Die alone
1 We all die after all
Notas iniciais
—Estou indo, Molly.
—Boa noite, Sr. Dawkins.
Desço as escadas com entusiasmo, as luzes vermelhas acesas me dão uma sensação de paixão e amor. Com um grande sorriso no rosto, ando quase saltitando até meu carro que brilha prateado às luzes do anoitecer.
O vento gelado bate no meu rosto e o meu corpo todo parece contagiado com a excitação do momento. Ligo para ele e quando cai na caixa postal não deixo que isso traga qualquer sensação negativa para essa noite, logo estou cantando Chandelier suficientemente alto para que o mundo ouça. Nada estragaria essa noite.
O celular diz que chego ao destino em quinze minutos e faltam cinco para o horário marcado. Passo pela ponte o mais rápido que posso, o que faz com que suas luzes em um rosa pálido se espalhem em linhas retas à minha vista. Essa seria nossa noite.
Minha mão esquerda sobe até o bolso do paletó e mais uma vez confere se a aliança continua ali. Apenas volto a me concentrar na direção quando sinto a pequena caixa segura entre meus dedos. E pensar que eu nunca imaginaria propor há alguns meses, quando tudo não passava de um namoro secreto e eu achava que a história se repetiria comigo. Dessa vez seria diferente, nós seríamos felizes pelo resto de nossas vidas.
Cinco minutos de atraso e ainda cinco minutos para chegar, o nervosismo começa a me controlar e eu piso ainda mais no acelerador. Meus ouvidos não conseguem se concentrar em nada e acabo caindo em um silêncio apreensivo até chegar à frente do restaurante. Só quando realmente entro e consigo pedir a reserva meu corpo começa a relaxar.
O atendente demora um pouco para achar meu nome. Enquanto isso, procuro por ele entre tantas mesas com gardênias brancas sobre as toalhas azuis tão escuras como o fundo do oceano. Não o vejo e receio que ele esteja mais atrasado que eu, o que não seria um problema para mim. Eu sempre fui o atrasado.
—Sr. Dawkins, é um prazer recebê-lo em nosso restaurante. O Sr. Shatner pediu para que lhe entregasse esse bilhete -meus dedos tremem enquanto pego a pequena folha de papel e a abro.
Caro Henry,
Primeiramente, peço perdão pela minha covardia. Eu nunca conseguiria fazer isso olhando nos seus olhos.
Não sei como dizer isso, mas estou te deixando.
Depois desses intensos oito meses, eu preciso viver minha vida. Não posso me esconder atrás do seu nome, das suas posses e da sua rotina conturbada. Não é isso que eu quero para a minha vida. Eu sei que eu deveria ter dito antes (porque eu sempre vi isso chegando), mas apesar do que possa achar, eu estava muito apaixonado. Você não acreditaria em como o amei durante esses meses, por isso só conseguia adiar cada vez mais esse momento. Porém, preciso seguir meus sonhos e às vezes é preciso deixar uns para que outros maiores aconteçam. Mesmo assim, você sempre será meu mais belo sonho.
Não consigo falar mais que isso sem cair em lágrimas que já não fazem sentido serem derramadas. Vou seguir meu caminho e deixar o seu que já parece ter sido completo há muito tempo. Espero muito que encontre alguém que consiga seguir esse caminho junto com você, desejarei sempre o melhor a você.
Perdão.
Sebastian
Meu corpo já não treme, nem parece nervoso. Não sinto nada. Apena sorrio agradecido para o atendente e sigo meu caminho para fora do restaurante. Minha visão não consegue focar em nada, então continuo vagando pelas ruas escuras. Nós seríamos felizes pelo resto de nossas vidas...
As luzes da cidade parecem alegóricas e distantes, deixando-me em uma escuridão contraditória. Continuo andando até minhas pernas doerem, não consigo sentir nada. Minhas mãos vão até minha cabeça e esfrego meu rosto com força, eu precisava acordar. Essa seria nossa noite...
—Com licença, senhor -uma voz estranha fala e eu viro para encarar um homem sentado ao chão com um caderno e pincel nas mãos, ao seu lado tintas e papéis se espalham sobre a grama. -Eu estou tentando pintar.
—Me desculpe -digo e vou para mais perto dele sem atrapalhar sua visão.
—Gostaria de sentar? A noite está com um clima muito agradável.
Solto uma risada sarcástico, porém aceito seu convite e me sento ao seu lado. Enquanto ele pinta, tenho algum tempo para observá-lo. Ele usa um gorro vermelho por onde mechas do seu cabelo loiro escapam em alguns pontos, seus olhos são pretos e o nariz ligeiramente grande. Também veste uma camisa amarela sob um casaco de couro alaranjado com uma calça jeans azul. Ele se destaca na noite escura.
—Por que está descalço? -pergunto, pois seus pés nus me intrigam.
—Meus dois pares de sapato molharam com a chuva de ontem e eu realmente queria pintar essa noite -ele diz sorrindo e vira para me olhar. -Nós não devemos deixar de fazer o que queremos por coisas tão bobas, não acha?
—Sim, acho que sim -confirmo sem pensar muito bem no porquê.
Ele volta a se concentrar na pintura e tento observar seus movimentos. Várias pinceladas de tons diferentes de verde foram espalhadas, mesmo que só uma árvore esteja na paisagem em que ele está se inspirando. Então ele começa a jogar ponto amarelos entre a vegetação, talvez as luzes da cidade no fundo.
—O que pretende mostrar com esse quadro?
—Antes da cidade, antes dessa praça, havia uma floresta aqui. Para mim, o passado é parte essencial de qualquer coisa que existe. Sabe, existem pessoas que gostam de esquecer o passado porque viveram más experiências, mas o passado nos transforma em quem somos agora. É o passado que nos define -tento entender suas palavras ignorando o fato de ele ser um estranho descalço no meio da cidade. Porém, nesse momento, eu realmente quero esquecer meu passado. Não quero que ele me defina. -Por que está chorando, senhor?
Sinto as lágrimas saindo e sei que não conseguirei controlá-las. Não demora muito até que eu esteja desmoronando deitado na grama. Por que ele faria algo assim? Ele disse que me amava, mas por que não tentou fazer com que desse certo? Eu estava disposto a tudo para ser feliz com ele. Eu era feliz com ele.
—Senhor? -o pintor coloca seu rosto logo acima do meu. Ele tirou o gorro e consigo ver seu cabelo loiro caindo até os ombros. -Você está bem?
—Eu estou deitado e chorando na grama de um parque depois de meia-noite com um pintor desconhecido -digo sério, mesmo assim ele sorri.
—Posso acompanhá-lo então? -ele pergunta e deita ao meu lado.
Mesmo a noite estando escura, poucas estrelas aparecem no céu. A lua crescente brilha logo acima e me pergunto o que eu deveria fazer da minha vida agora que não tenho mais ninguém.
—Quando eu era criança, minha mãe me contava uma história sobre a lua e as estrelas. Você gostaria de ouvir? -fico em silêncio e ele prossegue. -Ela dizia que há muito tempo, não havia lua, só estrelas. Certo dia, as estrelas foram ameaçadas por um lorde de um planeta maligno e talvez elas sumissem para sempre graças a ele. Elas então decidiram se unir e formar uma grande estrela que brilhasse o suficiente para ofuscar a escuridão do lorde e assim aconteceu. Elas criaram a lua, que até hoje protege o universo dos perigos escondidos na escuridão.
Não sei o que dizer, não sei por que ele estaria falando sobre isso. No entanto, sua voz consegue me acalmar e por um momento eu consigo pensar apenas na lua e nas estrelas, ignorando toda a dor agora evidente dentro de mim.
—Obrigado -falo, mas ele continua olhando para o céu.
—Hoje eu sei o que as estrelas e a lua são, porém, é mais gratificante e mágico pensar em uma história por trás de cada detalhe desse universo. Como se cada parte dele tivesse ganhado seu espaço aqui e não apenas surgido do nada -sua voz é tão sonhadora, é incomum achar alguém que fale abertamente sobre seu modo de pensar sem ter medo do que outros possam achar. -Eu sou muito estranho. Deve achar que eu sou maluco.
—Na verdade, é bom ouvir você falar.
—Fico feliz em ajudar, senhor.
—Meu nome é Henry. Todos me chamam de senhor porque uso um paletó, você não precisa ser um deles -digo um pouco amargurado, mesmo sabendo que nada disso era culpa desse estranho homem deitado ao meu lado.
—Na verdade, eu chamo todos de senhor como forma de educação. Minha mãe sempre me ensinou a ser educado e não é porque tenho quase trinta anos que isso precisa mudar -nesse momento nossos olhos se encontram e agora passamos a conversar um com o outro, não apenas falando alto como se qualquer um estivesse ouvindo.
—Você fala como se não vivesse no mundo real -pela primeira vez, ele parece atingido com alguma coisa que falo.
—Talvez eu não viva. Mas você acha que o mundo real é apenas o seu, Sr. Henry?
Ele levanta e some em algum lugar atrás de mim. Fico pensando em como responder, porém, mais uma vez fico em silêncio. Logo depois ouço seu pincel se arrastando sobre o papel mais uma vez.
—Qual o seu nome, pintor desconhecido?
Muito tempo parece se passar sem que ele responda e começo a achar que ele não falará mais nada. Contudo, ele volta a deitar do meu lado, dessa vez sem receio de ficar de frente para mim. Eu viro para encará-lo também.
—Alfred. Alf. Al. Fred. Como queira chamar, senhor -ele diz sorrindo, seus olhos se fecham toda vez que o faz, o que acho muito bonito. -Me desculpa por antes, sei que está passando por uma noite difícil.
—Eu que deveria me desculpar, mas preciso que você pare de falar senhor quando se dirige a mim -seu rosto está próximo o suficiente para que eu veja todos os seus detalhes, uma cicatriz próxima a orelha, um sinal abaixo do olho esquerdo e pequenos sinais de um bigode se formando.
—Tudo bem, Henry. Então, o que o trouxe até mim? -sua pergunta faz com que eu sinta uma sensação de queda, lembro do porquê e sei que minha expressão é de dor. Sebastian se foi.
—Nós passamos oito meses juntos. Eu estava feliz e ia propor um noivado, eu realmente ia me casar e mostrar para todos o homem que eu amava. No entanto, essa noite, ele disse por meio de um bilhete que essa não era a vida que ele queria, que ele sonhava. Eu fui um dos sonhos que ele precisou deixar para seguir em direção a outros maiores.
—Eu sinto muito -ele passa sua mão no meu rosto para enxugar minhas lágrimas e por algum motivo o deixo continuar. Ele me conforta. -Ele fez a coisa certa, não acha? Seguir seus sonhos, todos falam sobre isso. No entanto, são poucos os que têm coragem para fazê-lo. Mas quais são seus sonhos, Henry?
—Eu-eu não sei -soo angustiado.
—Estranho. Pelo que vejo, poderia conquistar os sonhos de grande parte das pessoas -ele acha isso muito engraçado. -Eu sonho com o dia que as minhas pinturas serão reconhecidas pelo mundo. Acho que gostaria de ser como Van Gogh, com o trabalho apenas famoso após a minha morte, porque isso as tornariam ainda mais emblemáticas e memoráveis. Sabe, Henry, muitas pessoas querem ser lembradas após a morte, mas eu não quero ser dessa forma. Não quero ser lembrado, desejo apenas que as minhas pinturas sejam, porque no momento em que as criei eu fiquei devendo isso a elas. Elas merecem suas próprias histórias, como a lua e as estrelas.
—Van Gogh era louco -digo e ele sorri. -Você é um ser muito peculiar, Alfred.
—De certa forma, você também, Henry.
Encaro a linha das escassas estrelas no céu. Enquanto me perco na infinidade do universo, sinto por um instante que nunca acharei mais ninguém. Ele não irá voltar, eu ficarei sozinho, irei morrer sozinho. Eu não quero morrer sozinho. Meu coração aperta e eu não consigo respirar. Eu não quero morrer sozinho.
—Eu não quero morrer sozinho -falo sem a pretensão de dizer isso em voz alta. O pânico na minha voz é notável e a minha garganta parece fechada enquanto falo.
—Você é um mistério, Henry. Você não vai morrer sozinho, as pessoas amam conhecer mistérios e desvendá-los.
—Eu não quero ser um mistério. Quero apenas ser eu mesmo.
—E você sabe quem é?
—Não,
—Eu também não.
—Quem é você?
—Não sei.
—Quando saberemos?
—Suponho que, completamente, nunca.
Respiro fundo. Conversar com ele me acalma, sua voz solene e tranquila me leva para lugares distantes do pânico e ansiedade dentro de mim.
—Por que está aqui essa noite?
—Porque eu queria pintar durante a noite.
—Eu não acredito -seu olhar vacila por um momento. Pela primeira vez, ele não parece confiante.
—Minha mãe morreu essa manhã, eu não posso vê-la. Passei a tarde chorando no meu apartamento, até agora não sei como parei. Quando a noite estava chegando, fui despejado do meu apartamento por falta de pagamento e eu não tinha aonde ir. Eu estava completamente sozinho. Andei por toda a parte com as minhas coisas, ou seja, apenas o que consegue ver aqui. Não tive tempo para procurar meus sapatos.
Sua voz é vacilante durante todo esse tempo, porém, não vejo uma lágrima saindo dos seus olhos. Quero consolá-lo, ajudá-lo, mas nada parece suficiente.
—Eu sinto muito.
—Eu também.
—Posso fazer alguma coisa para ajudar?
—Nesse momento já está fazendo o suficiente.
—Fico feliz em saber disso.
—Feliz.
—Feliz.
Nós dois sorrimos.
—Eu não estou sozinho -digo. É verdade, não estou. Por alguma razão, sinto-o do meu lado. Não apenas uma pessoa. Alfred está comigo.
—Por que dói tanto? Estar sozinho.
—Não fomos feitos para isso.
—Fomos feitos para alguma coisa?
—Não sei.
—Também não.
Mais dois sorrisos.
—Queria ficar preso nesse momento para sempre –ele diz.
—Eu não morreria sozinho.
—Eu teria alguém.
—A dor não passaria, passaria?
—Acho que não.
—Qual o sentido de viver, se nunca estamos verdadeiramente bem?
—Buscar o sentido da vida.
—Esse é o sentido?
—É o que dá sentido.
—Não faz sentido.
—Não faz.
Mais sorrisos.
—Vamos continuar conversando dessa forma a noite toda? -pergunto. Não nos movemos, apenas falamos.
—Eu espero que sim.
—E quando acabar?
—Eu não sei.
—Não sabemos.
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