Diga Adeus à Inocência
18 Capítulo 17
Notas iniciais
– Bom dia, querida. – Vovó se vira no sofá e sorri, apoiando a mão na coxa de Israel.
– O que estava falando? – Pergunto, exasperada.
– Nada de interessante – ela dá de ombros -, só mais uma menina morta.
Meu estômago revira só de pensar na hipótese de ser Juliana. Escuto o toque do meu celular abafado, olho em volta e não consigo localizar minha bolsa. Felipe está sentado na poltrona, me encarando. Ergo uma sobrancelha. Joguei minha bolsa ali noite passada... Não, ele não pode ter sentado em cima dela.
Ando em sua direção e o vibrar do celular fica mais forte, encontro a alça de minha bolsa e pego-a.
– Saí daí. – Digo enquanto puxo a alça.
Ele se inclina levemente para frente e a bolsa escapa, a liberação repentina da bolsa me faz cambalear para trás. Abro-a e o celular para de tocar, mas isso não me faz desistir de procurá-lo. Encontro-o, desbloqueio e reparo que tenho mais de 50 chamadas perdidas de diferentes pessoas.
Meu deus, por favor, não seja o que estou pensando.
Ligo para Camila.
– Ô puta que pariu. – Ela atende.
– Oi. – Caminho para a cozinha e me afasto deles.
– Você conseguiu falar com a Juliana? – Ela pergunta, e parece tão exasperada quanto eu.
– Não – mordo o lábio inferior -, você viu a notícia?
– Sim.
Ficamos em silêncio.
– Você não acha que...
– Claro que não! – ela exclama – Juliana sabe se cuidar.
– Mas isso o impediria?
– Pensamento positivo, Bianca, por favor. – ela me repreende – Já tentamos falar com a família dela e mãe está desesperada. Se ela estiver bem, vou arrebentar aquela cara irônica dela.
Sorrio.
– Já sabem de quem é o corpo? – olho rapidamente para a sala e noto que vovó trocou de canal.
– Hm... Acho que não... Não sei, calma. – ela parece afastar o celular do rosto – Não, eles estão levando para o necrotério para a perícia.
– Onde o corpo foi encontrado? – encosto no balcão da cozinha.
– No lago do parque.
– No lugar que a gente tirou as fotos? – franzo o cenho.
– Sim.
– Como ele entrou lá? Esse parque não fecha?
– Acho que não, o prefeito fez um projeto de deixar o parque sempre aberto.
– Por que deixar a merda de um parque sempre aberto? – questiono.
– Foi alguma coisa sobre não ter horário para curtir a natureza. – ela diz, indiferente – Acontece que o babaca libera o parque a noite e não coloca câmera.
– Pra quê câmera? Não tem nada pra roubar em um parque.
– Mas se tivesse câmera, ele seria gravado. – ela rebate.
– Quem ia imaginar que ele iria se aproximar tanto?
Ela fica em silêncio.
– Desgraçado. – murmura.
– Vou tentar falar com mais alguém. – informo.
– Tudo bem, até amanhã. — ela desliga.
Respiro fundo e bloqueio o celular. Vou ligar para quem? Ninguém sabe onde ela está. Fecho os olhos e repasso a festa de ontem na cabeça, tenho que lembrar que exato momento perdi ela de vista, lembrar de algum rosto, de alguma coisa.
– Está rezando? – minha vó entra na cozinha.
Abro os olhos e a encaro.
– Que susto. – sussurro.
– Está com fome? – ela abre a geladeira – Como foi a festa ontem?
– Minha amiga sumiu. – anuncio – Estou achando que o corpo que encontraram é dela.
– Você tem certeza disso? – ela fecha a geladeira e me encara.
Dou de ombros.
– Não conseguimos falar com ela.
Ela se aproxima de mim e toca em meu ombro.
– Se for ela, você não deve se culpar.
– Não estou me culpando é que... Não sei explicar... Estou sentindo uma sensação ruim. – murmuro – Não quero que seja ela, mas as circunstâncias não me fazem pensar em outra coisa.
– Eles nem sabem de quem se trata, talvez não seja ela. – ela dá um sorriso tranquilizante.
Suspiro.
– Eles vão almoçar aqui? – mudo de assunto.
– Íamos sair para comer fora, quer ir? – ela acaricia minha bochecha.
– Pode ser.
Seu sorriso se alargar.
– Então vamos.
Coloco meu celular no bolso e vou para a varanda.
– Escutei sua conversa. – Felipe fica ao meu lado.
– O que tem? – encaro-o de canto de olho.
– Nada. – ele dá de ombros – Mas acho que também vi outra coisa interessante.
Estreito os olhos.
– O que você viu?
– Seu namorado saindo pela janela do seu quarto – ele dá um sorriso de canto -, bom nem sei se ele era seu namorado, para sair assim, tão furtivamente.
Passo os dentes por meu lábio inferior e respiro fundo.
– Não sei do que você está falando. – faço-me de desentendida – Não tenho namorado.
– Disso eu desconfiava – ele cruza os braços -, meninas do seu tipo mal lembram com quem andam transando, deve ser pela grande quantidade de caras.
– O que você está insinuando? – avanço em sua direção, fazendo-o recuar.
– Não estou insinuando nada. – ele sorri de canto.
Cerro os punhos.
– Olha aqui – me aproximo mais e sou interrompida por ele:
– Olha aqui você – ele rebate -, sei muito mais sobre você do que sabe sobre mim e muitas das coisas que eu sei sobre a boa menina aqui não seriam aprovadas pela sua avó, muito menos pelos seus pais.
– O que você sabe sobre mim? – sussurro entre dentes.
– Sei que anda fazendo ensaios sensuais por aí e dormindo com vários caras e que não tranca a janela do quarto.
– Não estou fazendo nada disso. – discordo.
– Minhas fotos dizem o contrário. – ele sorri, petulante.
Estreito os olhos. Fotos? Ele está me seguindo?
– O que tem suas fotos, Felipe? – Israel aparece na porta.
Congelo.
– Nada vô, só estava falando para a Bi sobre meu trabalho com fotografias e filmagens.
Trinco o maxilar.
– Ele adora essas coisas. – Israel comenta.
– Bem estranho – encaro Felipe -, digo, um menino de 16 anos deveria ter uma namorada e não fotografias.
Ele estreita os olhos.
– Ele não se dá muito bem com meninas. – Israel ri.
– Está explicado o porquê.
Ele ergue uma sobrancelha.
– Estão todos prontos? – vovó sai de casa.
– Não, acabei de lembrar que tenho um trabalho para a faculdade e preciso muito fazer.
– Jura? – ela me encara, com certa decepção.
– Desculpa estragar seus planos para o almoço.
– Tudo bem, íamos sem você mesmo. – Felipe interfere.
– Bom, se é tão urgente, eu trago algo para você. – ela desiste de trancar a porta.
Antes de ir até a porta, faço questão de trombar com Felipe.
– Desculpa mesmo. – abraço-a – Podemos marcar alguma outra coisa depois.
– Claro. – ela afaga minhas costas.
Afasto-me e seguro a porta. Espero eles entrarem no carro e só depois que eles partem, entro em casa.
Maldito. Como ele conseguiu tirar foto do ensaio? Como ele sabia do ensaio? Ele está me seguindo, é a única explicação. Desde quando está fazendo isso?
Bato na parede e respiro fundo. Não fiz nada de errado, não tenho que temer um imbecil como ele. Não posso mostrar que estou preocupada com sua ameaça ou abalada, é só agir como desentendida.
Minha vó surtaria se soubesse do ensaio e mais ainda sobre o Malic... Nem quero pensar em minha mãe, mas acho que minha mãe não iria se abalar tanto, só não tenho a mesma impressão em relação ao meu pai.
Vovó só retorna mais para o entardecer, o que me obrigou a fazer um almoço improvisado – mas ele foi recompensado pela janta que ela me trouxe. Pelo visto, Felipe não disse ou cogitou dizer nada a ela, tenho quase certeza que ele irá fazer chantagem.
– Fez o trabalho? – ela pergunta, sentando a minha frente na mesa.
– Fiz.
– E sua amiga? – ela inclina a cabeça.
Esqueci de procurar por ela, mas como Camila não retornou com nenhuma informação, acho que eles não a encontraram.
– Nada.
– Vocês vão achar ela. – ela garante.
– Se já não encontramos. – refiro-me ao corpo encontrado.
– Otimismo. – ela sorri.
Ultimamente o pessimismo tem sido mais lógico.
– Vá tomar banho e dormi. – ela fala enquanto levanta e vai para sala.
Depois que termino de comer, faço o que ela manda – sem antes dar uma rápida olhada nas redes sociais para saber mais sobre Juliana, no entanto não encontro nada, talvez eles ainda não tornaram o desaparecimento público. Após o banho, vou direto para cama e fico um tempo olhando para o teto. Não tranca a janela. É fácil escalar a parede de seu quarto. Levanto em um salto e corro até a janela, a trancando. Como ele sabe que não tranco minha janela? Esse moleque é esquisito.
O despertador toca, luto para abrir os olhos e levantar da cama. Bocejo e esfrego os olhos, por que estou tão cansada se fui dormir cedo?
Arrasto-me até o banheiro e escovo os dentes. Volto para o quarto e enrolo um pouco para colocar minha roupa. Posso sentir o cheiro de café enquanto desço as escadas. Bocejo novamente.
– Quero um copo. – sento à mesa.
– O certo é uma xícara. – ela sorri.
– Estou mais para uma garrafa. – sorrio.
– Dormiu mal?
– Acho que sim. – seguro o bocejo e esfrego os olhos. Merda, esqueci que passei rímel – Borrei?
– O quê? – ela me encara.
– Meu olho.
– Não.
Ela me entrega a xícara de café quente, aguardo uns minutos para tomar e para passar o tempo, fico encarando o líquido escuro e por um segundo, não me sinto em meu corpo, é como se eu estivesse vagando sem rumo por aí.
– Bianca, toma logo.
Desperto e dou um gole no café.
– Vai se atrasar. – ela diz colocando sua xícara na pia.
Dou mais alguns longos goles para terminar rápido e pego minhas coisas, dou um beijo de despedida nela e corro para o carro. Já estou atrasada.
Chego atrasada – só alguns minutos. Não consigo pegar uma carteira perto de Amiony, o que me impede de saber sobre Juliana. Deuses, o que está acontecendo comigo hoje?
A professora lê um texto de Baruch sobre afetos humanos e explica sobre alguns conceitos que ele acreditava e que diferem em nossa sociedade cristã.
– Então, com base nos dias atuais, vocês usariam os mesmos afetos? Deste mesmo modo retratado por ele? – ela pergunta e a classe inteira fica em silêncio – Se alguém não se pronunciar, irie escolher um voluntario.
Se ela escolher o voluntário, ele deixa de ser voluntário.
– Bianca. – a classe inteira me encara.
Escorrego na cadeira. Hoje não é meu dia.
– Você usaria? – ela me encara.
– Hm... Não.
– Justifique.
Respiro fundo.
– Porque suas concepções são empregadas em um mundo e em uma época diferente.
– Bom. – ela volta- se para a sala – Terminem os exercícios e teremos mais um voluntario.
Deito a cabeça na carteira.
Quando o sinal anuncia o lanche, vou direto para o prédio de engenharia esperar por Malic, preciso falar sobre Felipe e sobre o que devo fazer. Aguardo encostada na mureta. A porta é aberta e um fluxo considerável de estudantes começa a sair, tento localizar Malic. Só espero que ele não esteja matando aula.
O fluxo vai diminuindo e não tenho sinal dele. Só falta eu estar aqui de idiota. Quando considero ir embora atrás das meninas, ele sai acompanhado de um de seus amigos e uma menina, parecem discutir sobre algo escrito em uma folha que está na mão dela. Aceno para ele.
– A que devo sua estimável visita? – ele encosta ao meu lado.
– Temos um problema – resmungo -, na verdade, eu tenho um problema.
Ele pega um maço de cigarros do bolso.
– Não me diga que está grávida. – ele acende o cigarro e me encara.
– Credo.
Ele ri.
– Qual o seu problema? – ele traga o cigarro.
– O neto do namorado da minha vó está me chantageando.
– Como? – ele franze o cenho.
– Ele tem fotos do ensaio que eu fiz e de você saindo pela janela ontem.
– Ensaio? Que ensaio?
– Um trabalho que fiz para o Ruffles junto com as meninas. – falo, indiferente – Acontece que se minha vó souber, irá surtar.
– Melhor ela surtar sabendo por vó do que por ele. – ele dá outra tragada.
– Como assim?
– Conte tudo o que ele tem contra você para ela.
– Você é um gênio. – sussurro.
Ele dá um sorriso de lado.
– Contar até de você? – encaro-o.
– Qual o problema?
Dou de ombros.
– Vou ver se consigo as fotos com o Rafa e então vou contar tudo para ela, assim ele não terá como continuar com essa infantilidade.
– Quer dar um susto nele?
Ergo uma sobrancelha.
– Tenho uns amigos que podem ir na escola dele ou sei lá que horas que ele anda sozinho e darem um susto nele, tipo, ameaçarem dar uma surra nele se ele não parar com essa palhaçada de te perseguir.
– Ele mora na cidade. – encaro o chão – Só vem aqui de fim de semana.
– Sem problemas, pegamos ele no fim de semana.
– Acha que vai dar certo? – franzo o cenho – E se ele der queixa na polícia?
– Se o susto for bem dado, ele irá correr para a mamãe e não para o polícia.
– Posso considerar sua ideia. – comento.
– Só me avisar.
Desencosto da mureta e fico de frente para ele.
– Você vai destruir o seu pulmão. – retiro o cigarro de sua mão e jogo-o no chão, pisando em cima.
– Era o último. – ele lamenta.
Seguro seu rosto entre minhas mãos e deposito um leve beijo em seus lábios.
– Preciso ir. – afasto-me – Sem cigarros.
– E maconha? – ele ri.
Rio.
– Sem qualquer tipo de droga pela manhã, entendeu?
– Sim, senhora.
Volto para o pátio onde as meninas costumam ficar e não me surpreendo em encontra-las no mesmo banco. Elas estão eufóricas, como se brigassem com alguém. Ao me aproximar, noto Juliana no meio do grupo e dos gritos, automaticamente, um peso saí de minhas costas e consciência.
– Onde você estava? – me aproxima.
– Dando a bunda. – Monique resmunga – Quase matou a gente do coração, idiota.
– Já pedi desculpa, pessoal, podem desculpar? – ela nos encara.
– Não. – falamos em uníssono.
– Estava quase contratando a funerária. – Coraline comenta – Já até tinha visto modelos de caixão.
Rio.
– Não é pra tanto. – Juliana discorda.
– Não seria se o corpo não tivesse sido encontrado. – Camila discorda.
– Coincidências. – Juliana revira os olhos – Sei me cuidar.
– Só não faça isso, não há dificuldade nenhuma em atender ou retornar as amigas. – repreendo-a.
– Tudo bem, vamos mudar de assunto? – ela passa a mão no cabelo.
Sento ao seu lado no banco.
– Onde você estava? – Amiony me encara.
Limpo a garganta.
– Fui lavar o rosto. – dou de ombros – Estava morrendo de sono.
– Está cheirando a cigarro. – Juliana estreita os olhos.
– Você está fumando? – Camila arregala os olhos.
– Claro que não! – encaro-as – Tinha um pessoal fumando perto da entrada do prédio e eu passei por eles.
– Estou de olho em você. – Camila estreita os olhos.
– Olha isso. – Amiony nos mostra seu pão-de-queijo – Está duro igual pedra. Se eu tacar isso na cabeça de alguém mata.
– Taca na cabeça dessa anta. – Monique se refere a Juliana.
Sorrio.
– Podemos começar a guardar a comida da cantina na bolsa, assim se o Lobo nos atacar, é só tacar na cabeça dele e sair correndo. – Coraline comenta.
Rio.
Abstraio-me da conversa delas sobre comida e olho para a quadra onde o pessoal da educação física termina uma atividade. Perto da quadra há um pequeno banheiro feminino e masculino – para evitar que os alunos entrem na quadra e atrapalhem a aula. A primeira vez que vim aqui, não o tinha notado ali.
Encaro a porta distraidamente até que ela abre e de lá sai um menino usando uma blusa moletom azul marinho com capuz.
– Vocês viram? – levanto e o observo caminhar tranquilamente, como se não fosse notado por ninguém – Um menino acabou de sair do banheiro feminino.
– Deve ser um desses casais tarados que não querem gastar com motel. – Monique dá de ombros.
– Mas ele saiu sozinho.
– Daqui a pouco a menina sai. – ela continua indiferente.
Ele segura alguma coisa na mão, escondendo na parte de dentro do moletom.
– Vou atrás dele. – comento.
– Bianca, para de ser estranha, vai estragar o clima deles. – Monique fala.
– Então vamos lá olhar no banheiro, pra se tem alguma menina. – rebato.
– Eu vou com ela. – Camila se voluntaria.
O menino caminha para a parte de trás do prédio principal.

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