Dies Illa
20 Capítulo XIX - Da Convivência -
Rihito estava atormentado ultimamente porque desde aquele dia em que encontrou-se com Simon na piscina, estes "lapsos" tornavam-se cada vez mais frequentes. Estava afundando.
Lentamente.
Silenciosamente.
Ele jamais diria as tolices que falou ao companheiro em condições normais. Ou poderia ser isso o que realmente desejava? Afastou-se desse pensamento.
Havia Morgan também,. o menino dos olhos azuis sabia que andava negligenciando-o para ficar com Simon, não estava sendo um bom amigo para o louro. Apesar dele ser insistente, infantil e obviamente sentir-se atraído por Rihito (o que espantosamente não o incomodava), ele gostava muito de Morgan. Fora ele quem o fizera sentir-se confortável no internato, o primeiro com quem fizera amizade. Ele sentia como se o louro estivesse sempre preocupado e perseguindo-o incansavelmente. Achou que deveria retratar-se com o amigo futuramente, de alguma forma.
–-- ♪ ---
Já era noite, próximo ao toque de recolher, quando o garoto dos óculos retornara ao seu quarto. Ao adentrá-lo, reparou que Morgan não estava lá e resolveu tomar um banho. Quando dele saiu, avistou o amigo enterrado nas cobertas e um livro borgonha atirado ao pé de sua cama. Algo angustiava-o, era evidente.
– O que houve, Morgan? — Inclinando-se para olhá-lo, seus negros cabelos emolduravam suas róseas bochechas.
O louro não resistia àqueles límpidos olhos turquesas que tanto lembravam os de sua mãe. Ele hesitou.
– Eu emprestei esse livro da biblioteca, mas já passaram-se quase duas semanas que eu supostamente já devia ter devolvido... Porque aqueles caras sumiram com ele esse tempo todo pra me prejudicar e agora há pouco alguém bateu na porta pra largá-lo aqui em frente — Ele deu uma pausa, esfregando os olhos — Mas essa porcaria está toda rabiscada e amassada! — O louro parecia exausto.
Rihito, pasmo, recolheu o livro do chão. De fato, seu estado era deplorável. Um dos rabiscos dizia "Morgan esteve aqui", "Assinado: uma bichinha rica" e "Uso dinheiro do meu pai pra pagar quem me coma."
– Que absurdo! — O moreno estava bravo — Vamos contar isso para o Sr. Norman amanhã mesmo!
Seu amigo pulou da cama, apavorado.
– Não! Isso não, por favor!
– Mas por que não?
Kensington Academy era sempre muito rígida quanto a disciplina de seus alunos, então roubos ou furtos jamais seriam tolerados. Nem era isso, porém, o que assustava o garoto mas sim a possível represália dos rapazes encrenqueiros que o perseguiam. Tinha medo. Rihito suspirou e pensou num plano. Aquele tomo era numerado como 487-E, o que significava que havia ao menos mais 4 livros iguais a ele.
– Se entrarmos lá de madrugada, podemos trocar umas etiquetas e jogar fora sua ficha de registro. Caso haja o 487-F ainda, será ideal, porque eu tenho uma ideia.
Morgan arregalou seus olhos escuros.
– A gente não pode fazer isso...!
– E você pretende fazer algo melhor por acaso?
Agora era Rihito quem ocupava a posição que originalmente fora de Simon de dar as cartas na invasão das dependências do colégio. Apesar de toda pose, o menino estava nervoso. O louro abaixou os olhos.
– Desculpa...
Rihito balançou a cabeça positivamente e eles partiram.
–-- ♪ ---
A biblioteca era fechada durante a noite, bem como suas janelas, no entanto para o alívio de ambos, as de seu banheiro não. Problema era que o banheiro da biblioteca e o dos funcionários ficavam lado a lado e os garotos deviam escolher o lugar correto de primeira.
– Minha mãe mandou-me escolher este daqui - Cantarolou Rihito baixinho, alternando para onde apontava seu dedo e logo em seguida convidou o amigo a segui-lo.
Enquanto entravam, Morgan questionou seus métodos e ainda o motivo dele não cantar até o final. "É que eu não sou teimoso", foi sua única resposta. Uma grande expectativa acumulou-se até descobrirem que estavam onde queriam. O louro acendeu uma vela a pedidos do outro. Correram até a prateleira do 487 para checar e constataram que existia até o tomo G. Rihito, afobado, trocou a etiqueta do G com a do F e o que era inicialmente o livro F passou a ser o E que Morgan havia emprestado.
– Agora, à parte mais difícil — O menino foi ao balcão onde guardavam-se as fichas de controle da grande biblioteca do internato para eliminar o registro do último livro.
O menino ajeitava seus redondos óculos, de mãos trêmulas, enquanto procurava no meio de toda papelada sob a luz da vela. Era desolador. Seu único alento era saber que as portas estavam trancadas. Morgan naquele momento o tinha em maior conta que qualquer magnata no mundo podia ter. De que importa se ele sofria injúrias e abusos? Ele tinha Rihito ao seu lado, seu único empecilho era Simon. Ele observava o amigo com olhos de volúpia misturados com carinho. O luar brilhante atravessava as altivas janelas e iluminava o garoto. Sua íris estava acinzentada.
– Encontrei! — Ele exclamou, abafando o ânimo da voz.
O olhar de Morgan saltava da chama da vela para o pescoço machucado do amigo, de seus olhos de grafite para seus delgados dedos, de seus finos lábios de volta para a chama.
– Será como se o 487-G nunca tivesse existido. Podem até desconfiar, mas não haverá como certificarem-se. — Ele parecia satisfeito — Mas eu duvido que com uma biblioteca tão grande alguém vá pensar nisso. — Rihito começara a guardar tudo de volta — Amanhã, faça uma cara bem convincente e invente que tinha perdido seu livro. Honestamente, Morgan... Eu odeio fazer isso...
Tudo aquilo ia contra seus princípios mais básicos. O louro deixou o castiçal de lado e abraçou Rihito pelas costas, logo pondo ambas mãos em sua virilha e deitando a cabeça em seu ombro. Estava excitado. O moreno libertou-se do abraço e o encarava, incrédulo.
– Vamos voltar, Morgan, o mais rápido possível.
Por quê? Ele estava sozinho ali, no escuro, só ele e seu melhor amigo que de tudo o defendia. Morgan o jogou sobre uma das longas mesas de estudo e postou-se entre suas pernas, fazendo Rihito desesperar-se com o barulho ocasionado.
– Você está louco!? — ele perguntou, sussurrando um grito estrangulado.
Seu amigo insistia na obscenidade.
– Me solta! — Rihito era o mais forte, porém.
Se empurraram e se bateram, mas Morgan sempre o virava de bruços no móvel e o cobria. Aquilo era insano, que diabos passava na mente desequilibrada dele para ter essa iniciativa?
– Sai de cima de mim! — Rihito deixava transparecer a raiva em sua voz.
– Me desculpa, Rihito! Eu não... Aguento mais!
O garoto dos óculos continuava de roupas, no entanto Morgan já havia abaixado até suas cuecas. Cravou-lhe as unhas nos ossos dos quadris e forçou-se contra sua carne, esfregando-se o máximo possível. Sentia muito calor e sua garganta estava seca, mas era impossível parar. O barulho de seus corpos se chocando contra a mesa fazia-o formigar. Rihito tinha os olhos fechados e o tempo todo acreditara estar escutando chover do lado de fora. A essência feminina do louro o entorpecia no ar morno que os envolvia.
Sua respiração ruidosa intercalava-se com curtos gritinhos que se intensificaram à media que Morgan se aproximara do orgasmo.
– Rihito, Rihito... Me desculpe..! Ah..! Me des..!! — Ele apertou-se contra o corpo do amigo num momento final, tremendo e liberando suas gotas de prazer nas calças de pijama de seu amigo.
Erguendo a coluna da mesa, de olhos frios Rihito perguntou, indiferente
– Você já terminou? — A chuva havia cessado.
Morgan afastou-se, vestindo-se timidamente. Uma amarga sensação de arrependimento tomou conta dele. Ao escaparem de volta pela janela, Rihito observou que o gramado estava seco, a chuva existira apenas em sua imaginação.
– Rihito, eu... Obrigado... Por tudo.
O menino dos olhos azuis ficou em silêncio. Nada mais foi dito entre eles.
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