba, caramba! Eu não pensei nisso à tempo. Eu tinha um ovo pra esconder até essa manhã e ele seria inofensivo. Agora tenho dois bebês barulhentos e hiperativos! O QUE EU VOU FAZER?

*DING, DONG.*

- O QUEEEEEE? Não acredito! Não acredito! Que hora mais inconveniente! Minha mãe e Lucas devem ter voltado do mercado e agora, o que eu faço?? Vou ficar aqui trancado no banheiro com vocês até pensar em alguma coisa! É o jeito!

Desesperei-me. Andava de um lado para o outro daquele cubículo de banheiro querendo que fosse maior somente para ter mais espaço para andar. Os gêmeos estavam quietos e essa era uma vantagem. Qualquer barulho estranho me denunciaria e seria um grande problema. Estava num beco sem saída quando, num rompante, a ideia apareceu.

Poucos minutos após ouvir a campainha, saí do banheiro de cabelos molhados, toalha presa na cintura e com a minha roupa embrulhada embaixo do braço. Dou de cara com ninguém menos que Ivan.

Minha primeira sensação foi de alívio por não terem sido minha mãe e Lucas, mas ele ainda poderia se tornar um problema caso visse os pequeninos ou desconfiasse de algo. Me dirigi à ele.

- Er... E ai Juninho! Tudo beleza, cara?

Ele estava de cabeça baixa, com fones no ouvido, tirando o celular do bolso e desligando a música que dava pra ouvir de longe como de costume. Ainda de cabeça baixa respondeu à minha saudação.

- E ai! Sua avó tá aqui, cara. Porque você não avisou? – levantando a cabeça- Tudo beleza, EEK! QUE NOJO CARA! VAI SE VESTIR! – Disse ele com a pior cara de nojo que poderia fazer. –

- HAHA! Isso é inveja do meu corpo lindo e maravilhoso!

- ECA! LARGA DE SER NOJENTO, IKE! Vai se vestir que eu te espero aqui na sala.

- Cê que manda!

Entrei no quarto correndo e tranquei a porta o mais rápido que pude. Coloquei com cuidado o monte de roupas em cima da minha cama e os gêmeos se desembolaram lá de dentro.

- Foi por pouco. Sorte que vocês estão me ajudando! Qualquer barulhinho teria sido fatal. Mas o que eu faço com vocês agora?

Os dois pulavam na minha cama enquanto eu pensava no que eu faria. Havia uma casa abandonada na rua, mas eu tinha medo de deixa-los sozinhos. Seria o mesmo que abandona-los e eu não faria isso. Tinha a possibilidade de ficarem na minha cama, mas como não entendiam as coisas direito, eles não ficariam quietos como bonecos nem nada do tipo. Aquilo me afligia mais que qualquer coisa no momento. Ninguém poderia ao menos mensurar a existência daqueles bichinhos e eu tinha que resolver aquilo já.

Depois de me arrumar, subi na minha cama. Fiquei de pé e tive que abaixar a cabeça para não bater no forro. Lembrei-me da época em que eu conseguia pular naquela cama como eles estavam fazendo sem bater a cabeça no forro. O forro.

- O FORRO! Claro, como não? A casa é de telha... Eu subo pelo beco, abro algumas telhas, limpo uma parte lá de cima e arrumo pra vocês! PERFEITO!

Nesse último grito a minha avó bateu na porta do quarto e, no desespero, joguei a toalha que estava no ombro em cima das duas bolinhas saltitantes. Abri a porta.

- Que grito foi esse menino? O que é perfeito?

- Er... Eu vó! EU SOU LINDO E MARAVILHOSO! HAHAHA – Fiz uma pose heroica. –

- Certeza que você não está chapado?

- Q-que chapado o que vó! A senhora precisa parar de assistir BBB. A senhora e todo o mundo, mas isso não vem ao caso. Agora preciso que a senhora dê licença por um momento pra eu terminar de me arrumar, tá bem?

- Certo. E eu tô de olho em você, moleque!

- Certo vó.

Ela saiu e eu soltei uma breve respiração de alívio. Tirei a toalha de cima deles e estavam dormindo de novo. Serenamente. Talvez de cansaço do tanto que brincaram na água e pularam na minha cama. Era melhor assim.

Eu sabia que Ivan estava na sala, mas precisava passar para o fundo ao menos para deixa-los no forro da casa enquanto despistava-o. Enrolei os dois na minha toalha e pulei a janela do quarto. Subi a parede do lado da casa onde tinha o beco. O beco era bem apertado já que a casa era praticamente colada com a vizinha, mas consegui subir ainda assim.

Abri um espaço de três fileiras de telhas, passei a mão no chão para tirar o grosso da poeira e ajeitei os dois em cima da minha toalha até que Ivan saísse. Voltei à sala e fui dar atenção a ele.

- E ai cara! Conte-me as novas.

- Nada de mais. Passei aqui pra gente ficar conversando, jogando. Coisas assim. Mas nem Jonas nem Lucas tão aqui, daí fica chato.

- É mesmo... Lucas tá no mercado com minha mãe comprando toda a sessão de biscoitos e Jonas não da o ar da graça faz um tempo.

- HAHA! Já sei! Tu liga pra Lucas e vê se ele já tá chegando. Enquanto isso eu vou na casa de Jonas e puxo ele pra cá. Beleza?

- Falou então. Chegando lá você me liga avisando se Jonas vem ou não, certo?

- Pronto. A gente se fala daqui a pouco então. Tchau!

- Té mais.

Abri o portão para Ivan e procurei me apressar para resolver as coisas direito antes que qualquer outra pessoa viesse me atrapalhar.

Coletei pela casa os materiais necessários pra um abrigo temporário. Quando terminei de arrumar, eles estavam numa caixa de papelão com as paredes cortadas a metade, para não parecerem presos, na caixa tinham vários panos cortados para deixar confortável. Ao lado da caixa, havia cortado algo como uma abertura, uma rampinha para eles saírem. Do lado de fora uma vasilha com água e outra com uns pedacinhos de pão mergulhados em leite.

- É o melhor que eu posso fazer improvisando desse jeito. Nem sei se vocês comem isso ou bebem água, mas...

Antes de terminar de falar eles já estavam atacando a comida e bebendo a água como se estivessem com fome há eras. Estava para ficar com eles mais um pouco quando para na porta de casa um carro. Minha mãe e Lucas saem de lá e me avistam em cima da escada.

- Tá fazendo o que ai em cima, menino? – Gritou minha mãe olhando pra cima com dificuldade, por causa do sol. –

- Eu tô... Tô vendo se tem rato aqui em cima!

- Rato? Bem que eu escutei uns barulhinhos no teto esses dias.

- Ei, Ike! Trouxe Doritos pra gente!

- Beleza, Lu!

- Desce aqui pra gente comer!

- Calma ai, já tô descendo!

Ajudei com as compras e estava mais aliviado. A distância do forro e a beirada do telhado não dava espaço para os gêmeos pularem. Eles já tinham conforto, água e comida e eu estava longe de problemas por algum tempo.

- Filho, descobriu alguma coisa lá em cima?

- L-lá em cima? Sim! Ratos! Muitos ratos. Parece uma comunidade. Quase uma cidade organizada. Aham. Isso ai.

- Nossa, isso é um problema!

- Pois é! Ah mãe, minha vó tá aqui! Porque você não vai falar com ela?

- Oh, que bom que mãe está em casa. Ela conhece um ótimo dedetizador.

- DEDETIZADOR?

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- Preciso resolver isso o mais rápido possível. Não posso esperar as coisas desandarem nem ficar adiando essa situação. Se eu puder entender você ou me relacionar com você, vai ter que esperar. Tenho que saber o que significa esse cilindro. Eu sonhei com isso e agora recebo mais uma mensagem sem destinatário e com o desenho de um cilindro? Isso não é brincadeira.

Jonas se sentia pressionado. A situação não era favorável e ele não conseguia ao menos imaginar o que estava por vir. Não ter uma perspectiva seria algo corriqueiro para ele, mas naquele caso o deixava sem chão.

- Poxa, carinha. Não sei nem seu nome! Só acho que você é um Digimon porque aquele humano leão me lembrava o Leomon. Mas podia ser, sei lá! Uma quimera vinda de outra dimensão, uma experiência do governo... Apesar dele ter respondido ao nome. Putz, o que eu faço?

- Gyyh? – Olhava curioso para Jonas que andava para lá e para cá pelo seu quarto. –

- Alguma pista... Preciso de mais uma pista! Qualquer coisa, por favor??? Aquele sangue no ovo... De quem era? Caramba tem tanta coisa passando na minha cabeça!

Como se tivesse atendido ao seu pedido, o D-VICE que Jonas não tirava de perto de si, tocou mais uma vez. Era uma pequena fresta de luz na redoma escura de dúvidas e apreensão onde ele se encontrava. Jonas tirou o aparelho do bolso e checou a caixa de mensagens.

“-13.54221 -37.211156 0107”

- Ah, não! Mais números, cara?