Dies Illa
28 Capítulo XXVI - De um Garoto Ocioso -
Notas iniciais
Com o sobrolho carregado, Rihito fitava o professor de biologia. A ânsia de que o período terminasse logo era arrebatadora. Tratava-se a aula de um assunto insuportável ao nosso garoto, que tinha sempre a gravata azul bem posta e a faixa de presidente de classe como um distintivo à manga direita: botânica.
Sua mente divagou, cansada do tópico e ele então pôs-se a pensar em quanto havia mudado desde seu ingresso em Kensington Academy. Não tinha feito muitas amizades nem conhecera muitos outros alunos. Fora os rapazes de sua classe e aqueles que importunavam, conhecia apenas Simon, Morgan e os professores. Definitivamente acomodara-se com o que havia adquirido e não explorou muito mais: já o bastava de companhia humana.
Aliás, agora que seu cérebro recordara-se do nome por razões pura e simplesmente de contabilização sistemática de quem era mais íntimo de seu dono, Rihito se perguntou o que acontecera com Morgan. Havia há muito deixado de ter uma conversa decente com o amigo, era como se um não tivesse mais tempo para o outro. Assumia que ultimamente passava quase o dia todo (e esporadicamente as noites também) junto de Simon, mas toda vez que se viam, não havia espaço para nada além de cumprimentos vazios e expressões artificiais. O que o ocupava tanto? Poderia Morgan estar bravo com o nissei por algum motivo?
Não se lembrava de tê-lo desfeiteado. Talvez o louro tivesse percebido o estreitamento de seu elo com o garoto das pintas e como consequência passara a evitá-lo... Mas então ele é muito imbecil porque isto não é motivo justificável para afastar-se de mim, concluiu.
Obviamente que aos gélidos olhos de Rihito não havia nada de mais, um nunca enxerga com a precisão necessária o panorama total fora de si mesmo. E como quem dissesse "basta desse infrutífero debate sobre tal menino com quem nem mais falo", sua atenção foi toda puxada, como por um buraco negro, para Simon que sentava próximo a ele assim que suas retinas pegaram o menino chupando os próprios dedos e usando-os depois de molhados para apagar com mais facilidade os macabros rabiscos que desenhava em sua mesa sempre que estava aborrecido. Algo ainda o dizia, porém, lá no fundo, que estava em débito com o amigo louro a quem tanto estimava.
"Ele tem hábitos tão bonitinhos", pensava Rihito, repleto de carinho pelo outro. Certas coisas sobre Simon só descobrira recentemente por terem caído na mesma sala e que portanto ainda o encantavam profundamente. Simon viu de soslaio o olhar interessado de sua presa e um demoninho travesso apertou seu coração. Deitou sua cabeça sobre a carteira, ainda chupando nos dedos, e lançando-lhe um olhar sensual, gesticulou para ele.
O dedo indicador primeiro apontou-lhe, depois para si mesmo, querendo transmitir o recado "você e eu". Logo em seguida, fechou este e o polegar num círculo exatamente igual ao símbolo de "ok" e finalizou inserindo e retirando o dedo esticado da outra mão algumas vezes, simbolizando "sexo".
Rihito corou de imediato, quis rir e bater no colega ao mesmo tempo para que cessasse as brincadeiras indecorosas. De fato, sentia-se mais agitado naquele momento mas não o bastante para que alguém reparasse. "Que droga, o Simon sempre me distraindo com suas idiotices... Não sei se isto é bom, talvez seria melhor se não fôssemos colegas de classe..."
Àquele pensamento pôs todo seu coração. Divertiam-se muito, os dois, mas a realidade de Rihito era diferente.
– R e a l i d a d e -
De repente a palavra lhe era estranha.
– Algum problema, Simon?
Uma voz grave e pausada se dirigiu a eles. Sim, a eles, pois o professor não desejava repreender ao presidente de sala em frente aos outros alunos, mas ambos sabiam bem que o garoto dos olhos azuis era sagaz o suficiente para entendê-lo. Não falara apenas com Simon.
Rihito recolheu-se de vergonha e passou o resto da aula a contemplar sua caneta de tinteiro.

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