Digimon: Fighters
13 Contemplando Estrelas
Notas iniciais
Encantemon precisara morder a própria língua para controlar sua raiva em frente a Royalmon. Quanta humilhação. Ela não conseguia acreditar que tinha sido baixada ao nível de Onyxmon pelo digimon gigante. Como se Royalmon fosse o grande líder do Digimundo, grande idiota...
Encantemon precisara se controlar para não revelar a verdade para o digimon. O plano não poderia ser prejudicado por causa de uma simples falta de controle. Mesmo assim, ainda não conseguia aceitar a falha de seu plano. Tinha pensado tudo com tanta cautela. Isso iria lhe causar problemas com mestre Jupitermon, ela podia sentir isso.
Droga... E mais uma vez, Jokermon iria ter a risada final.
Encantemon sentiu seus dentes trincarem com tal pensamento. Não tinha muito o que fazer. Agora precisava se focar em encontrar Pedro e elaborar uma nova estratégia para destruir os digiescolhidos. Pelo menos, o portal deles não funcionava, isso já era uma pequena vitória.
― Ora, ora, ora ― a voz que tanto irritava Encantemon a pegou de supresa quando ela entrou em seu recinto no palácio ― Que desperdício de energia, não acha? Seu plano brilhante falhou.
Encantemon nem precisou se virar na direção daquela voz para saber quem era. O tom arrogante e irritante daquele digimon era inconfundível e ela conseguia sentir o sorriso debochado dele mesmo sem encará-lo. Jokermon.
― Se veio para zombar de mim, muito obrigada, mas eu tenho coisas melhores para fazer ― Encantemon falou e voltou a andar até a cratera de água ― Royalmon me deu novas ordens e eu preciso bolar um novo plano contra os escolhidos, então saia daqui, Jokermon. Não estou com humor para suas brincadeiras.
A risada de Jokermon fez a raiva de Encantemon aumentar. Seu riso doentio ecoava pelas paredes de cristal da caverna.
― Eu vim mesmo para zombar de você, mas só um pouquinho ― Jokermon parou de rir, mas Encantemon sabia que ele ainda estava sorrindo. Ela se recusava a encarar o digimon ― Preciso de outra coisa de você, Encantemon. Uma pequena ajuda, por assim dizer.
Foi a vez de Encantemon então rir. Foi somente nesse momento em que ela se voltou para o digimon palhaço. Jokermon pedindo a ajuda dela? Esse sim era um motivo gigante de zombaria.
― E desde quando você precisa da minha ajuda? ― ela conseguia sentir o próprio sorriso se formando ― Não é você o favorito de Jupitermon? O espertalhão que consegue tudo? Agora, então, corre atrás de mim? Isso sim é humilhação.
Encantemon viu quando Jokermon trincou os próprios dentes. Aquilo também deveria estar o corroendo por dentro.
― Pode se dizer que estamos em circunstâncias especiais ― Jokermon respondeu.
― Circunstâncias especiais? ― Encantemon repetiu ― Que tipo de circunstâncias? O que isso tem a ver comigo, Jokermon?
― Eu... ― Jokermon suspirou antes de continuar ― Preciso de sua ajuda para mandar Pedro ao mundo dos humanos.
Encantemon então sentiu seus olhos arregalarem e o sorriso sumir de seu rosto.
― O que está dizendo? Royalmon não quer que Pedro vá ao mundo dos humanos! Isso pode atrapalhar nossos planos, Jokermon.
― Acalme-se e deixe-me explicar tudo ― Jokermon então respirou fundo uma vez mais. Encantemon não entendia como ele estava tão calmo ― Eu tenho meu próprio plano para a eliminação do último digiescolhido.
+ + +
O pôr do sol chegou logo depois de Daniel e os outros se instalarem na cabana que o Dr. Joel havia falado sobre. Assim que os meninos deixaram suas coisas e decidiram seus quartos, Joel os deixou para levar Letícia e Toramon até sua casa.
A cabana era bem bonita, na verdade. Do lado de um lago, afastada da cidade com as árvores do bosque ao redor. Tinha dois andares, uma sala de estar e uma cozinha no andar inferior e quatro quartos no andar superior.
Dinomon tinha caído no colchão do quarto de Daniel e dormido imediatamente. Não era uma surpresa já que o pequeno dinossauro vermelho tinha dado tudo de si naquela última luta. Daniel apostava que Guepmon também estava na mesma situação e talvez até Lucas, Vitor e Tanmon estivessem dormindo pelo cansaço que o dia havia proporcionado a todos eles. Mas Daniel não conseguia dormir. Sim, ele estava cansado, mas sua cabeça também estava carregada com as próprias preocupações.
Ele só pensava em sua mãe e sua irmã. Como será que Julieta e Alice estavam passando? Daniel tinha feito o melhor que podia para não soar muito grosseiro ao se despedir da mãe e Alice havia apoiado o irmão. Mesmo assim, ele não conseguia deixar de imaginar como estariam as coisas agora em sua casa. Será que sua mãe ainda estava mal pela partida do filho? Será que Alice estava ajudando a mãe? Será que as coisas estavam bem?
Que pergunta... Óbvio que as coisas não estavam bem. A verdade era que Daniel queria muito sair daquela cabana e ver como a situação estava em sua casa. Mas não podia fazer isso, a missão para o Digimundo precisava continuar.
Então ele decidiu que seria melhor ir até a cozinha beber um copo de água e aclamar seus pensamentos.
A casa estava começando a ficar escura com a chegada da noite e o silêncio era predominante. Provavelmente, todos estavam realmente dormindo. Daniel se esforçou para não causar nenhum tipo de barulho, se esgueirando pelas escadas até a cozinha.
Real surpresa foi descobrir que ele estava enganado: nem todos estavam dormindo na casa. Na bancada da cozinha, com um copo de água em sua frente e com um única luz acesa sobre sua cabeça, estava Lucas, seu olhar sério e sua testa franzida.
Daniel se aproximou do menino loiro.
― Pensei que eu fosse o único acordado ― a fala de Daniel pareceu tirar Lucas de um mar de pensamentos. Lucas então se virou para o outro garoto.
― Engraçado, eu pensei o mesmo ― Lucas respondeu e Daniel se aproximou mais da bancada, ficando frente a frente com o outro rapaz ― Não quer descansar?
Daniel negou com a cabeça.
― Tô com a cabeça cheia. E você?
― Também ― Lucas concordou ― Guepmon dormiu e eu não consegui parar de pensar. Muita coisa aconteceu nesses últimos dias.
Por um segundo, Daniel não respondeu. Ele apenas encarou Lucas, o peso dos últimos dias recaindo sobre seus ombros.
― Você tava pensando em quê? ― Lucas perguntou, quebrando o silêncio.
― Minha família ― Daniel respondeu ― Pensando em como andam as coisas lá em casa.
― Foi uma despedida complicada?
― Pode-se dizer que sim ― Daniel suspirou ― Foi diferente com a sua família?
― Também foi complicado, mas talvez não do jeito que você esteja pensando ― Lucas respondeu, tomando um gole de sua água ― A única pessoa que eu sinto falta é minha irmãzinha. Meus pais... Eles são difíceis.
― Sua irmã é aquela menina que estava na festa, não é? ― Daniel questionou, lembrando do evento em que o gigante digimon Ravermon atacou a casa de Lucas e que resultou na digievolução de Guepmon para Garpmon. Parecia que tinha acontecido meses atrás e não há apenas alguns dias.
Lucas concordou com o movimento de cabeça.
― Você não se dá bem com seus pais? ― Daniel perguntou.
― Pode-se dizer isso ― Lucas respondeu, bebendo sua água mais uma vez ― E você? Se dá bem com seus pais?
― Eu e minha mãe somos bem próximos e eu tenho uma irmãzinha também, temos isso em comum ― Daniel soltou um leve sorrizinho antes de continuar a falar ― Mas meu pai... Ele...
Daniel não conseguiu terminar de falar, desviando seu olhar de Lucas. Lucas pareceu não precisar de maiores explicações sobre a situação.
― E você? ― Daniel continuou a conversa ― No que estava pensando?
― No Digimundo ― Lucas respondeu e o peso do dever retornou ― Estava pensando na nossa missão: salvar o mundo todo. É muita pressão, não acha?
― Acho ― Daniel concordou ― É loucura que sejamos nós. Fomos “escolhidos”.
― Pelo pouco tempo que eu te conheço, Daniel, posso dizer que você foi uma boa escolha para essa missão, quem quer que tenha nos escolhido ― Lucas continuou a falar ― Eu e você parecemos estar mais que prontos para isso. Mas eu estava pensando em Letícia e Vitor.
― Qual o problema com Letícia e Vitor?
― Acha que eles estão preparados para esse tipo de coisa? ― Lucas então se voltou para Daniel com o olhar mais determinado e enigmático que Daniel já havia visto.
― Eles foram escolhidos também, Lucas ― Daniel respondeu.
― Você viu o que aconteceu na luta mais cedo. Se não fosse por você, Letícia não teria conseguido continuar e Vitor também não parece o mesmo depois daquele confronto. Com eles no Digimundo, não podemos ter certeza que podemos contar com eles. Podemos acabar tendo que protegê-los ao invés de lutarmos em equipe.
Daniel não respondeu. O silêncio retornou. Um silêncio sério, quase desconfortável e pesado.
― Você está dizendo que eles não deveriam vir com a gente? ― Daniel perguntou, por fim. Foi Lucas, então, quem não respondeu. Novamente o silêncio, novamente o peso do dever, novamente a seriadade da situação.
+ + +
Inútil. Era tudo o que Vitor conseguia pensar enquanto o sol desaparecia, dando lugar para a luz da lua e banhando o céu com um mar de estrelas. O horizonte da noite era o lugar perfeito para se perder em pensamentos e Vitor não tinha feito nada além de se afundar em suas preocupações desde que a luta havia terminado.
Durante todo o trajeto da van, ele não havia falado nada com ninguém, apenas para checar se Tanmon ainda estava bem, e, quando chegaram na cabana, Vitor apenas foi para um quarto e se trancou dentro dele. Para sua sorte, ele tinha uma sacada. Se instalou lá, começou a admirar o pôr-do-sol e “inútil” foi a primeira palavra que surgiu em sua mente.
O fantasma digital apareceu e atacou a todos, destruiu o laboratório e Vitor não pode fazer nada para impedi-lo. Daniel, Lucas, Joel e Letícia. Eles lutaram, fizeram seus digimons digivolverem, Letícia descobriu durante a batalha a própria força e coragem que possuía. Por que isso não tinha acontecido com Vitor? Ele tinha vontade, tinha coragem para lutar, e mesmo assim não tinha conseguido fazer Tanmon digivolver.
Vitor suspirou. Todos eles eram fortes o que o fazia se sentir mais fraco do que o normal. Ele já era o mais novo entre todos, não queria que isso fosse sinônimo de fraqueza. Não queria ter que ser protegido, queria ajudar, queria lutar. Queria defender o Digimundo ao lado dos outros.
As estrelas estavam lindas naquela noite.
― Vitor? ― ele ouviu a voz de Tanmon enquanto o digimon pássaro entrava na sacada, vindo do quarto ― Você não quer descansar? Amanhã partimos para o Digimundo.
Vitor faz um movimento negativo com sua cabeça.
― Não tô cansado.
― O que houve? ― Tanmon perguntou, se aproximando de seu parceiro. Vitor não encarou o digimon, seguiu com seu olhar fixo no céu escuro ― Você está estranho desde mais cedo. Depois de termos deixado o laboratório.
As imagens da batalha contra o fantasma voltaram para a mente de Vitor. Tanmon sendo atingido pelo raio negro e caindo desacordado ainda era a que mais machucava seu coração. E ele não tinha feito nada para impedir.
― Vitor? ― Tanmon insistiu, trazendo Vitor de volta para a realidade.
― Desculpa, eu... Eu tava só pensando na luta de antes.
― Você tava tão ansioso e feliz pra pular nessa aventura, ― Tanmon agora estava logo ao lado de Vitor ― o que aconteceu? O que mudou?
Vitor levantou seu olhar mais uma vez, jogando a cabeça para trás como se isso fosse ajudá-lo a encontrar as palavras certas.
― Eles são tão fortes, Tanmon ― ele respondeu ― Daniel, Lucas, dr. Joel, Letícia. Eles foram incríveis hoje e eu... Eu não pude fazer nada. Fui um inútil. E se... ― Vitor baixou sua cabeça, agora encarando a água do lago em frente a cabana ― E se eu continuar sendo inútil no Digimundo? E se eu não conseguir te fazer digivolver como os outros? E se... E se eu não puder ajudar na luta contra Royalmon?
Quietude. Nada foi dito por alguns segundos. O coração de Vitor pareceu acelerar enquanto ele esperava que Tanmon falasse alguma coisa. Ele não precisava que fosse algo solidário e reconfortante, só queria que fosse alguma coisa. Alguma coisa que calasse o silêncio.
Tanmon, então, falou.
― Halomon é o grande digimon da luz que aquece e fortalece o Digimundo. Ela sabe do presente, passado e futuro e trabalha para a paz e a harmonia de nossa terra. Ou, pelo menos, ela o fazia enquanto estava conosco. Ela não erra em suas escolhas ― Vitor então se virou para seu parceiro, que o encarava de volta com um olhar cheio de confiança. Tanmon confiava verdadeiramente nas palavras que dizia ― Pelo pouco tempo que o conheço, Vitor, posso te garantir que você não é fraco. Só ainda não teve a oportuniade de mostrar sua verdadeira força ― Vitor sentiu uma lágrima se formando em seu olho. Como era possível que um laço tão forte pudesse ter sido criado entre ele e seu digimon em tão pouco tempo? Seria esse o poder que existe entre um humano e um digimon que o Dr. Joel tinha falado sobre há algum tempo? ― Halomon o escolheu por um motivo, Vitor. Eu confio nessa escolha. Você é meu parceiro.
Vitor iria agradecer, talvez até chorar nos ombros de Tanmon, mas foi interrompido quando a luz da noite foi distorcida. De repente, uma sombra se repôs sobre a cabana e o luar parecia ter desaparecido, dando lugar a uma noite sem lua.
Vitor se virou rapidamente para encarar um ponto sobre o lago onde uma circunferência digital se formava, cobrindo a lua pelo ângulo em que Vitor se encontrava. Ele não tinha visto muitos desses, mas ele tinha certeza: era um portal.
― Tanmon, o que está acontecendo?
― Um portal ― Tanmon confirmou ― Royalmon está mandando mais um de seus digimons contra nós.
Vitor continuou a encarar enquanto a sombra de alguma coisa atravessava o portal para o mundo deles. Então era agora. Aquela era sua chance. Enquanto todos estavam dormindo ou não estavam por perto, ele podia fazer isso.
― Tanmon, ― ele falou, atraindo a atenção de seu parceiro ― acho que essa é a oportunidade que eu precisava. Concorda?
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