Diga Adeus à Inocência
2 Capítulo 1
Notas iniciais
As chances de você passar em uma boa faculdade são mínimas, mas se você tiver um bom esforço e tirar o tempo apenas para estudar pro vestibular, talvez as chances mínimas passam a ser consideráveis. E agora, quais são as chances de você passar em uma faculdade na cidade da sua avó? Mais mínimas ainda. Minhas 14 horas de estudo diários serviram para alguma coisa e ainda nem vou gastar com aluguel, tenho a casa da minha avó.
Prendo meu cabelo em um rabo de cavalo e desço do carro. Como assim a estrada está interditada? Eles deviam ter avisado isso a uns quilômetros atrás, pego meu celular e disco para a casa de minha avó.
– Alô? – o telefone para de chamar, mas ninguém responde – Vó?
– Bianca? – ela finalmente diz alguma coisa.
– Sim. – sorrio – Estou com um problema na estrada.
– Que tipo de problema?
– Não se preocupe, não é nada grave. – encosto no carro – A ponte está interditada e tive que parar aqui no meio do caminho. O que eu faço?
– Você está perto da ponte?
– Na frente dela.
– Encoste o carro e tranque. – ela aconselha – Pegue a trilha e siga para cá.
– Trilha? – franzo o cenho – Não quero deixar meu carro aqui.
– É o único jeito de atravessar.
Cidade ridícula, onde já se viu ter apenas um jeito de passar de carro?
– Não vou deixar meu carro e não vou caminhar quilômetros. – resmungo.
– Então passe a noite ai.
Reviro os olhos.
– E se tiver algum maníaco nesse mato, o que eu faço?
– Não se preocupe, a cara feia que você deve estar fazendo já é o suficiente para assusta-lo. – ela ri.
– Vó! – repreendo-a.
– Não se preocupe, não há nada nessa trilha,
– Essa é a questão. – contraio os lábios. Sempre onde não tem nada há um problema sério.
– Você quer caminhar falando comigo? – ela sugere – Assim se o lobo mau aparecer, você tem pra quem gritar.
– Lobo mau? – rio – É sério isso? Não sou mais criança para ter medo do lobo mau.
– Isso já me deixa um pouco mais tranquila. – ela brinca.
– Tá – concordo -, vou caminhar falando com você.
Deixo a chamada em espera para estacionar e trancar o carro, como a cidade é pequena acho que não vejo problema em deixar ele aqui por uma noite, amanhã de manhã eu volto para pega-lo ou sei lá, coloco no estacionamento da cidade. Procuro a entrada da trilha que é ditada pela minha avó.
– Então, já viu a faculdade? – ela puxa assunto.
– Vi sim, é muito bonita. – desvio de um galho – Acho que vou me dar bem.
– É claro que você vai se dar bem. – ela garante – E o namorado?
– Os estudos? Ah, demos um tempo, precisa tirar umas férias e relaxar, ele me estressou muito. – brinco.
– Estou falando de garotos e não de livros. – ela resmunga.
– Nada, acho que não sou o tipo de garota para namorar garotos.
– Então, como vai a namorada? – posso sentir seu sorriso.
– Vai bem, estamos pensando em morar juntas depois da formatura, adotar uma criança e viver feliz até a idade avançada.
– Vocês têm planos lindos, eu apoio.
– Ah que bom.
Rimos.
Escuto um barulho de serra elétrica e logo depois o estralo da madeira quebrando. Um galo cai a poucos centímetros de mim. Suprimo um grito e olho em volta.
– Bianca, o que aconteceu? – a entonação de minha avó é de preocupação.
– Tem alguma madeireira trabalhando aqui? – pergunto, baixo.
– Não que eu saiba.
Gelo. Tenho ânsia de medo e vontade de sair correndo. Olho em volta mais uma vez e começo a caminhar, quando volto a olhar para a frente dou de cara com um homem... menino... madeireiro, não sei o que ele é. Grito e quase deixo o celular cair.
– Bianca?!
– Está tudo bem vó. – eu acho.
Afasto o telefone do rosto e encaro o garoto.
– O galho podia ter caído na sua cabeça. – ele comenta.
Dou um sorriso amarelo.
– Sim. – olho para o chão.
– Irei fazer um belo estrago. – ele me encara.
Engulo em seco.
– Acho que sim. – dou de ombros.
– O que está fazendo aqui? – ele inclina a cabeça – Sozinha?
– N-não estou sozinha – dou um sorriso tremulo -, estou com minha avó no telefone.
– Claro. – ele olha para o celular.
Ele está usando um macacão laranja e um capacete, talvez seja ele quem estava usando a serra elétrica. Tem olhos verde, alto e forte.
– Está indo para a casa dela? – ele questiona.
–Hm.. Sim, mas vou encontrar uma amiga antes. – minto – Ela está me esperando.
– Certo. – ele me encara.
– Certo. – forço um sorriso.
Volto a caminhar e desvio dele, ele continua de costas para mim. Sem pensar duas vezes, disparo. Corro o mais rápido que consigo e coloco o telefone na orelha de novo.
– Vó, aconteceu uma coisa muita estranha.
Ela fica muda.
– Vó!
Merda! A ligação caiu. Continuo correndo, guardo o celular no bolso da frente da calça e corro mais rápido. Escuto barulhos de passos vindo da mata, meu coração sobe na boca e minhas pernas ficam moles. Começo a considerar a hipótese do lobo mau.
Vejo um vulto sair da mata. Não tenho tempo de parar. Trombamos. Caio no chão. Tenho vontade de vomitar. Minha visão fica turva.
– Você não devia correr tão rápido. – mãos fortes me erguem do chão.
– Por favor. – focalizo melhor minha visão e vejo que é outro garoto. Ele tem um cigarro entre os lábios e tatuagens pelos braços – Desculpa, te confundi com outra pessoa.
– Qual o motivo do desespero? – ele dá uma tragada no cigarro e ergue uma sobrancelha.
– Só pressa mesmo. – dou uma rápida olhada pra trás.
Ele parece ser um pouco maior que o outro menino que encontrei, pele clara e coberta por tatuagens. Ombros largos e cabelos castanhos escuros, olhos mel amarelados. Traja uma regata colada ao corpo preta e uma calça jeans caída nos quadris.
– Sou Malic. – ele se apresenta.
– Bianca. – dou um mínimo sorriso.
– É nova aqui? – ele começa a caminhar.
– Depende do ponto de vista. – caminho ao seu lado.
Ele ergue uma sobrancelha.
– Minha vó mora aqui e eu passei na faculdade federal da cidade, então vim morar com ela. – explico.
– Deixa eu adivinhar – ele me encara de rabo de olho -, está indo para casa dela.
Sorrio.
– Você é um ótimo adivinhador.
– Obrigado. – ele se gaba.
– O que faz aqui? – questiono.
Ele mostra o cigarro.
– Fumando. – ele dá de ombros.
– Por que fumar dentro de uma mata? – franzo o cenho.
– Quando você fuma algum ilícito, não quer xeretas olhando. – ele lança uma piscadela.
Maconha?
– Então a mata é seu esconderijo. – deduzo.
– Você nem imagina. – ele dá um sorriso de lado.
Olho para trás mais uma vez.
– Do que está fugindo? – ele estreita os olhos.
Do lobo mau. Sorrio com o pensamento.
– De um menino muito estranho que encontrei. – informo.
– É o Matthew – ele dá de ombros -, ele é estranho assim mesmo, não se assuste.
Maneio a cabeça positivamente. Ele passa o braço por meu ombro e dá mais uma tragada no cigarro.
– Relaxe, Angel, a única coisa que ruim que temos aqui, no momento, é minha maconha. – ele sorri.
Olho para chão. Não sei, mas não tive uma boa impressão de Matthew, ele não me pareceu ser tão inofensivo assim. Aqueles olhos verdes são frios demais para pertencerem a alguém sã, alguma coisa estranha ele, nisso eu aposto.
Coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha.
– Angel? – encaro-o.
– Meu apelido pra você, gosto de apelidar as coisas. – ele me encara, seus olhos amarelados tem um brilho voraz.
– Gostei do apelido.
Angel.
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