Digimon: Fighters
17 Planos nas Sombras
Dr. Joel já havia deixado Letícia em sua casa e agora estava dirigindo a van de volta para o laboratório. Cristina e Susana ainda iriam precisar de sua ajuda para fazer o portal funcionar. A lua estava alta no céu naquela noite e Beninomon estava sentado no banco do passageiro comendo alguns biscoitos que Joel havia trazido para a viagem.
― Não vai contar pra eles que não vamos com eles para o Digimundo? ― Beninomon perguntou para seu parceiro, enfiando mais um biscoito inteiro na boca.
Joel engoliu em seco. Um pouco depois de deixar Letícia em sua casa, Joel recebeu uma ligação de Cristina e Susana para avisá-lo que, devido ao dano do portal, ele teria que ser operado manualmente. Desse modo, os cientistas teriam que ficar para trás para garantir que os digiescolhidos chegassem ao Digimundo em segurança.
― Eles vão descobrir amanhã ― Joel respondeu, por fim, mantendo os olhos na estrada em sua frente.
― Eu sei que está chateado, ― Beninomon continuou a falar ― mas não esqueça que ainda não terminamos nossa missão no mundo humano.
― Eu sei ― Joel grunhiu, suas mãos apertando o volante ― Eu só esperava poder ser de mais ajuda para eles. Eles não conhecem nada do Digimundo, Beninomon.
― Dinomon e os outros estarão com eles para ajudar ― Beninomon engoliu mais um biscoito ― Todos temos nossas missões, Joel. Halomon foi bem clara quando nos disse que precisávamos guiar todos os digiescolhidos.
Joel não respondeu. Beninomon tinha razão. Bem no fundo ele já esperava que não pudessem ir ao Digimundo com as crianças, eles tinham mesmo outra missão, mas ele esperava poder ser de mais ajuda. Afinal, Paulo ainda estava no mundo dos digimons, queria saber se ele também precisava de alguma ajuda.
De qualquer modo, o fato de o portal ter sido destruído só havia sido um tipo de reforço à situação de que apenas as crianças deviam ir ao Digimundo. Enquanto isso, Joel, Cristina e Susana tinham que terminar o que precisavam fazer naquele mundo: reunir todos os digiescolhidos.
+ + +
― E você espera que eu te ajude com essa ideia maluca?! ― Encantemon vociferou assim que Jokermon terminou de explicar seu plano para Pedro e o último digiescolhido. Loucura era definitivamente pouco para descrever o que Jokermon havia acabado de lhe propor ― Esse seu plano vai contra nosso plano original, Jokermon. A invasão é nossa prioridade, os digiescolhidos estão nas mãos de Royalmon. Você sabe disso.
― Os digiescolhidos são um obstáculo nos planos tanto de Royalmon quanto nos de Jupitermon, Encantemon ― Jokermon respondeu ― Eu estou oferecendo uma solução que ajuda a nos livrarmos de dois deles de uma vez só.
― Temos que seguir o plano de Jupitermon, Jokermon ― Encantemon insistiu ― Sempre houve um plano. Por que quer simplesmente sair da rota que Jupitermon traçou?
― Eu não estou saindo da rota ― Jokermon falou, um sorriso debochado tomando conta de seu rosto ― Estou apenas pisando fundo no acelerador. Jupitermon cansou de esperar que as coisas aconteçam.
― E Jupitermon aprovou isso? ― Encantemon questionou, semicerrando seus olhos para Jokermon. Não conseguia confiar naquele sorriso de palhaço. Eles deveriam ser o alto escalão de Jupitermon, aqueles que colocam o plano de seu mestre em prática e contém todo tipo de informação. Deviam compartilhar todo tipo de informação entre si. Mas Jokermon sempre parecia agir pelas próprias ideias e vontades, nunca contando nada para ela.
Encantemon chegava a duvidar que Jupitermon estava ciente da maioria das coisas que Jokermon fazia. Isso sim era preocupante.
― Jupitermon está ocupado com outros assuntos ― Jokermon respondeu ― Por isso, ele me deixou encarregado de lidar com outros problemas. Pedro e o último digiescolhido são problemas que precisam ser resolvidos, não concorda?
― Pedro é uma peça chave na equipe de Royalmon ― Encantemon retrucou ― Se formos pelo seu plano, perdemos a vantagem de ter Pedro do nosso lado.
― Se formos pelo meu plano, não precisaremos mais nos preocupar com Pedro ― Jokermon continuou. Encantemon engoliu em seco. Era verdade que, se o plano de Jokermon fosse bem sucedido, não precisariam mais ter que ficar de olho no digiescolhido. Mas isso seria às custas da confiança de Royalmon.
Não que Royalmon fosse a peça mais importante daquele jogo de xadrez. Ele era apenas um meio para um fim no plano final deles. Mas mesmo assim, ele não era apenas um peão sem importância, Encantemon diria que Royalmon era, mínimo, uma torre.
― Pense assim, Encantemon ― Jokermon falou ao perceber que ela não responderia ― Manter Pedro conosco é uma faca de dois gumes. Mantê-lo próximo pode ser vantajoso dependendo das circunstâncias, mas também não podemos esquecer da profecia de Halomon: seis digiescolhidos seriam o fim das trevas crescentes no Digimundo. Querendo ou não, Pedro é um desses digiescolhidos e, no fim de tudo, um problema para nossos planos.
― Royalmon acredita que pode mudar essa profecia com Pedro estando do seu lado ― Encantemon prosseguiu com a conversa ― E ainda tem Katmon...
― Royalmon está cego por um sentimento paternal que nem ele próprio sabe ter em relação a Pedro ― Jokermon a interrompeu ― E, sem um parceiro, Katmon é apenas um digimon sem poder algum.
― Isso irá nos causar problemas com Royalmon, Jokermon ― Encantemon insistiu.
― Você não serve a Royalmon, Encantemon ― Jokermon declarou e Encantemon sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Jokermon parecia ter uma resposta pronta para tudo. Ele tinha planejado essa conversa? ― Seu mestre é Jupitermon. Não esqueça disso.
― Eu jamais esqueceria uma coisa dessas ― Encantemon vociferou ― O que estou tentanto te explicar é que uma ideia como essas pode perturbar o fluxo dos nossos planos. Tudo foi meticulosamente planejado para que Jupitermon conquiste seus objetivos. Royalmon, a tomada do Digimundo, a invasão ao mundo dos humanos. Mexer com esse plano agora pode atrapalhar tudo.
― Esse plano foi elaborado antes dos digiescolhidos serem encontrados. Agora, a situação é diferente. Quatro dessas crianças conseguem fazer seus digimons digivolverem para um grau mais alto, eles planejam vir para esse mundo e ainda temos o problema dos humanos que os guiam para cá. Aquele cientista e seu parceiro que estão perdidos nesse mundo são mais fortes do que imaginamos. A situação é diferente e precisamos agir de acordo.
― Eu entendo que queira se precaver quanto aos digiescolhidos, Jokermon ― Encantemon tentava manter seu tom o mais analítico possível. Por algum motivo ela sentia como se estivesse tentando convencer uma parede de tijolos de que ela era feita de barro ― Mas nós construímos um castelo de cartas muito bem balanceado com a tomada do Digimundo e ao colocar Royalmon no poder. Agora você está querendo remover uma dessas cartas na esperança de que o castelo não caia.
Jokermon suspirou, como se tomasse um tempo para pensar. Será que Encantemon o havia convencido? Era sempre tão difícil advinhar o que aquele digimon estava pensando.
― É aqui que você está enganada, Encantemon ― o digimon palhaço falou, por fim ― Isso não é mais um castelo de cartas. É uma fortaleza feita de ferro que se sustentava por hastes. Não precisamos mais dessas hastes para continuar nosso plano e por isso a remoção de tais deve ser realizada. É simples assim.
― Seu plano é muito arriscado, Jokermon ― Encantemon não conseguiu mais manter a calma. Seu grito ecoou pelo cômodo ― Eu não vou te ajudar com algo que pode acabar muito mal para todos nós.
― Eu sei que você não confia em mim ― Jokermon afirmou como se os gritos de Encantemon não tivessem tido nenhum impacto nele ― E sei que deve ser difícil encarar o cenário todo quando se está tão próxima de peças insignificantes. Royalmon não é uma peça tão importante assim. Manter sua lealdade não está nos planos de Jupitermon. Ele nem sabe da existência de nossos planos.
― Por isso quem será acusada de traição serei eu ― Encantemon rebateu ― Ele verá meu ato de mandar Pedro para o mundo humano como um ato de rebeldia. Não posso correr esse risco.
― E não irá ― Jokermon falou ― Para todos os efeitos, Pedro não sabe que você está me ajudando.
― Eu vou precisar abrir o portal para ele, Jokermon ― Encantemon falou, trincando os dentes ― Eu estarei presente quando tudo acontecer, é claro que ele vai saber.
― Você é tão apressada que não me deixou terminar de explicar tudo, Encantemon ― Jokermon então fez um movimento com sua mão, fazendo uma carta de baralho surgir entre seus dedos. A carta havia surgido quase como se ele a tivesse “tirado de sua manga” ― Quando você aceitar me ajudar, quero que você coloque suas habilidades de teleporte dimensional nessa carta, transformando-a em um portal que eu possa ativar quando quiser. Viu? Mesmo que Pedro voltasse para esse mundo, o que não vai acontecer, você não vai ser implicada nas consequências.
Encantemon estava verdadeiramente sem palavras. Aquela víbora traiçoeira havia mesmo pensado em tudo. Há quanto tempo ele estava planejando isso? O que mais Jokermon teria planejado nas sombras que ela não sabia sobre? Que coisas nem mesmo o próprio Jupitermon não sabia sobre?
― Por favor, Encantemon ― Jokermon quebrou o leve silêncio que se instaurou ― Eu estou pedindo com jeitinho.
Encantemon iria precisar ter muito mais cautela com Jokermon do que havia imaginado. Ela suspirou. Muito bem, iria ajudar, mas também iria manter aquele digimon sob sua vigia. Havia muito que podia descobrir apenas colocando um de seus feitiços naquela carta.
― Eu vou ajudar ― ela falou, por fim ― Me explique o que você precisa exatamente.
O sorriso sombrio de Jokermon fez um arrepio intenso percorrer o corpo de Encantemon. Muitas coisas se escondiam atrás daquele rosto engraçado e ridículo de palhaço, ela podia sentir.
― Primeiro, a carta ― Jokermon falou, lançando a carta de baralho para Encantemon, que a pegou com um movimento de sua mãe e a fez flutuar sobre sua palma ― E depois, a localização do último escolhido de Halomon.
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Uma luz forte acordou Alice de seu sono profundo. Era como se o amanhecer tivesse chegado em seu quarto e a luz do sol atingia forte seus olhos. Ela os abriu, tentando ajustá-los à luz e passeou seu olhar pelo quarto. As janelas estavam fechadas e Alice podia ver que ainda era noite do lado de fora. Então de onde estava vindo esse brilho?
Alice sentou-se na própria cama, os olhos ainda pesados. Deveria ser o meio da noite. Ela se virou para o criado-mudo logo ao lado de sua cama e viu que o brilho forte vinha de dentro da gaveta do pequeno móvel.
Ela abriu a pequena gaveta e encontrou aquele aparelho branco que havia surgido em seu bolso alguns dias atrás. Um brilho forte vinha de sua tela. Estranho... Isso tinha acontecido apenas uma vez há muito tempo e depois não tinha acontecido de novo. Por que estava brilhando agora?
Alice pegou o aparelho e o examinou, apertando seus botões para tentar fazê-lo parar. Nada parecia funcionar. Ela o revirou, mas não tinha nenhum outro lugar que indicava um botão de liga e desliga. Então Alice desisitiu e o virou para encarar a tela brilhante.
Seus olhos estavam, agora, se acostumando com o brilho que tomava conta de seu quarto.
― Luz... ― Alice prendeu a respiração em susto. Aquilo tinha falado? Ela tinha ouvido uma voz, tinha certeza. Mas de onde? ― Preciso da sua luz... ― estava vindo daquele aparelho. Será? Sim, ela tinha certeza. A voz, profunda e feminina, tinha vindo realmente daquele pequeno aparelho branco.
― Olá? ― Alice indagou. Será que estava ficando louca de falar com um aparelho eletrônico? Pensou em ir mostrar para sua mãe, mas ela estaria dormindo e já estava muito cansada por causa da partida de seu irmão mais velho. Não podia mostrar para Daniel também... Ela imaginava como seu irmão estava. Acreditava que ele estava bem, mas não conseguia não se preocupar ― Tem alguém aí? ― Alice insistiu, focando seu olhar na tela que brilhava em branco ainda.
A voz não voltou, mas outra coisa aconteceu. Um dos botões sob a tela começou a brilhar em um dourado vivo. Aquilo continuava a ficar mais estranho... Mas Alice não tinha escolha, se quisesse descobrir o que estava acontecendo precisaria arriscar. Ela apertou o botão.
Foi então que tudo ao seu redor mudou. Ela não estava mais em seu quarto, na verdade não sabia exatamente onde estava. Ela ainda podia sentir a cama sob seu corpo, mas não tinha nada ali. Tudo o que estava ao seu redor era uma espécie de túnel que brilhava em espirais verde escura com linhas brancas e pulsava como um coração.
― O que está acontecendo? ― Alice questionou. A surpresa foi tanta que ela não conseguiu segurar as próprias palavras.
Então outra coisa chamou sua atenção no túnel. Alguma coisa estava vindo em sua direção. Uma criatura que brilhava em branco, muito grande e larga, se aproximava com o que pareciam asas. E vinha bem rápido e sem intenção de parar.
― Preciso da sua luz! ― a criatura exclamou enquanto se aproximava. Era a voz que vinha do aparelho antes, a mesma voz!
Quando a criatura chegou perto demais, Alice pareceu recuperar os movimentos de seu corpo depois de um breve momento de choque e cobriu seu rosto, esperando o impacto contra aquela coisa brilhante. Mas nada aconteceu. Nem impacto, nem outras vozes, nada.
O silêncio reinou por alguns segundos. Alice não sabia se devia ou não abrir os olhos. Decidiu que seria melhor saber o que tinha acontecido. Ela então, depois de respirar fundo, baixou os próprios braços e abriu os olhos. Estava de volta em seu quarto.
O aparelho jogado em sua cama, não brilhava mais, e o quarto parecia normal como se nada tivesse acontecido. Como se tivesse sido somente um sonho maluco de Alice.
Ela levou seu olhar para o aparelho branco. Não tinha sido um sonho. Ela sentia que alguma coisa precisava dela, mas não sabia o que fazer. O que tinha acabado de acontecer? E quem estava precisando de sua “luz”?
Alice respirou fundo. Por agora, seria melhor somente voltar a dormir.
+ + +
Aquela sensação de novo. Mais uma vez aquela pontada em seu coração que não sentia a dias. Não sabia o que era, apenas sabia que acontecia. Katmon estava agora viajando pelas florestas, correndo entre as árvores indo em direção ao último general de Royalmon. Os outros já estavam indo para o palácio se encontrar com o grande mestre.
E agora aquela pontada mais uma vez. A última vez que tinha acontecido tinha sido quando Encantemon, Pedro e Cornmon voltaram do mundo humano com a informação de que crianças humanas haviam recebido seus digivices. Os digiescolhidos haviam sido encontrados.
Katmon não conseguia descrever aquela sensação. Só podia dizer que era como um calor tomando conta de si por um breve segundo. Era estranho. Ela sempre tinha ouvido rumores de que era como Cornmon, que tinha um parceiro para si em algum lugar lá fora, mas Royalmon a treinou para ser independente. Ela havia se esforçado para ser forte sozinha e, agora, era.
A última coisa que queria era ser parceira de um humano. Devia tudo o que tinha a Royalmon e jamais o trairia.
Katmon, então, apenas ignorou a sensação, assim como tinha feito da última vez e apenas continuou a correr. Ainda tinha uma missão para terminar.
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