Die Young
2 Paraíso escuro - II
Ao ouvir essas palavras Carmen se sentiu completamente sem chão, o que seria dela sem a única pessoa que a amava de verdade e que cuidava dela como ela precisava?
Sua mãe estava parada na porta, olhando-a como se o que tivesse acabado de dizer fosse a coisa mais normal do mundo, como se ela não estivesse nem com um pingo de tristeza por ter perdido o marido, o pai de sua filha, um homem maravilhoso apesar de todos os problemas. Tifanny era fria, disso Carmen sabia, mas até o momento não sabia que era tanto assim.
– Vá colocar uma roupa, não vou te levar de pijama.
Carmen permaneceu na cama em posição fetal, os olhos marejados olhando fixamente para a parede.
– Quero ir junto... -Carmen murmurou-
– Você vai junto, só coloque uma roupa, se não se enrolar vamos chegar a tempo!
– Não vou, não quero ver meu pai morto.
– Acabou de dizer que quer ir junto, qual é o seu problema!?
– O meu problema!? — A menina sentou na cama e aumentou o tom de voz, sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto pálido- Qual é o seu problema! Não quero sair com você, não quero chegar perto de você! Quero o meu pai de volta e isso eu não vou ter, então eu quero ir junto com ele, com certeza seria um alívio pra você.
– Você não tem o direito de falar uma coisa dessas! Onde enfiou a educação que te dei?
– A educação que me deu? A educação que meu pai me deu e que nunca mais vou usar com você porque não merece! Não vive dizendo que não me quer? Pronto, não vai mais me ter!
– Você acha que você é o que? Não tem pra onde ir, nem um orfanato pegaria você!
– Não vou mais ficar aqui nem por um segundo!
Carmen se levantou, tirou a camisola e colocou uma calça jeans e um casaco de frio vermelho. Tiffanny permanecia parada na porta, estava se segurando para não acabar com tudo aquilo, mas estava confusa, não sabia se deixava a única filha ir embora sem ninguém, sem nada, ou se pedia desculpa por todos os anos de abandono e cuidava dela. Enquanto não se decidia apenas ficou vendo a filha pegar uma mochila e colocar algumas roupas dentro, a última coisa que guardou antes de fechar foi um livro, o livro que tinha ganhado de aniversário.
– Boa noite mamãe.
Foi a última coisa que disse, foi a última coisa que Tiffanny ouviria de Carmen, tinha perdido outro filho e agora só restou ela, amargurada, sozinha.
Enquanto Carmen amarrava o cardaço do all star se despedia de Toby, não teria como levar o cachorro junto pra todo lugar, mas achou perigoso deixá-lo sozinho com a mãe, ela nunca gostou do animal, talvez fizesse mal para ele enquanto Carmen não estava por perto para protegê-lo então decidiu deixar ele no quintal da vizinha, com certeza a Sra. Margareth cuidaria bem dele.
Andou pelas ruas desertas, apenas o brilho da lua iluminando seu caminho, morava perto do mar mas a água era fria demais para as pessoas nadarem. Deixou a mochila na areia e deitou ali, ouvindo o som das ondas, lembrando de quando era menor e Eidan levava ela ali para brincar, sentava com ela naquele mesmo lugar e cantavam juntos...
"Eu te conheço, eu andei com você uma vez num sonho, eu te conheço..."
Agora estava ali, cantando sua música, amaria ele para sempre, isso não era errado, não podia ser como Tiffanny, não podia agir normalmente, nem esquecê-lo como ela parecia ter esquecido. Era órfã agora, sem pai, sem mãe, nunca teve mãe, mas sabia que se ele tivesse escolha, teria escolhido ficar, nunca deixaria ela, ou deixaria?
Fechou seus olhos e sem perceber adormeceu. Os sonhos deveriam ser um refúgio, um ótimo lugar para fugir da realidade aterrorizante, mas as vezes eles nos traem e acabam sendo piores do que o mundo cruel.
Em seu sonho estava com seu pai, estavam brincando com duas bonecas. Ele sempre brincava com ela. Mas ele foi perdendo a cor da pele aos poucos até ficar completamente branco, até os olhos clarearam e ficaram em um azul quase invisível, se levantou do chão onde estavam sentados e foi embora, sem dizer nada para Carmen, apenas se foi.
Ela acordou com um susto, a maré estava subindo, precisava sair dali mas não tinha pra onde ir, colocou sua mochila nas costas e voltou para a rua.
Enquanto andava na rua deserta pensava no que iria fazer, estava dividida entre a vontade de morrer e a vontade de viver apenas para saber o que aconteceria no futuro, apenas curiosidade. Pensava também em um lugar para ir, não tinha parentes, nem amigos...
Iggy! Com certeza ela dividiria o quarto com Carmen, ou talvez nem precisasse, a casa era tão grande que teria quartos de sobra, os pais da menina gostavam de Carmen e sempre tratavam ela muito bem quando ia lá uma vez ou outra, além do mais Iggy sempre dizia que queria ter uma irmã, que irmã seria melhor que sua melhor amiga?
Já era 00:00 quando ela chegou no portão da casa, tocou o interfone e esperou. Demorou uns 10 minutos para a própria mãe de Iggy, a sra. Jackie, abrir o portão com a expressão confusa olhando para Carmen.
– O que faz aqui essa hora? -Jackie perguntou fechando o portão- Seu pai te trouxe?
– Me ajude, por favor!
– O que aconteceu? Vamos para dentro, está gelada!
Sentada em uma poltrona na sala de estar Carmen tomava um chocolate quente, se sentindo um pouco melhor.
– Você quer passar a noite aqui?
– Na verdade, eu preciso de mais de uma noite.
– Aconteceu algo com sua casa?
– Aconteceu algo com minha família.
– O que houve?
– Não tenho mais uma família, simples assim.
– Seus pais brigaram com você e você decidiu fugir de casa, é isso? Ah, Carmen, eu era assim quando pequena, não se preocupe, tudo vai ficar be...
– Meu pai morreu. -Carmen interrompeu- Minha mãe não me quer mais. Nunca quis na verdade.
– Isso é verdade?
– Por que eu mentiria sobre isso?
– Por que veio para cá?
– Não tenho ninguém, só a Iggy e uma vizinha velha que logo vai morrer também, ou é isso ou é a rua, sabe-se lá o que posso virar, sei como é a vida, não sou boba, nem ingênua.
– Vou preparar o quarto de hospedes pra você e amanhã conversarei com meu marido e com Iggy sobre isso, mas eu tomei minha decisão e eles não iram interferir, eu vou deixar você ficar aqui e te tratarei como minha filha, como irmã de Iggy, então você terá que obedecer as ordens da casa, você está de acordo com isso?
– Sim senhora.
– Venha, vou te mostrar o seu quarto.
Carmen dormiu na cama de solteiro mais confortável que já viu na vida, o quarto era comum, paredes brancas, guarda-roupa no estilo antigo, uma penteadeira que ela achou linda e delicada, a janela dando vista para o gramado do grande quintal, a roupa de cama era azul com listras brancas. Ela adorava azul.
No dia seguinte ela acordou cedo, se arrumou antes de sair do quarto, não ia arriscar sair de pijama e cabelo desgranhado na casa dos outros. Desceu as escadas esfregando os olhos e se encaminhou para a cozinha seguindo o som das vozes conhecidas de Jackie e Iggy, só não reconheceu a voz masculina mas depois percebeu que só poderia ser do pai de Iggy, ele não era muito de falar, mas parecia ser muito bom para a família deles.
Parou na porta e todos se calaram e olharam para ela.
– Carl! -Iggy exclamou quebrando o silêncio- Como assim? Dormiu aqui ou chegou agora? Por que não me avisou?
– Filha, calma, deixa que a mamãe explica. -Jackie disse sorrindo para a filha e mexendo no cabelo enrolado como o de Iggy, as duas eram um exemplo de beleza negra- Aconteceu muitas coisas na vida da sua amiguinha e agora ela vai ser como sua irmã, vai passar o tempo que for preciso conosco e sei que vocês se dão bem, acho que não vai ser problema, não é?
– É sério isso? -Iggy disse sorrindo e abraçou a amiga- Que tudo! Te amo tanto amiga! Vai ser perfeito você ser minha irmã!
– Acho que vai... -Carmen respondeu sorrindo-
– Kanye, está tudo bem pra você? -Jackie perguntou para o marido que apenas observava a cena calado-
– Contanto que não faça arruaça, que seja como nós criamos Iggy, por mim tudo bem. Nada de som alto, nada de gritaria, nada de meninos no quarto e nada de chegar depois das 18:00 em casa.
– Claro senhor, respeitarei, já estão me ajudando muito, é o mínimo que poderei fazer, se quiserem eu faço o serviço de casa.
– Não! Jamais! Temos empregada, queremos que você se sinta em casa, como em uma família, em um lar!
E assim foi mesmo, os dias passavam e Carmen se recuperava aos poucos da perda do pai, não estava completamente bem, nunca estava, mas estava se esforçando ao máximo para ser feliz do jeito que podia. Era bom viver com a amiga, tirando os dias em que uma ou outra estava de mau-humor, aí nem Jackie conseguia fazer as duas ficarem juntas, mas normalmente era bom, cantavam e dançavam juntas, os estudos ficaram mais fáceis, uma consolava a outra no momento de tristeza e o melhor, uma não julgava a outra.
Essa é a melhor parte de ter uma melhor amiga, um irmão pode te julgar e apontar o dedo, uma amiga pode reprova suas atitudes mas conseguir ver um lado bom com um certo esforço. Um irmão pode te repreender, uma amiga pode te dar um conselho. Na maioria das vezes uma amiga mesmo achando errado o que você faz, quando você está feliz ela acaba não fazendo tanto "auê" e na maioria das vezes um irmão quer te colocar no caminho que ele acha é certo para ele de qualquer jeito.
Essa é a opinião de Carmen, diferente da de muitos por aí, mas cá entre nós, Carmen não viveu com o irmão, não sabia que é melhor do que muitos pensam.
Fale com o autor