Diga Adeus à Inocência
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Chego mais perto e apoio minha cabeça em seu ombro. Gosto do cheiro dele, gosto do corpo dele, gosto de suas tatuagens, gosto de seus olhos, gosto de sua presença, gosto dele.
Posso escutar os passos da minha mãe vindo e indo, com certeza ela deve estar vindo nos espiar e voltar a contar tudo o que está vendo para a minha vó.
– Quer ficar para o jantar? – pergunto em um sussurro – Será sopa.
– Posso fazer esse sacrifício. – ele dá um sorriso de lado.
Malic é a última pessoa por quem eu esperava hoje, é bom saber que ele não me esquecer. Contorno o diamante que ele tem no pescoço.
– Por que você parou de falar comigo? – sussurro.
– Porque você não queria nada comigo. – ele vira para me encarar.
– Não quero nada sério, mas isso não quer dizer que não quero nada com você. – retruco.
– Comigo a coisa é séria ou não é nada. – ele replica.
Os olhos amarelos me encaram com intensidade, o que me causa arrepios por toda a minha espinha. Minhas bochechas esquentam até a ponta de minhas orelhas e posso sentir meu pescoço engrossar. O que eu respondo? Não posso responder qualquer coisa, não quero parecer grossa ou indelicada. Abro a boca para responder, mas fecho-a por falta de palavras. Pensa Bianca, pensa!
– Bi, outra visita. – mamãe avisa – Ele não quer entrar.
Ele?
Malic se afasta para me deixar sair e senta no sofá, acompanho seu movimento e encaro a porta. Quem poderia ser? Todos os meus amigos vieram me visitar hoje na hora do almoço. Levanto e levo o cobertor comigo, caminho vagarosamente até a porta e dou de cara com Matthew. Menos ele...
– Oi. – sorrio.
– Como você está? – ele me entrega um jornal.
– Respirando e você? – abro o jornal e me deparo com a foto da primeira página. Sou eu. Com a mão no rosto e a camiseta ensanguentada, o título da matéria é “ vermelho purpura” e o conteúdo fala apenas do assassinato, de meu feito “glorioso” e das ligações com o Lobo Mau. Suspiro.
– Não passei antes porque tinha que ajudar o meu pai. – ele se explica – Desculpa.
– Não precisa se desculpar. – devolvo o jornal – Nem precisa ter vindo.
– Minha amiga é a sobrevivente da cidade e eu não viria? Por favor. – ele sorri.
– Sobrevivente. – reviro os olhos – Preferia ter morrido.
– Ei, não diga isso. – ele ajeita o coberto em meus ombros carinhosamente – Não gostaria de ir ao seu enterro, prefiro muito mais a varanda da sua casa.
– E eu prefiro não ter ficado para tirar dúvidas ontem. – suspiro – Às vezes acho que ele fez de propósito, sabe? Fez isso para me deixar louca, brincar comigo, me fazer chegar ao meu limite.
– Acho que você está inventando a sua própria paranoia. – ele rebate- Se fosse para ter morrido, você já estava degolada, mas ele te deu uma chance.
– É exatamente isso – encaro- o – Ele deu uma chance a mim e não a mulher.
É como se ele estivesse mostrando que seu título de Deus, escolhendo quem irá morrer e quem ficará para “contar a história”. Se ele queria tanta matar, faria duas vítimas naquela noite, mas fez apenas uma, o que aumenta mais o seu ego e confiança no que está fazendo. Sabe o que está fazendo, como fazer e onde fazer.
Matthew revira os grandes olhos verdes.
– Pare de pensar nisso. – ele resmunga – Sei que deve ser a maior barra, mas desencana um pouco. Você pode estar aumentando os fatos, talvez ele nem tenha visto a sua cara, os jornais não dizem o seu nome, ele não sabe quem você é, as chances de vocês se cruzarem de novo são mínimas. Considere o ditado: um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Encaro-o sem nada a dizer. Por que é tão difícil das pessoas entendem o que eu estou sentindo? Não estou me fazendo de vítima ou querendo ser a donzela em perigo. Isso é real, esse cara é real e profissional, tudo o que ele faz é calculado e pensado. Se ele me deixou viva, é porque sabe o que está fazendo.
Escuto minha mãe conversar com Malic e perguntar se ele quer comer. Arregalo os olhos e encaro Matthew. Limpo a garganta.
– Você quer jantar? – mordo o lábio inferior.
– Sim, por favor.
Sorrio e dou passagem para ele entrar.
– Mãe, coloca mais um prato na mesa. – anuncio trancando a porta.
Matthew tromba com Malic no pequeno hall de entrada. Intercalo olhares entre os dois.
– Esse é o Malic. – apresento-o a Matthew.
– Eu já o conheço. – ele responde rispidamente.
Malic fecha a cara e não diz nada.
– Vamos jantar. – empurro gentilmente as costas de Matthew até a sala de jantar.
A mesa já está posta, largo o meu cobertor na cozinha e sento no meio dos dois. Mamãe serve a sopa enquanto minha vó corta os pães, Matthew em uma ação solidário vai ajudá-la enquanto Malic vai distribuindo os pratos preenchidos com sopa, sou a única inútil da casa. Todos sentam em silêncio.
– Você faz algum esporte? – minha mãe encara Malic.
– Basquete, sou do time da faculdade. – ele informa.
Não sabia que Malic fazia esporte, acabei de descobrir que não sei nada sobre ele.
– E você? – ela encara Matthew.
– Faço futebol fora da faculdade. – ele pega um pedaço de pão.
Não sei nada sobre nenhum dos dois.
– Quantos anos vocês têm? – ela lança um olhar rápido pra mim.
– 20.
– 19.
Eles respondem em uníssono.
– Então vocês já dirigem. – ela deduz.
– Prefiro andar a pé. – Matthew informa – A cidade é pequena, em pouco passos você já andou por ela inteira.
Minha mãe concorda com um riso.
– Você namora? – minha vó encara Matthew.
– Não. – ele sorri – Não penso em namorar no momento.
– E por que não? – ela pergunta, curiosa – Você está na melhor idade para namoro.
– Não encontrei a menina que valha o esforço. – ele lança uma piscadela para ela, arrancando-lhe um riso.
– Você está quieta. – Malic me encara.
– Gosto de observar. – dou de ombros – Está gostando da sopa?
– Sim.
Ergo o olhar para a janela e me perco na escuridão e no balanço das folhas das árvores. É tão estranho essa confiança que os moradores de cidades pequenas têm. Morar sem portão ou moro, no meio da mata, sozinhos. Acho que jamais moraria aqui sozinha. Vejo um vulto passar pela janela.
Paraliso e meu coração dispara, ele para em frente à janela e me encara. Não consigo ver seu rosto.
Grito e levanto da cadeira em um salto, tropeço em meus pés e caio no chão de joelho. Todos levantam exaltados. Malic envolve meus ombros com a mão e me ergue do chão.
Olho novamente para a janela e não vejo mais ninguém. Outra alucinação?
Minhas mãos e pernas tremem, não tenho estabilidade. Posso escutar as perguntas que estão me sendo feitas, mas ignoro todas, continuo olhando para a janela.
– Vi alguém na janela. – falo com voz trêmula – Tinha alguém do lado de fora me olhando.
Todos olham para a janela.
– Mas ele sumiu. – sussurro.
– Deve ser outra alucinação. – minha vó se aproxima de mim – Vamos para sala.
– Não foi. – garanto – Tinha alguém de verdade lá.
Não sou louca.
– Posso dar uma olhada. – Malic sugere.
– Eu vou com você. – minha mãe pega a chave e pesca uma lanterna nas gavetas da cozinha.
– Vamos. – Matthew envolve meus ombros e me leva até a sala.
Vovó, mamãe e Malic saem da casa.
Sentamos no sofá lado a lado e permanecemos em silêncio.
– Você não me acha louca, acha? – murmuro.
– Não. – ele sorri gentilmente – Só está em choque.
– Mas tinha uma pessoa lá. – garanto.
A pior parte de ter passado por um trauma e este reflete em sua saúde psicológica é que todos começam a duvidar de sua sanidade.
Os três voltam murmurando alguma coisa.
– Encontraram?
– Sim. – Malic caminha até a sala – Era um repórter.
Reviro os olhos. Quase morri do coração por causa de um repórter.
– O que ele queria?
– Estava tentando descobrir quem era a menina do jornal e fazer uma entrevista, sua mãe disse que você não se encontra em condições para uma entrevista e pediu para ele ir embora. – ele dá de ombros – O pior é que agora eles descobriram onde você mora.
Merda. Agora eles não vão mais sair daqui.
– Bom, já vou indo. – Matthew levanta – Melhoras.
Dou um rápido sorriso.
– É, acho que já vou indo também. – Malic beija a minha testa e segue Matthew até a porta.
Mamãe abre a porta para os dois e assim que eles saem, tranca.
– Prefiro o de olhos verdes. – ela comenta sorrindo.
– Mas sua filha gosta do rabiscado. – vovó comenta vindo até a sala.
– Sério? – minha mãe ri.
– Não vou com a cara dele.
– Não prefiro ninguém. – discordo do comentário de minha vó – Somos todos amigos.
– Como se fosse possível ser apenas amiga de garotos como eles. – minha mãe ri.
Reviro olhos.
– Apenas amigos. – insisto.
As duas sentam lado a lado e começam a conversar sobre o capítulo da novela. Volto a olhar por todas as janelas da sala.
***
Uma semana se passou. Não a vi passar direito, não sai de casa em nenhum dos dias – havia repórteres acampando em nosso jardim e minha mãe teve que chamar a polícia inúmeras vezes para retirá-los daqui. Resolvemos que já está na hora de voltar para a rotina e esquecer o que aconteceu.
Minha mãe precisou voltar para casa por causa do trabalho e eu tenho que voltar para a minha faculdade, só falta um pouco de ânimo.
Pego minha mochila e as chaves do carro, dou mais uma olhada no espelho e pego uma fruta na cozinha.
– Vá com cuidado. – minha vó abre a porta para mim – Liga se precisar de qualquer coisa.
– Pode deixar. – sorrio e saio.
Há alguns repórteres no jardim e assim que eles olham para mim, correm. Arregalo os olhos e corro para o carro.
– Vocês são muito atrevidos! – escuto minha vó gritar – Se não forem embora agora, vou quebrar as minhas vassouras na cabeça de cada um!
Rio. Entro no carro quase em um salto e respiro fundo. Os flashes das câmeras não me deixam ver direito. Posso escutar as ameaças abafadas de minha vó com sua vassoura, o que os afasta um pouco. Ligo o carro e engato a ré.
Paro algumas ruas antes da faculdade e termino o caminho a pé, noto que há mais repórteres na porta de minha faculdade. Suspiro. Nunca vou conseguir fugir deles? Parece que eles se multiplicam como um vírus em seu hospedeiro.
Coloco minha mochila em frente ao rosto e corro, empurrando-os de minha frente. Os seguranças da faculdade não permitem que eles atravessem o portão, o que me deixa respirar. O pátio está vazio e todos me encaram, tento ignorar os olhares e murmúrios e procurar pelos meus amigos.
Algumas pessoas começam a se aproximar de mim, lançando perguntas em uníssonos e formando um círculo a minha volta. Não consigo pensar nas respostas ou saber quem está perguntando, as palavras vêm de todos os lados a cada segundo e número de olhos em cima de mim aumenta. Procuro por uma saída.
– Não vou responder nada! – grito – Não sei de nada!
E então de perguntas, passaram para insultos. Insultos com base em minha reação durante o assassinato e sobre minhas respostas, acusações por não ter ajudado a mulher e não querer falar com ninguém. Todos me bombardeiam de todos os lados.
– Por favor. – suplico e meus olhos se enchem de lágrimas.
Algumas bolinhas de papel voam contra o meu rosto e alguns lixos também. Olho em volta e não vejo outra saída senão empurrar as pessoas que me cercam. Defendo meu rosto com os braços dos objetos que são jogadas contra mim e bato de frente com algumas pessoas ao meu lado. Continuo insistindo em sair e vou conseguindo pequenas brechas. Gritos me ensurdecem e parece chover papel em cima de mim.
Finalmente consigo sair da roda. Corro em direção ao prédio principal, procuro pelo banheiro mais próximo quando meu braço é agarrado.
– Me deixe em paz! – grito virando e acertando um tapa na pessoa que me segura, quando noto que é Malic – Ah meu deus... Desculpa, pensei que era alguém... Machucou? .... Me desculpe mesmo.
– Não foi nada.
– Podemos ir para outro lugar? – pergunto – Estou em fuga.
Ele segura em minha mão e me guia pelos corredores até parar em frente a porta. Entro e noto que é uma sala de aula.
– Não podemos ficar aqui. – pondero em um sussurro.
– Essa sala está desativada. – ele informa, fechando a porta.
Jogo minha mochila no chão e passo a mão no rosto.
– Não estou aguentando mais, as pessoas estão me julgando como se eu fosse a assassina, minha vó acho que estou tendo delírios e não consigo mais pensar sem lembrar daquela mulher. – desabafo – Estou ficando louca.
Ele não diz nada, apenas se aproxima da mesa do professor e senta.
– Eles querem respostas, dê as malditas respostas.
Encaro-o.
– As pessoas querem saber como ele era e se falou comigo. Mas eu não o vi, não falei com ele, não adianta, não sei quem ele é!
Ele batuca os dedos na mesa.
– Conte.
– Contar o que? – franzo o cenho.
– A sua história. – ele dá um sorriso de lado.
– Que história?
– Do dia do assassinato. – ele diz, óbvio – Conte o que viu e fantasie um pouco.
– Não estou entendo você.
– Bianca, tudo o que essas pessoas querem são respostas para, numa tentativa inútil, minimizar o medo que elas têm. Você é a resposta delas e é lógico que elas vão atacá-la, por isso conte uma história. Conte tudo o que aconteceu naquela noite, não pule nenhuma informação e como você não o viu, deixo-o com um quê de suspense assassino. Seja a Branca de Neve que fugiu do Lobo Mau.
– Branca de Neve?
– Não é ela que vai ver a vovozinha lá? – ele franze o cenho.
Rio.
– Chapeuzinho Vermelho. – corrijo-o.
– Ah tanto faz, tudo a mesma merda. – ele resmunga sorrindo.
Encaro o chão e repasso o que ele me falou. Contar a história sob o meu ponto de vista... Talvez resolva a situação, tudo o que as pessoas querem é saber o que aconteceu naquela viela.
– Seja a Chapeuzinho que não foi engolida pelo Lobo Mau. – ele completa, debruçando sobre a mesa.

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