Digimon Beta - E as Cartas Acessórias
28 E Dá-lhe Confusão
Os garotos seguiam encurralados pelo grupo de Orgemons que queriam se vingar dos domadores por causa do galho de árvore que foi empurrado, acidentalmente, pelo Murilo assim que ele conseguiu retirar a “Carta da Madeira” de uma fenda dela.
O digimon que aparentava ser o líder do grupo erguia seu tacape quando Terriermon corre na sua direção e lhe dá uma cabeçada. O digimon é atingido no peito e se desequilibra, fazendo com que os quatro digimons restantes avançassem na direção dos humanos e seus digimons, que estavam literalmente cercados.
— VEJAM!
O repentino grito do garoto magro de cabelo negro e curto, que indicava um local na copa das árvores, atrai a atenção dos cinco digimons, que param para observar. Murilo aproveita a distração dos Orgemons, se aproxima da Bárbara e atrai a atenção dos demais para fugirem.
— Murilo... – Sussurra Bárbara, angustiada. – Eu não vou conseguir correr.
— Você terá que confiar em mim. O terreno, aqui, não é tão irregular. Você precisará correr ao meu lado segurando em meu braço.
Os garotos e os digimons rapidamente iniciam a fuga, atraindo a atenção dos Orgemons que logo percebem que o aviso do humano se tratava de uma estratégia, e passam a persegui-los.
— Vocês não irão longe!!! – Brada o líder dos digimons, instantes antes de iniciarem a caçada pelos domadores e digimons na floresta de plantas, frutas e flores gigantes.
O garoto de barba cerrada e cabelos castanhos seguia caminhando com Betamon nos braços por um grande campo asfaltado.
— João, eu to com fome.
— Somos dois!
— Se voltarmos agora, acho que não será difícil de acharmos Antônio e Flávia.
— De novo com isso? Não insista mais! Eles queriam que isso acontecesse mais do que eu.
— Por que diz isso?
— Ora por que... Porque eles me tratavam mal! Diziam que eu estava nervoso, arrogante, egocêntrico... Eu tento proteger todo mundo e acabo levando a fama de ruim.
— Mas você estava se tornando isso tudo, João.
João se irrita com Betamon.
— Cala a boca, Betamon! Não estou afim de ouvir mais ninguém dizer o que devo fazer. Da minha vida cuido eu.
— Não precisa se zangar. Eu só me preocupo com você. Você está carregando tudo em suas costas. Todas as responsabilidades de todos os domadores. Ser líder não significa proteger todos a todo o momento. É saber extrair de cada um o melhor que eles podem dar.
— Aprendeu isso com quem, Betamon? – Questiona o garoto, sorrindo. – Aprendeu com o Terriermon a assistir televisão?
— Aprendi com a vida! Se os domadores depositam em você responsabilidades de líder, os digimons acabam depositando sobre mim responsabilidades durante as batalhas.
João e Betamon silenciam por alguns segundos antes de retornarem a conversa.
— Será que existe uma carta daquela para nós? – Indaga o garoto.
— Será?
— Qual o elemento que você quer controlar em sua nova evolução?
— Eu quero a água!
— Mas a Carta das Águas já é de Verônica...
— E isso impede de existir outra evolução com esse elemento?
Flávia, Patamon, Antônio e Kokabuterimon caminhavam por um gramado repleto de banheiras dos mais variados formatos, modelos e capacidades, espalhadas por todos os lugares. Havia banheiras vazias, cheias, coloridas, quebradas, em pé, de ponta cabeça...
— Vale das Banheiras. – Pontua o pequeno hamster laranja enquanto voava ao lado dos demais, que caminhavam.
— Por que será... – Diz Flávia com ar jocoso.
— Esse é o tipo de coisa que só poderia existir aqui, — interfere o garoto, domador do inseto mecânico de cor azul — na terra dos digimons.
— Essas banheiras apareceram aqui, do nada, Antônio?
— Não sei te dizer, Flávia. Eu nunca estive por essas bandas do Mundo Digital. Ele é semelhante ao Mundo Real em termos de tamanho, entende?
— Você quer dizer que os planetas são do mesmo tamanho? Como que você sabe disso?
— O digivice tem algumas informações básicas de sobrevivência.
Mais à frente, eles avistam uma banheira do modelo clássico, com torneira e pés dourados, cheia de água que borbulhavam e liberavam um denso vapor.
— Olha isso, Antônio.
Atraídos pela Flávia, o garoto e os digimons se aproximam e notam que, por mais que a água estivesse fervendo, não havia nenhuma incidência de energia térmica por perto.
— Ela está fervendo sem ter fogo. – Conclui a garota de voz rouca, surpresa.
— Está impressionada com isso? – Manifesta-se Antônio, sorrindo. – Então, você ainda não viu nada! Vamos continuar andando.
Patamon sobrevoa a banheira até que resolve pousar no chão e percebe que embaixo da mesma existia uma carta semelhante às cartas encontradas pela Bárbara e pela Verônica.
— Uma carta! – Exclama o digimon radiante.
— Onde? – Questiona o digimon besouro se aproximando e sendo seguido pelos humanos.
— Ali, olha!
Flávia, Antônio e Kokabuterimon se abaixam e notam a presença da carta dita pelo Patamon. A garota estica um dos braços e consegue pegá-la, sem maiores dificuldades. Instantaneamente a água da banheira para de ferver. Os humanos e os digimons se olham espantados por alguns segundos, até que Flávia recoloca a carta de onde a tirou, fazendo com que a água entrasse em ebulição novamente.
— Olha que massa! – Diz a garota, sorrindo. – Se fosse assim em Salvador, seria bem prático tomar um banho quente e relaxante nos dias mais frios.
— Ah ta! – Exclama Antônio. – Ainda bem que você frisou: “nos dias mais frios”. Porque eu já iria dizer que você é louca! Com o calor que faz no nosso Nordeste o ano inteiro...
— Você também é de lá, né?
— Sou de João Pessoa. Não percebeu o meu sotaque?
Flávia sorri.
— “Carta das Chamas” — prossegue a garota — é o que está escrito aqui!
— Uma evolução do fogo! – Vibra Kokabuterimon.
Flávia passa a carta para o domador.
— Veja! – Diz a garota de maneira séria. — Vá que ela seja sua!
Antônio titubeia por alguns instantes.
— Não custa nada tentar, Tonho! – Diz o seu digimon demonstrando confiança.
O domador finalmente pega a carta das mãos de Flávia, porém e nada acontece.
— É Tonhão, — conclui Kokabuterimon – ela não é nossa.
— E nem corre o risco de ser minha!
Flávia, Antônio e os digimons seguem caminhando e olhando, de maneira mais atenciosa, em busca de novas cartas, quando a garota loira segue até o limite de um alto precipício. Na parte mais baixa do terreno, havia uma gigantesca cidade.
— Pessoal! Olhem, uma cidade!
— Vamos para lá. – Diz o garoto paraibano, animado — Podemos achar ajuda!
Os humanos iniciam a descida por uma estreita e sinuosa trilha cravada no precipício. Os digimons os seguiam, voando.
Antônio, Flávia, Kokabuterimon e Patamon caminhavam por uma larga e arborizada avenida. Demonstravam nítidos sinais de esgotamento físico. Eles já caminhavam por longos minutos e nenhum sinal de presença humana ou digimon naquela cidade. Mais à frente, o pequeno grupo encontra o local que foi palco da batalha do Etemon contra os domadores calouros. Asfalto destruído, prédios estilhaçados, postes caídos...
— Pelo visto, — diz Kokabuterimon — essa destruição toda explica o porquê dessa cidade estar vazia.
— Algo de muito grave anda acontecendo por aqui!
— Então vamos embora, hein, Antônio?
— Ainda não, Flávia! Precisamos investigar um pouco mais. Vá que alguns dos nossos amigos tenham batalhado por aqui. Até mesmo o João já pode ter passado por aqui.
— Vamos descansar um pouco. – Suplica a garota de voz rouca — Minhas pernas doem de tanto caminhar.
— Eu iria propor isso! – Diz Patamon.
— Mas não propôs! – Retruca Flávia sem pestanejar. – O que me diz, Antônio?
— Aqui mesmo?
— É... Qualquer calçada já serve!
— OK!
O grupo caminha até o trecho da calçada intacta onde havia sombra e se sentam, esticando as pernas. Patamon pousa sobre o colo da Flávia, enquanto Kokabuterimon deita ao lado do seu domador.
— Antônio, como que você chegou aqui pela primeira vez? – Pergunta a garota mudando de assunto, numa clara tentativa de melhorar os ânimos dos digimons e do próprio domador.
— Nossa, Flávia, foi um tremendo sufoco! – Diz o garoto relembrando do acontecimento enquanto contava. – Era noite e eu voltava de um torneiro de...
Sete amigos, entre homens e mulheres, caminhavam por uma rua de João Pessoa, capital da Paraíba, em meio a conversas, risadas e comemorações. Um dos rapazes, que é alto, forte e branco, trazia uma sacola de lona nas costas, e nas mãos um troféu com os seguintes dizeres gravados: “Vencedor do III Campeonato Regional de Kung Fu”.
O pessoal segue conversando por mais alguns quarteirões, acertando os detalhes para a comemoração do dia seguinte, até que chegam ao prédio onde moravam. Os amigos se despedem e cada um segue até seu apartamento. Antônio entra no elevador e aperta o botão número sete e, antes que pudesse sair do elevador, é absorvido por um portal que se abre sobre sua cabeça.
— Depois que fui sugado pelo portal, acabei desmaiando e acordei com os gritos de Igor e próximo de Fernanda e Leo, em uma praia. Já era dia...
Flávia, Patamon e Kokabuterimon seguiam ouvindo atentamente a história contava pelo domador.
— SOCORRO! SOCORRO!
As pessoas próximas dele acordam com a gritaria.
— Onde é que eu estou? – Balbucia o garoto de físico avantajado pegando sua sacola esportiva ao lado e retirando o excesso de areia dela. Ele veste uma regata branca e calça preta.
A garota de vestido vermelho fica de pé e caminha alguns metros na direção da sua bolsa e sandálias.
— SOCORRO! SOCORRO!
— Acho que gritar não vai resolver nada! – Diz o garoto que muito se parece fisicamente com Igor, a não ser pela cor dos olhos. Os de Igor são azuis.
— Rapaziada. Alguém pode me explicar o que está acontecendo? Antes de qualquer coisa, me chamo Antônio. Antônio Morais. – Diz o garoto branco de braços e pernas fortes.
— Se você já soubesse que Fernanda seria essa chata e encrenqueira de hoje, — diz a garota loira — poderia ter afogado ela na praia.
Antônio sorri.
— E esse outro garoto, Leo, não o conheci.
— Ele era carioca. Faleceu faz alguns dias. Foi atropelado quando saia de uma balada.
— Nossa... que desespero!
— Ele era amigo de Lúcia...
— A filha do padrasto de Rafa?
— Isso!
— Mundo pequeno, não?
— Pra você ver.
— E os outros? – Prossegue a garota.
— Muitos já estavam aqui quando chegamos. Só os Beta que chagaram no mesmo dia que a gente.
O hamster voador de pelagem laranja e barriga branca rapidamente se põe de pé com as orelhas eretas.
— O que foi, Patamon?
— Ouço vozes ao longe. Eu conheço essa voz.
— Que voz? – Pergunta Flávia sendo interrompida por uma forte explosão.
— Murilo... – completa o digimon — Eles estão por aqui e correm perigo!
Prontamente, Flávia, Antônio, Kokabuterimon e Patamon e levantam e correm em direção aos gritos e explosões.
Ao chegar em uma esquina, não muito longe de onde estavam, a dupla veem seus amigos sendo perseguidos pelos Orgemons.
— CARLOS! – Grita o domador de braços e pernas fortes, acenando juntamente com os digimons e Flávia. — Por aqui!
Carlos e os outros ouvem o chamado de Antônio e continuam a correr, agora na direção do amigo. Logo atrás deles, um bando composto por cinco Orgemons, corriam.
— Punho do Rei Supremo.
O golpe, lançado por três dos cinco digimons ogros, atinge o asfalto metros à frente do grupo formado por Carlos, Murilo, Verônica, Bárbara, Fanbeemon, Terriermon e Plotmon, levando-os a cair.
— Droga! – Diz Antônio, preocupado. — A gente tem que ajudar de alguma forma.
— A Carta das Chamas! – Lembra Patamon.
O grupo, que apenas observava, corre de encontro aos demais, enquanto os digimons se aproximam de forma sorrateira.
— PESSOAL! – Grita o garoto, atraindo a atenção dos digimons. — Achamos uma carta!
— Sério? – Diz o garoto esboçando um sorriso.
Um dos Orgemons corre na direção de Antônio e Flávia para atacá-los com o seu tacape. Terriermon rapidamente se levanta e gira no ar, lançando seu “Pequeno Tornado” contra um dos oponentes. Já o digimon besouro de cor azul usa o seu “Koka Trovão” e também afasta, momentaneamente, o outro inimigo.
Os garotos rapidamente se levantam e se aproximam dos recém-chegados.
Kokabuterimon, Terriermon e Fanbeemon seguiam lançando suas melhores técnicas na direção dos inimigos, impedindo-os de se aproximar dos domadores.
Plotmon observava um pouco mais distante.
— Essa é a carta! – Diz Antônio entregando a “Carta das Chamas” ao domador de óculos, que rapidamente a segura em suas mãos.
Patamon logo voa na direção do Murilo, lançando-se sobre seu peito.
— Hei, garoto! – Exclama, feliz por revê-lo. — Como que você está?
Repentinamente, o digivice prateado que estava no bolso de Murilo começa a brilhar, fazendo-o toma-lo em suas mãos. Logo após, o pequeno Patamon brilha juntamente com o aparelho.
O mesmo ocorre com Carlos, que vê um novo digivice de cor azul surgir em suas mãos.
— Desde quando você tem um digivice? – Pergunta Flávia, surpresa.
— Nós encontramos a “Carta da Madeira” assim que terminamos a batalha contra o Grappleomon. Por causa dela que esses digimons estavam nos perseguindo. Eu acabei, acidentalmente, derrubando um galho de árvore por um barranco, e esse galho os atingiu.
— E por que Plotmon e Fanbeemon não evoluíram?
— Elas lutaram com o digimon do Alex até a completa exaustão. – Responde Verônica.
— Murilo! – Chama o pequeno digimon em seus braços. – Agora somos uma dupla!
— Espero que sejamos tão bons e úteis como os domadores que conhecemos.
— Ainda assim você quer ir embora? – Indaga Bárbara, segurando-o pelo ombro.
— Não mais. Agora tenho um bom motivo para estar ao lado de vocês!
Uma forte explosão acontece, lançando o grupo de digimons Novatos aos pés dos seus domadores, que logo se aproximam para socorrê-los.
Flávia corre até o Murilo e segura a Bárbara por um dos braços.
— Pode ir, Murilo! A partir de agora eu assumo como guia dessa garota de fibra!
— Tanto elogio assim, — pontua a garota envaidecida — me deixa desconfiada.
O mais novo domador se aproxima do Carlos, que ao vê-lo, diz:
— Murilo, pronto para sentir como é ser um domador?
— Sou louco por desafios, cara!
Terriermon e Patamon saltam dos braços dos seus domadores.
— Evolução de Dados, já!
O digimon gorila que usa óculos de sol caminhava tranquilamente por uma bela praça da cidade denominada por ele como “Etemonlândia”. O lugar possuía um belo lago artificial, sobre o qual havia uma pequena ponte arqueada. Ao chegar ao ponto mais alto da pequena ponte, nota quando um digimon engrenagem de cor negra, contendo outras duas engrenagens menores de cada lado da engrenagem principal, surge em sua frente afoito.
Evilmon estava sobre o seu ombro.
— Prefeito! Prefeito! – Diz o digimon, ofegando. — Que bom que te encontrei.
— Hagurumon... – Balbucia o digimon gárgula sobre o ombro de Etemon.
— O que você quer, seu feio?
— Um grupo de humanos tornou a invadir nossa cidade.
Etemon retira os óculos e olha de maneira séria para o digimon do nível Novato.
— Nossa cidade?
— Exatamente!
— E desde quando essa cidade é sua?
Antes que o digimon pudesse se explicar, Etemon lhe disfere um chute, lançando-o de costas por vários metros até se esbarrar em um poste. O pequeno digimon se desfaz em dados.
— Evilmon, vamos expulsar esses intrusos de nossa cidade. Nenhum humano e nenhum digimon podem morar nessa cidade! Somente nós dois. O prefeito e o vice-prefeito!
Etemon inicia uma rápida corrida, fazendo com que o Evilmon se desequilibrasse do seu ombro e passasse a segui-lo voando. O digimon para em frente à uma garagem e abre a porta de metal, que se enrola por completo, e entra no lugar escuro. Assim que o pequeno gárgula consegue alcança-lo, um ronco de motor ecoa de dentro da garagem e o digimon gorila, que agora usava um capacete, segue a toda velocidade pilotando uma moto de 600 cilindradas.
— Rápido, Evilmon! Vamos caçar humanos e digimons!
Continua...
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