Dies Illa
37 Capítulo XXXV - Belladonna -
Notas iniciais
Naquela noite não foram dormir juntos, Rihito e Morgan. Rihito mal conseguia se deitar, sentia sua carne mole de tantos socos que levou, nunca experimentara tal nível de dor em toda sua vida. O peso excruciante de seu corpo sobre os hematomas era, no entanto, estranhamente reconfortante. Não tinha certeza do que achava daquilo e nem como poderia descrever a sensação. Era “agradável”? Impossível. Como alguém se divertiria sentindo dor no corpo inteiro daquela forma? Mas amassar suas feridas contra o colchão o arrepiava. A quem ele tentava enganar? Rihito dormiu, sorrindo cada vez que se virava na cama, apesar de toda a raiva que aqueles moleques malditos continuavam a lhe inspirar.
Morgan carregava um turbilhão de pensamentos e não conseguia descansar. Levantou-se e foi até a janela, a sua carne era um fardo que o incomodava a cada passo. Seus membros tremiam involuntariamente, seu tornozelo inchado era pedra que suas pernas arrastavam contra vontade.
“Tudo isso foi possível graças a você.”
A frase dita pela boca malévola ecoava no silêncio escuro do quarto. Quanta humilhação e dissabor que não conseguiu evitar. Sentia remorso por tudo que era sua culpa. O corte em sua sobrancelha trouxe ao louro algumas memórias daquela tarde que seu cérebro gentilmente já tentava apagar.
“Que droga!” pensava. Adam tinha razão, ele envolvera Rihito naquela imundície. Nem todos os chutes que levou eram suficientes para puni-lo. Quis gritar, mas não podia. Curvou os dedos como garras para poder arranhar o próprio rosto, logo se lembrou de seus olhos.
“Ah...”
Quanto desespero. A raiva que Morgan sentia por si mesmo crescia exponencialmente. Seus olhos marrons eram seu inimigo mais próximo no momento, com aquilo lembrava das coisas sujas que seu pai fizera com ele, vívidas lembranças que ele repetia com qualquer garoto mal encarado que encontrasse pela frente. Que ser abjeto.
Morgan cravou as unhas na área que circundava seus olhos. “Maldição! Eu queria te destruir! Mas... Mas!” Ele se controlava para não acordar Rihito, que dormia profundamente. “Se eu me cegar...”
Se eu me cegar, como verei o Rihito?
–-- ♪ ---
Rihito virou-se bruscamente em sua cama, sem intenção atirou o peso sobre o ombro esquerdo que o torturava, lançando-lhe uma dor aguda por toda extensão de seu braço. Abriu os olhos e, incomodado, rapidamente se ajeitou melhor. “Péssimo”, aquela posição já o havia cansado, queria mudar, mas seu ombro destruído não o permitia. Suspirou profundamente e espirrou. Era mais uma noite fria no internato... Mas oh, a janela estava aberta!
“Tch...” Rihito estalou a língua. “O Morgan esqueceu as janelas abertas?” e lentamente, com toda pele o machucando, levantou-se para fechá-las. Só que...
Olhou seu quarto sem ninguém.
– Morgan? Está no banheiro?
Silêncio.
Soltou as cortinas da mão e correu até lá.
Vazio.
Sua expressão tornou-se séria. Onde foi ele a esta hora? Devia ser aproximadamente 4:00 a.m. Tinha algo errado. Engoliu em seco. Por que ele saiu? Calculou que provavelmente o bando daquele Adam tivesse vindo buscá-lo para terminar o serviço da tarde, ou quem sabe... Mas quando foi isso? Não ouvira nada.
Não importa, devia procurar por ele imediatamente. Abriu a porta e saiu, inspirado por grande coragem. Com aqueles óculos ninguém enxergava melhor que ele. Sua dor parecia bem menor, todo o “coitadismo” se dissipara ante sua tarefa.
Rihito escaneou todos corredores dos dormitórios, buscou por todos banheiros externos, em todos andares, mas de nada adiantaria se ele estivesse nalgum dos quartos. Teria de bater de porta em porta e acordar todo mundo? Não lhe parecia eficiente. Ofegante, o menino olhou a grande porta que ia para o lado de fora se estendendo do chão a sua frente. Hesitou um pouco para abri-la, não podia fazer aquilo. E se não fosse nada? Seria punido por perturbar e desobedecer as regras, seus pais brigariam com ele e o diretor também. Mas... E se fosse algo mesmo?
– Ghhh... Ahhh! Dane-se! – Rihito empurrou as portas com toda força – Morgan!! Onde você foi?? Wah! – Um golpe de vento gélido o abateu, cortando suas feridas. Fechou os braços de imediato e tiritou de frio.
Não havia nada lá fora, apenas o puro negrume de sempre. Voltou desolado. Pensou até em pedir ajuda para o... Simon. Mas como faria isso? Simon também tinha sumido. Havia a possibilidade de Simon ter feito algo com o louro, não seria a primeira vez. Agh, não! Como pôde considerar isso? Que imbecil, Simon também tinha desaparecido há dias, por que ele não tinha se mobilizado a procurá-lo também? Algo de ruim poderia ter acontecido com ele. Lembrou das palavras do Adam que corroboravam suas especulações: sua besta-fera não está aqui para te salvar.
Começou a entrar em pânico. Devia avisar alguém? O Norman? Algum professor? Também não tinha noção de onde eles estavam àquela hora da madrugada, não via nenhum funcionário nos corredores.
– Huh! – Rihito engoliu o ar quando teve uma ideia.
Quem sabe a senhora da enfermaria pudesse ajudá-lo?
Exaurido, o garoto chegou e logo abriu a porta pedindo por ajuda, mas as luzes estavam apagadas.
– Tem alguém aqui? Meu amigo sumiu! Olá..?
Rihito suspirou. Já tinha pensado nisso antes, porém aquele internato se transformava em outra coisa durante a noite. Se sentia rejeitado por ele. Desamparado.
Entrou na enfermaria só para se assegurar e ela parecia estranhamente bagunçada. Tinha muitos objetos quebrados e esparramados lá dentro. Dentre todos, um chamou sua atenção.
– …! Morgan...?
–-- ♪ ---
Algumas horas mais tarde chegou o nissei, para encontrar o amigo inerte no chão. Seus olhos azuis arregalados examinavam a cena, pasmos. Não aparentava ter tido uma briga ali posto que nenhum móvel estava fora do lugar. O que estava acontecendo? Os vestígios indicavam que o louro tinha tomado todo conteúdo daquilo que estava jogado ao seu redor.
– Morgan!?
Tentou acudir o menino, levantá-lo nos braços mas era pesado demais. Deixou-o cair em seu colo. Tinha que chamar alguém, mas quem? Sentia-se zonzo, excessivamente nervoso. Será que ele estava morto?
– Droga, Morgan!!! Me responde! — Ele gritava, mas o garoto quieto estava muito mais pálido que de costume e com os lábios arroxeados, quase como os de Simon...
A aparência de cadáver ainda fresco o fazia pensar no bizarro vampiro. Seu coração acelerou. Algo mudou no modo como ele via Morgan até agora. “Inferno de mil demônios, preciso chamar alguém...” murmurou, histérico. Meteu-lhe a mão firme na cintura e agarrou-lhe a cabeça para beijá-lo. Seu nariz estava gelado, sua boca tinha o sabor amaríssimo dos remédios.
– Hmpf... Hnn... Ahh...
O gosto era horrível. Eletricidade percorria seu corpo enquanto ele acariciava o torso de Morgan. Durou alguns segundos antes dele retornar de suas sandices e sair berrando a plenos pulmões pelos corredores que seu amigo tinha morrido, "socorro, socorro".
–-- ♪ ---
O ciclo de auto-ódio, depreciação e escárnio do louro só viria a se completar quando já exausto e decepcionado, se arrastou até a enfermaria em segredo.
Já tinha considerado a hipótese por vezes, mas nunca conseguira reunir toda coragem necessária. Era risível. Nem para isso tinha coragem... Desta vez no entanto algo parecia diferente. Para ele certamente Rihito viria a odiá-lo quando chegasse à mesma conclusão que Adam. E que mundo era este, sem sua mãe e agora sem Rihito também? Que mundo era este!?
Entrou silenciosamente, sem bater a porta. Vasculhou a sala, tateou prateleiras de remédios.
“Isso tudo só foi possível graças a você.”
Recordou-se de uma pergunta que o nissei lhe fez certa vez e nunca o respondeu propriamente, se fosse o caso de seu pai descobrir tudo que andava lhe acontecendo.
“Ele me estupraria, Rihito... Só isso.” Sussurrou, o nariz queimando com o ímpeto de chorar.
Coletou diversos frascos e espalhou as pílulas pela bancada. Não interessava se não tinha água por perto. Engoliria então os comprimidos com xaropes. Que mundo era este?
– É um mundo no qual eu não quero viver.
A luz da lua invadia fria a enfermaria de Kensington Academy. Desta vez não havia hesitação. Morgan tomava todos os remédios que encontrava, um atrás do outro, vários de uma vez, como os homens que permitiu que lhe invadissem.
Morgan não era uma aberração de circo, não era a mulher barbada como dizia o homem que se tornou seu pai. Se fosse alguém no circo, seria a bailarina, equilibrista que com destreza e bravura se empina e caminha pela corda bamba lá no alto, acima de todos nós... Mas naquela noite (e naquela noite apenas) a bailarina veio ao chão.
Morgan já tossia e engasgava, a sensação de sufocamento o atacava como cão feroz a lhe mastigar o pescoço. Sua garganta fechava-se aos poucos, alertando-o da asfixia. A vista embaçada procurava ainda mais para se suicidar. Ao tentar beber mais um pouco, seu estômago se contorceu contra a violência que sofria e o obrigou a regurgitar parte do veneno. Tinha tanta náusea e a vertigem logo o derrubaria. Sim... Logo tudo estaria acabado.
– Des... culpe- -me – Confuso, ele pediu, sem saber para quem.
E o teto girava, até que desmaiou.
–-- ♪ ---
A voz do moreno ecoava pelo prédio. Logo pessoas vieram, incluindo Norman.
– O que houve, garoto? — Perguntaram-lhe.
– Meu amigo sumiu e quando fui procurar por ele, achei-o caído na enfermaria! Eu acho que... — Pausou por um instante — Acho que ele morreu! Por favor, por favor alguém me ajude!! — Verbalizar suas desconfianças quase fê-lo chorar.
Todos se alarmaram, por mais que tentassem ser discretos, fez-se uma grande comoção e vários alunos curiosos se aproximaram também. Puseram Morgan numa maca, iriam levá-lo ao hospital. Todos aqueles adultos tinham um olhar muito preocupado nos rostos e Rihito estava sendo afastado por eles. Queriam deixá-lo de fora como os outros alunos, mas ele forçou seu caminho e conseguiu pegar na mão de Morgan antes que ele fosse embora. Surpreendeu-se ao ver que tinha os olhos abertos, apesar de divagantes e sem foco, assim como os olhos de Simon.
Entre confusos sons metálicos, de rodas e de correias, de vozes estranhas e distantes, Morgan viu em algum lugar Rihito a segurar suas mãos e sorriu feliz, sentindo que o amado amigo havia lhe perdoado.
– V-- Vai ficar tudo bem!
– Saia de perto, garoto. Está atrapalhando!
E sem mais, Rihito foi empurrado e seu amigo levado por uma equipe de enfermeiros do colégio. Estava cabisbaixo, uma porção de alunos o encarava. Apenas os ignorou. No caminho de volta, ouviu alguns inspetores comentando como seria inconveniente se o pai do garoto suicida resolvesse processar o internato pelo que aconteceu. “Ele é filho do dono daquela indústria de chás, não é? Coitado do homem também, ter um filho tão novo fazendo isso... Natural que ele se revolte.”
Rihito teve muita raiva daquelas pessoas inúteis que falavam de Morgan sem saber de nada... Por que não estavam lá para impedir que ele fizesse aquilo em primeiro lugar? Onde estavam os malditos!?
Voltou ao seu quarto vazio com toda a dor mental, que era muito mais pesada e insuportável que a física, e chorou, pensando que sabia por que o menino tinha se equivocado e feito o que fez.
“Essa vida que Deus me concedeu,
essa vida que recebi de minha mãe.
Eu não a uso como os outros,
então a joguei fora,
junto do lixo da manhã.”
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