Notas iniciais
Bem, minha gente, esse é o fim. Espero que vocês gostem. Quero agradecer muito à Rosenrot, à Maandy e à Garota dos Cardaços Brancos, que me apoiaram e incentivaram muito. Valeu!

— Eu não entendo! Por que eu tenho que morrer? — Perguntou Charles, já apavorado.

— Todos os humanos morrerão algum dia. Nós apenas contribuímos para isso. — Explicou o robô prateado. — Nossa raça é superior, em todos os aspectos. Força, inteligência, organização, tecnologia, social e politicamente. Nós viemos de uma terra distante com um único propósito: dominar seres inferiores e fazer alianças com superiores.

— Resumindo: humanos não servem para nada. No máximo, úteis como escravos. — Disse o robô dourado, com uma voz bem menos humana do que a de seu parceiro.

— Então poderei servi-los como escravo, certo? — Perguntou o homem com um pingo de esperança.

— Acho que podemos pensar no assunto. — Disse o dourado, trocando olhares com o seu parceiro rapidamente e já em menção de partir, continuou. — Sim, humano, você pode ser de grande utilidade para nós. Pode se tornar um bom escravo. Quero dizer... — Riu baixinho. — Isso se você sobreviver à sessão de tortura que preparamos especialmente para você...

E dizendo isso, a dupla partiu gargalhando, em direção à luz que ainda brilhava forte atrás deles. Charles começou a se debater incontrolavelmente. Por que tinha que sofrer? Por que tinha de ser assim? A estranha risada robótica soou pela floresta, mas talvez fosse só impressão dele. O fulgor, que antes o incomodava, já não existia mais. Eles haviam sumido por completo. O homem estava sozinho novamente.

Este é o fim, pensou. Segure a respiração e conte até dez, ordenou a si mesmo e assim o fez. Por mera coincidência ou por algum motivo, que ele desconhecia, assim que acabou a contagem, sentiu algo em seus pés, como se várias agulhas lhe espetassem. A sessão de tortura havia começado.

A dor nos pés se manteve por mais dois ou três minutos e estava bem suportável, até que parou por completo. Mesmo assim, ele não se sentia nem um pouco aliviado. Sabia que coisas piores estavam por vir. Bem piores. Ainda distraído com seus pensamentos, sentiu uma pontada nas costas, que começou quase na altura da cintura e foi subindo, lenta e dolorosamente. Quando chegou à altura dos ombros, se tornou insuportável. Era como se seus ossos estivessem se quebrando em vários pontos, várias vezes.

Ele gritou, ou melhor, berrou de dor. Aquilo era extremamente desagradável. Talvez, se pudesse voltar no passado e mudar suas escolhas, optaria por morrer logo, apesar de suspeitar que a execução também fosse lenta e dolorosa. Ele ainda não entendia o que acontecera, mas pôde perceber a letalidade daqueles robôs. Como podia seres vindos de lugares tão distantes, separados por mil milhas e pólos, se aventurar por ali só para prejudicá-lo? Como aquela floresta estava obscura! Lugar onde mundos se colidiam e os dias eram escuros. Como podia?

Mais uma vez, Charles se viu preso em pensamentos e não esperava por mais uma dor pungente. Mas dessa vez, a sensação era diferente: partindo de sua garganta e descendo por todo peitoral, o homem teve a certeza de se tratar de um choque. Podia sentir a eletricidade correr pelos seus ossos. De qualquer forma, não era pior do que a anterior. Era desconfortável, sem dúvida, mas ainda sim, suportável.

Eu agüentarei firme, até o fim. Vou encarar a dor e provar a eles quem eu sou. E como escravo, irei aonde eles forem, verei o que eles vêem. Sei que nunca serei eu mesmo lá, sem a segurança de meu planeta. Mas farei de tudo para saber de cada detalhe de suas vidas até ser forte o suficiente para derrotá-los.

E pela última vez, distraído, foi pego pela dor e pelo desespero. Uma dor de cabeça, que lhe parecia fatal, o fez contrair as pálpebras como se quisesse, desesperadamente, sair daquele corpo. Um aperto no coração que acabou por contrair todos os outros músculos de seu corpo. Ele não ia resistir, não era forte o suficiente e sabia disso. As dores e contrações só aumentavam e aumentavam, atingindo seu auge: um choque alucinante que parecia invadir suas veias, ossos, músculos e nervos. Quando se deu conta, o mundo estava se fechando, tudo estava ficando escuro. Os barulhos da floresta sumindo gradativamente, a dor se irradiando e aumentando. Como podiam ser tão cruéis? Adeus, casa. Adeus, Terra. Adeus, vida. Ele não podia continuar resistindo e nem queria. Mas sua vontade de viver para acabar com aquela tragédia e impedir que mais pessoas sofressem como ele o fez resistir e dar um último grito fulminante. Até que...

Parou. Ele estava livre. Livre! A dor acabara. Ele não sentia mais nada. E quando parou para perceber, ele realmente não sentia mais nada. Nem a dor, nem seu corpo e nem o ambiente ao seu redor. Toda a tortura o fizera desmaiar, o que não o surpreendia. Agora ele estava no seu subconsciente, sozinho, mas seguro. Quer dizer, apenas seguro, porque agora podia notar que suas lembranças invadiam sua mente.

Um garoto de cabelos escuros e lisos, de olhos felizes e de roupas simples. Muito pequeno para o carrinho que acabara de ganhar. Não de controle remoto, sua família não bancaria isso. Com mais três irmãos, os presentes deviam ser todos iguais e baratos. Não que ele se sentisse triste por isso. Ansioso talvez, sempre esperando o próximo aniversário ou Natal.

Rindo e esparramando seus brinquedos, os velhos e o novo, sobre o chão da sala, um barulho chamou sua atenção. A porta da casa estava aberta, permitindo que o garoto visse a pequena varanda, o cachorro magrelo no quintal da frente e as imensas nuvens passando inocentemente. O barulho se repetiu, como uma marreta batendo contra a parede. Mas não de sua casa e sim dos céus. Era muito novo e por isso, não entendia certas coisas, então apenas deixou que sua imaginação “criasse” uma parede no céu. Uma parede que estava prestes a desabar. O som, cada vez mais alto, se transformou em uma luz, forte o suficiente para ofuscar a luz do sol. Por um momento, pensou que todas as nuvens haviam sumido e tudo o que restara era o azul, a luz e o barulho. De repente, algo saiu por de trás da luz, que foi sumindo gradativamente a partir de então. O objeto circular e acinzentado que se aproximava parecia mirar diretamente em Charles. O menino, curioso e, de certa forma, com medo, pôs-se a perguntar:

—Mamãe! Mamãe! O que é aquele treco redondo no céu?

— Aonde, meu filho?

— Lá, mamãe, no céu!

— Só consigo ver as nuvens, meu querido.

— Mas ele está chegando, mamãe!

— Meu filho, não há nada o que temer. O céu está limpo e bonito. Não há nada de errado lá.

— Mas eu estou vendo, mamãe! — E logo, como parecia inevitável, o choro, em meio ao desespero, que foi substituído por conforto rapidamente, ao afundar cada vez mais nos braços de sua mãe.

Por um momento, aquela lembrança parecia até engraçada. Charles já passara por tantas loucuras em sua vida. O mais estranho era o fato de que só ele percebia, via e vivia essas experiências. Quando pequeno, era sempre excluído e taxado como louco e esquisito. As pessoas nunca o entendiam. Tentou fazer terapia com uma psicóloga super importante da cidade, mas de nada adiantou. De qualquer forma, ele não podia pleitear, a sociedade estava certa: ele era mesmo um pouco estranho.

Quando percebeu, estava de olhos abertos, encarando o céu. Tudo o que queria era ir para casa, mas, agora, depois de tudo, ficar ali parecia bem reconfortante. Ele até que estava feliz. Mas era hora de seguir em frente. Por um momento, lembrou-se do acordo que fez com os robôs. Ao final da tortura, ele deveria ser transferido para o lugar onde trabalharia como escravo, certo? Bom, pelo menos, é isso que ele pensava. Talvez eles ainda estivessem ajustando algumas coisas antes de receber o humano. Mas Charles se sentia tão livre. Poderia correr para qualquer lado e fugir...

Sentou-se e olhou ao redor. Nada mudara na floresta. Aos poucos, se levantou e continuou a observar o ambiente. De repente, um som. Só podia ser os robôs. Seu coração começou a bater mais forte, novamente. Sim, ele fizera um acordo. Mas, ainda assim, ele queria sua liberdade. Era seu direito! Talvez não nas leis robóticas. À medida que o som foi ficando mais alto, o homem pôde perceber que se tratava de passos. Mas, em oposição ao que ocorrera antes, não havia aquela luz forte. Será que aquilo era só parte da apresentação, e agora os robôs não se importavam mais com isso?

De repente, dois homens surgiram por trás de uma árvore. Suas vestimentas eram todas brancas. Um deles portava uma lanterna, o que não era realmente necessário. Suas testas estavam franzidas, até que viram Charles e suas feições mudaram para a de surpresa. Pareciam estar procurando por ele.

— Charles! Finalmente te encontramos! — Disse um dos homens. — Seu danadinho! Não tomou a medicação e fugiu, né? Deu um baita susto na gente. Todo mundo da clínica estava te procurando! Mas agora, precisamos voltar. Você vai precisar de uma passada na enfermagem e depois, seu psiquiatra já está te aguardando.

Seus olhos arregalados observaram quando os dois homens fizeram menção de pegá-lo pelo braço. Ele recuou um pouco, ainda encarando-os, com a cara assustada. A dupla observava-o, aguardando suas próximas palavras ou movimentos. Charles começou a correr, fugindo dos dois. Depois de ter pegado certa distância, virou para trás e gritou:

— Vocês nunca vão me pegar!

Notas finais
E então, gostaram? Deixem comentários e bom, se tiver um bom retorno, quem sabe eu não faço uma segunda temporada? [risada maligna]... Trilha sonora: Adele - Skyfall David Guetta - Memories (feat. Kid Cudi) Gwen Stefani - The Sweet Escape
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!