Digimon Final

7 Sob Meus Pés, Ruínas


À medida que SkullMeramon se aproxima, sua risada ecoa de forma lenta e sinistra, fazendo com que Hibino e Gotsumon sintam um calafrio percorrer suas espinhas. Seus olhos percorrem freneticamente o ambiente ao redor, e o jovem engole em seco, gotas espessas de suor escorrendo de sua testa, o calor tornando-se quase insuportável. As labaredas avançam conforme o Digimon caminha, seus passos lentos e pesados, enquanto balança a corrente que segura com um aperto firme, repetidamente.

Quando ele ergue um dos braços e aponta abruptamente para o céu, as chamas parecem rugir, explodindo em direção às alturas como o sopro flamejante de um dragão ancestral. Em seguida, abaixa o membro, seu dedo indicador agora direcionado para a dupla, a máscara metálica refletindo o brilho azulado do fogo. Seus olhos fixam-se nos dois à sua frente, e ele fecha o punho com força antes de baixar o braço novamente.

Parado no solo carbonizado e coberto de cinzas, SkullMeramon continua girando a corrente, seu olhar penetrante fixo nos dois — que pareciam ainda mais assustados do que antes.

Hibino inspira profundamente, ajustando os óculos empoeirados sobre os olhos, as lentes cintilando sob o reflexo das labaredas. Tossiu secamente devido à fumaça, levando a mão fechada à boca antes de baixá-la, sua expressão agora determinada.

Pela análise que conseguiu fazer do local, aquela deveria ser uma cidade comum à primeira vista, mas a visão da devastação completa deixou um gosto amargo em sua boca. Observando o fogo de tonalidade azulada antes de concentrar-se novamente em SkullMeramon, o jovem chegou a uma conclusão que lhe pareceu óbvia.

Ele reflete que, após todo o conflito entre Meramon e Flarerizamon na noite anterior, em algum momento entre o amanhecer e o início da tarde, Meramon transformou-se em SkullMeramon — talvez consumido pela fúria após uma derrota humilhante para quem provavelmente mais odiava.

Enquanto questiona como essa evolução ocorreu, Hibino percebe que SkullMeramon não estava, de forma alguma, calmo. Sua ira era palpável. Mas contida. Uma raiva fria, não direcionada a eles.

No entanto, o jovem tinha certeza de que, caso interferisse, aquela fúria flamejante — capaz de reduzir edifícios inteiros a escombros — se voltaria contra ele.

Baseando-se na descrição que Vegiemon lhe dera sobre Meramon, mesmo que um tanto confusa, Hibino deduziu que, após o desentendimento com Flarerizamon, Meramon desaparecera por dias antes de reaparecer justamente na véspera. Durante sua ausência, Flarerizamon trabalhara incansavelmente, assumindo as responsabilidades do colega, confiante em seu retorno.

Talvez desejando se desculpar, mas também decepcionado por Meramon estar tão enfurecido a ponto de colocar vidas alheias em perigo, Flarerizamon enfrentou o amigo e saiu vitorioso.

Aquela derrota pode ter sido o estopim para algo mais sombrio em Meramon, desencadeando sua evolução para SkullMeramon — agora maior, mais resistente e, sem dúvida, mais poderoso do que jamais fora. Além disso, Hibino não poderia negar sua suspeita: aquele Digimon estava ainda mais furioso do que antes.

O jovem olha para Gotsumon ao seu lado, ainda petrificado de medo. Coloca uma mão sobre seu ombro rochoso, transmitindo compreensão em seu olhar.

Quando Gotsumon o encara, Hibino acena com a cabeça. O Digimon de pedra parece buscar algo em seus olhos, algo que não conseguia identificar. Então, um sorriso surge em seu rosto. Hibino pega o Digivice, retirando-o do bolso, e ergue o braço, a palma voltada para frente, o dispositivo firmemente seguro em sua mão.

Assim que a tela se ilumina em um brilho cintilante, Gotsumon avança, agacha-se e salta, impulsionando-se sobre as cinzas. No mesmo instante, Golemon surge, seus braços maciços erguidos antes de aterrissar no solo queimado, os punhos já em movimento, direcionando-se para SkullMeramon em um instante.

Porém, um impasse se forma.

SkullMeramon lança sua corrente para cima no exato momento em que os braços de Golemon estão prestes a atingi-lo. O aço envolve seu membro direito, apertando-o com força contra a pedra amarelada. Com a outra mão, enquanto mantém a corrente firmemente presa, ele segura o braço esquerdo de Golemon.

Com força descomunal, SkullMeramon empurra o membro para cima com um golpe de palma aberta, ao mesmo tempo que chicoteia a corrente presa ao outro braço, fazendo Golemon tombar no chão cinzento. Um círculo de fogo surge ao seu redor, as labaredas dançando com o estalar do metal contra o solo.

Mesmo caído e em clara desvantagem, Golemon não desistiria facilmente. Das chaminés em suas costas e de sua boca aberta, expele gases superaquecidos no momento em que Hibino grita uma ordem, sua voz quase abafada pelo rugido das chamas e pela fumaça densa que envolve tudo. Mas os gases não surtiram efeito algum — apenas aumentaram a potência das chamas.

Naquela escuridão, onde apenas o brilho do fogo persistia, a luta continuava. O aço das correntes de SkullMeramon reluzia na penumbra, enquanto o som de metal contra pedra ecoava.

Quando a fumaça se dissipa brevemente, SkullMeramon impulsiona-se para trás, girando no ar em uma acrobacia ágil, pousando sobre os escombros de um prédio destruído.

Quase imediatamente, seu braço se move, puxando a corrente com força, arrastando Golemon em sua direção sem esforço aparente. O Digimon rochoso colide violentamente contra as estruturas desmoronadas, seu corpo massivo esmagando o concreto enquanto SkullMeramon corre sobre os destroços, puxando-o continuamente, em completo silêncio.

Então, SkullMeramon pressiona a corrente em sua mão e a puxa com vigor, levando o braço o mais para trás possível. Golemon desaba no chão, completamente imobilizado pelos laços de aço. Com um grito rouco, SkullMeramon salta dos escombros e aterrissa no solo, circulando lentamente o oponente derrubado, sua expressão impenetrável, os olhos ardentes observando-o como a um animal encurralado.

Em seguida, ergue o braço, a palma voltada para cima, e puxa as correntes novamente com força bruta. Golemon é levantado à força, suas mãos gigantes batendo contra o solo seco e queimado. No meio dos destroços, permanece imóvel, os olhos turvos, aguardando um comando. Qualquer um.

A alguns metros dali, Hibino sente um frio na espinha, preocupado com Golemon. Seus gritos já não são ouvidos, sufocados pelo barulho das chamas. Coloca as mãos em torno da boca e berra, mas Golemon não reage. Abaixa os braços e range os dentes, sentindo-se impotente. Então, antes que pudesse pensar, suas pernas movem-se por vontade própria, seus pés pisando sobre os escombros enquanto corre em direção ao Digimon.

Ao ver o humano se aproximando do Digimon preso em suas correntes, SkullMeramon solta uma risada lenta e sombria, sua voz rouca, a máscara de aço iluminando-se com o reflexo azul do fogo. De repente, no momento em que observa o jovem escalar o corpo do oponente e subir em seu ombro direito, o cabelo flamejante do Digimon agita-se com o vento, enquanto a fumaça dissipou-se parcialmente com uma rajada estrondosa. SkullMeramon olha para trás e percebe algo se aproximando rapidamente do céu, sua forma obscurecida pela névoa densa e pelas labaredas.

Antes que pudesse reagir, é arremessado violentamente contra os escombros, atingido por uma descarga elétrica que faz seu corpo tremer convulsivamente, a energia percorrendo-o em segundos que parecem eternos. Cai de joelhos, ainda tremendo. Lentamente, levanta o rosto, os olhos focando no que está diante dele.

— Chegamos na hora errada, mas no lugar certo.

Em pé, sobre a cabeça de um besouro azul colossal de asas majestosas — Kabuterimon — que pousa no chão, segurando-se em seu chifre, um rapaz de camisa floral observa a destruição ao redor antes de fixar o olhar em SkullMeramon, sua expressão séria e mal-humorada.

Sob os olhares atônitos de Hibino e SkullMeramon, quando o jovem salta do besouro, este bate as asas e eleva-se, disparando uma segunda onda de eletricidade que dissipa a fumaça, os raios colidindo com o fogo em estalidos cortantes.

SkullMeramon protege o rosto com um braço e encolhe o corpo, resistindo ao impacto do ataque, uma tempestade de faíscas formando-se ao seu redor. Seus olhos, no entanto, permanecem fixos no Digimon intruso antes de voltarem-se para o novo humano. Sua irritação só aumentava.

Com a mão livre, sacode o pulso e a corrente que prendia Golemon solta-se dele. Movendo o braço em um círculo rápido, lança o aço em direção a Kabuterimon, tentando envolver-lhe o corpo. No entanto, o Digimon inseto agarra a corrente com um de seus membros e puxa com força, arrastando SkullMeramon para frente. Ambos travam uma disputa de tração, o metal esticando-se enquanto cada um tenta derrubar o outro. Kabuterimon então pousa no chão e, segurando a ponta da corrente, arremessa SkullMeramon para o alto, fazendo-o cair sobre as chamas que cobriam os destroços.

Kabuterimon mantém a corrente presa, aguardando em silêncio, seus olhos fixos no fogo. Quando o aço se move repentinamente, o Digimon é arremessado contra uma parede por um punho flamejante que atinge seu crânio antes que pudesse perceber a sombra emergindo das labaredas. A estrutura desmorona com o impacto violento.

— Kabuterimon! — grita Machida, o humano de camisa floral, sua voz carregada de preocupação.

— Golemon, este é o plano...

Perto dali, Hibino sussurra algo ao ouvido de Golemon, que concorda com um aceno. O Digimon de pedra encara SkullMeramon, sua expressão impassível. Então, ergue os braços lentamente antes de golpear o chão com força, levantando uma nuvem de poeira que se mistura à fumaça.

Enquanto a névoa se forma, Hibino salta do ombro de Golemon, e SkullMeramon percebe o movimento pelo canto do olho, antes que a visão fique totalmente obscurecida. Fica em alerta, imóvel, as chamas em seu corpo tremendo. De repente, sente algo escalando suas costas, puxando seu cabelo com força, forçando-o a curvar-se para trás. Enquanto tenta agarrar o intruso, percebe um par de mãos menores colocando algo sobre sua cabeça.

Antes que pudesse reagir, já se endireitando e virando-se para enfrentar quem quer que fosse, uma música alta começa a tocar. Ele para, congelado, os olhos arregalados, mas seu corpo relaxa involuntariamente ao som da melodia suave que ecoa dos fones de ouvido agora em sua cabeça.

SkullMeramon, emocionado, ajoelha-se, seu punho batendo no chão com força, um misto de raiva e arrependimento tomando conta dele. Uma lágrima escorre por baixo de sua máscara, evaporando-se instantaneamente ao tocar o solo em chamas.

Quando a música chega ao fim, ele levanta o rosto, observando a destruição ao seu redor. Um cenário completamente diferente do que lembrava. Olha para as próprias mãos trêmulas e engole em seco, sem palavras, tentando processar que fora ele — suas próprias mãos — o responsável por todo aquele caos.

Enquanto chora, suas lágrimas evaporando-se no calor, percebe uma mão estendida em sua direção. Ergue o olhar e vê outro humano, diferente dos demais. Vestindo uma jaqueta rasgada no ombro e uma máscara cobrindo parte do rosto, o jovem puxa o tecido para baixo com um dedo, encarando SkullMeramon com uma expressão não de julgamento, mas de compreensão.

— Você estava com muita raiva, não é? Entendo um pouco — Sua voz é calma, quase serena, mas com um tom de advertência. — As consequências estão aqui. Não as ignore. Aprenda.

— É fácil para você dizer isso — resmunga SkullMeramon, fitando-o.

— Claro que é fácil falar — responde o rapaz, acenando com a cabeça, deixando o Digimon surpreso. — Mas sei como é difícil consertar um erro que a emoção fez você cometer.

SkullMeramon cerra o punho, prestes a golpeá-lo. Mas, ao olhar nos olhos do humano, vê algo que o faz hesitar.

— Você realmente sabe... — Abaixou o braço, relaxando-o. — Mas olhe ao redor. Veja o que eu fiz. O que essas mãos fizeram... Não mereço perdão. Transformei tudo em cinzas.

— Que tal parar de se lamentar e começar a usar essas mãos para reconstruir? — SkullMeramon se silencia no segundo em que escuta isso, seus olhos parecendo contemplar alguma coisa.

Então, ele estende o braço e agarra a mão oferecida, sendo puxado para cima. O rapaz — Takasaki — sacode a poeira de suas roupas e tosse, observando SkullMeramon em silêncio antes de se virar e caminhar em direção aos outros humanos e Digimon, um Betamon seguindo-o de perto.

Enquanto retira os fones de ouvido, SkullMeramon tem a impressão de que o humano sorri, triunfante. Ao virar-se, depara-se com um olhar carregado de decepção e culpa. Flarerizamon o encara, calado.

Nenhuma palavra é necessária. Ambos sabem o que precisa ser feito.

E assim, a noite daquele dia é marcada pelo som incessante do início das obras.