Differences
2 Filho do Amor
Notas iniciais
Soul Society
– É que nem penses nisso baixinha!
– Deixa de ser baka Ichigo!
– De certeza que não chamas o Renji de baka!
– Outra crise de ciúmes!?
– MAS QUEM É QUE AQUI ESTÁ COM CIÚMES?
– Uhun… Que barulheira logo de manhã. Estes dois são sempre os mesmos…– Um ruivo com aproximadamente doze anos, espreguiçava-se preguiçosamente. Esfregava os olhos, tentando adaptar-se à claridade da divisão. Arranjou coragem para levantar-se da cama e foi tomar um banho, e vestiu o seu traje negro de shinigami. Olhou-se ao espelho, viu os seus cabelos ruivos bagunçados, por muito que os penteasse nunca deixavam de ser rebeldes. Os seus olhos lilases escuros, muito mais que os de sua mãe. Mãe… Lembrou-se que todas as manhãs era a mesma coisa. Decidiu descer para tomar o pequeno-almoço, não podia chegar tarde à academia.
Todos os dias seus pais discutiam. Se não conhecesse seus pais, diria ser uma crise complicada. Mas na realidade, aquilo era rotina. Todos os dias eles discutiam por disparates, e até ele que era uma criança conseguia enxergar isso. Ele não era tão briguento que nem seus pais, era muito mais calmo. A maior semelhança que ele poderia ter com um dos seus pais, era o jeito desinteressado que obteve da génese de Kurosaki Ichigo. Ele era alheio praticamente a tudo, sempre com a sua cara de sono, mas ao contrário de seu pai, ele era perspicaz e observador como Rukia o ensinou. Ele não ligava para as coisas, mas isso não queria dizer que fosse estúpido e que não as percebesse, muito pelo contrário.
Ao chegar à cozinha, via os seus pais, cada um virando para um canto, o mais afastados possíveis um do outro, sem se falarem. Que infantis. Suspirou o jovem, sentando-se à mesa.
– Ohayo... Okaasan, Otousan. – Cumprimentou o ruivo sem interesse.
– Ohayo Aiko-kun! – Rukia respondeu com um belo sorriso para seu filho que se limitou a acenar.
– Yo filho. Hoje é o primeiro dia da academia não é? – Ichigo ficou com um olhar malicioso- Ouvi dizer que este ano há muitas mais shinigamis, e mais bonitas.
Aiko ouviu o seu pai sem qualquer ânimo. Não que não gostasse de ser shinigami e não tivesse empolgado para aprender coisas novas na academia. Mas odiava a hipocrisia entre os estudantes. Aqueles que se consideravam superiores por serem nobres ou aquelas mulheres que praticamente se esfregam nele por ser filho do capitão que salvou o Gotei 13 inúmeras vezes e por ser membro da família Kuchiki.
Rukia quase esganou o marido pela segunda vez naquele dia. Se o olhar matasse, a esta hora Ichigo estaria morto.
– É esses os concelhos que dás ao teu filho? Eu não quero o meu Aiko com qualquer uma não… Ela tem de ser especial, inteligente… Não é só pelo corpo Kurosaki Ichigo. – Ferrou. Quando a mãe o tratava pelo apelido e nome, a situação ficava feia. Mas era obrigado a concordar silenciosamente com a pequena shinigami. Ele não queria uma qualquer, por muito bonita que fosse. Não iria escolher alguém para ter uns bons momentos, uns bons amassos e depois nem conseguir ter uma conversa direito com ela. Queria alguém que preenchesse as suas necessidades. E isso não é possível só pelo físico. Ele queria alguém para conversar, uma amiga… Uma companheira para os maus momentos.
– O que queres dizer com isso? Que sou um mau pai!? – O ruivo mais velho começou a berrar.
Aiko suspirou. Iam voltar a brigar e ele saiu antes que fosse metido no meio daquela confusão. Não tinha paciência para essas coisas.
Estava numa aula de magia. Falavam sobre kidou. E agora teriam uma aula prática, ao ar livre. Teriam de executar um kidou que soubessem, à escolha. Seriam avaliadas as suas capacidades. Ao chegar a sua vez não deixou de reparar em olhares maliciosos direccionados a ele, mas ignorava-os. Recusava-se a cair naqueles jogos de sedução passageiros.
– Limite de milhares, incapaz de tocar nas trevas, tiro a mão para reflectir o seu azul, a estrada que aquece nas luzes, o vento que inflama as brasas, e o tempo que nos reúne. Quando todos ouçam minha ordem, bala de luz, oito corpos, nove itens, livro dos céus, tesouro mórbido, grande roda, torre da fortaleza cinza, objectivo longe de dispersão luminosa e limpa quando accionada! Hadou nº91, Senjyu Kouten Taihou! – Muitos arregalaram os olhos de puro espanto. Dentro desses estava incluído o professor. Como ele podia conseguia fazer aquele kidou? O hadou consiste em reunir o máximo de energia espiritual formando inúmeras esferas de energia, que vão em direção ao inimigo e explodem simultaneamente. Criava um dano massivo, a quantidade deste é baseada na reiatsu. Ou seja, quanto maior a reiatsu do adversário, maior o dano. O local ficou dizimado. Ele voltou para o seu lugar, ignorando quer os olhares encantados, quer os invejosos.
Quando o horário terminou, retomou para casa pensando no que iria fazer. Treinar? Ultimamente ele tinha feito só isso… Projectos com seus pais? Gostara da ideia, mas o mais certo era isso não acontecer. Ter um pai capitão e uma mãe tenente não era fácil. Eram pouco comum vê-los em casa. Ou estavam nos respectivos esquadrões ou em missões fora da sociedade das almas. Suspirou. Olhava para o céu, melancolicamente. Gostava de ter mais amigos… Mas ele não se enquadrava com o pessoal da academia. Não que tivesse problemas com eles.
Ouviu alguém chamá-lo e olhou para trás.
– Aiko-san, desculpe esqueci de dizer-lhe uma coisa…– Era o seu professor que lhe entregava o papel. Levantou uma sobrancelha, desconfiado. Ao abri-lo e lê-lo não ficou muito surpreendido com o que leu. – Parabéns rapaz, foste aceite num esquadrão. Aí estão as propostas para decidires qual é o melhor esquadrão. – O professor ria para ele, nitidamente orgulhoso.
– Escolho o décimo esquadrão. – Disse, ignorando o olhar chocado do homem à sua frente.
– Mas esse não é o esquadrão de seu pai, nem de sua mãe… É o do…
– Hitsugaya Toushirou. Eu sei. – Interrompi antes que fizesse o seu discurso. Eu queria passar de facto mais tempo com os meus pais, mas era como família, e não como capitão ou tenente. No esquadrão tem de haver regras, disciplina. Ou seja, não havia tempo para familiaridades. Não havia filho ou pai, era subordinado e capitão. Nada mais.
Mas ele até que gostava do esquadrão do albino. Conhecia o capitão, afinal era seu tio. Desde que casara com Kurosaki Karin, corrigindo Hitsugaya Karin. O capitão de gelo era forte, e era uma coisa que seu pai não era: trabalhador, responsável, organizado… Ups, afinal era mais que uma coisa.
Tinha a certeza que iria gostar do ambiente onde estaria. Sorriu ao pensar nisso, indo em direcção para casa, imaginando como seria a sua vida dali para a frente.
Estava tão distraído nos seus pensamentos que foi contra uma senhora de idade. O seu rosto assumiu uma expressão preocupada.
– A senhora está bem? Magoei-a? Gomenasai, eu…-
– Iee, não te preocupes meu jovem. – A senhora riu com a exagerada preocupação, Aiko ao ver a senhora rir, acabou também por relaxar e retribuir com um sorriso. Ela olhou para ele, analisando-o por leves segundos.- Vou-te dar um concelho menino. Gostei de ti, por isso vou dizer-te algo que te será importante no futuro… Quando tiveres namorada, porque eu sei que neste momento não estás interessado em ninguém... – Ele ficou surpreso pela dedução da senhora e ia perguntar como ela sabia, mas ela interrompe-o – Eu já sou velha, sei muita coisa por conta da experiência. Se queres sobreviver tens que aprender com a vida… Mas isso agora não importa. – Ela olhou séria, e ele percebeu que deveria anotar cada palavra dela- Uma mulher gosta de equilíbrio. Ela não vai querer só carinho. Ela vai querer também ver o teu lado mais malandro… – A senhora riu de leve com o seu próprio comentário, parecia perdida em lembranças, e aí assumiu um ar melancólico- … Ela não vai querer estar sempre ao teu lado, também vai precisar do seu próprio espaço… Por vezes vai querer que tu só apertes a sua mão, mas noutras vai querer que tu a segures fortemente na cintura. Cada gesto tem o seu determinado momento, e cabe-te a ti desvendar a que hora deves ou não qual deles usar. – A senhora colocou a sua mãe enrugada em cima da mão do ruivo, deixando uma carícia sem jeito. Com um sorriso no rosto ela voltou para o seu caminho. Enquanto Aiko ficava parado no mesmo sítio, pensando sobre a veracidade daquelas palavras.
Fechou os olhos, sentindo uma brisa fresca no seu rosto, sussurrando perdidamente.
– Tudo tem o seu tempo…
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