Digimon: Guardiões da Luz
1 Um Vício real...
Notas iniciais
Carta de Tai:
Eu não espero que vocês entendam a minha decisão, mas as coisas haviam fugido do controle, a ameaça de uma guerra era iminente, não me deram outra escolha. O sacrifício final foi feito, e por causa de uma ordem, eu selei a luz para sempre em seu próprio mundo, lutando eternamente contra Daemon. Eu sinto saudades dela.
Eu realmente não sei mais o que fazer, são cinco anos vivendo com a mesma agonia, desde aquele fatídico dia, em que Izzy digitou a última sequência de comandos e enviou Kari para o esquecimento, eu estou desse jeito...
Os primeiros dias foram os mais difíceis, minha mãe e meu pai, achando que Kari havia fugido para outro país por causa de um rapaz, sem ao mínimo dar alguma satisfação aos dois. Agumon me olhando de maneiras indescritíveis, e todas as outras pessoas que passaram a me odiar depois daquela decisão. Não éramos mais os digiescolhidos, ou pelo menos, eu não era, naquele dia, eu salvei o mundo inteiro, mas perdi meu parceiro, meus amigos e principalmente a minha querida irmã.
Kari, onde quer que você esteja, sei que ainda está viva... Eu te amo e sinto muito!
Tai Kamya – Irmão arrependido
Dias Atuais, escola de Odaiba.
Eu nunca aceitei muito bem o fato de ter me mudado para o Japão... E olha que isso já fazem seis meses, é um choque cultural muito grande, sair de um país subdesenvolvido, cheio dos mais diversos problemas e as mais diversas pessoas, e passar a viver em um país onde você olha para todo o lado, não há um rosto conhecido, todos falando uma língua mais esquisita que a sua e é claro, o maior estereótipo de todos... O fato de os japoneses serem todos iguais.
Tudo bem, vou admitir, em um primeiro olhar, eles são iguais sim, mas a partir de alguns dias de convivência, diferenciá-los é a coisa mais fácil, até para um brasileiro.
Se há algo muito bom de se morar no Japão, é poder ler sempre os novos mangás, ver os novos animes e é claro, a tecnologia, a melhor internet do mundo... Isso compensava o fato de eu ter apenas duas amigas aqui e de que morar em um cubículo com seu pai e sua irmã mais nova realmente não é o “apartamento de luxo” em Copacabana.
Mas as coisas iam se ajeitando.
- Leonardo, de novo sonhando acordado?! – Gritou uma voz já conhecida
E a sala novamente riu da cara do brasileiro... Meu nome é Leonardo, eu sou um aluno com notas médias, poucas amizades e uma imaginação muito fértil para meus 15 anos, e realmente, morar em um país onde os mangás são produzidos não estava ajudando em nada.
- Me desculpe Sensei Yumi... – Disse me levantando e curvando o abdome.
A mulher de meia idade aceitou minhas desculpas e voltou a explicar a física dos fluídos. Ao meu lado, minha amiga dava risada da minha cara e apontava para debaixo da classe.
Estava lá o novo mangá que eu estava devorando, o havia comprado antes de vir para a escola, e já tinha lido a metade durante as aulas... Dejitarumonsutã, na tradução literal: “Monstros Digitais”, também abreviado como Digimon. Era um mangá relativamente novo, o autor era um iniciante, mas que teve uma ideia que estava agitando todos os adolescentes.
Simplesmente abreviado como T.K. ele criou uma obra onde sete crianças eram transportadas para um novo mundo, cheio de criaturas conhecidas como digimons, esse mundo era repleto de perigos e tudo o que acontecia nele, refletia no mundo humano. As crianças eram denominadas “digiescolhidas”, cada uma recebeu um dispositivo, com o qual poderia fazer seu parceiro Digimon evoluir até alcançar níveis mais altos.
Eles receberam a missão de salvar o mundo, acompanhados por seus digimons.
Um mangá realmente surpreendente para alguém que publicava sua primeira obra.
- O que foi? – Perguntei para minha amiga
- Posso ler depois? – Ela perguntou
A única coisa em comum que eu tinha com Murasaki Kuhouin era isso, amar ler histórias, sejam elas de qualquer gênero ou autor. Havíamos nos conhecido em uma banca de mangá e começamos a nos falar por facebook e tudo mais, no final viramos bem amigos. Ela não era uma garota popular, mas vinha de uma das famílias mais ricas da cidade.
Não podia falar que ela não era linda, cabelos negros longos, olhos azuis e um jeito que fazia qualquer um querer ela como amiga. Doce, mas as vezes ciumenta, Murasaki era uma boa pessoa e muito boa amiga.
- Claro... Termino até o recreio! – Sussurrei
Ela sorriu e voltou a prestar atenção na senhora Yumi, eu continuei lendo a primeira edição e ficando supreendido com cada diálogo e sempre pensando, onde isso vai dar?! Tudo terminou com a destruição de Devimon e uma mensagem no canto inferior da página: Continua.
O sinal do recreio tocou e nós fomos para o pátio. Escolas japonesas têm recreios iguais ao das escolas brasileiras, por isso não vou ficar escrevendo o que cada turminha estava fazendo ou o que eu comi, vamos ser diretos.
Eu realmente estava emocionado com a história de Digimon, talvez um pouco demais, minha imaginação já começava a funcionar, tentando criar os mais possíveis cenários para a continuação da aventura. Mas como sempre, eu estava preso ao mundo real, um lugar onde nenhum de meus sonhos mais loucos seria possível.
- Já está imaginando como a história vai continuar? – Perguntou Murasaki
- Você já me conhece... Eu simplesmente não consigo parar de pensar nisso! –
- Léo, você têm que começar a viver no mundo real... É tão ruim assim sua realidade? –
- Eu tento Murasaki, mas você sabe, minha mente realmente têm muitos outros planos! –
Ela sorriu, sabia que de uma hora para outra dificilmente eu iria mudar. Murasaki começou a ler o mangá e eu fiquei no celular, vendo as atualizações de meus amigos no Brasil. Tudo ia bem, até eu receber uma mensagem.
“Sr. Torres, se quiser descobrir a verdade, por favor venha ao almoxarifado antes de o recreio acabar. Temos muitas coisas a discutir.”.
E lá se foi minha mente novamente... Que verdade seria essa?! O que poderia estar acontecendo de tão importante?
Quando me levantei para ir até o almoxarifado, o sinal de alerta de Murasaki disparou. Ela se levantou e agarrou meu braço.
- Sabe que aquela parte da escola só é permitida para os professores! – Disse ela em tom dramático
- Me enviaram uma mensagem, eu preciso descobrir o que têm lá! –
- E arriscar a ser expulso, ou pior? –
Eu não dei bola para ela e caminhei em direção ao corredor onde nenhum aluno deveria ir, ficava em um dos cantos da escola, praticamente abandonado, ninguém deveria limpara aquilo há anos. Olhei para a porta de madeira em minha frente, a pequena placa de metal dizia: “Almoxarifado”.
Sem pensar duas vezes peguei a maçaneta e abri a porta, esperava achar algo como um corpo, mas encontrei algo mais misterioso, uma escada que descia diretamente para a escuridão.
Murasaki agarrou minha mão antes que eu pudesse descer, ela estava perplexa e eu sabia que ela queria descer lá também, então dei um puxão na mão dela e a trouxe para dentro. Murasaki não falou nada, e assim que descemos o primeiro degrau, a porta atrás de nós se fechou.
Ela correu e agarrou a maçaneta, mas havia sido trancada, estávamos presos!
De repente, a luz ascendeu, revelou uma grande escada de pedras brancas e diversos sinais pintados na parede do que deveria ser apenas um armário. O maior deles era uma estrela rosa, bonita, ao lado daquele símbolo tinha o que parecia ser um sol, mas estava pintado de preto, enquanto os outros estavam coloridos.
Eu e ela descemos os lances de escada até chegarmos a uma enorme porta de ferro. A estrela rosa estava pintada nela. Ao lado, onde deveria ficar a maçaneta, estava um leitor de digitais. Não perdendo tempo, coloquei meu polegar ali, o acesso foi permitido quase que instantaneamente.
A enorme porta se abriu e revelou um elevador de carga, tinha apenas 3 botões, logo deveriam ser três andares. Murasaki me surpreendeu e foi a primeira a entrar, logo depois eu entrei e apertei o primeiro botão.
O elevador fez um barulho alto e depois começou a se mover lentamente. Era assustador, mas ao mesmo tempo muito legal, estava vivendo minha própria aventura no lugar onde menos esperava, a escola de Odaiba.
A porta se abriu, e revelou um grande sala redonda, feita de pedras brancas com os símbolos pintados no entorno. No centro, descia uma espécie de computador, sustentado por um pilar de metal prateado. Não havia ninguém na sala, apenas eu e Murasaki.
Sai lentamente em direção ao computador, sentei-me na poltrona que estava em frente ele, com Murasaki agarrada no meu braço. Pressionei uma tecla e tudo mudou.
A interface do usuário não era nada parecida com o que eu já havia visto, códigos apareciam por toda tela, mas ao mesmo tempo estava tudo organizado. Apertei outra tecla e uma janela se abriu.
Um vídeo começou a ser reproduzido, algo que me assustou profundamente.
Era um adolescente com os cabelos desarrumados, junto a uma garota de cabelo ruivo e olhos azuis.
“Sei que tudo pode parecer confuso agora, e que vocês não têm a menor responsabilidade sobre isso que vamos lhes falar.”.
O garoto estava sério.
“Primeiramente, me chamo Izzy e esta é Sora, nós, juntamente com os outros, fizemos este edifício, para que nossos feitos e o sacrifício da luz não fossem esquecidos. Não se assuste, mas o que vou lhe revelar é a mais pura verdade! Existe um mundo paralelo ao nosso, um mundo onde criaturas muito diferentes vivem, o digimundo!”.
Engoli em seco.
“Nós dois, juntamente com mais cinco pessoas, lutamos várias vezes, e salvamos diversas vezes o digimundo e o mundo humano, você já deve ter ouvido falar dos estranhos incidentes do verão de 1999. Pois é, fomos nós! Escute, vocês não têm que aceitar isso que vamos lhe falar, mas precisamos de sua ajuda, se chegou até aqui e o computador lhe reconheceu, é porque é um escolhido, e por isso, têm um dever a cumprir com o digimundo e com seu mundo! Não podemos lhe passar maiores explicações, você vai descobrir aos poucos...”
O menino parou de falar.
“Ela ainda pode ser salva, a batalha precisa ser terminada e a luz libertada, contamos com vocês!”.
A garota falou e a tela ficou preta. Encarei Murasaki, ao mesmo tempo em que um compartimento se abria na parede. Duas gavetas se abriram, uma debaixo da outra. Ao irmos até lá, percebi que eram dois pequenos dispositivos, cinzas com uma tela monocromática, três botões, dois do lado esquerdo e um do direito. Pareciam estar guardados há muito tempo.
Quando Murasaki pegou o primeiro, ele brilhou em azul e logo depois parou, quando eu peguei o outro, uma forte luz negra saiu dele. Eu e ela nos entreolhamos e depois olhamos para os dispositivos.
- Oi? – Perguntou uma voz vinda do computador
Ao olharmos para a tela, tivemos outro grade susto, uma garota, cabelos castanhos curtos e olhos castanhos. Parecia que tinha acabado de acordar.
- Quem são vocês? – Perguntou ela
- Eu sou Leonardo e esta é Murasaki... – Falei
A garota nos encarou.
- E quem é você? – Perguntou Murasaki
- Eu sou Kari, onde eu estou? -
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