— Gente, aconteceram muitas coisas enquanto eu estava enfiada naquele hospital. – Diz a garota que mastigava um enorme pedaço de pão e segurava um copo de suco e uma fatia de torta.

Todos faziam um lanche no quarto da Bárbara.

— Flávia, tenha educação. – Pede Lunamon, constrangida.

— Mané educação! Você diz isso porque não ficou dez dias vivendo de soro na veia.

Flávia enfia o pedaço de torna na boca, sujando-a. A garota sorri para os demais enquanto mastiga.

— Acho que ela é que precisa ser domada. — Lunamon balança a cabeça como se estivesse decepcionada e todos caem na gargalhada.

A garota loira de voz rouca fitava sua digimon com os olhos semicerrados.

— Lunamon, você ta muito chata pro meu gosto. Come pão que melhora!

Flávia força a pequena digimon rosa comer dois pedaços de pão de uma única vez. Novamente, outro portal se abre como o anterior, e Verônica surge de dentro dele.

— AMIGA!

Flávia e Verônica começam a pular de mãos dadas feito duas loucas. Flávia pulava em uma única perna, a outra estava engessada por conta da fratura. Elas gritavam sem parar.

— Chega! — Interfere João, aos risos. — Ninguém merece as duas gritando.

Flávia dá língua para o amigo e torna a se sentar. Verônica o ignora.

— Não conseguimos notícias de Bento e Etemon.

— Eu e João também não! – Pontua o domador de Patamon.

— O que será que aconteceu com ele? Será que Blaze...

— Nem pense nisso! – João interrompe Bárbara. — Ele deve estar bem.

— Muito convincente sua fala. – Diz a domadora de Plotmon com desdém. – Olha, Bárbara, ninguém aqui tem ideia do que aconteceu com Bento. Mas, você tem que concordar que ele é domador de um digimon que tem sua estabilidade evolutiva no nível Perfeito.

— Não dá pra confiar em Blaze, Alex, Júnior e naquela corja toda. Já perdi Bento uma vez e não quero perdê-lo de novo. Sabe o que é ter que mentir pra seus pais? Eles pensam que meu irmão fugiu com algum cara, com medo da reação deles.

— Bento não se assumiu?

— É aquela velha história: Meus pais fingem que não sabem e Bento finge que acredita. Minha mãe ta desesperada. Tem horas que dá vontade de contar pra eles o que ta acontecendo. Contar toda a verdade!

— Você não pode fazer isso! – Alerta Betamon.

— Além de não poder contar, você acha que eles acreditariam?

— Galera, falando em desaparecidos, alguém sabe onde está Culumon?

— Até esqueci que ele existe, Murilo. – Diz Flávia.

— Se é que ainda existe.

— Existe sim. – Interfere Carlos enquanto limpava os óculos. — Se ele morrer, todos os digimons e o Mundo Digital desaparecem.

— Então, temos que protegê-lo. – Diz a domadora de Lunamon. — Acho que essa deve ser nossa função.

— Como que ele foi desaparecer, assim, do nada? – Questiona Plotmon.

— Lembro que a última vez em que ele apareceu foi para dizer sobre as Cartas Acessórias. – Diz Bárbara.

— Eu, ultimamente, ando compartilhando desses pensamentos de Carlos. Temos que achar uma resposta o quanto antes.

Verônica se espanta com o pronunciamento de João. Aos poucos, o rapaz estava reocupando o cargo a que o elegeram.

— Culumon ta muito estranho, como Antônio bem percebeu e nos alertou através do e-mail. Se ele não queria a presença de Murilo, Flávia e Bárbara, por que, então, cedeu digivices a eles? Por que deixou o torneio ser aquele desastre todo, sendo ele poderia muito bem ter barrado Blaze, Alex e Fernanda? Por que ele não nos deu as Cartas Acessórias, ao invés de nos deixar procurando por elas? Por que será que ele nunca nos contou sobre essas cartas? Por que os novatos dizem que receberam uma mensagem de Culumon dizendo que eles teriam que destruir nossos digivices?

— Um novo inimigo? – Manifesta-se Verônica após alguns segundos de silêncio geral. — Alguém controlando Blaze, Alex, Fernanda e os novatos?

— Creio que não. – Diz o domador do digimon de grandes orelhas. — Alex é estranho desde que o conheço. Só que, agora, ele resolveu tomar partido.

— E, de quebra, levou Blaze e Fernanda com ele. – Diz João.

Todos ficam em silêncio por alguns instantes.

— Pessoal, acho melhor traçarmos um plano a partir de agora. – Propõe o domador de Betamon. — Não dá pra ficarmos agindo em grupo o tempo todo.

— E então, vamos voltar como nos velhos tempos?

Blaze estava com a mão esticada esperando que Júnior a apertasse. Todos aguardavam ansiosos. Júnior fita Blaze, que sorria pra ele, de maneira séria. O garoto dá as costas e se afasta.

— Pessoal, vamos embora. Não temos mais nada a ver com eles.

Júnior segue andando. Lucas, Leon e Kau estavam próximos aos seus digimon, e Kudamon, sob o ombro do seu domador. Lentamente, Leomon saca sua espada da bainha e, quando por alguns segundos todos desviaram seus olhares do Júnior, o digimon leão avançou. O digimon furão percebeu a estranha movimentação e se virou. Ao ver o digimon Adulto do Alex avançando na direção do seu domador, de espada em punho, Kudamon salta e seu corpo brilha.

O pequeno digimon assume a forma de um animal híbrido quadrúpede, com asas brancas, calda dourada e volumosa e um único chifre vermelho de extremidade achatada. Seu corpo lembra um unicórnio alado, com escamas verdes sobre o focinho, pescoço e dorso.

Stingmon evolui para um guerreiro inseto com uma aparência mais agressiva do que sua fase anterior. Uma carapaça verde, de tonalidade mais clara que sua fase anterior, reveste todo o seu corpo, destacando apenas as articulações vermelhas e esferas amarelas distribuídas pela couraça. Possui dois pares de asas, olhos vermelhos, longas antenas e um bastão com uma das extremidades tendo uma enorme lança vermelha.

O dragão azul de Leon evolui para um guerreio de forma humanoide que possui garras afiadas nas enormes mãos negras e um par de canhões presos a cintura. Ombreiras com spikes, um par de asas brancas, patas azuis e uma espécie de capacete com viseira vermelha.

Sunflowmon também evolui para sua forma Perfeita, Lilamon.

Os digimons se põem ao lado do Júnior. Leomon titubeia, encarando um por um dos digimons. O líder do grupo dos calouros se vira para o trio liderado por Blaze, como se já esperasse essa reação dos mesmos.

— Blaze, não insiste, ok? Segue tua vida que a gente tem coisas mais importantes pra fazer. Vão brincar de malfeitores com outros. Conosco seu papo não cola mais.

Júnior e os seus amigos se aproximam dos seus digimons. Lilamon regride para Sunflowmon e todos seguem voando.

Blaze sentia ódio do Júnior. Não sabia dizer quem no momento lhe despertava mais raiva, se era o grupo do João ou o grupo do Júnior. O garoto sorri, tentando disfarçar sua ira.

— Vais deixar por isso mesmo?

— Vou, Alex. Eles que se entenda com João.

Um digimon passa correndo por entre as árvores. A velocidade desenvolvida era tamanha, que só era possível de se ver um borrão de cor prateada se deslocando. Folhas secas e caídas o acompanhavam por alguns metros antes de retornarem ao chão. Galhos de árvores balançavam assim que ele passava. Um bando de digimons pássaros levanta voo, assustado. O borrão prateado segue ziguezagueando dentro do bosque. O digimon, agora, corria por dentro de um vilarejo de Pyocomons e Tanemos, que são digimons nível Em Treinamento. Os Pyocomons são digimons cor-de-rosa e em forma de flor. Possuem pétalas azuis e alguns ramos saindo do centro da for que fica sobre sua cabeça. Tanemon são digimons plantas que possuem folhas verdes sobre a cabeça. Os pequenos se assustam com o digimon que passa pelo vilarejo, destruindo suas minúsculas casas, que lembram pequenas ocas. Mais à frente, em um descampado, o digimon para de correr e cai de joelhos no chão.

Tratava-se de um gorila inteiramente revestido por metal e que usa óculos escuros. O digimon segurava a cabeça com ambas as mãos enquanto urrava de dor e atraia a atenção de alguns digimons que passam a observá-lo de longe. O digimon tentava ficar de pé, só que novamente era acometido pela forte dor na cabeça e retornava ao chão.

— Não... Não. – balbucia em meio aos gemidos de dor. — NÃO!

Uma voz, firme e impactante, dentro da sua cabeça lhe dizia o seguinte: “Você servirá a mim. Você servirá a mim. ”

— NÃO! AHHH!

Após muito se debater, com as mãos forçando a cabeça, o digimon macaco de metal brilha intensamente durante alguns segundos e, com uma explosão de luz, surgem Bento e Etemon. Domador e digimon estavam de costas e ofegantes. Bento transpirava e observava o digivice com os olhos saltados.

Os digimons cochichavam entre si: “Desde quando humanos e digimons evoluem juntos?”; “São eles. Foram por eles que aquele humano acompanhado de um Betamon estava procurando”.

— O que você fez comigo, humano? – Indaga Etemon, após levantar e perceber que o garoto de pele bronzeada e cabelos curtos e cacheados estava deitado logo atrás de si.

— Eu não faço a mínima ideia. Acho que isso é tudo culpa desse aparelho.

Ecoa pelo digivice a mesma voz firme e impactante que os incomodavam mentalmente: “Vocês servirão a mim. Deixem de resistir e tudo ficará bem”.

— Cansei dessa brincadeira! – Grita o garoto lançando o digivice no chão. — Vamos embora.

O aparelho, semelhante a um celular, começa a apitar, atraindo a atenção de Bento e Etemon. Como que atraído por um ímã, o digivice retorna para a mão do irmão de Bárbara e começa a brilhar. Etemon e Bento novamente se fundem e evoluem para o macaco de metal, que possui mesma altura e tipo físico que seu nível anterior.

Após a fusão, o digimon Extremo estava tranquilo. Não urrava e nem se contorcia de dor. Possuía expressão serena, e um sorriso demoníaco no rosto. “Você servirá a mim. Não resista e tudo ficará bem”.

— Sim, eu te servirei.

Os pequenos digimons do vilarejo continuavam observando Metaletemon.

Tranquilamente, e sem fazer nenhum tipo de movimento brusco, o digimon ergue o indicador direito em direção ao céu. Vários raios de energia negra descem do céu e atacam um por um dos digimons. Em poucos segundos, todos os digimons se tornam dados.

Metaletemon volta a correr como inicialmente e desaparece no horizonte.

Já era noite e, depois de acertados todos os detalhes arquitetado por João, os domadores voltaram cada um para sua cidade. O plano era basicamente o seguinte: Eles agiriam em duplas. Bárbara e Carlos ficaram responsáveis por descobrir o paradeiro de Bento e Etemon; Murilo e Verônica ficaram responsáveis por encontrar as demais cartas. Depois de analisarem o fato de que, no espaço de uma semana nenhuma carta foi encontrada, só restava um lugar para procurar: O Continente Perdido. João e Flávia iriam investigar o caso Culumon e qual a relação dele com os novos domadores. Será que o grupo do Júnior estava realmente cumprindo ordens do Culumon? De qualquer maneira, se fossem investigar o grupo dos calouros, chegariam a Blaze, Alex e Fernanda. Antes de colocarem o plano em ação eles se encontrariam no farol existente no Mundo Digital. Verônica, João e Carlos acompanharam Flávia até sua casa. Lá, as meninas prosseguiram com a “história” do velório do tio de Verônica que mora no interior do Amazonas. Dona Cecília não retrucou em nenhum momento, só questionou a perna engessada. Flávia inventou mais uma de suas desculpas e a mãe dela acreditou.

Na manhã do dia seguinte, um domingo, exatamente às oito horas, os seis domadores estavam reunidos ao lado do Farol.

— Qualquer problema é só entrarem em contato pelo digivice. No mais, boa sorte a todos.

Os domadores e digimons trocaram abraços e palavras de confiança.

As duplas já estavam se distanciando quando o garoto de barbar cerrada novamente os chamam.

— Já ia me esquecendo...

João havia reunido todas as cartas que estavam em poder deles e as dividiu em casa de acordo com a necessidade de cada grupo.

— Murilo, separei pra vocês três cartas: Teletransporte, Martelo Vulcão e Lobo Lutador. Essa última creio que você a utiliza muito bem; Carlos, como eu deixei Lobo Lutador com Murilo, você fica com Asas Híbridas e mais Multiplicador e Recuperação; Eu e Flávia ficaremos com Escudo, Intangibilidade e Extrema. Alguma objeção?

Todos aprovaram a divisão das Cartas Acessórias.

Bárbara e Carlos seguiram voando com Digmon e Meramon alado. Os dois digimons desaparecem no horizonte.

— Patamon, você está pronto? – O pequeno hamster assente com a cabeça. — Adição de Dados – Teletransporte.

— Se cuidem. – Diz Verônica abraçando a garota loira de maneira abrupta. — Acho que vocês correm mais perigo do que Murilo e eu.

— Pode deixar.

Verônica olha para João e nada diz.

— Obrigado por se preocupar. – Agradece o garoto, que estava com Betamon nos braços.

— Redobrem a atenção, pessoal. – Pede Plotmon, sorrindo em seguida.

— Pode deixar. — Agradece o digimon réptil que carrega uma barbatana laranja nas costas.

— Até breve, Plotmon. – Diz Lunamon, acenando.

— Vamos, Patamon.

Em questão de segundos, Murilo, Patamon, Verônica e Plotmon desaparecem das vistas de João e Flávia.

A dupla de domadores e seus digimons estavam de volta ao Continente Perdido, mais precisamente no local onde existia o mausoléu que serviu de abrigo para as cartas. O local estava todo destruído por conta da batalha do grupo liderado por Blaze e Júnior contra Mugendramon.

— Tivemos muita sorte em conseguir fugir do Mugendramon.

— Não tínhamos nenhuma chance de ganhar, Murilo.

— A não ser que alguém conseguisse atingir a Extremidade, assim como Blaze conseguiu.

— Até hoje não entendo como que Blaze conseguiu. Será que Culumon realmente está ajudando eles?

— Se tudo acontecer como planejamos, João e Flávia irão descobrir.

— Então vamos logo procurar as cartas que restaram e terminar de uma vez com isso. Já ia me esquecendo. — Verônica tira a carta “Cronômetro” do bolso de trás da sua bermuda. — Achei essa carta ontem, antes de chegar à casa de Bárbara.

— Pra que serve? – Pergunta Patamon.

— Ainda não a usei.

Um Armadimon observava os domadores por detrás de uns arbustos e logo sai correndo, sem chamar atenção.

Minutos depois, o digimon tatu de casco brilhante chega ao seu destino, o grande salão subterrâneo. Armadimon se curva antes de falar com seu mestre.

— Meu Senhor, acabei de me deparar com dois domadores aqui no Continente Perdido.

— Somente dois? — Responde o misterioso digimon sentado na sua enorme poltrona, de costas para Armadimon. O digimon jogava um digivice prateado pra cima e tornava a segurá-lo.

— Sim. Ao que tudo indica, vieram em busca das cartas.

— Excelente. Breve terei o prazer de receber os domadores aqui. Conseguiu mais cartas?

— Ainda não, meu Senhor. Eu estava procurando-as quando me deparei com eles.

— Fez bem em vir me avisar. Suspenda as buscas, não será mais necessário. Essas três cartas em meu poder irão fazer com que venham até aqui. Meus planos estão dando certo. Um deles já está em plena execução. Logo conseguirei sair dessa vida de limitações, culú.

O misterioso digimon começa a gargalhar.

Continua...