Diferentes idades
17 A tua mãe não é mesmo tua mãe
Notas iniciais
Chegou uma nova visita, uma que já não via há muito tempo.
— Minha sobrinha! Como tive saudades tuas! E como me deixaste preocupada!
A minha tia sentou-se na cadeira das visitas, respirou fundo e deixou os ombros descaírem, como se tivesse sido derrotada.
— Nós estávamos tão perto e mal falávamos! Eu fui tão estúpida! Como não vi que precisavas de uma amiga!? Será que me podes perdoar?
Ficou em silêncio por algum tempo, ficou a mirar-me com muita atenção. Gostava de poder saber o que pensava.
— Eu tive uma amiga que esteve em coma e ela disse-me que conseguia ouvir e ver as pessoas que iam visitá-la. Todos pensaram que fosse louca, mas ela lembrava-se exatamente do que as pessoas lhe diziam. Por isso… eu acredito que me ouves e tenho algo muito importante para te dizer…
Comecei a pensar que talvez eu não quisesse saber o que era.
— Vamos começar pelo princípio… a tua mãe… não é na verdade a tua mãe.
Sentei-me no chão e encostei-me à cama, não vinha aí coisa boa.
— A tua mãe teve uma gravidez falsa contigo… quem esteve mesmo grávida fui eu. Eu sempre gostei do teu pai… e eu, a tua mãe — ele fez aspas com os dedos — o teu pai e um amigo do teu pai fomos jantar fora. Eu e o teu pai bebemos muito, por isso a tua mãe foi nos deixar em casa e depois foi levar o amigo. Nós acabamos por nos envolver… a tua mãe chegou e eu já tinha ido para a minha própria casa. Três meses depois eu vim a descobrir que estava grávida. Eu e o teu pai tivemos uma longa conversa que levou a uma longa conversa com a tua mãe.
— E ela foi capaz de vós perdoar? – Perguntei baixinho não à minha tia, mas a mim mesma.
— Chegámos ao consenso de que quem iria ficar contigo eram os teus pais. Eu iria afastar-me enquanto estivesse grávida e a tua mãe iria ter uma gravidez falsa, para que ninguém soubesse que o filho era meu. A nossa família nunca iria aceitar isso. Quando nasceste… foi o melhor e o pior dia da minha vida. Tu eras tão linda, tão pequenina e… eras uma parte de mim, eu não queria desistir de ti, mas não tive outra hipótese, tu nunca chegaste a ser minha… legalmente, pois eu era uma barriga de aluguer, foi caro, mas contratamos um advogado e um médico que falsificaram tudo.
Eu não sou quem pensou que sou, e fui abandonada, não pela minha mãe, mas sim pela minha tia. Uma nova realidade entrou na minha cabeça.
— Apesar de tudo… a tua mãe ficou muito magoada e ela não aguentava fingir mais. Por isso… uns dias antes de fazer dez anos a tua mãe disse que se ia embora e entregou os papéis de divórcio ao teu pai, ela não ficou com NADA do casamento, nem um único cêntimo.
Agora as coisas faziam mais sentido na minha cabeça, e para ser sincera não estava assim tão magoada. Eu acho que eu já estava tão partida que era impossível partir mais.
— Eu espero que me perdoes…
— Eu perdoo-te. — Disse baixinho, apesar de saber que não me podia ouvir, se eu morresse ela estaria perdoada.
— Se não quiseres acordar eu não te censuro. Eu quero que sejas feliz, e depois de tudo o que te aconteceu, depois de prestar atenção ao inferno em que viveste… tu nunca foste feliz. — Uma lágrima começou a ziguezaguear pela sua cara, mas rapidamente a enxugou — Se quiseres acordar eu vou estar aqui… não te vou abandonar… vou recompensar o tempo perdido, mas se quiseres descansar… realiza o teu desejo.
Ela levantou-se da cadeira, deu-me um beijo na bochecha e saiu.
Eu não queria mais viver, ela tinha razão. Eu iria ouvir tudo aquilo que os meus visitantes tivessem para dizer e iria desistir.
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