Digimon: Fighters

21 Encontrando a Última Criança


Bem como Jokermon disse: o menino o tinha levado até seu destino final. Uma casa simples e indiferente no mundo dos humanos. Ele riu enquanto encarava Pedro e seu parceiro inseto em pé na porta esperando que alguém a abrisse.

Ele riu do fato de o moleque não ter nem ideia do que estava para acontecer. Riu do fato de Jokermon realmente ser uma criatura desgraçada de cruel, um sádico que sabia exatamente o que estava fazendo. Iria eliminar dois de seus problemas com uma só jogada.

E o idiota do Pedro estava fazendo tudo direitinho.

O digimon agora só encarava de um telhado distante, tendo seguido ele pela cidade e pelo portal pelo qual o humano tinha vindo. Respirou fundo e esperou.

Não ia demorar muito agora. Terminaria sua missão, mataria os dois digiescolhidos e pegaria sua recompensa com Jokermon. Pedro e o último dos salvadores não passariam de hoje e a profecia estaria acabada.

+ + +

A maçaneta começou a girar. Pedro se preparou para atacar, passando todos os cenários possíveis em sua mente. Cornmon estava tenso enquanto planava no ar. Iria acontecer. Pedro estava pronto para tudo, não importava o que tinha que enfrentar.

Para tudo, menos para o que aconteceu depois. A pessoa que abriu a porta não era um jovem feroz e bravo com o qual Pedro travaria uma luta até a morte. Era o contrário: uma menina de olhos confusos e cabelos castanhos.

O olhar inocente pegou Pedro completamente desprevenido.

― Essa é a última digiescolhida? ― Cornmon indagou, talvez tão confuso quanto seu parceiro.

― Quem são vocês? ― a menina perguntou, fazendo o peito de Pedro se apertar. Ela era tão... linda. O olhar dela parou em Cornmon ― O que é você, aliás?

― Eu sou um digimon ― Cornmon respondeu.

― Digimon? ― a menina repetiu.

― Você é a última criança? ― Pedro perguntou, finalmente encontrando a própria voz. Sua postura agora já estava mais desarmada. Ele não sabia que iria encontrar uma pessoa tão meiga atrás daquela porta. Mesmo que essa fosse a primeira vez que ele a via, Pedro conseguia ver que ela não era uma pessoa ruim.

A mente de Pedro estava uma grande confusão naquele momento. Sentia suas mãos suarem, os pés tremiam, mal conseguia respirar. E não conseguia entender porque se sentia assim.

― Última criança? ― a menina indagou, a voz tão doce ― Eu não sei o que isso significa.

― Pedro? ― ele ouviu Cornmon perguntar enquanto descia para o chão. O coração de Pedro continuava a acelerar ― O que você vai fazer?

A pergunta de seu parceiro o atingiu com tudo, parecendo trazê-lo de volta para realidade. Tinha vindo aqui com um único objetivo: provar sua lealdade a Royalmon e acabar com a ameaça da última criança. Não importava que fosse uma menina simples e bonita. Pedro faria o que tinha vindo ali pra fazer.

Ele então se moveu em posição de ataque e sacou seu digivice do bolso, surpreendendo a menina.

― Eu vim aqui em nome de Royalmon para derrotar o último digiescolhido! ― Pedro declarou, feroz ― Você é ele?

― Digiescolhido? ― a menina falou, a voz tremendo. Seus olhos caíram no digivice e arregalaram ― Você também tem um? ― foi então que a menina tirou do próprio bolso outro digivice, igual ao de Pedro. Só que, ao invés de verde, ele era branco. Era ela.

Pedro sentiu um gosto amargo na boca, mas não recuou.

― Prepare-se para a luta! ― o garoto proclamou e Cornmon levantou voo novamente.

― Luta? ― a garota repetiu ― Por que lutar?

Aquele olhar fez com que Pedro hesitasse, seu corpo todo pulsou. Ele balançou a cabeça, tentando escapar daquela sensação que aquela garota lhe passava.

― Pare com esse olhar inocente! ― ele vociferou ― Eu vim aqui para completar o desejo de Royalmon! Vim para destruir o último digiescolhido!

― Eu... ― a menina indagou ― Eu não sei do que você está falando...

― Pedro ― era a voz de Cornmon ― Eu não acho que ela entenda alguma coisa do que está acontecendo. Ela... Ela é inocente.

Pedro sentiu seu coração apertar mais uma vez.

― Inocente? ― a voz de Pedro saiu mais como um rugido ― Humanos não são inocentes! Humanos acabaram com a minha família!

― Mas, Pedro... ― Cornmon tentou continuar a falar, mas foi a garota quem o interrompeu.

― Você perdeu sua família?

― Perdi! ― a mágoa chegava a afogá-lo tamanha sua profundidade ― Por culpa de vocês, humanos! Acabaram com minha família e eu jurei que nunca os perdoaria! Então prepare-se para lutar!

Por um segundo, nenhum deles fez nada. Pedro encarava a garota com olhos potentes, enquanto ela retribuía com um olhar que ele não conseguia decifrar. Cornmon estava planando, incerto, ao lado de seu parceiro. A garota, então, se moveu. Pedro esperava por um ataque ou um golpe certeiro, pronto para revidar. Mas não foi o que aconteceu. Ela o abraçou.

A surpresa tomou conta dele e não houve reação. Pedro sentiu sua bochecha corando enquanto se permitia ser abraçado por aquela estranha.

― Eu também perdi alguém ― ela falou, as palavras saindo doces e sinceras ― Meu pai se foi há muito tempo e meu irmão... Meu irmão está em algum lugar fazendo algo importante. Eu sei o que é perder alguém assim. Eu sinto muito que você tenha que passar por isso. Sinto muito mesmo.

Pedro sentiu as lágrimas se formando e seus olhos ardendo. Tudo aconteceu antes que sua mente pudesse processar os fatos. Antes que pudesse entender, ele retribuiu o abraço, sentindo um conforto que nunca tinha sentido antes na vida. E deixou as lágrimas rolarem.

Nunca tinha se sentido assim. Nunca tinha se permitido sentir assim sobre sua família humana. Aquela menina...

Quando ela desfez o abraço e recuou, mais uma surpresa: ela estava dando a Pedro um sorriso leve e solidário.

― Como você se chama?

Ele demorou um segundo para responder, saindo do transe em que estava enquanto a encarava.

― Pedro ― ele gaguejou.

― Prazer, Pedro ― o sorriso dela se tornou mais caloroso ― Meu nome é Alice.

Alice. Combinava com ela. Pedro sentiu um sorriso chegar em seus lábios também, retribuindo o dela.

― Minha mãe não tá agora, mas se você quiser entrar ― Alice voltou a falar ― Eu posso te dar uma água e, quando ela chegar, ela faz uns biscoitos.

― Eu... ― ele não conseguiu completar a frase. Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Cornmon se moveu rapidamente e empurrou Pedro para longe da entrada da casa.

― Cuidado! ― Cornmon gritou junto com um grito de Alice quando o local onde Pedro estava um segundo atrás, explodiu com uma bola de fogo.

Alice foi jogada para dentro da casa, a porta permaneceu aberta enquanto Pedro e seu parceiro rolaram no concreto da rua. Fumaça tomava conta de tudo ao redor deles, não permitindo que Pedro visse claramente o que estava acontecendo.

Cornmon levantou voo, encarando a fumaça. Pedro tossiu enquanto tentava se levantar, um pouco desorientado.

— O que foi isso? — ele indagou.

— Digimon — Cornmon respondeu, sem desviar a atenção da sua frente. Quando ele disse isso, foi como se toda a tontura de Pedro desaparecesse. Ele estava novamente pronto para enfrentar o que fosse.

— Como assim um digimon? — ele questionou, levantando-se. A fumaça começava a se dissipar e Pedro podia ver agora o estrago que tinha acontecido na frente da casa de Alice. Logo onde a explosão ocorreu havia uma enorme cratera. A porta da frente ainda estava inteira, mas a entrada tinha sido destruída. Pedro sentiu um aperto no peito ao pensar que Alice poderia estar machucada — Alice!

A menina apareceu na porta e Pedro relaxou. Ela estava assustada e um pouco suja, mas estava bem.

Mas o que diabos ele estava pensando? Por que se preocupava se ela estava bem? Tinha vindo para destruí-la, essa era sua missão. Se ela tivesse sido pega na explosão teria sido o fim ali e ponto final. Mas então por que o pensamento de Alice ter explodido naquela bola de fogo o incomodava tanto? Por que ver que ela não estava machucada o deixava assim?

— Pedro, olha lá! — a voz de Cornmon o tirou de seus pensamentos — No telhado.

Pedro se virou e seguiu o olhar do digimon inseto, parando em uma grande figura no telhado de uma das casas próximas. Era sem dúvida um digimon.

Era uma figura grande e com um corpo redondo, braços fortes e uma espécie de capacete de aço que cobria seu rosto. Sua pele parecia ser feita de rocha sólida e seus braços terminavam em duas cavidades que pareciam pequenos vulcões, não tinha mãos.

— Então foi ele que atirou contra a gente — Pedro deduziu.

— Acho que sim — Cornmon respondeu.

— Mas por quê? — Pedro murmurou, seus olhos não saíam do grande digimon. A fumaça de antes já havia desaparecido e, agora, o olhar do digimon também caía sobre ele e Cornmon.

— Mas que droga — o digimon de pedra vociferou, uma voz grave e rouca, mas forte — Eu errei!

— Errou?! — Pedro rebateu — Você estava tentando me acertar?!

— Não importa — o digimon falou, ignorando a pergunta de Pedro — Eu posso tentar de novo — o monstro de rocha levantou um de seus braços canhões e apontou para Pedro e Cornmon — Bazuca de Fogo!

Uma bola de fogo saiu de dentro da mão/vulcão e ardendo contra Pedro e Cornmon. Os dois desviaram, saindo do caminho do projétil, que explodiu contra a rua.

Aquilo respondia à pergunta. Ele estava mesmo tentando atirar em Pedro. Mas... Por quê?

— Pedro! — era a voz de Alice. Ela tinha saído da casa, estava correndo na direção dele. Garota burra. Ela não sabia que aquilo era perigoso?

— Alice, volta pra dentro agora! — Pedro disparou, mas já não adiantava. O digimon surgiu bem em frente a menina, impedindo que ela seguisse em frente — Alice!

— Q-quem... Quem é você? — Alice indagou, o terror claro em seu rosto.

— Eu sou Vulcanmon, pequena humana — o digimon rocha respondeu — E você deve ser a última digiescolhida, correto?

Alice hesitou por um segundo.

— Foi disso que o Pedro me chamou.

— Entendo — Vulcanmon falou. Pedro estava com um mal pressentimento — Então minha missão será mais fácil do que eu pensava — ele então levantou o braço, apontando para a menina e Pedro não teve mais tempo a perder.

— Cornmon! — Pedro disparou e, antes que pudesse pensar, o DNA verde estava queimando em seu pulso direito e o digivice já estava pronto na mão esquerda. Enquanto corria na direção de Vulcanmon com Cornmon logo atrás, ele gritou: — Carregar DNA!

O digivice absorveu o fogo verde e tudo brilhou, chamando a atenção de Vulcanmon.

Cornmon digivolve para... Vickemon!

Assim que o brilho se dissipou, o grande digimon inseto verde com um crânio negro, Vickemon, surgiu, avançando contra o inimigo. Vickemon investiu em Vulcanmon, jogando o digimon de pedra para longe e deixando Alice a salvo.

— Quem mandou você para cá? — Vickemon rugiu, suas asas amarelas zunindo enquanto ele se colocava entre Alice e Vulcanmon.

— Talvez essa missão não seja um tédio supremo — Vulcanmon riu enquanto se levantava. O concreto em que tinha sido jogado estava destruído. Pedro não tirava seus olhos do inimigo, mas sentiu quando Alice se aproximou, segurando em suas roupas, procurando por proteção.

— Que missão é essa? — Pedro vociferou.

— A destruição dos últimos digiescolhidos no mundo humano — Vulcanmon se moveu rapidamente, apontando sua mão canhão na direção deles, mas Vickemon foi mais rápido. Antes que mais uma bola de fogo explodisse, o digimon inseto levantou voo e avançou, carregando o digimon de pedra para os céus.

— Vickemon! — Pedro gritou, encarando seu parceiro. Vickemon rodopiou no céu e arremessou Vulcanmon contra o chão. O digimon de rocha aterrissou em um local distante da casa, causando uma nuvem de fumaça ao seu redor. Onde quer que ele tenha parado, tinha causado danos no lugar. Pedro precisava ir atrás dele.

— Pedro — Alice o chamou — O que tá acontecendo?

— Eu... — as palavras de Vulcanmon voltaram para sua mente: “destruir os últimos digiescolhidos”. Ele estava ali para destruir tanto Alice quanto ele. Mas por quê? Quem tinha dado essas ordens? Royalmon? — Eu não sei.

Pedro se voltou para Vickemon, que continuava planando no céu e encarava o local onde Vulcanmon tinha sido arremessado. O que diabos estava acontecendo? A missão tinha que ser eliminar Alice, certo? Então por que esse digimon o estava atacando também?

Então seus pensamentos foram interrompidos quando uma esfera de fogo cruzou o céu, atingindo Vickemon em cheio. O lamento do grande digimon inseto ecoou enquanto ele tentava se reequilibrar no céu.

— Vickemon! — Pedro gritou enquanto mais bolas de fogo eram disparadas na direção de seu parceiro. Vickemon fazia o possível para desviar com movimentos rápidos, mas era um alvo fácil estando no ar. Sem dúvidas Vulcanmon estava lá para destruí-los e, naquele momento, não importava o porquê. Precisavam derrota-lo se quisessem sair dessa vivos — Alice — Pedro se virou para a menina, que o encarava assustada. Ele sentiu seu coração apertar, mas rapidamente afastou tal sentimento — Vá pra sua casa e se proteja.

— Mas e você? — Alice rebateu, a voz era um fio de tensão. A preocupação genuína nos olhos da menina era algo que Pedro não esperava ver.

— Eu tenho que ajudar o Vickemon — ele respondeu, firme — Se proteja.

Pedro, então, virou-se para chamar seu parceiro, mas algo o impediu de continuar. Alguém segurando sua mão para que não se afastasse. O coração de Pedro pareceu parar de bater naquele momento.

— Você vai voltar, não vai? — a voz de Alice estava carregada de uma dor que Pedro entendia muito bem. Entendia até demais.

— Vou — ele respondeu. Respondeu porque sabia que ela precisava ouvir aquela resposta. Não entendia que tipo de conexão havia acontecido para que aquela menina se preocupasse tanto assim com ele ou para que ele se preocupasse de volta ao ponto de responder, ao ponto de saber que ela precisava ouvir aquilo — Eu prometo.

— Vou te esperar, então — e, assim, Alice soltou sua mão. Engolindo em seco, Pedro correu na direção de seu digimon, pronto para encarar a luta.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.