Diga não à morte
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Alice estava em pé sobre a beirada de uma ponte. Estava ameaçando se jogar. Seu coração palpitava fortemente, aceleradamente. O ar estava frio. Ventava. Os carros que passavam pela ponte começavam a parar e as pessoas começavam a se aproximar cada vez mais. Ela ouvia pessoas gritando para ela sair dali. Ouvia outras ligando para a polícia. Ela tinha que fazer aquilo logo. Não podia esperar mais. Era só pular e estaria tudo acabado. Viu um homem se aproximar. Era seu pai, Ronald. O cabelo cacheado e grisalho dele balançava com o forte vento. Ele estava se arriscando por ela. Mas Alice não queria ser salva. Ela não queria mais viver. Já havia sofrido muito na vida. Não acreditava mais na felicidade, no amor, na união, na verdade. Não queria mais acreditar que existia coisas boas nesse mundo.
- Pare! – Ela Gritou – Não se aproxime de mim!
Ronald não se intimidou com os gritos da filha. Se aproximou ainda mais. Alice se afastou. Ouviu a voz em sua mente dizer “Se você for fazer isso, faça agora ou será impedida”. Não sabia o que era. Não sabia quem havia falado aquilo. Talvez fosse apenas sua mente, sua vontade. Olhou para os lados e não havia mais ninguém perto dela. Apenas seu pai que insistia em se aproximar cada vez mais. “Pule, agora”. A voz voltou a sussurrar em sua mente. Era só dar um pequeno passo e pronto. O sofrimento estaria acabado. Então tomou sua decisão. Respirou fundo, como se fosse a última vez que faria aquilo, estendeu o pé direito e sentiu como se o vento a puxasse para baixo. Então se jogou.
O que aconteceu antes.
Alice Elisabeth Jackson Walker. Ela achava aquele nome muito cumprido e brega. Mas era o nome que seus pais haviam escolhido para ela. Ela os amava. Amava ver Elisabeth Jackson Walker e Ronald Walker juntos. Eles pareciam ser feitos um para o outro. Tudo o que faziam era bonito. Desejava ser como a mãe. Desejava ter as atitudes, o cuidado, a força e a simpatia dela. Desejava que o seu casamento com Harry fosse como os dos pais. Harry era seu namorado.
Alice e Harry namoravam há apenas quatro meses. Ela o amava e sempre falava isso. Harry dizia o mesmo, poucas vezes, mas dizia. Ela acreditava que o amor não era só palavras. Não que palavras não fossem necessárias, mas acreditava que o amor também era mostrado em atitudes e uma coisa que Harry tinha era atitude. Ele a enchia de presentes. Toda semana era um diferente. “Meu quarto não está cabendo outro” dizia ela a Harry sorrindo. Mas ele não parava de trazê-los. Não negava esforços para deixa -la contente. Sempre saiam pela cidade para passar mais tempo juntos. Faziam piquenique, iam ao cinema e assistiam um filme romântico. Iam ao parque, ao zoológico – Mesmo que em outra cidade – e se divertiam à beça. Harry não hesitava em dar tudo de bom para a namorada.
Elisabeth e Ronald sempre perguntavam onde Harry arranjava tanto dinheiro para comprar tantos presentes e passear tantas vezes. Alice dizia que ele trabalhava como vendedor. Mas nunca falava o que é que ele vendia, pois nem ela mesma sabia. Harry sempre desviava o assunto quando era sobre o trabalho. Não gostava de conversar sobre aquilo e Alice não insistia, pois não queria ver seu namorado zangado com ela. Harry também dizia não ter familiares que moravam perto, então nunca havia apresentado os pais ou qualquer pessoa da família para a namorada. Ele era um verdadeiro poço de mistérios, mas Alice não se incomodava com isso, pelo menos por enquanto. Sabia que cedo ou tarde ele a contaria tudo, pois não daria para viver por toda vida com uma pessoa que não se sabe nada.
Alice tinha uma vida normal, como a de qualquer garota de dezessete anos e nove meses. Ia para a escola e odiava deveres de casa. Assistia seriados e adorava mexer na internet. Amava hambúrgueres, sorvete de baunilha e suco de uva. Gostava de cuidar dos longos cabelos cacheados e negros que tinha. Não era dessas garotas que se arrumavam muito para ir à escola ou para qualquer outro lugar. Não gostava disso. Se cuidava, mas não exageradamente como a maioria das garotas que passam quilos de maquiagem para ir comprar pão na padaria mais próxima. Ela era simples, não que não tinha dinheiro de se arrumar como as outras garotas, mas não gostava de andar assim. Não queria que os garotos a desejassem por sua beleza. Queria ser mais que um rostinho bonito, mas sabia não era assim que as coisas funcionavam.
Certo dia Alice havia marcado de se encontrar com seu namorado Harry em uma praça que se localizava no centro da cidade onde moravam. Quando saiu de casa, percebeu que havia um caminhão de mudança em frente à casa ao lado. Os antigos vizinhos tinham se mudado e agora outra pessoa iria morar ali. Viu um garoto magro, alto, de cabelos raspado dos lados e de blusa xadrez ajudando a descarregar os móveis do caminhão. Ele também orientava onde deviam colocar cada móvel. Ela supôs que ele que devia ser o filho dos compradores da casa. Foi quando o garoto percebeu o olhar dela e a cumprimentou com a cabeça e um sorriso. Alice retribuiu com um gesto com a cabeça e seguiu seu caminho.
Ao lado da praça onde Alice iria se encontrar com Harry, havia o início de uma ponte que atravessava um trilho de trem e levava à região mais nobre da cidade. Lá se localizavam as grandes casas, os grandes prédios e as grandes empresas. A cidade mudava totalmente quando se ia para o outro lado da ponte. Tudo era diferente. Tudo era mais bonito e sofisticado.
Alice havia acabado de se sentar em um dos bancos que havia na praça para esperar seu namorado, quando viu um carro vindo da ponte em alta velocidade quase bater em outro em um cruzamento. Viu também dois carros de polícia persegui-lo. Aquilo a assustou. Levantou-se para observar até onde podia a perseguição. Estranhou aquilo. Do outro lado da ponte a segurança era bem maior. Era raro naquela cidade ter roubos, mortes e perseguições como a que havia acabado de presenciar. Pegou seu celular e ligou para seu namorado. Harry demorou a atender. Quando atendeu, Alice percebeu que ele estava com a voz trêmula e havia muito barulho do outro lado da linha. Por um momento pensou que ele estava em uma festa.
- Onde você está Harry? – Foi a primeira coisa que disse – Já estou aqui te esperando!
- Amor, e-eu não posso falar agora! Estou muito ocupado. Estou no trabalho. – Respondeu ele rapidamente –
- Trabalho? Hoje? Como assim, Harry? Você não vai vir?
- Não estou podendo falar agora! – Disse ele com pressa em meio a um grande barulho, como um grande estouro –
- Harry? Que barulho foi esse? – Tornou a perguntar, preocupada –
- O que? Não te ouvi. A liga...
Foi quando houve mais um forte barulho e a ligação caiu.
- Harry? – Ela perguntou, ainda segurando o celular sobre a orelha –
Alice não soube porque, mas involuntariamente uma lagrima desceu sobre seu rosto e o sentimento de preocupação começou a tomar conta dela. Estranhou aquilo. Tentou ligar novamente para Harry, mas toda ligação que fazia ia para a caixa postal. Tentou mais uma vez, mais uma e mais uma. Até que uma pessoa atendeu o celular. Era uma mulher. Pela voz, Alice deduziu que seria uma senhora.
- Alô – Disse a mulher do outro lado da linha –
- Eu gostaria de falar com o Harry! – Disse Alice com a voz trêmula –
- Harry? – Perguntou a senhora confusa – Olha garota, esse celular caiu de um carro que acabou de se acidentar. Talvez esse Harry seja o garoto que está dentro do carro.
Um nó se formou na garganta de Alice com a notícia. As lagrimas começaram a descer pelo seu rosto. Ela tentava segura-las, mas elas não paravam de cair. Tentou falar, mas a voz não saia. Sentou-se novamente no banco e respirou fundo.
- Onde ele está? – Disse Alice aos prantos e nervosa. –
A senhora que falava ao telefone informou o lugar e Alice nem se despediu ou agradeceu. Estava preocupada e desesperada demais para fazer isso. Desligou o celular e começou a correr para o local. Não era muito longe. Apenas três ou quatro quarteirões de onde estava. Aquilo estava estranho demais. Como ele havia sofrido um acidente de carro sendo que estava trabalhando? Como ele não podia ter ido ao encontro sendo que estava tão perto dela? Aquilo estava muito mal explicado.
Alice não parava de correr, mesmo cansada. Sentiu seu coração bater ainda mais rápido. Passou pela sua cabeça a lembrança do carro sendo perseguido pela polícia. “Não é possível”, pensou. “Pare de pensar nisto. Ele não estava sendo perseguido pela polícia”. Talvez fosse apenas sua mente imaginando coisas, ou talvez não. Do que realmente Harry trabalhava? Será que estava envolvido com alguma coisa fora da lei? Será que estava mesmo no trabalho? “Não, não pode ser! Pare de pensar nisto Alice”, pensou.
Ao chegar no locar, viu o mesmo carro que estava sendo perseguido pela polícia capotado. Sangue saía de dentro dele. Seu coração acelerou. Bateu forte em seu peito. Correu para ao lado do carro e viu pela janela Harry desacordado. Descia muito sangue do pescoço e da cabeça. Os olhos e a boca estavam abertos. Alice começou a gritar o nome de Harry. O chamava. Tentava acordá-lo. Mas no fundo sabia que seu namorado não estava mais ali. Algumas pessoas e policiais tentaram tira-la do local, mas ela se recusou sair. Não queria sair do lado do corpo de Harry. Não queria acreditar que ele estava morto. O homem que tanto amava, que desejava formar uma vida ao lado, que desejava ter filhos, não estava mais ali. Não, não podia ser. Colocou as mãos sobre o rosto e pensou: “Isto só pode ser um pesadelo”, “Isto não está acontecendo”, “Isso não é verdade" "Vou acordar e perceberei que tudo não passou de um pesadelo”.
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